NA PRAIA DE NUDISMO
— Tenta agir naturalmente, Ademar. Faz de conta que a gente tá no shopping.
— Eu não sei por onde você tem andado Sandra Regina, mas eu não me recordo de ter visto pintos balançando da última vez que eu fui no Iguatemi.
— Relaxa, Ademar! E vê se não fica olhando fixo. É proibido.
— Você devia dizer isso pro Zé Ramalho ali, ó.
— Que Zé Ramalho? Aquele homem? Mas se ele tá agachado, de costas pra gente, Ademar!
— Pois é. (cantando) “Um olho cego vagueia, procurando por um”. Confesso já vi paisagens melhores.
— Maldita hora que eu te trouxe pra cá. Pensei que a gente ia se divertir
— Desculpe se a minha idéia de diversão não envolve passar horas assando o prepúcio em público.
— Quanto exagero!
— Exagero? É fácil dizer isso quando a pessoa tem órgãos internos! Se eles tivessem uma sinagoga por aqui, eu me convertia ao judaísmo.
— Fica quieto, Ademar. Por que é que você não entra no clima?
— É que eu sou um cara muito careta, que acredita em coisas ultrapassadas e retrógradas como acomodar o saco em superfícies frescas.
— Só queria que a gente curtisse uma diferente...
— Pois conseguiu. Sabe que eu nunca antes tinha passado um dia inteiro tentando tirar areia de dentro do furico?
— Será que você não pode parar de reclamar por um minuto?
— Não. Quando paro de falar, volto a sentir o períneo.
— Olha a natureza, Ademar. Procura se harmonizar com ela.
— Mulher, quando eu quero me harmonizar com a natureza, eu leio Thoreau. Além do mais, eu e a natureza já somos íntimos. Ela me conhece por dentro.
— Você só vê as coisas pelo lado negativo, Ademar. Será que não percebe como uma experiência como essa é enriquecedora, como a pessoa cresce com ela?
— Cresce. O problema é que, quando cresce, o sujeito tem que ir no mar pra baixar de novo.
— Deixa de brincadeira, Ademar. Eu tô falando sério. Depois de uma vivência assim a gente ganha ânimo novo, fica mais sábio. Sinceramente, você não acha?
— Claro que sim. Por exemplo, se eu não tivesse vindo aqui hoje, jamais teria descoberto o sentido da expressão “entrou areia naquele negócio”.
— Esquece, Ademar.
— E não apenas isso. Quando aquele grupo de turistas africanos passou por aqui, minutos atrás, imediatamente me dei conta do que Freud queria dizer por “inveja do pênis”.
— Chega, Ademar. É impossível conversar contigo. Se ao menos você se enturmasse. Olha aí, por que não vai jogar frescobol com aqueles rapazes?
— Mulher, eu admiro muito os gregos, mas não a ponto de praticar esportes nu. Já pensou se uma bolinha dessas bate em cheio nas minhas termópilas?
— Você é um imaturo, Ademar, isso que você é. Uma pessoa cheia de recalques e preconceitos. Olha à tua volta. Todo o mundo age com naturalidade. Os teus valores tão equivocados. Além disso... Ahn? Que absurdo! Que indecência!
— Que foi, mulher?
— Fecha os olhos, Ademar! Não olha de lado!
— Mas o que foi, mulher, o que foi?
— Não olha, Ademar, que eu te capo. Onde nós vamos parar? Tem uma mulher totalmente vestida na praia!
— Eu não sei por onde você tem andado Sandra Regina, mas eu não me recordo de ter visto pintos balançando da última vez que eu fui no Iguatemi.
— Relaxa, Ademar! E vê se não fica olhando fixo. É proibido.
— Você devia dizer isso pro Zé Ramalho ali, ó.
— Que Zé Ramalho? Aquele homem? Mas se ele tá agachado, de costas pra gente, Ademar!
— Pois é. (cantando) “Um olho cego vagueia, procurando por um”. Confesso já vi paisagens melhores.
— Maldita hora que eu te trouxe pra cá. Pensei que a gente ia se divertir
— Desculpe se a minha idéia de diversão não envolve passar horas assando o prepúcio em público.
— Quanto exagero!
— Exagero? É fácil dizer isso quando a pessoa tem órgãos internos! Se eles tivessem uma sinagoga por aqui, eu me convertia ao judaísmo.
— Fica quieto, Ademar. Por que é que você não entra no clima?
— É que eu sou um cara muito careta, que acredita em coisas ultrapassadas e retrógradas como acomodar o saco em superfícies frescas.
— Só queria que a gente curtisse uma diferente...
— Pois conseguiu. Sabe que eu nunca antes tinha passado um dia inteiro tentando tirar areia de dentro do furico?
— Será que você não pode parar de reclamar por um minuto?
— Não. Quando paro de falar, volto a sentir o períneo.
— Olha a natureza, Ademar. Procura se harmonizar com ela.
— Mulher, quando eu quero me harmonizar com a natureza, eu leio Thoreau. Além do mais, eu e a natureza já somos íntimos. Ela me conhece por dentro.
— Você só vê as coisas pelo lado negativo, Ademar. Será que não percebe como uma experiência como essa é enriquecedora, como a pessoa cresce com ela?
— Cresce. O problema é que, quando cresce, o sujeito tem que ir no mar pra baixar de novo.
— Deixa de brincadeira, Ademar. Eu tô falando sério. Depois de uma vivência assim a gente ganha ânimo novo, fica mais sábio. Sinceramente, você não acha?
— Claro que sim. Por exemplo, se eu não tivesse vindo aqui hoje, jamais teria descoberto o sentido da expressão “entrou areia naquele negócio”.
— Esquece, Ademar.
— E não apenas isso. Quando aquele grupo de turistas africanos passou por aqui, minutos atrás, imediatamente me dei conta do que Freud queria dizer por “inveja do pênis”.
— Chega, Ademar. É impossível conversar contigo. Se ao menos você se enturmasse. Olha aí, por que não vai jogar frescobol com aqueles rapazes?
— Mulher, eu admiro muito os gregos, mas não a ponto de praticar esportes nu. Já pensou se uma bolinha dessas bate em cheio nas minhas termópilas?
— Você é um imaturo, Ademar, isso que você é. Uma pessoa cheia de recalques e preconceitos. Olha à tua volta. Todo o mundo age com naturalidade. Os teus valores tão equivocados. Além disso... Ahn? Que absurdo! Que indecência!
— Que foi, mulher?
— Fecha os olhos, Ademar! Não olha de lado!
— Mas o que foi, mulher, o que foi?
— Não olha, Ademar, que eu te capo. Onde nós vamos parar? Tem uma mulher totalmente vestida na praia!

18 comentários:
:) Como sempre, muito bom! Narrativa leve, precisa.
o que as pessoas não tem que fazer para esquentar o casamento, não é?
e ali no começo, lembrei que o zé ramalho já foi garoto de aluguel...rs. aiai...
acho que ademar ainda vai tirar areia de lugares obscuros por um bom tempo.
Marconi, vir aqui é a certeza de que soltarei gargalhadas. Beijocas
que foto é essa? hahahahahaah
Marconi, hilariante como sempre! Nunca tinha imaginador areia nos lugares indicados. Me deu aflição só em pensar!
Essa do Zé Ramalho foi demais!!!
Mais ou menos. Tá faltando sacanagem. (No bom sentido, é claro).
Voltei só prá dizer que ainda estouj rindo do olho cego do Zé Ramalho...
E aí, seu Marconi, tudo bem?
Só estou escrevendo pra dizer que nunca fui a uma praia de nudismo. Pra não humilhar meus semelhantes.
Um abraço.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!
Excelente! Que bom rir assim, do nada, no meio da tarde...
Abraços!
Bah essa pessoa se supera..
só pra agradecer as gargalhadas, Marconi.
um abraço.
Ce eh foda, rapaz. Quando eh que voce vai assumir o R.C. e esquecer dos seus escritos se nao forem publicados so nele, tipo, recolhendo os livros da plateleira e sendo explorado por mim?
abraxao!!!!
RF
Essas discussões (cheias de referências e intertextualidade) de casais neuróticos que vez ou outra encontro aqui sempre me divertem.
Foi mal o comentário um tanto pernóstico acima, mas não consegui evitar. Ótimo texto, como sempre. Um abraço.
Sandra Regina??? Sandra?? Assim tu acaba comigo, Marc!!!
beijos
Como os freqüentadores da Praia de Tambaba, na Paraíba, receberiam essa crônica? Valeu, cara! Um abraço.
Você sempre é bom, mas essa saiu ainda melhor. Ri pracaramba! :)
inveja do pênis foi a melhor... hehehehehehehehehe
Rapaz, uma vez eu fui em Trancoso, praia de nudismo na Bahia. eu estava vestido, mas doido para botar as jóias da família pra fora. Estava com colegas de trabalho e ficaria complicado. Mas eu vi um casal jogando frescobol pelado. É quase tão engraçado quanto os seus textos.
Carpe Diem.
Ô mulherzinha chata essa Sandra Regina... Sensacional!
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