03 julho, 2007

DO PÓ VIESTE, À PRIVADA RETORNARÁS (2)


A principal vantagem do lugar aonde estávamos indo é que ele fica próximo aqui de casa. Principalmente se você pretende ir de helicóptero.

Mas, como nossa capacidade de transporte por via aérea ultimamente tem sido a mesma da Varig, fomos a pé mesmo, deixando o projeto de vôo restrito ao cheque com que pretendíamos pagar a conta do restaurante.

Durante o pequeno percurso, que um beduíno faria sem o menor esforço, aproveitei para escutar um som. No caso, o da voz da minha mulher, que vinha reclamando — imaginem vocês — só porque estava fazendo um diluviozinho de nada e nós não tínhamos guarda-chuva.

— Você precisa se integrar mais à natureza, querida. Atchim! Nós estamos na era de aquário. Atchim!
— E, pelo visto, o aquário vai ficar cheio rapidinho. Bem que eu disse pra você trazer a sombrinha.
— Bobagem. Atchim! Uma chuvinha dessas não vai... atchim!... fazer mal a ninguém.
— Não, não. Não era pela chuva. Era pra bater com ela na sua cabeça mesmo. Que tal se a gente voltar pra casa, hein? Tem miojo, a gente faz e...
— De jeito nenhum! Atchim! Eu não disse que ia te levar pra comer fora? Agora a gente vai, nem que seja a última cois... aaa... coisa que... aaaaaaa... coisa que eu.... aaaaaaa... ATCHIIIIIIM!
— Putz, você encatarrou o meu cabelo todo!
— Sai com água, amor. Viu como a chuva tem sua serventia?

Após um curto e agradável passeio de cinqüenta minutos, durante o qual pudemos apreciar as belezas naturais da cidade de São Paulo, como os cocôs de cachorro nas calçadas, chegamos finalmente ao nosso cobiçado destino. Eu, ela e minha asma alérgica. Sendo que, das duas, a asma alérgica era a que tinha menor probabilidade de me matar.

— Já sabem o que vão pedir? — perguntou o garçom, tão simpático quanto alguém que houvesse perdido um familiar recentemente.
— Uma toalha — respondeu minha mulher
— Ela tá brincando... Ha! ha! É muito divertida! Uma Coca, por enquanto, me faça o favor.
— Dessa década, de preferência.
— Ha! ha! Não é uma graça? Hu! hu! Assim você me mata, mulher...

Quando o homem se afastou, me virei para minha consorte, tentando levantar seu ânimo:

— Viu como demos sorte? Pegamos logo o garçom que tem mais dentes!
Ela não me olhou. Então aproveitei para lançar os olhos pelo agradável e singelo ambiente.

A casa tem uma decoração moderna — no sentido de contemporânea da Semana de Arte de 22. Só que não está, evidentemente, tão bem-conservada quanto o corpo de Mário de Andrade. Então, aqui e ali, vê-se uma ou outra rachadura nas paredes, alguma teia de aranha no teto, cerâmicas quebradas no chão...

Enfim, coisas naturais num estabelecimento que passou por duas grandes guerras — sobretudo se, nelas, tivesse sido alvo de bombardeios. Mas nada que cause muito mal-estar. Afinal, a ornamentação não poderia competir com a comida que eles servem.


Satisfeito, após minha inspeção, tornei novamente para a minha amada que, dessa vez, colocou em mim olhos parecidos com os do Conde de Monte Cristo. Não pela beleza, obviamente.
E assim, nesse clima cordial, fizemos o pedido.

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