09 julho, 2007

ARTES MARCIAIS


Pouco culto que sou, sempre tive dificuldade para entender como os lutadores de artes marciais conseguem soltar aqueles gritinhos antes dos golpes.

A meditação, outra das seculares técnicas orientais, não me aflige tanto. Por experiência própria, tenho certeza de que ela surgiu no dia em que um asiático se deparou pela primeira vez com uma pia lotada de pratos sujos e engordurados. E ficou ali, meia hora naquela dúvida atroz, pensando se atirava tudo pela janela ou se, mais paciente, esperava a primeira barata surgir para tomar alguma atitude.

Mas o taekwodo (de nome tão sugestivo) e seus congêneres me intrigavam. Os golpes em si, imagino que sejam a parte mais fácil do treinamento. Já os gritinhos devem obedecer a um ritual mais complexo, exigindo do epígono uma mente treinada, além de certa propensão a se fantasiar de Carmem Miranda e ir ao Gala Gay no carnaval.

O Mestre do Grito, um profissional destacado especialmente para aquele fundamento e que passou anos no Brasil estudando o comportamento de Heloísa Helena, destaca alguns catecúmenos, enfileira-os e, a troco de dentadas e dedadas em lugares recônditos da anatomia, vai testando sua capacidade de gritar.

— Mais fino! Tá parecendo um homem! — ralha o mestre, quando um discípulo menos sensível se mostra incapaz de extrair de uma mordida no mamilo um brado correspondente.
Ou ainda, sarcástico: — Isso aqui não é arquibancada de futebol, meu caro!

Então os alunos riem e cantam em coro, para vergonha do desastrado neófito: “Homenzinho! Homenzinho!” Tudo isso, evidentemente, com uma trilha de fundo, tocando “Então é Natal, a festa cristã” de Simone, ou qualquer outra coisa que desperte um íntimo desejo de berrar.

Assim pensava eu, em minha insofrida ignorância. Até que ontem tive uma daquelas revelações que fariam Paulo cair do cavalo antes mesmo de ouvir a voz do Senhor.

Eis que eu e minha consorte nos divertíamos com um daqueles singelos jogos de amantes, aquelas lutas fingidas, de golpes que fazem apenas cócegas e que servem para estreitar as relações, reafirmar o amor mútuo, além de tornar a carreira médica cada dia mais lucrativa.

Explico-me. A certa altura, como a brincadeira ficasse mais e mais engraçada, entre uma risada e outra, e certamente com a intenção de me incitar à gargalhada, ela deslocou seu lindo pé e o encaixou entre minhas coxas, acertando um chute certeiro no meu aparelho reprodutor.

Olhando para o céu estrelado, apesar de ser meio-dia, tombei sobre os joelhos com o rosto crispado e uma nítida sensação de que o efeito estufa piorara sensivelmente no último segundo, restando apenas gás carbônico para se respirar.

No entanto, enquanto me contorcia no chão como Hécuba ao saber da morte dos seus e fazia caretas mais horrendas que as da Rogéria, eis que ouço sair de mim um gritinho fino e prolongado que faria Jackie Chan se sentir o Cid Moreira.

E digo mais: àquela altura seria capaz de lutar contra filas inteiras de samurais, ninjas, figurantes de Matrix e quantos mais se predispusessem a me enfrentar numa luta implacável, tal era a ira que se apossou da minha pessoa.

Porém, como visse à minha frente apenas a minha mulher, refreei meus desejos sanguinários, uma vez que não entraria numa luta desigual, já sabendo de antemão que eu não teria a menor chance. Sendo assim, consegui me controlar.
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Mais calmo, ainda que manco, me dirigi à cozinha. Ali, diante de uma pilha de pratos sujos, celebrei minha descoberta. E, claro, aproveitei para iniciar minha meditação.

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