03 maio, 2007

FILHOS


— Ando pensando muito sobre eles...
— Eles quem?
— Nossos filhos...
— Ué? Mas se a gente nem tem filhos!
— Mas vai ter. Ou não vai ter? E por acaso o fato de a gente não ter filhos impede que se pense sobre eles? É cada uma...
— Ai, já sei! Tu tá com DPJN de novo, né?
— DPJN?
— Depressão Pós-Jornal Nacional. Todo dia é isso agora. Tu não pode mais ver o Jornal Nacional que fica aí, pensativo, mais imprestável que cinco congressistas.
— E não é pra ficar, mulher? Ou tu não tem acompanhado as notícias? O planeta tá todo de cabeça pra baixo. É furacão, ciclone, tsunami, calor fora de hora, jornais sem erros de português... Tudo errado. Como é que a gente vai colocar um menino no mundo assim?
— Antes de mais nada, Geraldo, não sei se você está inteirado sobre os recentes avanços da ciência, mas pra ter filho é preciso fazer sexo. Coisa que não anda muito freqüente aqui em casa desde que você se pôs a meditar sobre o futuro da humanidade. O que é um contra-senso, porque se todo mundo se pusesse a meditar sobre o futuro da humanidade como você, a humanidade simplesmente não teria futuro. Quando menos, por absoluta falta de esperma.
— Ha, ha. Tô morrendo de rir. Agora imagine mesmo, a minha menininha, lindinha, loirinha, de olhos azuis, uma pequena princesinha vindo à luz num momento como esses. E se ela sofre um seqüestro? E se é estuprada? Pior! Se torce pelo São Paulo ou vira leitora do Reinaldo Azevedo?
— Não sabia que você estava planejando ter um filho de proveta.
— Como assim, proveta? Que proveta?
— Claro, porque pra gente ter uma criança nos moldes que você descreveu ou ela será filha do Hermeto Pascoal com o finado Sivuca ou então vai ser pura obra de intervenção divina. Tu acha que eu gasto cem paus todo mês pra alisar o cabelo só pra ficar parecida com a Fátima Bernardes?
— Tudo bem, mulher. Não interessa o biotipo que a filha vai ter. O que eu quero dizer é que...
— Filho.
— Quê?
— Quero ter um filho, primeiro, e não uma filha. Já te disse.
— Tô exemplificando. Filho, filha, menino, menina... um jumento que seja!
— Aí também não. Por que querer que o filho se pareça só com você?
— Tô perdendo a paciência. Me escuta: você acha que vale a pena pôr uma criança no mundo nas atuais circunstâncias, hein? Mas me diga mesmo. Me cite uma coisa boa, um fato novo, alvissareiro, positivo que tenha acontecido na Terra nesses últimos anos. Não há nada. É o fim dos tempos, o fim da procriação.
— Bom, teve o... a... bem, a Austrália participou da Copa do Mundo pela primeira vez em 2006, lembra?
(levantando-se e a abraçando, efusivo) Obrigado, mulher, obrigado!
— Que foi, criatura?
— Você salvou a nossa descendência.

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