17 junho, 2007

ESTOU PARANDO DE FUMAR (3)


Aos fumantes que me lêem e que, sendo acometidos qualquer dia destes de uma súbita enfermidade mental, decidam assim, de repente, parar de fumar, aconselho antes de mais nada a compra de correntes de ferro de tamanho razoável e bons cadeados.

Munidos então dos petrechos necessários, amarrem a geladeira, lacrem os armários de comida e joguem as chaves fora. Importante: resistam à tentação de comer as chaves. Mais importante: se engolirem as chaves, resistam à tentação de recuperá-las mais tarde.

Digo isso porque, não tendo obedecido a tão assazonado procedimento, em minha sanha devoradora, após saciar-me com uma caixa de fósforos inteira e papar, de sobremesa, o fundo de cinco canetas Bic, atirei-me contra a geladeira e os armários mais bravo que mil saldunes, ingerindo os alimentos de acordo com o profundo critério nutricional de Obelix.

A verdade é que, parcimonioso, separei os alimentos em duas categorias: quase tudo e o resto. De entrada, comi quase tudo. Em seguida, o prato principal. E informo aos senhores, pessoas pouco estudadas e nada afeitas às iguarias da nouvelle cuisine, que descobri combinações culinárias perfeitas e jamais testadas antes, como la crème de feijón geladô à la mayonnaise avec presunt, cebolá et banane.

E muitos outros pratos ainda teria inventado, para glória da culinária pátria e engrandecimento do meu Recife natal, se em cerca de duas horas, mais daninho que um gafanhoto egípcio, não houvesse feito passar através do meu esôfago tudo quanto havia dentro de casa para se comer — cabendo, evidentemente, nessa classificação, duas tampinhas de ketchup, seis caroços de azeitona e um pequeno tupperware.

Acabara de descobrir as delícias do picolé de carne crua congelada, quando minha mulher entrou na cozinha, em desespero:

— Cadê o meu bonsai?
— Ué? Sei lá de bonsai! Bonsai!
— Pelo amor de Deus, Marconi, não me diga que você comeu o meu bonsai! O meu bonsai tava aqui, em cima da pia!
— Um verdinho?... Com jeitão de brócolis?... Um cheirinho assim de ervas?... Algo crocante?...
— Chega! Vou acabar com isso agora!
E, falando assim, saiu de casa, furiosa como a Rainha da Noite, voltando minutos depois com uma sacola de farmácia cheia de pacotes de adesivos e chicletes de nicotina.
— Tó. Vê se agora tu resolve o teu problema — ordenou, me passando a sacola.
— Eu não vou usar isso! — protestei.
— Ah, vai! — decidiu.

E eu que, a exemplo do bom Quincas Borba em seus áureos tempos, sou louco mas ainda não perdi totalmente a lucidez, não discuti com minha amada consorte.

Enérgica, ela então me fez tirar a roupa e saiu colando adesivos por todo o meu corpo. Quando acabou, eu parecia uma caixa de Sedex.

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