25 maio, 2007

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (1)


Nunca fui um fã da atividade física. Considero, por exemplo, o levantamento de romances russos o maior esforço que sou capaz de realizar. Tampouco a coordenação motora é o meu forte. Gesticulando, apresento uma desenvoltura de causar vergonha ao Stephen Hawking.

No entanto, ao contrário do que minha capacidade de raciocínio dá a entender, não sou mais criança — prova disso é que tenho alguns cabelos brancos, artrite, lordose e um diploma de datilografia. Então, achei que era hora de movimentar o corpo e, como não tenho uma cama vibratória, resolvi fazer ginástica.

É bem verdade que, homem dilúcido e aprecatado, não me apresso no período que transcorre entre a tomada da decisão e a realização do intento, e estava disposto a esperar tranqüilamente que passasse o tempo de vida de uma tartaruga ou de um integrante da ABL antes de executar a árdua tarefa.

Mas, por pressão da minha mulher, que estava cansada de me fazer respiração boca a boca toda vez que eu tentava amarrar os sapatos, decidi me matricular numa dessas academias.

Quanto a mim, teria preferido formas mais práticas de tortura, como assistir a filmes iranianos ou ler um livro do José Sarney. Porém, como gosto de agradar a minha amada e, principalmente, não sou muito chegado a apanhar com rolo de massa, decidi enfrentar a empreitada.

Preciso esclarecer que “academia”, para mim, sempre foi a de Platão, já que na minha época, ao menos lá no Recife, gastar horas levantando ferro, quando não era uma atividade sexual, levava o sugestivo nome de “fazer máquina Pólo” — certamente uma referência às agruras da vida na Antártida. Mas, ao contrário da situação deficitária de minha conta corrente, os tempos mudam. E só nos resta adaptarmo-nos a eles.

Pensando dessa forma foi que coloquei impavidamente um short de malha, enfiei com brio a camisa regata por dentro dele, calcei orgulhoso um tênis dois números acima do meu e, ligeiramente assemelhado ao Pato Donald, me pus a caminho do sacrifício, mais miserável que um personagem de Zola.

No percurso até a academia, que fica a duas quadras de casa, ia pensando comigo que a vida não era justa e, pior, que o meu short era, e muito, pois o peguei emprestado de minha cônjuge, o que me dava a angustiante sensação de estar sendo evirado a cada passo.

No entanto, homem acostumado a enfrentar ingentes desafios, não desisti, e alcancei bravamente o meu destino.

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