07 junho, 2007

LIXO ELETRÔNICO


Alguém espalhou por aí que eu tenho o pinto pequeno, mau hálito, sou broxa, gordo, estou desempregado e precisando urgentemente de remédio para hemorróidas. Pelo menos é o que se depreende do conteúdo dos e-mails que ando recebendo ultimamente.
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De uns tempos para cá, a leitura do meu correio eletrônico tem servido para aniquilar meu ego de tal forma que já começo a considerar a conversão ao zen-budismo. Coisa que, segundo uma correspondência que acaba de chegar, pode ser feita em cinco vezes sem juros, com um desconto de 10% para quem atingir o nirvana até a primeira semana.
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Tenho recebido todo tipo de spam, me oferecendo desde chicletes para a cura da hanseníase até o emplastro Brás Cubas. E, havendo herdado de minha vó uma ligeira tendência à hipocondria, fico seriamente preocupado após sua leitura. Pior: começo a desenvolver estranhos sintomas.
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Recentemente, por exemplo, um indivíduo insistia em me vender células-tronco para a cura de minha lordose. Li aquilo ali com a atitude superior de quem sabe não ter a doença. Ri, inatingível. Zombei do missivista, implacável. E demorei duas horas para me levantar da cadeira e me dirigir à cozinha, sentindo uma leve fisgada nas costas e imitando o galante andar de Quasímodo.
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De outra feita, entrou em contato comigo um sujeito que, sem dúvida preocupado com minha condição de sedentário militante, mercadejava comprimidos para insuficiência cardíaca. Não cheguei a ler todo o e-mail. Não porque ficasse irado e o mandasse para a lixeira imediatamente. E, sim, porque começou a me atacar uma falta de ar tão grande e tal dificuldade para falar que, por um momento, cheguei a pensar que era o Francisco Cuoco.
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Ainda ontem, após a leitura de mais uma dessas propagandas, passei a sentir terríveis dores na barriga e tive certeza de que haviam chegado as primeiras contrações. Estava no meio dos preparos do enxoval quando, mais centrada, minha mulher me advertiu para o fato de que, por uma dessas injustiças da natureza, não havia ainda desenvolvido um útero, o que tornava a minha gravidez um tanto implausível.

— Ah, é? — perguntei, desafiador, apontando para a minha placenta, que escorria sobre o taco. — E essa água toda aqui no chão?
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Ela soltou um profundo suspiro e balançou a cabeça, incrédula. Não falamos mais sobre o assunto. Mas eu já respondi a um atravessador de confiança e está tudo certo. Amanhã me chegará pelo Sedex um medicamento para incontinência urinária.

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