31 julho, 2007

NA PRÉ-HISTÓRIA



— Bom, Ari, eu tô aqui com o Robcleiton, ponta-de-lança da equipe dos Sapiens. E aí Robcleiton, o que é que você espera do embate de logo mais?
— Bem, a equipe tá bem armada e o professor passou as instrução e se o espírito do raio e das árvore quiser, a gente vamos conseguir um bom resultado.
— Vocês tão preparados para se defender dos avanços do time adversário?
— Com certeza. A gente sabemos que temos de respeitar o time dos Neandertais e que ele é um time de tradição e eles têm uma grande força muscular e o cérebro bastante desenvolvido, mas a gente contamos com o trabalho de equipe. E principalmente a comunicação, eu acho, vai fazer a diferença. E se a gente souber se comunicar bem, a gente podemos surpreender o adversário. E isso o professor treinou bem com a gente.
— Você acha que a partida vai ser dura?
— Com certeza. É uma decisão muito importante e quem perder cai fora da disputa e o adversário vem com tudo pra tentar derrotar nós, né? Mas, como eu disse, a equipe tá coesa e imbuída. E se o espírito do trovão nos ajudar, a vitória vai ser nossa.
— Muito obrigado, Robcleiton. Vai daí, Juarez!
— Ok, Aílton, nós estamos aqui com o craque do time dos Neandertais, Wanderclei, que parece estar bastante motivado para a disputa. E aí, Wander, vocês ganham esse jogo ou não?
— Uh-hu! Hu-ha-ha!
— É isso aí, meus amigos. Ele é só euforia. Qual a tática que vocês vão usar nesse certame, Wander? Será que você pode adiantar para os nosso ouvintes? Wander? Wan... Bem, ele agora come um pouco de grama, faz suas necessidades fisiológicas ali no canto... Vamos respeitar o momento. Isso. E então, Wander? Vocês contam com a superioridade física e parecem ter maior capacidade de raciocínio. Os Sapiens representam uma ameaça?
— Ahu-hu-ha-ha! Hu-ah-hu!
— Entendo. Mas você poderia deixar mais clara pro nosso ouvinte essa distinção entre a especulação ontológica e a constatação de caráter heurístico?
— Uh-uh-haaaaaaaaa! Uhhhha!
— Calma, rapaz! Ele ficou um pouco nervoso. Ha, ha! É a tensão normal de uma decisão. Wander, eu sei, eu sei que isso envolve uma discussão epistemológica e até axiológica, em certo sentido, mas eticamente falando, você não acha que...
— Uhhhahaaaahhaa!!! Uhhhhaaaahhhaaaahaah!!!
— Não! Larga! Ai! Deixa o meu microf...
— Bem, ouvimos aí o Juarez entrevistando o Wanderclei, o Aílton entrevistando o Robcleiton. Está tudo preparado para o início da partida. Qual a sua expectativa para a peleja, Fernando?
— Boa tarde, Ari, boa tarde amigos. Olha, eu acho que a disputa será acirrada. Perdê-la significa dar adeus ao campeonato para sempre. Então, é a tal coisa: a sorte está lançada, como dirá César.
— Por tudo o que apresentaram, você acha que esses dois são realmente os dois melhores times do campeonato?
— Sem dúvida. Dessa disputa sairá a base pra seleção. É natural.
— Muito bem, senhoras e senhores, tem início a partida aguardada há milênios. Os Sapiens partem para o ataque com tudo. Vai Robcleiton pela ponta... É derrubado por Wanderclei! Falta! O Wanderclei usou um braço que arrancou de alguém pra derrubar o jogador adversário. Não pode! Foi isso ou não foi, Juarez? O que é que só você viu, Juarez? Juarez? Ué, onde será que o Juarez se meteu?


(Esta crônica vai dedicada ao meu amigo Artur, cujo único defeito é torcer pelo Santa Cruz. Isso e uma certa tendência a... Ah, deixa pra lá.)

30 julho, 2007

A JUSTA INDIGNAÇÃO DE NOSSOS PATRIOTAS


Atacado por uma leve crise de afiloponia, doença congênita de que padeço há exatos 32 anos, tirei o dia para descansar e, na falta de alguém que me contasse uma mentira, decidi eu mesmo ler os jornais.

Nisso, acabei deparando com a notícia de uma americana que, vinda ao Pan, descreveu o Rio em seu blog da seguinte maneira: "A cidade inteira é toda de favelas. Os rios correm negros. Há vacas mortas ao longo das margens. Porcos e outros animais bebem a água suja".

Ao lerem essas palavras, inúmeros brasileiros deixaram comentários mais desagradáveis que os do Galvão Bueno na página da atleta, que acabou desativando-a e pedindo desculpas pelo incidente. No que fez muitíssimo bem, digo eu.

Ora, por acaso, vocês conseguem imaginar um cidadão brasileiro viajando aos Estados Unidos e propagando na volta, irresponsavelmente, que eles são o país mais rico do mundo, que lá a maioria da população é branca ou, muito pior, que há uma Disney na Flórida?

Da mesma maneira, tentem figurar um turista retornando da Alemanha e tendo a procacidade de escrever que naquele país o analfabetismo é baixíssimo, as ruas são todas limpas ou, enfim, que lá faz muito frio e até, às vezes, neva. Absolutamente impensável.

Quem deu, portanto, a essa atleta o direito de vir aqui ao nosso país, que tão bem a acolheu — para se ter uma idéia, a moça não foi sequer seqüestrada nem levou um único tiro de fuzil, numa clara demonstração de nossa boa vontade — quem deu a ela, dizia eu, o direito de sair difundindo inverdades sobre a nossa pátria?

Para começo de conversa, dizer que no Rio de Janeiro só há favelas é de uma leviandade formidolosa. As pessoas instruídas sabem perfeitamente que no máximo noventa por cento da cidade são tomados por moradias desse tipo.

Quanto à afirmação de que os rios são poluídos, só nos resta rir, porque apenas um tolo pode desconhecer o fato de que as nascentes brasileiras, desde finais do século passado, não contêm uma única partícula de oxigênio, tendo sido o nosso o primeiro país no mundo a eliminar essa substância tóxica de suas águas.

E no que diz respeito a animais nas ruas, mortos ou não, que queria ela? Acaso em seu país os hambúrgueres são feitos com vacas vivas? E que espécie de criatura é essa, sem coração, de sentimento tão monstruoso e anti-ecológico que não consegue viver em harmonia com bois, porcos, ratos, baratas e outros animais dóceis e inofensivos?

Diante de tal alogia, nada restava aos brasileiros de bem, senão insultar devidamente a estadunidense. Afinal, é esse tipo de defesa patriótica que vem mantendo a nossa nação há tantos anos na senda do progresso irrefreável.

Ao contrário dos ignorantes que reivindicam melhorias na educação, na saúde ou na segurança pública, passando a falsa impressão de que há algo errado no país, esses internautas cervais preferiram evitar escapismos e lutar de frente contra quem de fato ameaça nosso bem-estar, como os estrangeiros, o ET de Varginha ou mesmo o Pé Grande.

Deixo aqui, portanto, registrada a minha solidariedade a eles. E muitos outros incentivos ainda daria, se não tivesse que ir, pois começou a chover e se não me apressar encontro minha rua alagada, às escuras, e posso acabar pisando num buraco ou caco de vidro, já que o lixo não vem sendo recolhido ultimamente.

Até mais, patriotas. E parabéns.

27 julho, 2007

PEQUENOS INCIDENTES OCORRIDOS NA PALESTINA HÁ CERCA DE DOIS MIL ANOS (3)


— E-e-eu que-que-que-rrrria q-q-que o... o... se-se-senho-nho-nhor me cu-cu-cu...
— Cuspisse?
— Nã-nã-ã-ão.
— Saco. O quê?
— Q-q-que... o se-se-se-nho-nhor me cu-cu-cu...
— Cutucasse?
— Nã-nã-ã-ão.
— Haja paciência. Desembucha, então, vamos.
— Cu-cu-cu... Que-q-que... Cu-c... que...
— Putz! Peraí, peraí. Pronto. Pode falar agora.
— Eu queria que o senhor me curasse da gagueira, Senhor.

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— Onde ela tá?
— Ela saiu, Senhor.
— Saiu?
— Uhm-hum.
— Mas ela não tava doente, com febre, à beira da morte?
— Tava. Quer dizer... Ela... melhorou.
— Melhorou assim, do nada?
— Uhm-hum.
— Pedro, Pedro, diz logo onde tá tua sogra, Pedro!

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— Muito aguado.
— E agora?
— Uhmmm. Ainda um pouco aguado.
— Prove agora.
— Perfeito! Agora sim, excelente vinho.
— Ótimo. Satisfeita?
— Será que não dá pra transformar essas pedras em queijo pra acompanhar?
— Pô, mãe!

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— Bom dia, dona Maria, eu trouxe essas notas...
— Fiiiiu! Que caro! Isso não é meu, não. Quem comprou essas coisas foi meu filho!...
— Óleo para a pele, véu e perfume feminino?
— Ahn-ran...
— Tudo bem. Ele está?
— Infelizmente morreu, faz quatro dias.
— Ué, mas eu ouvi dizer que ele ressuscitou!
— E o senhor acredita nessas coisas?

26 julho, 2007

PEQUENOS INCIDENTES OCORRIDOS NA PALESTINA HÁ CERCA DE DOIS MIL ANOS (2)


— Que cara é essa?
— Você queria que eu estivesse como? Faz quatro dias que não aparece freguês! Quatro dias!
— Estranho. Que será que aconteceu?
— Sei lá. Só sei que desde que aquele sujeito com sotaque de Nazaré apareceu por aqui, os clientes sumiram.
— Que coisa!
— Pois é. Nunca mais vendi um pão!

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— Foi exatamente assim. Desde então, ela nunca mais sangrou.
— Puxa! Nem "naqueles dias", cara?
— Não. Nem "naqueles dias".
— E os efeitos colaterais?
— Da menstruação? Também sumiram, rapaz. Não tenta me bater, não grita, não atira vasos. Fica calminha, calminha.
— Mas isso é uma milagre!
— Nem me fale. Bendito Jesus!

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— Quantos?
— Quinze. E vocês?
— Trezentos e vinte e quatro. Ganhamos de novo.
— Droga!
— Vamos mais uma?
— Vamos. Mas agora Jesus pesca do nosso lado.

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— E então, barbudo? Vamos tentar novamente. Qual o seu nome?
— Jesus de Nazaré, delegado. Mas pode me chamar de Filho do homem, a seu dispor.
— Pela última vez, amigo: cê tá pensando que eu sou trouxa? Não ouviu eu dizer que o tal Jesus morreu três dias atrás!
— Eu ressuscitei.
— Putz! Nunca vi desculpa mais ridícula. Tudo bem, pode voltar pra sua cela. Isso que dá fazer plantão em pleno Pessach. Só dá louco. Meu Deus!
— Chamou?

25 julho, 2007

PEQUENOS INCIDENTES OCORRIDOS NA PALESTINA HÁ CERCA DE DOIS MIL ANOS (1)


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— Mulher, cheguei! Mulher! Mas o que é isso?!
— O que é isso pergunto eu! Tu tá enxergando, homem?!
— Não é incrível? Foi um tal de Jerúsio que apareceu na estrada. Cuspiu, passou as mão assim, ói. Fiquei curado.
— Que... que coisa boa!
— Maravilhosa, né? Agora me diga: que faz o vizinho ali no canto do quarto, nu, estirando a língua pra mim?

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— A herança veio em boa hora!
— Finalmente a gente vai poder reformar a casa.
— Sonhei minha vida toda com isso, mulher.
— Graças a Deus!
— Pobre menina.
— Sim, pobre. Mas nos deixou ricos.
— Bom, vamos acompanhar o cortejo até o cemitério?
— Vamos, sim. Ué, mas que tumulto é aquele? Tem um cabeludo se aproximando ali do caixão. Que será que ele vai fa... Filho da p...!

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— E então, trouxe os figos?
— Pai, a figueira tá morta.
— Morta, o quê! Não faz um mês ela tava vivinha!

— Pois morreu, pai.
— Impossível ter morrido em tão pouco tempo, menino! E agora é que ela ia começar a dar frutos!
— Juro, pai! Ela parece que tá ressecada!
— Preguiçoso! Passa pra cá! Tu vai levar uma surra pra aprender a nunca mais mentir!

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— O que é que a senhora tá fazendo aqui, minha sogra?
— Opa! Eu pensei que você tivesse morrido!
— E que malas são essas?
— Bom, como eu pensei que você estivesse morto, vendi minha casa e vim morar aqui com minha filha.
— Morar aqui?
— Bom, agora não tenho mais aonde ir. Vou ter que fi... Não! O que é que você tá fazendo? Larga isso! Não! Não bebe! Me dá! Me dá esse vidro de veneno, Lázaro!

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(CONTINUA AMANHÃ)

24 julho, 2007

EM DEFESA DO LÉPIDO PRESIDENTE LULA


Leio nos jornais — sim, companheiros, voltei a lê-los, pois resolvi abraçar a filosofia educacional de Paulo Freire, para quem é preciso “aprender a desaprender”, e achei por bem começar desaprendendo gramática, ortografia e raciocínio lógico — leio nos jornais, dizia eu, que o presidente Lula resolveu desafogar o tráfego de Congonhas, transferindo vôos para outros aeroportos.

Não via no Brasil atitude tão enérgica desde que FHC fez sua maior obra. Não me refiro ao Plano Real, claro, nem, como poderiam pensar os mais malevos, estou utilizando a palavra “obra” em sentido escatológico. Muito menos aludo à imensurável contribuição do ex-presidente para o progresso das artes e das ciências — particularmente do solipsismo, do sofismo e da tautologia —, mas ao grande impulso que deu à nação quando nos informou, durante sua administração, que não éramos mais um país “subdesenvolvido” e sim “em desenvolvi mento”. Lance magistral com que, permutando quatro letras do alfabeto, tirou em segundos milhões de pessoas da linha de pobreza. E muitas outras ainda teriam saído da miséria se houvessem lido jornal por aqueles dias. Por aí temos uma idéia de como é perverso o analfabetismo.

Imitando aquele grande e ousado sábio, e usando de toda a sua capacidade de ação, o presidente Lula, tão-logo começaram os problemas nos aeroportos, marcou uma reunião em que se discutiria a instalação de um grupo de estudos destinado a indicar pessoas que fariam a seleção dos debatedores que participariam de uma mesa de discussão, visando promover um encontro entre técnicos e ministros para a elaboração de uma agenda com definição precisa de data e hora em que haveria uma congregação para propor possíveis palavras que poderiam ser usadas para substituir “caos aéreo” por expressão mais amena e, uma vez resolvido esse problema semântico que assola o país de norte a sul, finalmente iniciar o levantamento de propostas para solucionar a confusão nos aeroportos em dia a ser futuramente determinado.

Apesar da grita dos mais apressadinhos, fato é que o organograma estava sendo seguido à risca e tudo estaria superado a contento bem antes de 2045, se brasileiros insubordinados e sem a mínima consideração por prazos não houvessem precipitado as coisas ao morrer egoisticamente num desastre de avião — de resto, dispensável.

Ainda assim, eficaz como os persas diante de Alexandre e célere como uma flecha — no caso, a flecha de Zenão de Eléia —, nosso intrépido presidente levou apenas uma semana e não mais que 200 cadáveres para anunciar as medidas que debelarão de vez o apagão aéreo, atuando antes que outros mortos exibicionistas se aproveitassem da situação para passar a falsa idéia de que o governo perdeu o controle sobre uma atividade que é monopólio do Estado: o assassinato em massa.

Por fim, num gesto final, o presidente afirmou em seu programa de rádio que não há possibilidade de a verdade sobre o acidente com o avião da TAM não aparecer. Em não aparecendo, ele certamente tomará medidas drásticas, como cortar o ponto dela ou mesmo demiti-la, muito embora alguns queiram insinuar maldosamente que a dita não é funcionária deste governo.

Enfim, trocando em miúdos o meu sentimento e o de alguns brasileiros meus conhecidos, devo dizer que agora estou bem mais tranqüilo. Com essas medidas e declarações, tenho certeza de que o presidente mandou a insegurança, definitivamente, para o espaço.

23 julho, 2007

JULGAMENTO DE UM RÉU NUMA SOCIEDADE MATRIARCAL (2)


ADVOGADA: E mais. Provas documentais exibem, em duas ocasiões, o réu flagrado no execrável ato de usar a serra do pão para passar requeijão na bolacha, cortar o queijo com a mesma faca que usou na carne e limpar a boca com a toalha da mesa.
RÉU: Nego e repilo, Excelência! Todas as pessoas próximas a mim sabem que eu mergulho a bolacha diretamente no pote como qualquer pessoa civilizada!

ADVOGADA: Trata-se de um homem ignóbil, Excelência, capaz de trocar de canal para o futebol quando a mulher deseja ver a novela das oito.
RÉU: Mas era a final da segunda divisão do campeonato acreano, Excelência!
ADVOGADA: E muito mais teria a dizer, como, por exemplo, referir-me a suas reincidentes recusas a discutir a relação na hora do Jornal Nacional. Mas me calo por aqui, por entender que há indícios suficientes de atentado contra nosso Código.
JUÍZA: Muito bem. Bom, senhor Carlos Antônio, ante provas tão cabais e depoimentos tão definitivos, e após analisar atentamente os autos, só me resta lhe dar uma sentença para escarmento seu, exemplo público e memória dos pósteros: o senhor está condenado a fazer quinze toalhinhas de bordado, quatro meias de tricô, passar pano diariamente na sua casa e usar um absorvente feminino pelos próximos cinco anos.
RÉU: Não, Excelência! Tenha piedade de mim!
JUÍZA: Por fim, doravante e até o final dos seus dias, o senhor está obrigado, por força de lei, a urinar sentado no vaso sanitário.
RÉU: Pelo amor de Deus! Tudo menos isso, Excelência!
JUÍZA: Silêncio! Caso encerrado. Até porque são cinco da tarde e eu tenho hora marcada no cabeleireiro. Guardas! Levem-no! E lembrem-se: o absorvente é interno.
RÉU: (sendo arrastado pelas guardas) Nããão! Interno, nããão!

22 julho, 2007

JULGAMENTO DE UM RÉU NUMA SOCIEDADE MATRIARCAL (1)


ADVOGADA: Excelência, o réu em questão tem uma ficha tão ampla que se torna até desnecessário acusá-lo. Primeiro e antes de mais nada, é de insensibilidade tal e tão pouco afeito às normas estabelecidas pela sociedade de Direito que jamais, em toda a sua vida, reparou quando sua cônjuge pintou as unhas das mãos.
RÉU: Protesto, Excelência! Nunca quebrei princípio tão fundamental de nossa Constituição! Tenho uma testemunha que pode listar uma série de elogios feitos a ela pela minha pessoa nesse particular.
ADVOGADA: A testemunha referida pelo réu, Excelência, é sua mãe, cujo depoimento deve ser desconsiderado por razões óbvias. Aliás, várias outras testemunhas podem atestar o quanto este ser hediondo desrespeitou sua progenitora, sendo incapaz de usar casaquinho para não pegar friagem, tendo uma aversão profunda pela papinha de aveia e recusando os amáveis bolinhos de feijão, arroz e farinha quando da infância. E, sobretudo, arranjando por nora mulheres tatuadas e que pintavam o cabelo de vermelho.
RÉU: Protesto, Excelência, o cabelo da moça era roxo!
JUÍZA: Protesto negado! A acusação pode prosseguir.
ADVOGADA: Cabelo. Jamais esta criatura abominável foi capaz de perceber quando a mulher cortou o cabelo ou mudou o penteado. Tampouco sabe apreciar coisas essenciais ao pleno funcionamento das instituições, como as distinções evidentes entre o verde-musgo e o verde-capim, o salto 15 e o salto 20, a sandália de dedo e a de bico fechado, e não tem a mais remota noção do que é o poliéster ou o crepe.
RÉU: Mentira, Excelência! Sei perfeitamente o que é um crepe. Inclusive adoro o de chocolate.
JUÍZA: Silêncio no tribunal! Prossiga.
ADVOGADA: Este ente odioso é inapto ao ponto de raras vezes acertar o jato de urina dentro do vaso sanitário. E apesar de em sua defesa querer alegar que sofre do mal de Parkinson, temos sérias razões para acreditar que o faz, pura e simplesmente, por má fé.
RÉU: Ha! Isso é fácil de falar. Queria ver se a senhora tivesse pinto!
JUÍZA: Advertimos o réu de que não serão admitidas palavras de baixo calão neste tribunal! A acusação pode prosseguir.
ADVOGADA: Continuando, direi ainda que o traste, digo, o incônscio réu possui o hábito espúrio e detestável de atirar as roupas em qualquer canto da casa. Há fotografias nos autos mostrando meias sobre a mesa, calças jeans sobre a bicicleta ergométrica e até cuecas sobre o chão da sala, Excelência.
RÉU: A cueca era da minha mulher, Excelência! Eu juro!

11 julho, 2007

SOLIDÃO É LAVA, PASSA E COZINHA


Homem com elevado senso de justiça e que ainda guarda em si resquícios do profundo socialismo aprendido no “Marx em Quadrinhos” da adolescência, sempre fiz questão de que, aqui em casa, as tarefas fossem divididas de acordo com as possibilidades e capacidades de cada um.

Assim, os trabalhos que exigem certa energia viril e requerem alguma destreza no manejo de ferramentas, como trocar o botijão de gás e as lâmpadas quando pifam, ficam a cargo de minha mulher. Enquanto eu me dedico a atividades de que posso me desincumbir na posse dos três neurônios com os quais o bom Deus houve por bem me dotar, como o bordado, por exemplo.

No entanto, esta semana minha querida consorte viajou, foi a Porto Alegre. Por um lado, para resolver questões pessoais. E, por outro, para dar vazão a um impulso pedagógico: está me acostumando desde já a viver sozinho para quando, daqui a um ou dois meses, decidir-se a me deixar de uma vez por todas.

Pelo menos é o que imagino, posto que a única representante do sexo feminino que agüentou morar comigo por mais de um ano foi minha mãe. E esta, não sem ter ficado com pequenas seqüelas, como faz questão de me dizer todas as vezes que me escreve do manicômio.

Seja como for, a verdade é que, tão-logo me vi só, comecei a curtir as benesses da independência. Primeiro, para meu espanto, descobri que é possível, sim, deixar a toalha molhada sobre a cama ou fazer xixi fora do vaso sem que sejam abalados nenhum dos princípios básicos da Teoria da Relatividade.

Depois que, ao contrário do que se possa pensar à primeira vista, jogar as meias sobre a mesa ou sair do banheiro com os pés molhados não têm qualquer tipo de relação com os ataques de Israel ao Hezbollah.

Mas isso não durou muito. Logo tive de me dedicar a seguir os pontos básicos do programa educativo proposto por minha cônjuge. E avanço a olhos vistos.

Nos últimos dias, tenho monitorado cientificamente o incrível processo de reprodução do lixo, o qual cresce na cozinha sem que nenhuma força da natureza seja capaz de contê-lo. E acompanhado com interesse de neófito como, certamente através da geração espontânea, copos e pratos aparecem nos lugares mais recônditos da casa, tão logo acabo de lavá-los.

No ramo da Biologia, tem me chamado a atenção ainda a preferência das baratas pelo coito no interior de gavetas e sobre talheres. E, no da Física Aplicada, como as partículas de poeira se espalham de maneira uniforme numa superfície plana na ausência de vassoura.

Enfim, os conhecimentos que venho adquirindo são tantos e tenho expandido a tal ponto minha capacidade de observação, que só tenho a agradecer à minha amada. Então, gostaria de aproveitar a oportunidade para dizer a ela, com os olhos cheios de lágrimas:

— Volta logo, bem!

10 julho, 2007

DECADÊNCIA



— Que cara é essa, Afrânio? Chego em casa e te encontro assim, bebendo no meio da tarde... Afrânio! Afrâ-ni-ôoo, eu tô falando contigo. O que foi que houve? Desembucha.
— “When you are old and grey and full of sleep…”
— Ih, se tu tá recitando Shakespeare, Afrânio, algum desastre aconteceu. A última vez que te vi dizendo uma fala de Hamlet foi no enterro do teu pai.
— Pra começo de conversa, o verso é de Yeats. E, em segundo lugar, nunca recitei Shakespeare em toda a minha vida, muito menos no enterro de papai.
— Ah, não, é? Você acha que eu não saquei? Ouvi perfeitamente quando você apontou pro lado onde tava o jazigo e disse: “Poor Yorick!”
— Eu apontei pro lado onde tava o jazigo e disse “por aqui”, Marilda! Tava mostrando o caminho. (suspiro prolongado) “Eu sou mais triste que um prático de farmácia…”
— Ah, não, Murilo Mendes, não! Murilo Mendes é grave. E nunca te vi bebendo no meio da tarde. Fala logo, Afrânio, qual a catástrofe que aconteceu? Alguma notícia ruim com relação à mamãe?
— Sim, ela continua respirando.
— Não brinca, Afrânio. Ela tá boa?
— Acho que não. Continua a mesma.
— Afrânio! Fala sério, Afrânio. E os meninos?
— “Sur ta vie et sur ta jeunesse...”
— Quer parar com isso? Me diz: os meninos tão bem? Aconteceu alguma desgraça com eles?
— Exceto o fato de terem herdado aquelas orelhas de abano do teu pai?
— Afrânio! Dá cá esse copo. Fala, Afrânio, por que é que tu tá assim? Que inferno!
— “Lasciate ogni speranza...”
— Chega! Ou você fala agora ou eu...
— A desgraça se abateu sobre mim, mulher.
— Que desgraça, Franinho? Te demitiram?
— Não, eles não fariam isso comigo.
— Ué, e o que te faz ter essa confiança toda?
— Talvez o fato de eu estar desempregado há seis meses, Marilda.
— Ui, desculpe, filho, esqueci. Então te assaltaram.
— Meu atual padrão de vida não permite mais esses luxos, mulher.
— É doença, Franinho?
— Preciso fazer um seguro de vida...
— Não fala assim, Franinho.
— ... e um testamento.
— Conta, diz logo tudo, fala, eu vou ser forte. Me diz o que tá acontecendo!
— Mulher, olha pra isso, mulher! Vê com teus próprios olhos!
— Afrânio! Levanta essas calças, Afrânio! Pelo amor de Deus, a empregada tá aí, vai ver!
— Olha, mulher, olha!
— Afrâ... Pentelhos... saco... pinto... marca de nascença... fimose... Não, não tô notando nada de diferente, Afrânio.
— É o fim, mulher. Não há mais saída. Olha direito.
— Nada, Afrânio. Não tô vendo nada.
— É a decadência total, é a decrepitude completa!
— Que foi, Afrânio, o que foi?

— Mulher, nasceu um pentelho branco!

09 julho, 2007

ARTES MARCIAIS


Pouco culto que sou, sempre tive dificuldade para entender como os lutadores de artes marciais conseguem soltar aqueles gritinhos antes dos golpes.

A meditação, outra das seculares técnicas orientais, não me aflige tanto. Por experiência própria, tenho certeza de que ela surgiu no dia em que um asiático se deparou pela primeira vez com uma pia lotada de pratos sujos e engordurados. E ficou ali, meia hora naquela dúvida atroz, pensando se atirava tudo pela janela ou se, mais paciente, esperava a primeira barata surgir para tomar alguma atitude.

Mas o taekwodo (de nome tão sugestivo) e seus congêneres me intrigavam. Os golpes em si, imagino que sejam a parte mais fácil do treinamento. Já os gritinhos devem obedecer a um ritual mais complexo, exigindo do epígono uma mente treinada, além de certa propensão a se fantasiar de Carmem Miranda e ir ao Gala Gay no carnaval.

O Mestre do Grito, um profissional destacado especialmente para aquele fundamento e que passou anos no Brasil estudando o comportamento de Heloísa Helena, destaca alguns catecúmenos, enfileira-os e, a troco de dentadas e dedadas em lugares recônditos da anatomia, vai testando sua capacidade de gritar.

— Mais fino! Tá parecendo um homem! — ralha o mestre, quando um discípulo menos sensível se mostra incapaz de extrair de uma mordida no mamilo um brado correspondente.
Ou ainda, sarcástico: — Isso aqui não é arquibancada de futebol, meu caro!

Então os alunos riem e cantam em coro, para vergonha do desastrado neófito: “Homenzinho! Homenzinho!” Tudo isso, evidentemente, com uma trilha de fundo, tocando “Então é Natal, a festa cristã” de Simone, ou qualquer outra coisa que desperte um íntimo desejo de berrar.

Assim pensava eu, em minha insofrida ignorância. Até que ontem tive uma daquelas revelações que fariam Paulo cair do cavalo antes mesmo de ouvir a voz do Senhor.

Eis que eu e minha consorte nos divertíamos com um daqueles singelos jogos de amantes, aquelas lutas fingidas, de golpes que fazem apenas cócegas e que servem para estreitar as relações, reafirmar o amor mútuo, além de tornar a carreira médica cada dia mais lucrativa.

Explico-me. A certa altura, como a brincadeira ficasse mais e mais engraçada, entre uma risada e outra, e certamente com a intenção de me incitar à gargalhada, ela deslocou seu lindo pé e o encaixou entre minhas coxas, acertando um chute certeiro no meu aparelho reprodutor.

Olhando para o céu estrelado, apesar de ser meio-dia, tombei sobre os joelhos com o rosto crispado e uma nítida sensação de que o efeito estufa piorara sensivelmente no último segundo, restando apenas gás carbônico para se respirar.

No entanto, enquanto me contorcia no chão como Hécuba ao saber da morte dos seus e fazia caretas mais horrendas que as da Rogéria, eis que ouço sair de mim um gritinho fino e prolongado que faria Jackie Chan se sentir o Cid Moreira.

E digo mais: àquela altura seria capaz de lutar contra filas inteiras de samurais, ninjas, figurantes de Matrix e quantos mais se predispusessem a me enfrentar numa luta implacável, tal era a ira que se apossou da minha pessoa.

Porém, como visse à minha frente apenas a minha mulher, refreei meus desejos sanguinários, uma vez que não entraria numa luta desigual, já sabendo de antemão que eu não teria a menor chance. Sendo assim, consegui me controlar.
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Mais calmo, ainda que manco, me dirigi à cozinha. Ali, diante de uma pilha de pratos sujos, celebrei minha descoberta. E, claro, aproveitei para iniciar minha meditação.

06 julho, 2007

DO PÓ VIESTE, À PRIVADA RETORNARÁS (5)


As pontadas logo se transformaram numa convulsão interna. Diante das explosões gasosas que me acometiam, dei sorte de não haver, no restaurante, um inspetor de armas químicas da ONU.

A atitude mais acertada, sem dúvida, seria me dirigir ao banheiro do nobre estabelecimento. No entanto, como não tenho o costume de trazer botes infláveis comigo quando vou comer fora e não possuo ascendência divina para conseguir andar sobre o xixi, seria um tanto ou quanto difícil fazer o percurso até a privada.

Sendo assim, algo tenso, disse a minha mulher que precisava ir para casa o mais rápido possível, que ela pagasse a conta, pois eu ia na frente e que, por favor, me ajudasse a me levantar da cadeira, uma vez que todas as minhas energias estavam concentradas em partes recônditas de minha anatomia e qualquer esforço de minha parte teria as mesmas conseqüências do esforço concentrado no Congresso.

Ela me fitou com os olhos brilhando de puro gozo e me fez ver que, no que dependesse dela, dentro em breve eu ficaria mais sujo que a consciência de um repórter de Veja. Suspirei resignado e arrependido por nunca ter levado a ioga ou os livros do Paulo Coelho a sério. Afinal, a única possibilidade de me deslocar dali, naquele momento, seria através da levitação.

Mas, enquanto brasileiro, não desisto nunca. Então, colocando as mãos sobre a mesa, respirei fundo e, experimentado em artes marciais, imitei o célebre movimento do caranguejo com artrite reumatóide. Impulsionei o corpo para cima e consegui levantá-lo — apenas o corpo, pois a julgar pela palidez do meu rosto, a alma ficou no mesmo lugar.

Então, medi a distância que me separava da porta de saída, pedi a proteção de São Breguelim do Esfíncter Vedado e, admirador da marcha olímpica, disparei na direção da rua, com as pernas unidas e o andar garboso de um ornitorrinco manco.

Ao atingir a calçada, percebi que continuava chovendo. Mas, o que é uma chuvinha cataclísmica de nada diante de um homem ciente de seus objetivos? Saltitando ora num pé, ora no outro, disparei, belaz, e julgo ter entendido a partir de então o motivo por que o Ayrton Senna corria tão bem em dias de chuva.

Quando cheguei diante do meu prédio, já estava pulando com os dois pés juntos, segurando a barriga sem nenhum escrúpulo e tinha uma tal cara de mártir que o porteiro pediu a benção ao me ver.

Subi no elevador absolutamente nas últimas. Arrastei-me até a porta de casa, concentrado. E, finalmente, quando procurei a chave para abri-la, percebi que minha mulher havia ficado com ela.

Que tremores, que terrores, por quantas crises não passei, mais enrodilhado sobre mim mesmo que uma jibóia em torno da presa, enquanto esperava a infeliz, que voltava toda serelepe do restaurante!
Quando, afinal, chegou, abriu a porta e eu, me segurando pelas paredes, avancei para o banheiro.

Aqui presto uma homenagem ao gênio que construiu nosso quarto de banho. Eis que, em vez de colocar a privada no mesmo nível do boxe, ele resolveu inovar, erguendo um pequeno batente e pondo o trono ali em cima.

Agora os senhores imaginem que eu não tinha a mínima possibilidade de respirar, quanto mais de subir um degrau. Então, perturbadíssimo, tive uma idéia brilhante. Resolvi que me viraria e saltaria de costas, baixando as calças no ar e caindo sentado no vaso, num único movimento, rápido e definito.

Sem muito tempo para pensar, foi o que tentei. Pus-me em posição, fiz as medições necessárias, soltei ar pela boca, rezei uma ave-maria e, em seguida, com os olhos fechados, trêmulo, suado, mas esperançoso, dei o salto fatal. E...
.
Estou até hoje limpando restos da matéria escura que se espalhou pelo assoalho. Pois errei o alvo, companheiros.

05 julho, 2007

DO PÓ VIESTE, À PRIVADA RETORNARÁS (4)


Os garçons traziam os espetos e eu ia provando as iguarias, uma a uma. Tudo bem, a variedade de carnes não era grande. Havia apenas três tipos: as tostadas, as muito tostadas e as mais tostadas ainda.

Em compensação, eram servidas de maneira absolutamente equânime: primeiro, lingüiça, lingüiça e lingüiça; em seguida, cupim, lingüiça, fraldinha, lingüiça e lingüiça; por fim, lingüiça, cupim, lingüiça, coração, lingüiça, lingüiça, lingüiça e lingüiça.

Além disso, a qualidade da cozinha era tal que nos remetia a nomes internacionais. Tome-se o coração como exemplo: estava tão tenro quanto o de George Bush. E o cupim, honestíssimo — não se poderia jamais dizer que não era autêntico, pois tinha o próprio gosto do inseto.

A fraldinha também fazia jus ao nome: sobretudo se a gente pensar no conteúdo daquelas usadas por bebês. A picanha, por sua vez, devia estar ótima. Pena que eles não serviram. E a lingüiça... bem, da lingüiça não posso falar muito, pois parei de sentir seu sabor após a vigésima quinta.

Aliás, diga-se de passagem, o frango assado tampouco ficava atrás em termos de padrões internacionais. Comi uma coxa cuja quantidade de óleo estava perfeitamente dentro das especificações para um barril, segundo a Opep.

Mas o melhor é que o serviço era rápido. Não tinha que esperar mais de uma hora para vir uma nova peça de carne. Tempo calculado com precisão, pois era mais ou menos o mesmo que gastava para mastigar e engolir cada bocado.

E gostaria de salientar, ainda, que eles são tão previdentes naquele restaurante e têm tal compromisso com o social que o alimento, ali, não serve apenas para fins superficiais e pequeno-burgueses, como matar a fome. O cupim, por exemplo, reunido em número suficiente, daria um belíssimo alicerce para uma moradia popular.

Feliz com a rica alimentação, no intervalo entre uma câimbra no maxilar e outra, voltei-me para minha mulher e, sorrindo, perguntei:

— Seu bife está bom?
— Muito. Pena que não tenho uma cimitarra para cortá-lo.
— E o arroz?
— Admirável. Sobretudo pelo sentido de grupo.
— O feijão, pelo menos, está com uma cara ótima...
— Excelente. Mas o médico me proibiu tomar gelado.
— Está faltando alguma coisa?
— Soda.
— Uma Sprite?
— Não. Cáustica. Para amolecer a batata.

Diante dessa atitude pouco cooperativa da minha cônjuge, própria de quem não sabe apreciar a boa mesa, concentrei-me nos talheres e, homem preocupado com o problema da má nutrição no mundo, aproveitei para comer por várias gerações de sudaneses.

Entreguei-me com tanto afã ao exercício das mandíbulas que, ao final de três horas, estava me sentindo mais pesado que atacante do Brasil na Copa de 2006. Suspirava e me lamentava, suando, com falta de ar e um terrível calor. Fiquei mole, zonzo, relativamente verde e, principalmente, muito impressionado com o fato de que, no meu caso, a menopausa tinha vindo antes da primeira menstruação.

Vendo que eu estava à beira da morte e que meu organismo passava por conturbações poucas vezes observadas no Ocidente desde a deposição de Luis XVI, minha mulher deu seu primeiro sorriso no dia.

Então senti uma suspicaz pontada na barriga e, logo depois, angustiado, percebi que me faltava alguma coisa. No caso, um banheiro.

04 julho, 2007

DO PÓ VIESTE, À PRIVADA RETORNARÁS (3)


O restaurante oferecia três opções: rodízio, “à la carte” e levantar-se e se dirigir a outro estabelecimento onde a data de validade dos alimentos não precisasse ser averiguada por testes com carbono-14.

Eu optei pelo rodízio. O que, confesso, não foi uma escolha das mais acertadas. Afinal, o nome era uma clara alusão ao movimento rotatório dos rolos de papel higiênico que mais tarde eu usaria.

Já a minha mulher estava indecisa: não sabia se pedia o divórcio ali mesmo ou esperava até chegarmos em casa. Procurei acalmá-la, fazendo-lhe carinhos no cabelo e tentando demonstrar, através de argumentos razoáveis, que chutar minha canela por baixo da mesa não era a melhor solução para aplacar sua raiva.

E é por isso que eu sempre digo: amar é ceder. Assim que falei isso para ela, tive que ceder nos meus carinhos, pois ela tentou morder meus dedos. Nisso, o garçom chegou. E, pela sua cara animada, chegava de uma reunião de condomínio.

— A senhora já escolheu? — perguntou, bocejando
— Infelizmente, há mais de um ano — disse ela, me apontando com o queixo.
— Ha! ha! Não ligue, moço, ela é assim mesmo, jocosa... cheia de chistes.
— Massa, vocês não têm, né?
— Não, senhora.
— Percebi pelos buracos nas paredes.
— Hi! hi! É uma pândega!
— E bife a cavalo?
— A cavalo, não, mas temos bife.
— Ótimo, porque o cavalo eu já trouxe de casa.
— Ho! ho! Comediante nata!
— E para acompanhar?
— Arroz, batata e pratos limpos, por favor.
— Para beber?
— Tem cicuta?
— Nã... Não, senhora.
— Ah, então me vê uma Dolly Light natural, que dá no mesmo.

O garçom se retirou e eu saí de debaixo da mesa. Ela me olhou em silêncio, balançando vagarosamente a cabeça, com os olhos apertados. Um gesto a que já estou habituado e que, se fosse expresso em palavras, faria a Dercy Gonçalves corar, pois conteria mais imoralidades que um
acordo entre parlamentares.

Assobiei, tamborilei na mesa e, para baixar a tensão, falei de coisas amenas e triviais, como clima, futebol, novela e a questão da transcendência imanente em Nietzsche. Então começaram a servir o rodízio.

03 julho, 2007

DO PÓ VIESTE, À PRIVADA RETORNARÁS (2)


A principal vantagem do lugar aonde estávamos indo é que ele fica próximo aqui de casa. Principalmente se você pretende ir de helicóptero.

Mas, como nossa capacidade de transporte por via aérea ultimamente tem sido a mesma da Varig, fomos a pé mesmo, deixando o projeto de vôo restrito ao cheque com que pretendíamos pagar a conta do restaurante.

Durante o pequeno percurso, que um beduíno faria sem o menor esforço, aproveitei para escutar um som. No caso, o da voz da minha mulher, que vinha reclamando — imaginem vocês — só porque estava fazendo um diluviozinho de nada e nós não tínhamos guarda-chuva.

— Você precisa se integrar mais à natureza, querida. Atchim! Nós estamos na era de aquário. Atchim!
— E, pelo visto, o aquário vai ficar cheio rapidinho. Bem que eu disse pra você trazer a sombrinha.
— Bobagem. Atchim! Uma chuvinha dessas não vai... atchim!... fazer mal a ninguém.
— Não, não. Não era pela chuva. Era pra bater com ela na sua cabeça mesmo. Que tal se a gente voltar pra casa, hein? Tem miojo, a gente faz e...
— De jeito nenhum! Atchim! Eu não disse que ia te levar pra comer fora? Agora a gente vai, nem que seja a última cois... aaa... coisa que... aaaaaaa... coisa que eu.... aaaaaaa... ATCHIIIIIIM!
— Putz, você encatarrou o meu cabelo todo!
— Sai com água, amor. Viu como a chuva tem sua serventia?

Após um curto e agradável passeio de cinqüenta minutos, durante o qual pudemos apreciar as belezas naturais da cidade de São Paulo, como os cocôs de cachorro nas calçadas, chegamos finalmente ao nosso cobiçado destino. Eu, ela e minha asma alérgica. Sendo que, das duas, a asma alérgica era a que tinha menor probabilidade de me matar.

— Já sabem o que vão pedir? — perguntou o garçom, tão simpático quanto alguém que houvesse perdido um familiar recentemente.
— Uma toalha — respondeu minha mulher
— Ela tá brincando... Ha! ha! É muito divertida! Uma Coca, por enquanto, me faça o favor.
— Dessa década, de preferência.
— Ha! ha! Não é uma graça? Hu! hu! Assim você me mata, mulher...

Quando o homem se afastou, me virei para minha consorte, tentando levantar seu ânimo:

— Viu como demos sorte? Pegamos logo o garçom que tem mais dentes!
Ela não me olhou. Então aproveitei para lançar os olhos pelo agradável e singelo ambiente.

A casa tem uma decoração moderna — no sentido de contemporânea da Semana de Arte de 22. Só que não está, evidentemente, tão bem-conservada quanto o corpo de Mário de Andrade. Então, aqui e ali, vê-se uma ou outra rachadura nas paredes, alguma teia de aranha no teto, cerâmicas quebradas no chão...

Enfim, coisas naturais num estabelecimento que passou por duas grandes guerras — sobretudo se, nelas, tivesse sido alvo de bombardeios. Mas nada que cause muito mal-estar. Afinal, a ornamentação não poderia competir com a comida que eles servem.


Satisfeito, após minha inspeção, tornei novamente para a minha amada que, dessa vez, colocou em mim olhos parecidos com os do Conde de Monte Cristo. Não pela beleza, obviamente.
E assim, nesse clima cordial, fizemos o pedido.

02 julho, 2007

DO PÓ VIESTE, À PRIVADA RETORNARÁS (1)


Costumo aproveitar os finais de semana para testar meus limites e enfrentar experiências radicais, entrar em contato com sentimentos novos, que possam ampliar meus horizontes de maneira significativa, como coçar o saco com a unha do dedo mínimo ou passar vinte e quatro horas deitado numa cama sem mover um músculo, por exemplo.

Durante esse período, tendo a me aplicar tanto em atividades que me afastem do quarto quanto um deputado em seguir preceitos morais ou o Caetano Veloso em dizer coisas congruentes e sensatas. Enfim, nessas ocasiões, o máximo que se pode esperar de mim é que faça fotossíntese.

No entanto, como minha pele, muito sensível, costuma ficar relativamente empolada ao contato da madeira do rolo de massa, tenho por hábito não contrariar os desejos da minha mulher, sobretudo na semana pré-menstrual — ocasião em que ela fica tão meiga e afável quanto o Chuck Norris e menos predisposta à paz que um presidente americano.

E, nesse domingo, ela resolveu que queria almoçar fora. Bom, se era para comer fora, acho que poderíamos muito bem ter levado a mesa até o hall do elevador. Porém, como admiro muito Charles Dickens, mas não ao ponto de dizer isso a ela e deixar minha vida mais miserável que a de Oliver Twist, concordei.

Em tese, não tenho nada contra comer em restaurantes, a não ser o fato de que, neles, é preciso pagar para alimentar-se. E como aqui em casa a palavra “dinheiro” nos remete vagamente à efígie do Barão do Rio Branco numa nota de mil cruzeiros, resolvi sabiamente que poderíamos almoçar num restaurante conhecido — simples, mas muito agradável, onde a refeição é boa, custa pouco e as baratas são todas limpinhas.

— Aquela bodega? — perguntou ela, algo exaltada, quando dei a idéia. — Aquilo ali já foi até fechado pela Vigilância Sanitária!
— Fechado, não! — indignei-me. — Só multado. E tudo por uma calúnia, você não ouviu o dono dizer? Ele provou por A mais B que aquela cueca que encontraram na sopa não era dele!
— Não, não. Vamos em outro lugar. Você não viu a picanha que eles servem? Picanha paraguaia, só se for!
— Que preconceito! O Paraguai também faz parte do Mercosul, filha. E depois, não vi nada de errado com a picanha. Tudo bem, ela tinha muito osso, mas você não gosta tanto de costela?
— Gosto. Sobretudo quando ela é de gado.
— Ah, quanto provincianismo, meu Deus! Será que você não sabe que na Coréia eles também comem cachorro?
— Mas, na Coréia, certamente eles tiram o pêlo do bicho antes de assar, né?
— Dai-me paciência! Só porque encontrou cinco ou seis fios de cabelo na carne uma vez na vida... Puf!

Após alguma discussão, conduzida brilhantemente por mim, que elenquei as principais razões por que não se deveria comer bem num lugar caro quando se podia perfeitamente pagar muito menos e comer muito pior, seguimos meu conselho e nos pusemos a caminho.