02 julho, 2007

DO PÓ VIESTE, À PRIVADA RETORNARÁS (1)


Costumo aproveitar os finais de semana para testar meus limites e enfrentar experiências radicais, entrar em contato com sentimentos novos, que possam ampliar meus horizontes de maneira significativa, como coçar o saco com a unha do dedo mínimo ou passar vinte e quatro horas deitado numa cama sem mover um músculo, por exemplo.

Durante esse período, tendo a me aplicar tanto em atividades que me afastem do quarto quanto um deputado em seguir preceitos morais ou o Caetano Veloso em dizer coisas congruentes e sensatas. Enfim, nessas ocasiões, o máximo que se pode esperar de mim é que faça fotossíntese.

No entanto, como minha pele, muito sensível, costuma ficar relativamente empolada ao contato da madeira do rolo de massa, tenho por hábito não contrariar os desejos da minha mulher, sobretudo na semana pré-menstrual — ocasião em que ela fica tão meiga e afável quanto o Chuck Norris e menos predisposta à paz que um presidente americano.

E, nesse domingo, ela resolveu que queria almoçar fora. Bom, se era para comer fora, acho que poderíamos muito bem ter levado a mesa até o hall do elevador. Porém, como admiro muito Charles Dickens, mas não ao ponto de dizer isso a ela e deixar minha vida mais miserável que a de Oliver Twist, concordei.

Em tese, não tenho nada contra comer em restaurantes, a não ser o fato de que, neles, é preciso pagar para alimentar-se. E como aqui em casa a palavra “dinheiro” nos remete vagamente à efígie do Barão do Rio Branco numa nota de mil cruzeiros, resolvi sabiamente que poderíamos almoçar num restaurante conhecido — simples, mas muito agradável, onde a refeição é boa, custa pouco e as baratas são todas limpinhas.

— Aquela bodega? — perguntou ela, algo exaltada, quando dei a idéia. — Aquilo ali já foi até fechado pela Vigilância Sanitária!
— Fechado, não! — indignei-me. — Só multado. E tudo por uma calúnia, você não ouviu o dono dizer? Ele provou por A mais B que aquela cueca que encontraram na sopa não era dele!
— Não, não. Vamos em outro lugar. Você não viu a picanha que eles servem? Picanha paraguaia, só se for!
— Que preconceito! O Paraguai também faz parte do Mercosul, filha. E depois, não vi nada de errado com a picanha. Tudo bem, ela tinha muito osso, mas você não gosta tanto de costela?
— Gosto. Sobretudo quando ela é de gado.
— Ah, quanto provincianismo, meu Deus! Será que você não sabe que na Coréia eles também comem cachorro?
— Mas, na Coréia, certamente eles tiram o pêlo do bicho antes de assar, né?
— Dai-me paciência! Só porque encontrou cinco ou seis fios de cabelo na carne uma vez na vida... Puf!

Após alguma discussão, conduzida brilhantemente por mim, que elenquei as principais razões por que não se deveria comer bem num lugar caro quando se podia perfeitamente pagar muito menos e comer muito pior, seguimos meu conselho e nos pusemos a caminho.

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