29 junho, 2007

MAIS TUMBU (AGORA CORRETO!)


Para variar, vocês, leitores descrentes e de pouca capacidade analítica, duvidavam. Mas não Adelaide, que é um anjo de pessoa, além de, ao contrário de vocês, dominar as regras do bom português. (E não, quando falo em bom português não estou falando em ninguém que trabalhe em botequim.)

Confiram portanto no Primeira Fonte
(entrem na seção "Feira do Autor" no menu do lado esquerdo e, em seguida, no pé da página, no link "É Coisa Nossa") a bela resenha que ela escreveu sobre o meu Tumbu e morram de inveja, seu detratores.

Por fim, vou logo avisando que, a partir da próxima segunda-feira, este blog voltará a ser publicado diariamente, como nos velhos tempos.
Isso, se eu não estiver mentindo, claro.
***
(Eu sei, eu sei, eu tinha dito quarta-feira. Mas, o que é que se pode fazer? Ao contrário dos senhores, eu trabalho. Segunda-feira, volto, prometo. E se estiver mentindo, que seja obrigado a ler um exemplar de Veja inteirinho. Obs.: já ajeitei o link para o texto da Adelaide. Confiram.)

27 junho, 2007

NA GRÉCIA ANTIGA


— Nevermore! Nevermore!
— Quer parar?
— Que foi? Não gosta de Poe?
— Gosto. Não gosto é de anacronismo. Será que você não percebe que a América nem foi descoberta ainda? Além do mais, você não é um corvo!
— Você e seu perfeccionismo. Todo metido a intelectual. Não é à toa que te prenderam aí. Tudo bem, troco de poeta. Que tal um pouco de poesia brasileira do século XXI?
— Não, pelo amor de Zeus! Volte a comer meu fígado, eu imploro!
— Relaxa, bicho. Se solta. Se a gente vai passar a eternidade juntos, o
melhor é quebrar o gelo. A culpa não é minha de você tá aí.
— Não, a culpa é do Montesquieu, que não nasceu ainda. Se houvesse separação dos poderes, eu exigiria a anulação do julgamento.
— Também, que idéia! Dar a razão aos homens! Pff! Se ao menos tivesse dado a razão a outros animais de maior aptidão, como a lesma ou o ouriço.
— E daí? Grande coisa! Dei a razão aos homens e eles nunca usaram. Pior foi Pandora, que abriu aquela bolsa e liberou a dor, o sofrimento, a velhice, a miséria, a música sertaneja e o telemarketing. E nem por isso mereceu o meu castigo... Ai! Isso aí é meu pâncreas, pô!
— Foi maus. Mas é que tá difícil de distinguir o teu fígado aqui. Tá tão escondidinho, meio deteriorado...
— Ah, isso é por conta da pouca água.
— Pouca água no fígado?
— Pouca água no vinho. Ai, que saudade dos bacanais! E pensar que nunca mais vou poder curtir um efebo...
— Não faz assim, bicho. Eu não posso ver um personagem mitológico chorando que choro também. O que é que eu posso fazer pra te ajudar?
— Bom, pra começo de conversa... QUE TAL SE VOCÊ PARASSE DE BICAR O MEU PINTO?!!
— Ops, me distraí.
— Urubu!
— Não xinga, hein. Tô tentando te ajudar e é assim que você me trata? Já sei! Quer que eu te cante uma musiquinha?
— Boa. Eu te acompanho batendo palmas!
— Puxa, pra que tanto sarcasmo? Você é muito amargo, bicho. Deviam ter te condenado a perder o baço, isso sim.
— Rapaz, vou te contar, passar a eternidade acorrentado, tendo o fígado comido, tudo bem. Agora, ter a companhia de um
urubu falante é que são elas.
— Abutre! Eu sou um abutre!
— Tem certeza? Tô começando a achar que tu é um papagaio...
— Eu só queria deixar a nossa convivência mais agradável, como entre todo torturador e torturado...
— Relação agradável entre torturador e torturado? Vê-se logo que você nunca casou. Vem cá, por que é que tu não dá uma volta por aí, vai encher o saco do Sísifo, por exemplo, hein?
— Chega! Nunca fui tão humilhado. Fiz de tudo pra ser teu amigo, bicho. Agora, agüenta!
— Ah, é? Vai fazer o quê? Se queixar ao hierofante? Hein? Olha pra mim. Você por acaso acha que algo pior pode me acontecer? É cada... Não! Por favor! Pára! Ha, ha, ha! Não! Hu, hu! Tudo menos isso! Cosquinha no sovaco, não!

25 junho, 2007

LAUGHING BLOGGER AWARD



Numa clara demonstração de que são homens sem preconceitos bobos, meus amigos Cláudio e Marco resolveram dar o selo para mim, com a condição de que também eu o desse a mais cinco.

— Não dói? — perguntei, aflito.

Ao que eles me tranqüilizaram:

— Só depois dos quatro primeiros.

Em sendo assim, me enchi de coragem e, agradecendo a deferência para comigo, passo o selo adiante aos abaixo listados, a quem aconselho também dá-lo para mais cinco blogueiros que façam rir.


Afinal, só se deve dar o selo àqueles que nos fazem rir. Caso contrário, já vira união civil.

E, antes que me esqueça, o selo é este aqui:



Aos indicados.


FRANCIEL

Trata-se de um grande admirador de ACM, que vem sofrendo muito ultimamente com a internação do pobre senador baiano. Sofrimento só dirimido ante o fato de que seu também grande ídolo, Chico Buarque, a quem chama carinhosamente de Fanho, continua firme e forte.


CABAMACHO

Homem de prosódia doce e desprovida de termos de baixo calão, o Cabamacho foi um seminarista exemplar, só tendo abandonado a Igreja por discordar da liberalização promovida pelo Concílio Vaticano II. Atualmente, dedica-se a decorar os 10 mandamentos do bom cristão no trânsito, lançado por Bento XVI.


SERBÃO

Quando vivo, Serbão era grande entusiasta de Caetano Veloso. Não propriamente por sua vocação musical, mas sim pela verborréia inteligente e a modéstia do compositor. Agora que morreu, Serbão deixou muitas saudades, sobretudo em seus inúmeros credores, além de uma ridícula pensão para a viúva.


HIPOPÓTAMO ZENO

Zeno, Pinto e cia. fazem um blog que, se fosse de direita, teria muito witticism e várias referências eruditas. Pena que, sendo um veículo vendido ao movimento comunista internacional, como bem notou o arguto Reinaldo Azevedo, o HZ não passa de um blog engraçadinho.


TOCA DO ENERGÚMENO

Apesar de — segundo se propala no Rio Grande do Sul — ter o pinto pequeno, mau hálito, chulé, raros cabelos, grande barriga, ser alcoólatra, ex-cafetão desempregado, inculto, pouco inteligente, corrupto, viciado em cocaína, morar com a mãe, bater em mulher, coçar o saco em público e tirar meleca do nariz com o dedo mindinho, o Energúmeno até que me faz rir, muito de vez em quando, se estou de bom humor.

22 junho, 2007

DAS VANTAGENS E DESVANTAGENS DE SE CRIAR UMA HEROÍNA DE TELENOVELA EM CASA


Segundo sociólogos, antropólogos e outros acadêmicos de ego um pouco menor, a humanidade pode ser dividida em três grandes grupos, de acordo com o seu caráter: as pessoas de bom coração, as pessoas que fingem ter bom coração e as heroínas de telenovela. Sendo que, das três, as heroínas de telenovela são as únicas que não soltam pum.

É bem verdade que a literatura especializada registra que no México, em 1984, houve uma heroína de telenovela que soltou um pum. Mas esta, apesar de estar sozinha em casa, imediatamente caiu fulminada por uma crise de má consciência que a levou à morte. Ou isso, ou foi uma infecção intestinal causada por aquela tortilla estragada, não se sabe ao certo.

O fato é que as heroínas de telenovela jamais acordam com o cabelo despenteado, não têm mau hálito nem, sendo de raça, soltam pêlos. E são as criaturas mais dóceis e pacíficas do mundo, desde que seus donos jamais inventem de tocar em sua maquiagem, claro. Ocasião em que as heroínas de telenovela podem se tornar mais belicosas que um diplomata americano.

Há registros de uma heroína de telenovela que, na Venezuela, em 1992, teve parte do seu blush borrado por um desavisado. Depois de sofrer um brutal ataque, o pobre homem jamais conseguiu voltar a sincronizar a fala com a articulação da boca e está condenado pelo resto dos seus dias a parecer uma dublagem do SBT. Sem dúvida, um gênero de crueldade jamais visto, nem mesmo no teatro grego.

Quanto à heroína de telenovela, fugiu de seu cativeiro — uma incubadora de heroínas de telenovela da RCTV — e nunca mais foi vista. De acordo com relatos de populares, ainda hoje, em noites de lua cheia, pode-se ouvir pelas ruas de Caracas uma voz feminina cantando lugubremente a música-tema de Maria do Bairro, entrecortada por longos suspiros.

Há também quem acredite que, após o episódio, a jovem cortou os cabelos, ganhou alguns quilos, não usa mais saltos, só se veste de vermelho e, ao final de alguns anos, virou presidente do país. Mas isso, evidentemente, não passam de lendas urbanas difundidas pela mídia de direita.

Voltando ao campo científico, o que se pode afirmar, com certeza, é que as heroínas de telenovela são criaturas resistentes, que sobrevivem até mesmo nos ambientes mais inóspitos, como o horário nobre da televisão. Talvez por sua origem: afinal, nasceram no vácuo, dentro da cabeça dos autores de TV.

Em suma, por tudo o que acima ficou dito, pode-se afirmar em relação às heroínas de telenovela que elas reúnem inúmeras qualidades e suplantam por larga margem todos os outros bichinhos de estimação atualmente disponíveis no mercado, com exceção talvez das modelos de passarela e dos lêmures.

Possuem, porém, uma pequena desvantagem: por desconhecerem o sexo, não são boas para a procriação. Assemelhando-se, nesse aspecto, aos pit bulls, quando castrados. Mas perdendo, em termos de prazer proporcionado ao dono, para o pastor alemão. Desde que este tenha as unhas aparadas, óbvio.

20 junho, 2007

APÓLOGO


— Não acredito! E o que foi que ele disse?
— Ah, ele caminhou até onde eu tava, se virou pra mim e... Ele tava com aquela coceira, aquela coceira que dá na bunda, por conta do... Como é mesmo o nome daquilo?
— Furico?
— Não, o bichinho.
— Bichinho? O meu, eu chamo de furico.
— Não, o bichinho que motiva a coceira, cara. Aquele...
— Bichinho que dá coceira no furico... Pinto?
— Não, tem um nomezinho engraçado, assim... Óqui... óxi...
— Ah! É... Oxímoro!
— Não, se fosse oxímoro, a coceira não coçava. É parecido...
— Oxítona!
— Uf! A coceira é na oxítona, mas a palavra é proparoxítona.
— Oxiopia?
— Não, o olho do c... não enxerga tão bem assim.
— Oxidulado!
— Nesse caso, só se ele fosse um CDF, né? Além do mais, oxidulado é paroxítona. A coceira é oxi... oxi alguma coisa, rapaz... Bom, deixa pra lá, depois eu me lembro. O caso é que ele tava com esse oxi não sei das quantas aí e tava se coçando com um... Como é mesmo que chama o pau do japonês?
— Pequeno.
— O talher do japonês, aquele pauzinho de comer, mermão! É orra... orra...
— Meu!
— Muito engraçado.
— Orraio que o parta!
— Ha, ha, ha. Enfim, não lembro agora. Ele chegou se coçando com o pauzinho, veja você que nojeira. Do lado dele tava aquele irmão dele, lembra? Aquele... o... aquele que tem nome de general americano.
— Electric.
— O general herói da Segunda Guerra, cara, que era chamado de “Old Blood and Guts”. Aquele que tem até nome parecido com nome de ave...
— General Chicken!
— Não. Patton. Qual era mesmo o primeiro nome do general Patton?
— Você por acaso acha que eu batizei o general Patton?
— Pô, cara, é o mesmo prenome daquela escritora francesa...
— Simone.
— Não, a amante do compositor clássico... O que tem nome de bebida...
— Uiscóvski.
— Não, cara, Chopin. Ah, deixa, deixa pra lá. Chega! Não vou te contar mais nada!
— Tudo isso porque eu não tenho cultura?
— Tudo isso porque você não tem iniciativa! Eu faço de tudo e você nem liga!
— Faz de tudo? Como assim?
— Será que não percebeu que esse papo todo era só uma desculpa, que eu tava te dando bola?
— Por favor, volta aqui! Não faz isso!
— Já fiz, Mouse, já fiz! (sai)
— Volta! Só agora me dei conta! Dessa vez eu te aperto, Hiperlink!

19 junho, 2007

ESTOU PARANDO DE FUMAR (5)


O efeito dos adesivos e dos chicletes acabou dentro de algumas horas, o que me fez cair numa depressão tão profunda quanto a de Raskolnikov. A ponto de ter baixado a coleção completa de Lupicínio Rodrigues pela internet para escutar, acompanhado do excelente vinho Sangue de Boi, safra 2005.

Por sorte, minha mulher tinha trazido da farmácia um estoque suficiente para me abastecer em caso de uma guerra nuclear, de maneira que logo me muni de mais alguns pacotes, chegando a compreender pela primeira vez, em sua inteireza, o que Rimbaud buscava para o desregramento de todos os sentidos: uma boa dose de nicotina.

Assim, durante cinco dias, com muita luta, não toquei absolutamente em nenhum cigarro. E me livrei do vício do fumo de maneira exemplar, substituindo-o por algo muito mais saudável: o vício de chicletes e adesivos de nicotina.

Quando sentia uma falta muito grande de fumaça, seguia recomendações médicas e descia de manhã para dar uma boa caminhada embaixo do prédio. Sempre aproveitando o momento em que um morador ligava o carro para me abaixar e dar uma boa cafungada no escapamento do automóvel. E, claro, desenvolvi o bom hábito de cheirar isqueiros ou, em momentos de maior tensão, beber o seu fluido.

Espírito empreendedor e inventivo, tentei ainda alguns substitutos ao fino que satisfaz, desenvolvendo um cigarro artesanal a partir da rúcula enrolada em tufos de alface ou do palmito recheado com couve. Projeto que não foi adiante devido, única e exclusivamente, à falta de incentivo do governo, da estreita visão do empresariado nacional e das queimaduras de segundo grau que tive nos dedos.

A partir do sexto dia, já percebia que minha saúde estava cem por cento melhor. Meus dentes pareciam mais brancos, meu hálito, ótimo, e digo mesmo que me sentia com um humor de sambista. Mais precisamente, do Jamelão.

Abro aqui um parêntesis para dizer a vocês que o preconceito é algo terrível. Imaginem que, nesse tempo, meus próprios amigos e familiares se afastaram de mim. Só porque, quando falavam comigo a respeito de qualquer coisa, eu sempre respondia a eles com uma leve tentativa de lhes arrancar o nariz a dentadas.

Sim, estava um pouco irritadiço e com os nervos descontrolados, mas nada muito grave. Afinal, convenhamos, quem é que nunca na vida tentou atirar a bicicleta ergométrica pela janela? Ou nunca chorou copiosamente ao assistir a um episódio especialmente emocionante de Chaves?

O certo é que, lá pelo décimo dia, já tinha gasto o dinheiro do mês inteiro com adesivos e chicletes, que já não faziam mais efeito. E me divertia com novos passatempos, que me distraíam do antigo hábito de fumar: meter a cabeça na parede, esmurrar portas e janelas, rasgar fronhas de travesseiros, fazer xixi no teto do banheiro etc.

Até que uma bela tarde, após ter passado o dia inteiro me dedicando a jogar futebol na sala, usando um balde de alumínio como bola e, dessa maneira, quebrado inadvertidamente um dos vasos de planta que formavam a baliza —, minha mulher se ajoelhou diante de mim, chorosa, e me pediu pelo amor do Nosso Senhor Jesus Cristo e em nome da nossa vida em comum que eu voltasse a fumar.

Como sou um homem de princípios, mas muito sensível à instituição do casamento e à fé, saí-me com uma decisão que foi um meio-termo. A partir de então, passei a fumar apenas quando bebo.

Assim, tudo se normalizou. Tornei a sorrir, meu organismo voltou a funcionar normalmente. E a boa notícia é que, já a partir da próxima semana, começarei meu tratamento contra o alcoolismo.

18 junho, 2007

ESTOU PARANDO DE FUMAR (4)


Devidamente embalado para presente, apanhei então quatro caixinhas de chiclete de nicotina, abri-as e enfiei aquilo tudo na boca, o que me levou a meditar profundamente sobre o surpreendente nível de desenvolvimento a que chegou a tecnologia de nosso tempo, os avanços indescritíveis da civilização ocidental e a espantosa capacidade criadora do engenho humano.

Afinal de contas, ainda hoje me pergunto, abobado: mas meu Deus do céu, como é que os nossos cientistas conseguiram produzir algo mastigável a partir, tão-somente, do cocô de uma vaca? Porque, pelo sabor da goma de mascar, sem dúvida esta foi a matéria-prima utilizada em sua produção.

No entanto, como o carpete da sala fosse a última coisa que restava em casa minimamente assemelhada a comida, resignei-me, vesti minha roupa e voltei ao sofá, mascando os tabletes, fingindo não ouvir as risadinhas abafadas do maço de cigarros e sentindo uma imensa dificuldade para andar.

Isso porque um dos adesivos, que originalmente deveria ser colocado na virilha — talvez por vingança, talvez por um certo interesse em astronomia —, minha mulher acabou por colá-lo entre a coxa e partes flácidas, cabeludas e algo baloiçantes do meu corpo, de maneira que cada movimento das pernas provocava um puxão que me levava a um instrutivo passeio pela Via-Láctea.

Mas, por fim, consegui sentar-me e fiquei ali sem fazer nada nem pensar em coisa alguma. Ou seja, assistindo à televisão. E não sei bem se foi o programa da Luciana Gimenez ou se foi o efeito da nicotina no meu sangue, mas a verdade é que, em cerca de vinte minutos e através de um processo taumatúrgico ainda não catalogado, de repente me vi transformado no senador Eduardo Suplicy: estava absolutamente relaxado, não conseguia articular direito as palavras, tinha o raciocínio lento e uma irrefreável vontade de cantar “Blowin’ in the Wind”.

— Você tá bem? — perguntou minha mulher, meia hora depois, ao perceber que me contorcia, às gargalhadas, debruçado sobre o chão.
— As formigas, mulher... Ha! ha! ha! Ui! Eu morro...
— Ahn?
— As... as form... Hi! hi! hi! Ai, Jesus! As formig... formi... Quá, quá, quá!
— Qual o problema das formigas?
— Elas... elas... Hu! hu! hai! Ai! Antenas! He! he! hi!
— Quê?
— Antenas, mulher...
— Mas do que é que você tá falando?
— As formigas, elas têm antenas. Ha! ha! ha! Antenas! Hu! hu! Não é hilário?

Ela não achou. Aliás, pouco dada ao humor e a novas descobertas, nem ao menos sorriu quando eu, me estourando de rir, desvelei que a porta tinha trinco, o interruptor acendia a luz, a geladeira esfriava e tantas outras coisas igualmente risíveis e interessantes do gênero.

— Tu comeu maconha, foi? Vou te levar de volta pro hospital! — reagiu.

Mas, não lhe dei ouvidos. E só parei de gargalhar muito tempo depois. Quando, em minha científica atividade investigativa, descobri mais um fato curioso: que, sim, é possível levar choque ao enfiar a língua na tomada.

17 junho, 2007

ESTOU PARANDO DE FUMAR (3)


Aos fumantes que me lêem e que, sendo acometidos qualquer dia destes de uma súbita enfermidade mental, decidam assim, de repente, parar de fumar, aconselho antes de mais nada a compra de correntes de ferro de tamanho razoável e bons cadeados.

Munidos então dos petrechos necessários, amarrem a geladeira, lacrem os armários de comida e joguem as chaves fora. Importante: resistam à tentação de comer as chaves. Mais importante: se engolirem as chaves, resistam à tentação de recuperá-las mais tarde.

Digo isso porque, não tendo obedecido a tão assazonado procedimento, em minha sanha devoradora, após saciar-me com uma caixa de fósforos inteira e papar, de sobremesa, o fundo de cinco canetas Bic, atirei-me contra a geladeira e os armários mais bravo que mil saldunes, ingerindo os alimentos de acordo com o profundo critério nutricional de Obelix.

A verdade é que, parcimonioso, separei os alimentos em duas categorias: quase tudo e o resto. De entrada, comi quase tudo. Em seguida, o prato principal. E informo aos senhores, pessoas pouco estudadas e nada afeitas às iguarias da nouvelle cuisine, que descobri combinações culinárias perfeitas e jamais testadas antes, como la crème de feijón geladô à la mayonnaise avec presunt, cebolá et banane.

E muitos outros pratos ainda teria inventado, para glória da culinária pátria e engrandecimento do meu Recife natal, se em cerca de duas horas, mais daninho que um gafanhoto egípcio, não houvesse feito passar através do meu esôfago tudo quanto havia dentro de casa para se comer — cabendo, evidentemente, nessa classificação, duas tampinhas de ketchup, seis caroços de azeitona e um pequeno tupperware.

Acabara de descobrir as delícias do picolé de carne crua congelada, quando minha mulher entrou na cozinha, em desespero:

— Cadê o meu bonsai?
— Ué? Sei lá de bonsai! Bonsai!
— Pelo amor de Deus, Marconi, não me diga que você comeu o meu bonsai! O meu bonsai tava aqui, em cima da pia!
— Um verdinho?... Com jeitão de brócolis?... Um cheirinho assim de ervas?... Algo crocante?...
— Chega! Vou acabar com isso agora!
E, falando assim, saiu de casa, furiosa como a Rainha da Noite, voltando minutos depois com uma sacola de farmácia cheia de pacotes de adesivos e chicletes de nicotina.
— Tó. Vê se agora tu resolve o teu problema — ordenou, me passando a sacola.
— Eu não vou usar isso! — protestei.
— Ah, vai! — decidiu.

E eu que, a exemplo do bom Quincas Borba em seus áureos tempos, sou louco mas ainda não perdi totalmente a lucidez, não discuti com minha amada consorte.

Enérgica, ela então me fez tirar a roupa e saiu colando adesivos por todo o meu corpo. Quando acabou, eu parecia uma caixa de Sedex.

16 junho, 2007

ESTOU PARANDO DE FUMAR (2)


Como disse um grande sábio, o maior problema de parar de fumar é que a gente não pode fumar um cigarro para passar a tensão que a falta do cigarro provoca. E eu sou uma pessoa ligeiramente tensa. Tanto que só consigo relaxar e dormir após ler algo leve e divertido, como a “Crítica da Razão Pura” de Kant, por exemplo.

Mas, profundo conhecedor da milenar cultura brâmane, domino razoavelmente as técnicas da meditação: esvaziar a mente, não pensar em nada, deixar a cabeça oca. Ou seja, fingir que é a Narcisa Tamborindeguy. E foi isso o que me salvou durante a minha primeira hora de provação sem nicotina.

Tão-logo voltei do hospital, pus-me na posição da jaca (posto que, com a barriga que desenvolvi nos últimos tempos e minha fantástica elasticidade, só conseguiria ficar na posição do lótus com a ajuda de um guindaste e, infelizmente, nós não possuímos automóvel em casa), respirei fundo e iniciei a meditação macunaímica, uma variante que desenvolvi e em que, para maior comodidade, o asceta fica com um olho aberto e outro fechado.

De cima da mesa, o maço de cigarros me olhava sorrateiro e, certamente municiado pelos pérfidos ditos do espelho, juro que o ouvi cantar baixinho: “Free, sempre Free, eu sou Free demais”. Fingi que não era comigo. Ele insistiu:

— Uhm! Que fedor de oxigênio!

Continuei firme, repetindo o meu mantra: “a mercadoria é um fetiche, a mercadoria é um fetiche”.

E digo a vocês, com orgulho, meus caros camaradas, que passei incólume por aqueles primeiros sessenta minutos: sentindo os pulmões funcionarem a pleno vapor, uma sensível melhora no olfato, maior ânimo, boa disposição e uma enorme saudade das unhas das mãos.

Quando acabei de roer as unhas do pé e começava a arrancar tufos de pêlos das canelas com os dentes, vi que aquilo não podia continuar e, voltando a mim, parti para algo mais racional: comer palitos de fósforo. Aconselho os da Fiat Lux. São mais maleáveis e desmancham melhor ao contato da saliva. O maço de cigarros gargalhava.

Vencidas quatro horas de abstinência, eu já estava plenamente convicto de que a grande inspiração de Stevenson para escrever o Mr. Hyde havia sido parar de fumar e, ainda que agnóstico, já rezava a Deus com toda a devoção para que a menstruação viesse logo, pois tinha certeza de que estava com TPM.

Desenvolvi, aliás, durante esse período, uma tese que deixo aqui como incomensurável contribuição ao desenvolvimento do estudo da História: fosse o exército cartaginês composto apenas de ex-fumantes, estaríamos aprendendo a língua púnica até hoje nos colégios.

Quanto a mim, estava num tal estado de nervos que seria capaz de enfrentar um batalhão de espartanos usando apenas um canivete suíço. E ainda dava duas orelhas de vantagem.

15 junho, 2007

ESTOU PARANDO DE FUMAR (1)


Pessoa com notório domínio sobre si e que, quando coloca uma coisa na cabeça, ninguém tira — estão aí meu dermatologista e sua luta vã contra a minha seborréia que não me deixam mentir —, decidi parar de fumar, mostrando assim para o meu corpo, de maneira definitiva, que só há uma pessoa no mundo capaz de mandar nele: minha mulher.

Tomei a sábia decisão há alguns meses, quando tive um acesso de asma tão violento que fez com que me sentisse um peixe no Rio dos Sinos. E não apenas pela luta para encontrar oxigênio, mas também pela compleição pálida e o olhar sensual de Naná Vasconcelos que adquiri.

Resoluto, logo após aquele incidente, que me levou ao hospital, arfando mais do que o Paulo Ricardo ao cantar música romântica, resolvi ter um grave diálogo diante do espelho:

— Vou parar de fumar — disse firme para ele que, cético, assobiava o Trenzinho Caipira.
— De novo? — riu o espelho, sarcástico e, provocador, passou a trautear o tema de Casablanca.
— Agora é sério.
— Sei. E volta quando?
— Tô falando que é sério. Por que você tá agindo assim?
— Puro reflexo.
— Mas pra que essa cara?
— É a única que você me oferece.
— Você podia ser mais compreensivo.
— E você podia perder uns quilinhos. Já viu como tá gordo?
.
Aqui ele começou a assobiar “Olha o passo do elefantinho”, sub-repticiamente.
.
— Estúpido! — reagi.
— !odipútsE — falou ele por fim, encerrando a discussão.

Depois desta altercação, decidi imediatamente fazer três coisas. Primeiro, jamais me rebaixar novamente e conversar com um móvel — exceção feita, talvez, à televisão, e ainda assim só para xingar o Carlos Nascimento. Segundo, parar de fumar, custasse o que custasse. Terceiro: perder uns quilinhos, pois o canalha do espelho estava certo.

Comecei pelo mais difícil que, no meu caso, era evitar falar com seres inanimados. Mas a decisão foi por água abaixo quando um exemplar do Aurélio caiu de cima da prateleira do quarto sobre o dedo mínimo do meu pé esquerdo, o que me obrigou a xingar a ascendência completa do ilustre dicionarista, usando palavrões em ordem alfabética e seguindo as normas da ABNT.

Para ganhar tempo, parti então para a segunda alternativa, que era emagrecer. Mas desisti, após dez dias de hercúleos esforços, ao perceber que a única maneira de perder peso seria amputando uma das pernas. E como deixei de ser fã do Roberto Carlos desde a música das gordinhas, abdiquei do plano.Restou então parar de fumar. Reuni, assim, todas as minhas forças e me entreguei de corpo e alma a este novo vício.

14 junho, 2007

ARTE? DEUS ME LIVRE! PREFIRO PÓS-MODERNISMO


Dizem alguns místicos e supersticiosos que, assim como a moral pública e o hábito de desejar bom-dia aos vizinhos, houve um tempo em que existiu também no mundo algo que levava o estranho nome de “arte”.

De acordo com esses crentes — cuja ala mais radical, imaginem, crê mesmo ter havido um dia jogadores de futebol no Rio de Janeiro e carnes revestindo os ossos da Dercy Gonçalves —, a “arte” era uma manifestação tipicamente humana, não sendo encontrada no mundo animal. Salvo, talvez, no caso de um ou outro político que a ela se dedicava.

Ainda segundo os crédulos, o fim último da “arte” seria provocar no público que dela gozava um sentimento de beleza ou prazer intenso que adviria da sublimação da energia sexual, processo semelhante ao que deu origem à TV no quarto e ao tricô.

Como em outras teorias do gênero, os esotéricos defendem ter a “arte” surgido na Grécia Antiga. Seriam ramos dela a “pintura”, a “escultura”, a “literatura”, o “teatro”, a “música” e a “pederastia”.

Sendo que, de todos, a “pederastia” era o único que impedia o artista de se sentar no dia seguinte. E, ao contrário dos demais, ainda subsiste, apesar de mais complicada após a substituição da túnica pela calça jeans.

A se crer nos espiritualistas, a “arte” teria sido cultivada até mais ou menos o final do século XIX, meados do século XX, quando deu lugar a outras formas de expressão, ainda hoje de objetivo não definido, qual sejam colocar fuscas no teto do Masp, jogar tintas aleatoriamente em quadros, inventar e aplicar vocábulos em frases sem encadeamento lógico, pop music e peças de Gerald Thomas.

Por incrível que possa parecer a alguém mais instruído, os devotos fazem supor que a capacidade de análise dos antigos era parcíssima, pois não utilizariam no julgamento da chamada “obra de arte” conceitos tão científicos e relevantes quanto “rebelde”, “revolucionário”, “inovador”, “moderno” ou “antenado”, mas simplesmente definições tão pobres quanto “belo” ou “feio”.

No entanto, apesar dos esforços dos cenobitas, especialistas e acadêmicos das mais diversas áreas descartam, por ridícula, a possibilidade de ter existido algo com as características dadas acima. E, tomando como parâmetro a sociedade atual, afirmam categoricamente que, até hoje, o que a humanidade conseguiu produzir de mais parecido com uma suposta “arte” foi mesmo, sem sombra de dúvida, a masturbação.

13 junho, 2007

NA PRAIA DE NUDISMO


— Tenta agir naturalmente, Ademar. Faz de conta que a gente tá no shopping.
— Eu não sei por onde você tem andado Sandra Regina, mas eu não me recordo de ter visto pintos balançando da última vez que eu fui no Iguatemi.
— Relaxa, Ademar! E vê se não fica olhando fixo. É proibido.
— Você devia dizer isso pro Zé Ramalho ali, ó.
— Que Zé Ramalho? Aquele homem? Mas se ele tá agachado, de costas pra gente, Ademar!
— Pois é. (cantando) “Um olho cego vagueia, procurando por um”. Confesso já vi paisagens melhores.
— Maldita hora que eu te trouxe pra cá. Pensei que a gente ia se divertir
— Desculpe se a minha idéia de diversão não envolve passar horas assando o prepúcio em público.
— Quanto exagero!
— Exagero? É fácil dizer isso quando a pessoa tem órgãos internos! Se eles tivessem uma sinagoga por aqui, eu me convertia ao judaísmo.
— Fica quieto, Ademar. Por que é que você não entra no clima?
— É que eu sou um cara muito careta, que acredita em coisas ultrapassadas e retrógradas como acomodar o saco em superfícies frescas.
— Só queria que a gente curtisse uma diferente...
— Pois conseguiu. Sabe que eu nunca antes tinha passado um dia inteiro tentando tirar areia de dentro do furico?
— Será que você não pode parar de reclamar por um minuto?
— Não. Quando paro de falar, volto a sentir o períneo.
— Olha a natureza, Ademar. Procura se harmonizar com ela.
— Mulher, quando eu quero me harmonizar com a natureza, eu leio Thoreau. Além do mais, eu e a natureza já somos íntimos. Ela me conhece por dentro.
— Você só vê as coisas pelo lado negativo, Ademar. Será que não percebe como uma experiência como essa é enriquecedora, como a pessoa cresce com ela?
— Cresce. O problema é que, quando cresce, o sujeito tem que ir no mar pra baixar de novo.
— Deixa de brincadeira, Ademar. Eu tô falando sério. Depois de uma vivência assim a gente ganha ânimo novo, fica mais sábio. Sinceramente, você não acha?
— Claro que sim. Por exemplo, se eu não tivesse vindo aqui hoje, jamais teria descoberto o sentido da expressão “entrou areia naquele negócio”.
— Esquece, Ademar.
— E não apenas isso. Quando aquele grupo de turistas africanos passou por aqui, minutos atrás, imediatamente me dei conta do que Freud queria dizer por “inveja do pênis”.
— Chega, Ademar. É impossível conversar contigo. Se ao menos você se enturmasse. Olha aí, por que não vai jogar frescobol com aqueles rapazes?
— Mulher, eu admiro muito os gregos, mas não a ponto de praticar esportes nu. Já pensou se uma bolinha dessas bate em cheio nas minhas termópilas?
— Você é um imaturo, Ademar, isso que você é. Uma pessoa cheia de recalques e preconceitos. Olha à tua volta. Todo o mundo age com naturalidade. Os teus valores tão equivocados. Além disso... Ahn? Que absurdo! Que indecência!
— Que foi, mulher?
— Fecha os olhos, Ademar! Não olha de lado!
— Mas o que foi, mulher, o que foi?
— Não olha, Ademar, que eu te capo. Onde nós vamos parar? Tem uma mulher totalmente vestida na praia!

12 junho, 2007

OS SEM-LIMBO


— É por aqui?
— Quem sabe? Maldito Bento XVI! Se ao menos tivesse oferecido um guia pra gente...
— Verdade. Na Idade Média era mais fácil andar por aqui. Hoje, não se encontra nem mesmo um poeta concretista disposto a mostrar o caminho!
— Poeta concretista? Impossível. Não se sai do inferno assim facilmente.
— Pera lá! Olha ali! Aquela túnica, as sandálias, a coroa de louros... Aquele ali não é o...?
— Não, não. Quem dera! É apenas um deputado brasileiro disfarçado de poeta clássico. Deu uma comissão pro diabo e conseguiu chegar no limbo travestido. Agora vai ali, liderando um grupo de empreiteiros.
— Empreiteiros? Tavam no limbo também?
— Pois é. O coisa-ruim recompensou eles por terem construído de graça os fornos do inferno.
— Ué? Mas o inferno é gelado!
— Empreiteiros brasileiros.
— Ah... Seja como for, agora estamos todos no olho da rua. Olha, vou te contar, ser despejado depois de centenas de anos como bom locatário não é nada. Ruim mesmo é ter que carregar essas crianças no colo. Como elas choram!
— Podia ser pior. Se a gente tivesse no céu, haveria milhares de cruzados adolescentes.
— Falar nisso, acho que é por ali.
— O céu? Duvido. Não tá vendo a quantidade de jornalistas, advogados e apresentadores de televisão?
— Será o inferno?
— Pelo tamanho da fila, se não for o inferno é coisa pior: a Disney ou a Alemanha Oriental.
— É o inferno.
— Como é que tu sabe? Viu alguma inscrição na porta?
— Não. Pelo som que chega até aqui.
— Chicotadas?
— Banda Calypso.
— Então, vem. Vamo por esse lado. Acho que eu tô vendo um anjo.
— Sem dúvida. E que par de coxas! Olha o rebol...
— Não, lá na frente! Um vulto. Flutuando. Olha ali.
— Ha! Que anjo que nada! A gente continua nas proximidades do inferno. Aquilo é o ego do Paulo Francis.
— Desisto. A gente já tá andando há uma eternidade. Cansei. Quem sabe não ficamos por aqui mesmo?
— No inferno? E as crianças? As crianças não podem ficar aí. Isso tá cheio de comunista, rapaz.
— Qual o quê! A essa altura o Carlos Lacerda já acabou com todos.
— Calma! Olha ali! Aquilo não é uma luz?
— Atrás dela! Corre! O paraíso é praqueles lados!
— Ih! Um portão!
— Fechado! Que é que tá escrito ali?
— “Heaven. Authorized personnel only.” Sabe o que isso significa?
— Que Deus é um colonizado?
— Não, que viemos parar no Paraíso de Milton!
— Putz! Dançamo. Vamo voltar.
— É... Paraíso perdido.

11 junho, 2007

CRISE CRIATIVA NA SEDE DA PF


— Sei não, acho que podia ser algo que remetesse ao sol se pondo sobre um mar cor de esmeralda, assim, tipo “Crepúsculo”.
— Que mané “Querepúrsulo”, rapá!
— Crepúsculo.
— Foi o que eu disse. “Queprúrsulo”, “Crepúrsio”, enfim, quem é que vai conseguir pronunciar isso? Além do mais, esse negócio de sol se pondo é coisa de veado. E a nossa é uma corporação séria.
— Que tal então um nome sugestivo da transitoriedade da matéria ante a impermanência do Universo, algo como, sei lá, “Devir”?
— “Devir”, Bigode? Tu ficou louco, cara?
— Qual é o problema?
— O problema é que precisa ser um nome simples, Bigode. Um nome que todo o mundo compreenda, porra!
— Então, quem sabe algo que insinue mais que revele, um lance assim meio oculto, que nem... “Veneta”, por exemplo. Taí, “Operação Veneta”.
— Olha que “Veneta” tem rima, Bigode! Pô, Bigode, pensa numa coisa simples, rapaz, simples. Esses anos todos tu tem inventado uns nome maneiro, cara. Teve “Fênix”, “Cavalo de Tróia”, “Anaconda”, “Sanguessuga”...
— Acabou-se, Batata. Perdi a inspiração, tô em crise, bicho, tô em crise.
— Que é isso, rapaz, não diz uma asneira dessa, a corporação acredita em você. Vamo lá, pô, é só pensar um pouquinho. Reage!
— Que tal...
— Olha aí, tá saindo...
— Onomatopéia!
— Ahn?
— Isso mesmo, “Operação Onomatopéia”! Bonito e...
— Porra, Bigode, a operação é pra prender bicheiro e não professor de português, cacete!
— Tá vendo? Acabou, Batata, lá se foi minha inspiração... Também, meu irmão, é muita corrupção, porra, todo o dia são bem dez operações, quem é que vai dar conta disso? Tô sobrecarregado, tô estressado... Eu...
— Não chora, Bigode. Pô, meu irmão, tão olhando pra cá, bicho.
— E-eu...
— Não fica assim, cara. Tu vai queimar meu filme.
— E-e-eu...
— Tudo bem, vem cá, vem cá... Isso, calma, calma. Ó o catarro na minha camisa, porra. Putz, que melequeira... Tá mais calmo? Hein? Não se desespera, cara. Relaxa que a coisa sai naturalmente... Isso, relaxa.... Tá melhor?
— S-sim.
— Ótimo. Quem sabe a gente adia a operação por uns dois ou três dias, hein? Isso mesmo. A gente fica esperando, pra que a pressa? Tudo em nome da arte.
— Não! Isso, não! Aí é muita humilhação... Espera... Espera lá...
— Respira... Isso... Sopra...
— Que...
— Isso... Fecha os olhos... levanta os braços...
— Que... tal...
— Inspira...
— Que tal Ma...
— Sim?
— Ma... ma...
— Ma... ma?
— Mama África! “Operação Mama África”, que tal? Hein? Hein?
—A gente por acaso vai prender o Chico César, Bigode?
— Não, pô! Olha a licença poética, Batata! Se liga na metáfora, mermão. Não é jogo do bicho? E onde tem mais bicho que na África, pô? E de onde vem o brasileiro, a maioria dos brasileiros... hein, hein?
— A maioria dos brasileiros eu não sei, agora começo a desconfiar que tu vem de Marte, Bigode... Olha, vamos fazer assim. Vamos suspender a operação. Dois ou três dias e...
— Suspender? É... é muita humilhação. Eu não aceito! Não aceito!
— Ei, Bigode, onde é que tu tá indo? Volta aqui, Bigode... Bigo... Puta que o pariu, trabalhar com artista é foda... Ô, alguém segura o Bigode aí! Ele vai tentar pular do prédio de novo!

08 junho, 2007

TERRORISMO (CONTINUAÇÃO)


Fico imaginando o sujeito, depois de ter cumprido o compromisso matrimonial (o que, convenhamos, se ele não for o Michael Douglas ou sofrer de priapismo será uma tarefa um tanto difícil), trêmulo, olheiras largas, exausto em sua confortável cama big-large-huge-king-Solomon-size, ladeado por suas consortes.

Após recuperar o fôlego, ele acende um narguilé e, olhando languidamente para as suas cônjuges, diz:

— Foi bom pra vocês?

Ao que uma delas retruca:

— Como “bom”? Com exceção da Revolução Francesa e do rodízio de carnes você por acaso conhece alguma invenção humana que envolva essa quantidade de sangue e que tenha tido alguma valia?
— Nem me fale! — emenda outra. — Só agora eu descobri como é que o Mar Vermelho ganhou aquela cor. O Paraíso deve desaguar nele...
— Pior que a guerra, menina — fala uma terceira. — Na guerra pelo menos a gente vê uma cabeça arrancada aqui, um homem trespassado acolá, tem mais movimento...
— E as armas são maiores, se é que você me entende — completa sua vizinha, e as reclamações se generalizam.
— Horrível! Que horas são, hein? Já se passaram 24 horas? Eu quero o meu hímen de volta!
— Somos duas. Quanta decepção. Tanta expectativa pra finalmente ver uma coisa caolha e torta cuja única função é levantar a cabeça pra cuspir!
— Urgh! E aquela coisa balançando ali embaixo? Uh-uh! Hilário. Pra que será que serve aquilo, meu Alá?
— Não sei, mas ele urrou de prazer quando eu mordi com força aquelas bolinhas que tem lá dentro, você viu?
— É uma espécie de bolsa, né? O interessante é que a gente não consegue abrir. Puxei de toda maneira e não teve jeito.
— Bobonas! Será que vocês não percebem que aquilo se chama “saco escrotal”? Então não sabem pra que serve, ora? É justamente pra abrir a boca dos homens. Eu apertei bem forte e funcionou na hora.
— Não, não, não! Pra abrir a boca é só enfiar o dedo naquele buraquinho que fica logo atrás da bolsa, minha nega. Comigo deu certo.
— Errado. Quando enfiei o dedo o que consegui foi fazer ele mudar de cor. Acho que a função é estética.
— Isso porque você não enfiou o dedo até o fim. Nesse caso, o que acontece é que aumentamos sua capacidade de salto. Não viram quando ele quase bateu no teto? Querem ver? Olhem aqui...

Mas nesse momento o homem já havia sumido. Desesperado, foi ter com o Profeta para rogar lhe transferisse imediatamente a um lugar menos inóspito, como o mármore do inferno, por exemplo, onde no máximo teria uma queimadura ou outra e não precisaria, todo mês e pela eternidade, suportar 72 TPMs nem discutir, infatigavelmente, 72 vezes a relação.

07 junho, 2007

LIXO ELETRÔNICO


Alguém espalhou por aí que eu tenho o pinto pequeno, mau hálito, sou broxa, gordo, estou desempregado e precisando urgentemente de remédio para hemorróidas. Pelo menos é o que se depreende do conteúdo dos e-mails que ando recebendo ultimamente.
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De uns tempos para cá, a leitura do meu correio eletrônico tem servido para aniquilar meu ego de tal forma que já começo a considerar a conversão ao zen-budismo. Coisa que, segundo uma correspondência que acaba de chegar, pode ser feita em cinco vezes sem juros, com um desconto de 10% para quem atingir o nirvana até a primeira semana.
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Tenho recebido todo tipo de spam, me oferecendo desde chicletes para a cura da hanseníase até o emplastro Brás Cubas. E, havendo herdado de minha vó uma ligeira tendência à hipocondria, fico seriamente preocupado após sua leitura. Pior: começo a desenvolver estranhos sintomas.
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Recentemente, por exemplo, um indivíduo insistia em me vender células-tronco para a cura de minha lordose. Li aquilo ali com a atitude superior de quem sabe não ter a doença. Ri, inatingível. Zombei do missivista, implacável. E demorei duas horas para me levantar da cadeira e me dirigir à cozinha, sentindo uma leve fisgada nas costas e imitando o galante andar de Quasímodo.
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De outra feita, entrou em contato comigo um sujeito que, sem dúvida preocupado com minha condição de sedentário militante, mercadejava comprimidos para insuficiência cardíaca. Não cheguei a ler todo o e-mail. Não porque ficasse irado e o mandasse para a lixeira imediatamente. E, sim, porque começou a me atacar uma falta de ar tão grande e tal dificuldade para falar que, por um momento, cheguei a pensar que era o Francisco Cuoco.
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Ainda ontem, após a leitura de mais uma dessas propagandas, passei a sentir terríveis dores na barriga e tive certeza de que haviam chegado as primeiras contrações. Estava no meio dos preparos do enxoval quando, mais centrada, minha mulher me advertiu para o fato de que, por uma dessas injustiças da natureza, não havia ainda desenvolvido um útero, o que tornava a minha gravidez um tanto implausível.

— Ah, é? — perguntei, desafiador, apontando para a minha placenta, que escorria sobre o taco. — E essa água toda aqui no chão?
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Ela soltou um profundo suspiro e balançou a cabeça, incrédula. Não falamos mais sobre o assunto. Mas eu já respondi a um atravessador de confiança e está tudo certo. Amanhã me chegará pelo Sedex um medicamento para incontinência urinária.

06 junho, 2007

TERRORISMO


Dos animais irracionais, o ser humano é, sem dúvida, o mais apto a provocar danos aos seus semelhantes. Isso, claro, se excetuarmos espécies mais brutas, como os executivos de empresas de planos de saúde e, num grau um pouco menos nocivo, os dragões quando tentam tirar cisco do olho uns dos outros.

Ao longo dos séculos, os homens conseguiram desenvolver uma série de estratagemas e artefatos cujo único fim é machucar ou atentar contra a vida do seu próximo (facas, lanças, revólveres, canhões e CDs de country music). E não só dele, mas até mesmo de seus nem tão próximos assim (mísseis intercontinentais e Canal do Boi).

Dentre as atrocidades perpetradas pelo ser humano, o terrorismo é a mais execrável e absurda. Quer dizer, a parte do sujeito amarrar bombas no corpo e se matar, levando dezenas de pessoas consigo, eu entendo perfeitamente, afinal morei muito tempo com minha sogra. Mas, na minha opinião, condenar alguém a passar a eternidade num lugar com 72 virgens e sem Coca-Cola é de uma desumanidade ímpar.

É provável que pessoas dadas a práticas fesceninas — nenhuma delas leitora deste blog, evidentemente, cujos freqüentadores todos são puros como um personagem de Taunay — imaginem que a vida no paraíso islâmico proporcione um prazer infindo, que seja ele uma espécie de Restaurante Popular sempiterno, onde, a exemplo dos demais, se entra com um pau e se come o quanto quiser.

Humildemente, no entanto, gostaria de chamar a atenção desses merecedores da geena para o fato de que, como Camões, eles estão tendo uma visão parcial da questão.

Não duvido que a função de fornicar em grande volume com mulheres inexperientes tenha o seu lado positivo. Sobretudo se você não for uma das mulheres.

E aos que querem difamar o Éden do Corão, insinuando ser impossível que tenha jovens virgens, produto inexistente no Ocidente, afirmo sua ignorância crassa. Até porque, como todos sabem, lá a entrada de padres católicos é proibida.

Mas, a não ser que seja brasileiro e tenha um mandato eletivo renovável de quatro em quatro anos, é provável que você não passe o tempo todo pensando em f... com outras pessoas. E é aí que está o problema.

(CONTINUA AMANHÃ)

05 junho, 2007

CADA UM TEM O SCHILLER QUE MERECE


Ontem me aconteceu uma catástrofe. Não me refiro, evidentemente, ao fato de que o inverno voltou irascível e com a declarada intenção de purgar os pecados de nordestinos expatriados.

Certo, não é a coisa mais confortável do mundo digitar, como faço agora, com uma mão de cada vez, enquanto esquento a outra sob o sovaco. E, sim, sinto muitas saudades do meu pinto, que sumiu há alguns dias, sem que, até o presente momento, tenha me escrito uma única carta.

Mas o problema não é esse. Andei conversando com alguns patrícios mais experientes, os quais me acalmaram e, pedindo paciência, asseguraram que no máximo em trinta anos já estarei acostumado ao clima paulistano. Isso, claro, na eventualidade de o efeito estufa ser refreado e ainda existir inverno àquela época.

Tampouco fui assaltado ou presenciei qualquer espécie de violência na cidade. O que, de fato, me leva à sensação de que não se pode mais confiar nem mesmo em instituições que, à primeira vista, pareciam constar entre as poucas a funcionarem no país, como o PCC. Mas não chega a ser uma calamidade.

Não. O desastre aconteceu quando escrevia o seguinte texto:

“Fico imaginando FHC soltando puns numa sala fechada.

— O que foi isso? — pergunta o atônito assessor, com o rosto lívido.
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— Flatos — diz o príncipe. — Ou seja, gases, compreende? E por que nosso corpo deixa escapar gases? A digestão, óbvio. Mas, alguém pode perguntar, qual o objetivo da digestão? E eu respondo: o que seria de nós sem ela? Poderia o ser humano viver sem peidorrar? Não. E por quê? Ora...

Antes que acabe a última frase, o assessor está estirado no chão e, meio grogue, cantarola ‘Adocica’. Compreende?”


Pronto, foi o que bastou. Desde então a — por assim dizer — música “Adocica”, enviada não sei por que entidade diabril, enfiou-se na minha cabeça para nunca mais sair.

Acreditem, “nunca mais” não é maneira de dizer. Já tentei de tudo: simpatia, sal grosso, reza e até prometi me controlar e nunca mais morder o dedão do pé ao ouvir um diálogo de telenovela.

De nada adiantou. Agora mesmo, o som está ligado e ouço o coral da Nona Sinfonia, que repete, num alemão impecável, os versos famosos: “A-do-ci-ca, meu amor, a-do-ci-ca. A-do-ci-ca, meu amor, a minha viiii-daaaa, ô!”

Suspeito que tenha sido praga. Maldita a hora em que fui falar de FHC.

04 junho, 2007

TUMBU 2 — O TRÁFICO



Pensava eu que, com minha coleção de Vejas e fitas de novelas do SBT, era a única pessoa a desperdiçar dinheiro conscientemente em coisas inúteis.

No entanto, dado o grande número de pessoas interessadas em comprar “Tumbu” e, ainda por cima, com meu autógrafo, percebo que a confraria é grande.

Sendo assim, para aqueles que querem ver minha horrenda caligrafia a enfear os seus exemplares e mesmo sob risco de ser preso por tráfico de drogas, forneço o meu e-mail:
marconileal@terra.com.br.

É só me passar o seu endereço e, em troca, darei o número da minha conta bancária para depósito de parcos R$ 25 (inclusas despesas com correio). Isso, claro, se o meu gerente for mesmo homem de palavra e ela ainda existir.

Para os demais, que dispensam contato com a minha pessoa, talvez imaginando que burrice pega, é só clicar aqui ou comprar a obra nas piores casas do ramo em suas cidades.

E não, não adianta sorrir. Vocês não estão livres de mim. Depois de amanhã volto com crônica nova.

01 junho, 2007

EM DEFESA DE NOSSOS ALTIVOS PARLAMENTARES


Segundo leio nos jornais, o STF barrou o pequeno aumento de 91% que os deputados pretendiam dar-se.
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Via de regra, não costumo confiar na imprensa, procurando, para me informar, compulsar fontes mais verossímeis e fidedignas, como a mitologia clássica e os contos dos irmãos Grimm.
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No entanto, apesar de aparentemente não serem humanos, parece que os jornalistas também erram e, desta vez, ao que tudo indica, a notícia é verdadeira.

Caso isso se confirme, gostaria de, a exemplo de Zola no Caso Dreyfus e dos motoristas paulistanos diariamente, seguir na contramão e, me contrapondo à opinião pública, deixar registrado aqui meu apoio irrestrito aos nossos insignes e sofridos parlamentares.

Primeiramente, aos senhores que andam espalhando por aí uma nefasta campanha contra nossos amados congressistas, afirmo que esses abnegados cidadãos trabalham nada menos que dois dias por semana, dando duro para alimentar suas famílias e amigos com verbas desviadas do orçamento da União – as quais, todos sabem, vivem sendo contingenciadas pelo Executivo.

Além disso, é preciso entender que o mercado de propinas anda em baixa desde a época do mensalão. Em função do que, atualmente, os insensíveis empresários nacionais não querem dar mais que 10 por cento de comissão em obras superfaturadas e apenas 5 por cento para acobertamento de seus delitos em investigações de CPIs.

Imaginem vocês que, ultimamente, nossa Justiça vem permitindo mesmo que se quebre o sigilo bancário de nossas autoridades no Congresso, proibindo assim que elas recebam condignamente o dinheiro suado da corrupção em suas próprias contas.

Isso sem falar no preço extorsivo que os laranjas andam cobrando, nos lobistas cada vez mais sovinas e nos assessores intransigentes, que não permitem que seu chefe embolse parte dos recursos destinados a seus salários — uma tradição que vem desde os tempos do Marechal Deodoro e que, infelizmente, não está sendo respeitada.

Que desejam, então, os que vilmente insultam os nossos representantes no Legislativo? Que eles vivam na miséria, recebendo apenas minguados recursos de caixa 2 ou as insignificantes verbas de gabinete, do auxílio-paletó, do auxílio-moradia, do auxílio-gasolina e de outros mais a que fazem jus, como auxílio-auxílio e o auxílio ancilar do auxílio-auxílio?

Será possível que essas pessoas achem que não fazer nada é fácil? Por acaso já tentaram parar de trabalhar e viver no far niente? É de enlouquecer. Agora imaginem passar quatro anos no ócio, sem uma atividade digna. Não é para qualquer um. Nossos políticos são, na realidade, uns heróis.

Por tudo o que acima deixo dito é que me coloco inteiramente ao lado deles. E acrescento: já está na hora, isso sim, de sairmos às ruas para defender e preservar nossas instituições mais caras e duradouras, como a corrupção de Estado e a malversação de verbas públicas.

Assim me despeço, sabendo poder contar com o apoio de todos vocês.