12 junho, 2007

OS SEM-LIMBO


— É por aqui?
— Quem sabe? Maldito Bento XVI! Se ao menos tivesse oferecido um guia pra gente...
— Verdade. Na Idade Média era mais fácil andar por aqui. Hoje, não se encontra nem mesmo um poeta concretista disposto a mostrar o caminho!
— Poeta concretista? Impossível. Não se sai do inferno assim facilmente.
— Pera lá! Olha ali! Aquela túnica, as sandálias, a coroa de louros... Aquele ali não é o...?
— Não, não. Quem dera! É apenas um deputado brasileiro disfarçado de poeta clássico. Deu uma comissão pro diabo e conseguiu chegar no limbo travestido. Agora vai ali, liderando um grupo de empreiteiros.
— Empreiteiros? Tavam no limbo também?
— Pois é. O coisa-ruim recompensou eles por terem construído de graça os fornos do inferno.
— Ué? Mas o inferno é gelado!
— Empreiteiros brasileiros.
— Ah... Seja como for, agora estamos todos no olho da rua. Olha, vou te contar, ser despejado depois de centenas de anos como bom locatário não é nada. Ruim mesmo é ter que carregar essas crianças no colo. Como elas choram!
— Podia ser pior. Se a gente tivesse no céu, haveria milhares de cruzados adolescentes.
— Falar nisso, acho que é por ali.
— O céu? Duvido. Não tá vendo a quantidade de jornalistas, advogados e apresentadores de televisão?
— Será o inferno?
— Pelo tamanho da fila, se não for o inferno é coisa pior: a Disney ou a Alemanha Oriental.
— É o inferno.
— Como é que tu sabe? Viu alguma inscrição na porta?
— Não. Pelo som que chega até aqui.
— Chicotadas?
— Banda Calypso.
— Então, vem. Vamo por esse lado. Acho que eu tô vendo um anjo.
— Sem dúvida. E que par de coxas! Olha o rebol...
— Não, lá na frente! Um vulto. Flutuando. Olha ali.
— Ha! Que anjo que nada! A gente continua nas proximidades do inferno. Aquilo é o ego do Paulo Francis.
— Desisto. A gente já tá andando há uma eternidade. Cansei. Quem sabe não ficamos por aqui mesmo?
— No inferno? E as crianças? As crianças não podem ficar aí. Isso tá cheio de comunista, rapaz.
— Qual o quê! A essa altura o Carlos Lacerda já acabou com todos.
— Calma! Olha ali! Aquilo não é uma luz?
— Atrás dela! Corre! O paraíso é praqueles lados!
— Ih! Um portão!
— Fechado! Que é que tá escrito ali?
— “Heaven. Authorized personnel only.” Sabe o que isso significa?
— Que Deus é um colonizado?
— Não, que viemos parar no Paraíso de Milton!
— Putz! Dançamo. Vamo voltar.
— É... Paraíso perdido.

16 comentários:

Tiago Pereira disse...

como sempre, muito bom!!
Parabéns!!!

anjobaldio disse...

O paraíso é mesmo uma perdição maravilhosa.

Anita disse...

hahahaha. poetas concretistas no inferno?!

e os trocadilhos? Paraíso de Milton? É mesmo um inferno de ruim, né não!? Paraíso perdido mesmo!
putz!, que criatividade, Marconi! Seria bom se um professor meu de literatura comparada soubesse ler português...

Yvonne disse...

Marconi, você me faz rir de mais. Mais um post legal. Beijocas

srta. bia disse...

talvez o mais certo seja que nem no inferno os empreiteiros ficam, pois nem o diabo aguenta tanta licitação....rs.

Marco disse...

Rá! Rá! Rá!... muito bom! Mas acho que no meu inferno tocaria Breno e Marrone, Zezé di Camargo e Luciano e o Marcelo D2.
Excelente como sempre!
(Será que o inferno e dividido em nações? Fico imaginando o inferno venezuelano... com os nativos de lá dizendo: "vamos a aproveitar antes que Chavez venga para acá!"
Carpe Diem.

edu disse...

Isso é mais um teoria sobre Lost??

zealfredo disse...

Ótima! Muito divertida! :))

Jens disse...

Papai do Céu vai te castigar.

gustavo chaves disse...

bom, adoro as criticas ao concretismo!!

Halem Souza (Quelemém) disse...

Mas deputado se fantasiando de Dante... Então nem tudo está perdido! Não, pensando bem pode ser o Dante de Oliveira, que depois virou governador... É, só há o que lamentar.

Agora, bom emprego arrumaste para D. Ratzinger. Guia turístico do Outro Mundo.

Um abraço.

Serbão disse...

rapaz, essa trilha sonora do Inferno tá bombando!!!
Calypso é o ideal...

Sandra disse...

Putz... Calypso? Ninguém merece! Mesmo no inferno...

Flávio disse...

Marconi, em off: o livro chegou... e tou gostando! Em on: gostei do post... mas não tem perigo de encontrar o Serbão Cubas por lá :)

Alexandre Pinheiro disse...

Estou enviando este texto, sem os créditos (pq agora me enchi dessa historia de plágio), à Comissão dos Advogados Cujos Direitos (tortuosos) Foram Aviltados, do Brasil (e Exterior), a Aviltobrex (antiga Aviltex). Evidentemente que você mexeu com quem não devia, e agora eu digo "se cubra", mesmo se o clima aí já estiver melhorado (aqui ainda não).
Faremos sessão pública de dez agravos (não retidos e incontidos, de risos).
As trombetas zoam, te chamando.
Mas que inferno!!!

msilvaduarte disse...

Muito engraçado, Marconi.

Um abraço.