29 maio, 2007

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (5)


Liguei a esteira na estonteante velocidade de um centímetro por semana e passei nada menos que duzentos e quarenta segundos andando sobre ela, sem descanso. E parei, não pelo princípio de ataque cardíaco ou pelo derrame que sentia se aproximar, mas simplesmente porque, homem consciencioso, quis salvar algumas vidas. Afinal, com os shorts apertados que estava usando, minha descendência corria perigo.

Em seguida — e aqui faço uma relação de minhas proezas para calar os caluniosos — fiz, em série, dois abdominais, um peitoral, meio supino e meio dorsal, sem outra pausa senão aquela absolutamente necessária para recolher o meu queixo do chão.

Chegando àquele ponto, vislumbrei a glória e disse de mim para comigo que havia alcançado o momento que separa os triunfadores dos demais homens, aquele instante fugaz em que se decide o destino de um indivíduo, aquela fração de segundo em que o tempo fica imóvel e, no meu caso particular, em que os músculos começam a saltar descontroladamente, como se o cristão tivesse acabado de receber a Pomba-Gira.

Assim, contive meu coração, que teimava em querer sair pela boca, expliquei aos pulmões que, afinal de contas, o oxigênio não é assim tão importante e, com alguma dificuldade, administrei os sintomas do Parkinson que atacava meus membros, tratando de convencer meus doloridos pés a andarem até a barra — coisa que consegui em cerca de dez minutos.

Ali chegando, concentrei-me como um ninja e, de um salto, agarrei-me aos ferros. Então, fiz força. Usei de toda a energia que ainda me restava. Prometi ajudar os pobres e nunca mais roubar o ceguinho que esmola aqui perto de casa.

Ao final de exaustivas tentativas, senti que meu corpo se arqueava. Redobrei os esforços. Suava em abundância, mas subia, aos poucos, devagar. E eis que aconteceu...

Soltei um pum tão barulhento, caros companheiros, que julgo ter abalado as paredes do local. Creiam-me, não foi baixo. E, mais do que isso: foi daqueles que se arrastam prolongadamente, indefinidamente, como um motor de barco.

Eu mesmo me assustei com a explosão inesperada. E, apalermado, larguei a barra e me estabaquei no chão.

Mas logo me levantei e, tonto, mancando de uma perna, com o rosto inchado, os braços inutilizados, saí de fininho do lugar e retornei para casa, correndo tanto quanto era possível a um aleijado.

Cá chegando, sentindo dores excruciantes pelo corpo e vergonhas dilacerantes na consciência, enfiei-me na cama — de onde só pretendo me levantar no Natal de 2010.

Daqui, dito essas palavras para a minha mulher digitar — já que, neófito, não aprendi ainda a teclar com o nariz —, e digo a vocês, camaradas de infortúnio: de agora em diante, academia, para mim, nem a de letras.

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