16 maio, 2007

HÁ QUINZE MIL ANOS



- Tem certeza que é por aqui?
- Acho que sim. O caminho deve ser esse. É só seguir essa semita e...
- Uhm... Tá errado.
- Não, não, eu acho que é por aqui mesmo.
- Não, tá errado. Você disse “semita” e o certo é “sêmita”, com acento.
- A gente aqui à beira da morte e você com preciosismo lingüístico. Parece que não evolui!
- Isso não tá certo.
- Já sei, você não gostou do meu tom.
- Não, falava do caminho. Será que a gente pode confiar naquela última placa?
- Não sei. Era na Europa, né? Não se deve levar muito a sério esses lugares primitivos.
- Quanta neve! Brrr. Maldito Darwin! Se dependesse do Criacionismo, agora a gente tava num belo de um Paraíso, sem trabalho, curtindo um solzão, na maior camaradagem com Deus.
- É, mas, em compensação, e a culpa da tradição judaico-cristã?
- Quem liga pra culpa quando pode ver mulheres sem a mínima noção de pecado, vestindo apenas folhas de parreira?
- Isso é discutível.
- Pela minha cauda vestigial! O quê, dessa vez? A noção de pecado, as folhas de parreira ou o caminho que a gente tá seguindo?
- A camaradagem com Deus. Ele nunca foi de ter amigos.
- O pior de tudo é a fome. Será que você não me descola uma raiz aí, não?
- Tô zerado. Já comi até a dos meus molares. Ih, olha aí, caiu mais um dos nossos companheiros. Não agüentou, coitado, morreu de fome e frio. Também, uma caminhada dessas!
- Tive uma idéia! Vamo escrever alguma frase inteligente num papel e amarrar no corpo dele, só de sacanagem, pra quando um arqueólogo no futuro encontrar o sujeito. Que tal: “Saiu da vida pra entrar na pré-história”?
- Seu burro, a gente ainda não conhece a escrita. Sabe o que isso significa?
- Que a gente não sabe escrever, vai acabar virando jornalista. Onde será que a gente tá, hein?
- Acho que a gente tá andando em círculos.
- Em círculo, no caso. Círculo Polar Ártico. Ha, ha, ha! Essa foi boa.
- Foi ótima. Sobretudo se a intenção era estimular o suicídio. Sabe de uma coisa? Depois de andar tanto, eu tenho pra mim que a gente entrou no período histórico errado. Nós não tamos, por acaso, na fuga do Egito?
- Pelo visto não, porque infelizmente eu não tô vendo um único gafanhoto. Com a fome que eu tô, comia até pernilongo.
- Peraí. O que é aquilo? Tô enxergando um... Olha ali! A passagem ! É a passagem! Chegamos!
- É aqui? Pô, mas isso devia se chamar Largo de Bering. Eu não agüento mais. Não vou conseguir atravessar. Eu fico.
- Que é isso! Tem fé, cara.
- Fé, eu tenho. Pena que não tanto quanto Maomé. E aquela montanha do outro lado tá muito longe.
- O povoamento da América depende da gente.
- Brigado. Deixo a tarefa aos mexicanos. (senta-se) Vou ficar.
- Pensa na tua descendência, rapá!
- Pensei nela horas atrás, quando meu saco começou a ficar congelado. Eu desisto.
- Meu irmão, o jazz, a tequila, os incas, a pipoca, nada disso vai existir se a gente não povoar o novo continente! E o biquíni fio dental, hein? Já pensou? Hein?
- (após alguns segundos, levantando-se) Tudo bem. Eu vou. Pela feijoada, pelo tango, pelos maias, por Sandino e pelo fio dental. Sobretudo pelo fio dental.
- Ótimo! Assim que se fala. Vambora. São só alguns... Ei, mas que é isso? Desistiu de vez? Levanta. Por que é que tu tá sentando de novo?
- (suspirando) Me lembrei do forró eletrônico e do Congresso brasileiro, cara.

19 comentários:

Moacy Cirne disse...

Meu caro, só existe uma palavra para definir o humor do seu texto; SENSACIONAL. Tá bem, vá lá, devem existir outras vagando por aí. Por exemplo: PORRETA. Outro exemplo: HILÁRIO. Pensando bem: existem várias palavras e não apenas uma para defini-lo. A verdade é que dei uma gaitada enorme ao lê-lo. Lê-lo?..., que horror... Um grande abraço.

Flávio disse...

Não sei porque, mas o texto me fez lembrar dos retirantes nordestinos... ;)

Anônimo disse...

Excelente, muito engraçado. Mas, rapaz, 4 da manhã?

Milton Ribeiro.

Jens disse...

Em nome dos jornalistas profissionais deste país, manifesto meu protesto contra a forma desairosa com que o cronista se referiu à categoria. Que fique registrado que sabemos, sim, escrever, como bem sabe Ivo, aquele que viu a uva. Eventualmente temos problemas para raciocinar, mas não é isso que está em questão no momento.
***
Outrossim (PQP!), comunico que tão logo Roy Frenkiel encerre as comemorações relativas ao seu aniversário e cure a consequente ressaca, estará no ar mais uma edição da revista virtual Reação Cultural, com revelações bombásticas sobre a vida pregressa de Marconi Leal (também conhecido como Dom Marconi, chefe da seção nordestina da Máfia, atualmente radicado em São Paulo).
***
Sem mais para o momento, subscrevo-me atenciosamente
Jens
***
Dê lembranças minhas à família.

GUGA ALAYON disse...

...e cinco mil anos depois nasceu o Paulo Coelho.

Anita disse...

hahahaha. Forró eletrônico? Nos meus tempos pré-históricos aí no Brasil isso não existia não. Como é que é?

F. Reoli disse...

ha ha ha... mais uma vez saio daqui com o humor elevado, Marconi...
Abs

sERBÃO disse...

COMO JOULAIZTA EU DISCODO VOSSÊ DICE QUE NAUM ÇABEMOS ISCREVE ISSO É UMA CALUNEA!!!
ASS: SERBÃO JOURNALIZTA

Sabrina disse...

Sarcástico ao extremo! Ótimo!
E o fio dental? rs*
Salve a bundalização! rs*

Beijos

(entrei no teu blog por indicação do Edu)

Costajr disse...

Ótimo texto! E se um homo sapiens otimista soubesse da fraseologia esgarçada de nosso presidente, certamente acompanharia seu colega mais pessimista!

Fugu disse...

Hahahaha ... delícia pura! Como sempre!

Mão Branca disse...

muito bem feito. e engraçado. gostei pacas.

Mão Branca disse...

cara, muito bom seus contos.
quero te convidar para publicar um texto (de preferência tratando de bares) no bar do escritor em www.bardoescritor.net , no blog diário.
os convidados aparecem nos dias 10, 20 e 31.
se aceitar, mande-me tb uma mini-biografia e seus endereços na interNerd.
[]s

Mani disse...

Ah, Marconi, só voce pra me fazer rir tresloucadamente..Voce e o congresso brasileiro...

Meneau disse...

Por recomendação do Halem Souza, vim conhecer ser blog. Ele não mentiu: humor de primeira. Parabéns.

Jens disse...

O casamento de Marconi Leal

Está no ar mais uma edição da Reação Cultural, a revista eletrônica editada pelo Roy Frenkiel.
Eu estou lá, entre as feras da escrita recrutadas pelo RF. Trago ao conhecimento dos ilustres leitores fatos estarrecedores que marcaram o casamento de Marconi Leal. O babado é forte, envolve jagunços armados de peixeira e um tal de Ananias, personagem crucial na vida nebulosa do genial e nefando escrevinhador.
Leitura não aconselhável para espíritos sensíveis. Se mesmo assim você quiser ler, acesse o seguinte endereço http://reacaocultural.blogspot.com/2007/05/coluna-do-jens.html

Serbão disse...

Marconi, quem é esse Ananias na história brilhantemente narrada pelo Jens?

Kah disse...

Haha!!Essa do Congresso,matou a pau!!Muito bom e divertido como sempre.Só você prá me fazer rir desse jeito!!Beijos e ótima sexta-feira!!

Saramar disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkk...
pensar no congresso nacional realmente desanima qualquer um.

beijo