30 maio, 2007

TUMBU



Sei que vocês, leitores de pouca fé no empreendimento humano, não acreditavam, mas graças a Deus ainda existem no mundo editoras que investem no talento e, mais importante, não têm pena de desperdiçar dinheiro em vão.

Fato é que, porque Santo Homero dos Editores Desassisados me guarda, chego a este meu sexto livro. Razão bastante para que Vossas Senhorias privilegiem o momento, clicando na figura acima e adquirindo o mesmo.

Afinal de contas, se é bem verdade que não sei escrever e os senhores tampouco sabem ler, o caso é que o livro dá um belo suporte para copos. Além disso, como bons católicos, todos sabem perfeitamente que quem dá aos pobres, empresta e adeus.

Aproveito a oportunidade para anunciar que este blog voltará às atividades na próxima segunda-feira. Isso, se cada um dos senhores comprar pelo menos um exemplar da obra, claro...

29 maio, 2007

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (5)


Liguei a esteira na estonteante velocidade de um centímetro por semana e passei nada menos que duzentos e quarenta segundos andando sobre ela, sem descanso. E parei, não pelo princípio de ataque cardíaco ou pelo derrame que sentia se aproximar, mas simplesmente porque, homem consciencioso, quis salvar algumas vidas. Afinal, com os shorts apertados que estava usando, minha descendência corria perigo.

Em seguida — e aqui faço uma relação de minhas proezas para calar os caluniosos — fiz, em série, dois abdominais, um peitoral, meio supino e meio dorsal, sem outra pausa senão aquela absolutamente necessária para recolher o meu queixo do chão.

Chegando àquele ponto, vislumbrei a glória e disse de mim para comigo que havia alcançado o momento que separa os triunfadores dos demais homens, aquele instante fugaz em que se decide o destino de um indivíduo, aquela fração de segundo em que o tempo fica imóvel e, no meu caso particular, em que os músculos começam a saltar descontroladamente, como se o cristão tivesse acabado de receber a Pomba-Gira.

Assim, contive meu coração, que teimava em querer sair pela boca, expliquei aos pulmões que, afinal de contas, o oxigênio não é assim tão importante e, com alguma dificuldade, administrei os sintomas do Parkinson que atacava meus membros, tratando de convencer meus doloridos pés a andarem até a barra — coisa que consegui em cerca de dez minutos.

Ali chegando, concentrei-me como um ninja e, de um salto, agarrei-me aos ferros. Então, fiz força. Usei de toda a energia que ainda me restava. Prometi ajudar os pobres e nunca mais roubar o ceguinho que esmola aqui perto de casa.

Ao final de exaustivas tentativas, senti que meu corpo se arqueava. Redobrei os esforços. Suava em abundância, mas subia, aos poucos, devagar. E eis que aconteceu...

Soltei um pum tão barulhento, caros companheiros, que julgo ter abalado as paredes do local. Creiam-me, não foi baixo. E, mais do que isso: foi daqueles que se arrastam prolongadamente, indefinidamente, como um motor de barco.

Eu mesmo me assustei com a explosão inesperada. E, apalermado, larguei a barra e me estabaquei no chão.

Mas logo me levantei e, tonto, mancando de uma perna, com o rosto inchado, os braços inutilizados, saí de fininho do lugar e retornei para casa, correndo tanto quanto era possível a um aleijado.

Cá chegando, sentindo dores excruciantes pelo corpo e vergonhas dilacerantes na consciência, enfiei-me na cama — de onde só pretendo me levantar no Natal de 2010.

Daqui, dito essas palavras para a minha mulher digitar — já que, neófito, não aprendi ainda a teclar com o nariz —, e digo a vocês, camaradas de infortúnio: de agora em diante, academia, para mim, nem a de letras.

28 maio, 2007

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (4)


Entrei na sala e me apresentei a Rosicléia, a qual, se não pertencia ao astro de onde provinha o outro professor, certamente nascera no mesmo sistema planetário. Só que, feminina, era um pouco mais larga, um tantinho mais alta e tinha mais pêlos no rosto. Ou isso, ou possuía ascendência teuto-portuguesa, não sei.

Entreguei trêmulo o papel a ela, que estava atrás de um balcão, sentada na cadeira de um modo meigo que me fez lembrar o Charles Bronson. Ao me ver, Rosi entortou com candura os cantos da boca, mostrando caninos que, sem dúvida, foram a fonte de inspiração de Bram Stoker. E, afagando com modos singelos a ponta do buço, levantou-se e começou a me mostrar o ambiente.

Vocês, leitores preconceituosos, hão de pensar que a academia de ginástica não é local apropriado para a cultura e a especulação metafísica. Pois digo que estão enganados, ignaros companheiros.

Eu, por exemplo, ao olhar para aquela gente se exercitar arduamente, empurrando ferros com a ferocidade com que Santiago foi ter aos mouros, digo a vocês que imediatamente me dei conta da total falta de sentido da existência. E me convenci de que Sartre não teria escrito “O Ser e o Nada” se, em algum ponto de sua vida, não houvesse tentado a malhação.

Quanto à cultura, seus maledicentes, fiquem sabendo que conheci um sujeito lá que é fazendeiro e possui logo duas: uma de feijão e outra de mandioca. Sem falar de uma moça que já havia lido todas as páginas amarelas de um exemplar de Veja de 1983. E de um garoto que, sabendo de cor a maioria das letras da Kelly Key, caminha a passos largos para, quando menos, fazer crônicas poéticas no Jornal Nacional.

Desinformados que os senhores são, caso também tenham em mente que na academia o repertório musical é dos piores, fiquem cientes de que nunca na minha vida escutei um som tão agradável quanto aquele que lá ouvi, entre o final de uma música e o começo de outra. Um silêncio magnífico, que nem aquele famoso surdo de Bonn seria capaz de reproduzir.

Tudo isso observei enquanto Rosi me apontava as belas máquinas de inspiração huxleyana. Após o quê, gentil e delicada, cuspiu de lado sutilmente e me ordenou que me alongasse antes de iniciar os exercícios. Em seguida, afastou-se e retornou ao seu lugar, ajeitando, cheia de sensualidade, a cueca dentro da calça de malha.

Pus-me a me alongar e a me benzer, pedindo forças a São Balalão da Coxa Tripartida para encarar os aparelhos. E, sem dúvida, teria ficado ali pelo menos mais dois dias, ganhando algum tempo, se não houvesse concluído que a altura de 1,80m à qual cheguei ao final do alongamento fosse suficientemente boa.

Depreendi, assim, ser hora de mostrar meus afamados dotes de atleta. E, com o sentimento do homem que tem um dever a cumprir, com a segurança dos grandes, como César, Alexandre, Napoleão e ACM Neto, me dirigi cerimoniosamente aos halteres, desejoso de dirimir de uma vez qualquer dúvida que pudesse ainda subsistir com relação a minha imensa e inesgotável capacidade física.

Digo aos descrentes e biltres de torpe natureza, que me desincumbi da tarefa com denodo, apanhando não um, mas logo dois halteres, e não de meio, como seria de esperar, mas de um quilo cada, e me pus a levantá-los com destemor.


Ao final de três levantamentos, com quinze minutos de intervalo entre eles, achei que era hora de me arriscar mais. Então, patriota que sou, ingeri dois litros de água, em homenagem ao Amazonas, e caminhei imperterritamente até a esteira ergométrica, sentindo a ambição dos vencedores, o orgulho dos bravos, o poder dos livres e um formigamento nos braços.

27 maio, 2007

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (3)


A última vez que havia flexionado um músculo tinha sido para cortá-lo em pedaços e atirá-lo no feijão, juntamente com outras carnes bovinas. Da mesma forma, havia levado minha mão ao solo apenas uma vez nesta década e, ainda assim, para apanhar uma cédula de cinqüenta reais — o que me rendeu uma dor na coluna e me deixou uma semana de cama, mais paralisado que o cabelo da Tônia Carrero.

Foi com essa hercúlea disposição que me agachei e, heroicamente, iniciei minha contagem:

— U... hu... huu... um! — falei, emocionado, ao fim de meia hora.

E é certo que, voluntarioso, teria chegado naquele mesmo dia ao “dois” e, quiçá, ao “três” se, provavelmente por puro romantismo, meus braços não tivessem se recusado a sustentar meu peso, deixando que desse um violento beijo de língua no chão.

Ao tentar me levantar, logo percebi que o motim dos braços havia se transformado em revolução e que, se bem os membros do meu corpo não estivessem dispostos a derrubar a Bastilha, ao menos a bacia e o fêmur haviam saído do lugar. Em suma, não conseguia me mexer.

Vendo meu desespero, minhas contrações de dor e que meu rosto imóvel tinha o belo colorido da fase azul de Picasso, o professor perguntou, em pânico:

— Quer que eu chame um médico?
— Ão ecisa — falei. — Asta amar os ombeiros.

Mas tanto não foi necessário. Com alguma paciência, muito jeito, certo cuidado e a ajuda de um macaco hidráulico, dentro em pouco ele me pôs novamente de pé — relativamente zarolho e maravilhado por ver tantas estrelas às três horas da tarde.
Então, espalmou a mão à frente do meu rosto e perguntou:

— Consegue ver quantos dedos tem aqui?
— Claro que não. Você tá de sapato, ora essa! — falei indignado, sem conseguir levantar a cabeça, com uma postura corporal semelhante à do Mestre dos Magos.

Ele me trouxe um copo d’água, me fez sentar numa cadeira e, após me dar uns tapas nas costas, voltei a respirar. Uma vez recuperado e sendo, por natureza, persistente, aproveitei para retomar os exercícios: corri para a porta, com a intenção de voltar o mais rápido possível para casa.

Ia já atravessando o umbral, quando o oitavo passageiro me puxou pela manga da camisa.

— É por ali — disse, apontando para um corredor.
— O Paraíso? — perguntei.
— Você já pode fazer os exercícios — continuou ele, sério. — Fale com a Rosicléia. Ela vai explicar tudo direitinho. Bem-vindo!

Achei admirável que, sendo ele recém-chegado à galáxia, as boas-vindas fossem dadas a mim. E, mais ainda, que houvesse se referido a exercícios, quando acabara de comprovar que seria mais fácil ensinar regras gramaticais ao Lula que me fazer elevar os cotovelos à altura da orelha.

No entanto, como o esforço para absorver oxigênio estivesse atrapalhando meu raciocínio que, de natural, já não é dos mais aguçados, me pus a andar na direção que ele havia indicado, sem prestar atenção a coisa alguma, a não ser à harmônica melodia que meus ossos produziam ao estalar.

E foi assim, intimorato, que entrei naquela que mais tarde apelidaria de Sala Torquemada, destinada à malhação.

26 maio, 2007

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (2)


O mais perto que havia chegado da malhação até aquele dia tinha sido dar uns cascudos num Judas no Sábado de Aleluia. Mas, entrando na masmorra, digo, no recinto destinado aos exercícios, pude sentir, de cara, os efeitos benéficos do lugar: ao pagar a matrícula, meu bolso ficou, imediatamente, pelo menos duzentos gramas mais magro.

Em seguida, algo misterioso aconteceu. E eu, que nunca acreditei na existência de alienígenas, preferindo confiar apenas em seres palpáveis, como o Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa e o Paulo Maluf — eu, dizia, fui abduzido para uma pequena sala cheia de aparelhos esquisitos.

Ali, um humanóide de dois metros de altura, três de largura e cinco de profundidade apertou meu corpo com tenazes e objetos de procedência desconhecida, segundo disse, para verificar meu índice de gordura — nomenclatura essa de difícil compreensão para os terráqueos, mas certamente de grande utilidade no lugar de onde ele veio.

— Seu índice é muito alto! — falou espantado, ao final de meia hora de inspeção.
— E olha que eu nem me exercito muito — disse eu, sorrindo com orgulho.

Dada a obstupefação da anabolizada criatura, achei que ela havia finalmente encontrado o que procurava e, agradecida, me levaria a seu planeta, juntamente com alguns CDs do Latino, como prova do que de pior a humanidade tinha sido capaz de produzir.

Mas, ao que parece, não a deixei muito satisfeita, pois resolveu me punir, exigindo que eu fizesse flexões de braço, polichinelos e outras acrobacias que estiolariam as bailarinas de Degas.

— Professor, até acho o espetáculo interessante, mas não participo do Cirque du Soleil — fiz questão de esclarecer.
Porém, o indivíduo estava irredutível.
— É pra testar sua resistência — insistiu.
— Minha resistência é total, professor. Não consigo fazer isso — obtemperei.

Ele suspirou, impaciente. Sem outro recurso, me joguei no chão e tentei me dedicar à maldita flexão de braço, xingando Deus, toda a Santíssima Trindade, cinco ou seis anjos, um querubim e o FHC. Este último, só para não perder o costume.

25 maio, 2007

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (1)


Nunca fui um fã da atividade física. Considero, por exemplo, o levantamento de romances russos o maior esforço que sou capaz de realizar. Tampouco a coordenação motora é o meu forte. Gesticulando, apresento uma desenvoltura de causar vergonha ao Stephen Hawking.

No entanto, ao contrário do que minha capacidade de raciocínio dá a entender, não sou mais criança — prova disso é que tenho alguns cabelos brancos, artrite, lordose e um diploma de datilografia. Então, achei que era hora de movimentar o corpo e, como não tenho uma cama vibratória, resolvi fazer ginástica.

É bem verdade que, homem dilúcido e aprecatado, não me apresso no período que transcorre entre a tomada da decisão e a realização do intento, e estava disposto a esperar tranqüilamente que passasse o tempo de vida de uma tartaruga ou de um integrante da ABL antes de executar a árdua tarefa.

Mas, por pressão da minha mulher, que estava cansada de me fazer respiração boca a boca toda vez que eu tentava amarrar os sapatos, decidi me matricular numa dessas academias.

Quanto a mim, teria preferido formas mais práticas de tortura, como assistir a filmes iranianos ou ler um livro do José Sarney. Porém, como gosto de agradar a minha amada e, principalmente, não sou muito chegado a apanhar com rolo de massa, decidi enfrentar a empreitada.

Preciso esclarecer que “academia”, para mim, sempre foi a de Platão, já que na minha época, ao menos lá no Recife, gastar horas levantando ferro, quando não era uma atividade sexual, levava o sugestivo nome de “fazer máquina Pólo” — certamente uma referência às agruras da vida na Antártida. Mas, ao contrário da situação deficitária de minha conta corrente, os tempos mudam. E só nos resta adaptarmo-nos a eles.

Pensando dessa forma foi que coloquei impavidamente um short de malha, enfiei com brio a camisa regata por dentro dele, calcei orgulhoso um tênis dois números acima do meu e, ligeiramente assemelhado ao Pato Donald, me pus a caminho do sacrifício, mais miserável que um personagem de Zola.

No percurso até a academia, que fica a duas quadras de casa, ia pensando comigo que a vida não era justa e, pior, que o meu short era, e muito, pois o peguei emprestado de minha cônjuge, o que me dava a angustiante sensação de estar sendo evirado a cada passo.

No entanto, homem acostumado a enfrentar ingentes desafios, não desisti, e alcancei bravamente o meu destino.

24 maio, 2007

NO ESCRITÓRIO DE PATENTES



INVENTOR: Bom dia. Pra registrar idéias é aqui?
FUNCIONÁRIO: (descontraidíssimo) Não tenho a menor idéia. Ha, ha, ha! Essa foi ótima.
INVENTOR: (seriíssimo) Ahn?
FUNCIONÁRIO: Desculpe. É a falta de alguém pra dialogar. A última idéia que registraram por aqui foi a corrupção no Brasil. Ha, ha!
INVENTOR: ???
FUNCIONÁRIO: (limpando a garganta) Perdão. Em que posso ajudar? Vejo que o senhor tem uma pasta recheada aí, não?
INVENTOR: Ah, são projetos.
FUNCIONÁRIO: Posso ver?
INVENTOR: Pois não. (sacando um papel desenhado da pasta) Esse aqui é o primeiro. Trata-se de um dispositivo para impedir que a água da chuva nos molhe, olha aqui. Tem esse cabo e um aparato de tecido em cima, esticado por pequenas varetas. Quando a gente aperta nesse botão, o...
FUNCIONÁRIO: O senhor tá brincando?
INVENTOR: Como?
FUNCIONÁRIO: Meu senhor, isso que o senhor inventou é um guarda-chuva!
INVENTOR: Desculpe, mas o nome do invento é repele-água. Eu mesmo...
FUNCIONÁRIO: Amigo, isso aqui é um guarda-chuva. Deve existir desde que Roma invadiu a Bretanha!
INVENTOR: Olha, não me leve a mal, não, mas quando o senhor inventar alguma coisa, o senhor chama de guarda-chuva, tudo bem? Por ora eu prefiro esse nome. (para si) Guarda-chuva, puf! (para o funcionário) Bom, aqui, temos esse outro... Vê esse plano circular? Pois muito bem, colocam-se dois desses na vertical e uma barra como eixo, entende? Daí, então, o que é que temos?
FUNCIONÁRIO: A roda?
INVENTOR: Não, trata-se do Mecanismo Para Rolagem de Objetos ou MEPRO, para os íntimos. Isso aqui vai provocar uma verdadeira revolução no mundo, acredite. Imagine que, com este meu invento, não será mais preciso empurrar ou carregar as coisas, mas simplesmente...
FUNCIONÁRIO: Vem cá. Tu tá me tirando, ô cara? É pegadinha?
INVENTOR: Como?
FUNCIONÁRIO: Tu quer me fazer de palhaço, rapaz? Eu tô perdendo a cabeça contigo!
INVENTOR: Ah, por falar em perder a cabeça, olha aí. (apontando para mais um desenho) Tcharan! Que acha?
FUNCIONÁRIO: Nossa! Um aparato para cobrir a cabeça?
INVENTOR: Puxa! Como o senhor adivinhou?
FUNCIONÁRIO: Intuição. Quem sabe o senhor não o batiza de “chapéu”?
INVENTOR: Não, prefiro...
FUNCIONÁRIO: (vermelho de raiva) Sai daqui, rapá! Sai daqui agora ou eu vou tomar uma atitude!
INVENTOR: Como?
FUNCIONÁRIO: Tá surdo? Sai ou eu não me responsabilizo! Tu tá me fazendo perder tempo!
INVENTOR: Estava! Porque, olha aqui... uhm-hum! (apontando para outro desenho) Com este pequeno aparelhinho, o senhor será capaz de contar segundos, minutos e até horas inteiras. Não acredita, né? Veja, isso aqui se chama ponteiro e...
FUNCIONÁRIO: (apanhando um copo de água de cima do guichê e atirando na cara do inventor) Eu avisei, não avisei?!
INVENTOR: (olhando para o funcionário, indignado) Mas o que significa isso?
FUNCIONÁRIO: MEPEL. Mecanismo Para Expulsar Loucos. Gostou?
INVENTOR: (pulando o guichê e se atracando com o funcionário) Safado! Você roubou minha idéia!

23 maio, 2007

PALÍNDROMO



- A culpa é sua. Você leva tudo ao pé da letra, Olegário.
- Letra não tem pé, Ana Lana.
- Viu? É isso o que eu tô dizendo.
- Não, você tá dizendo que letra tem pé. Eu é que...
- O que quero dizer é que você leva tudo no denotativo, Olegário.
- Epa! Aí, não, hein! Denotativo em que mamãe passou talquinho...
- Presta atenção, Olegário, pelo menos uma vez na vida. Você tem que entender uma coisa simples. Muitas vezes as palavras têm duplo sentido, compreende?
- Palíndromo.
- O quê?
- Quando a gente pode ler uma palavra ou uma expressão nos dois sentidos: da direita pra esquerda ou da esquerda pra direita. Por exemplo...
- Olegário!
- Não, Olegário não é um palíndromo, Ana Lana.
- Não, animal!
- Lâmina.
- Como é que é?
- Lâmina, animal. Um palíndromo perfeito.
- Olegário! Não é disso que eu to falando! Vê se entende. As coisas, Olegário, elas têm sentido figurado e não apenas o lato, percebe?
- Obecrepeuqoralc!... Digo, claro que percebo!
- Ah, é? E por que agora há pouco, quando a Carla Regina, cansada de ouvir tuas brincadeirinhas sem graça, te pediu um tempo, tu imediatamente, muito sério, ligou o cronômetro do relógio, Olegário?
- Como é que eu ia saber? Ela não se explica! Você sabe perfeitamente que eu não domino essas expressões novas.
- Nova, Olegário? Essa expressão é mais velha que o Cid Moreira!
- Mentira. É uma expressão, no máximo, do século XX. E o Cid Moreira...
- Eu tô usando uma hipérbole, Olegário! Hipérbole! É lógico que a expressão não é mais velha que o Cid Moreira. Nada é mais velho que o Cid Moreira, Olegário. Deus, talvez. Agora, o fato é que, em função da sua cretinice, a Carla Regina perdeu definitivamente a paciência. E achei muito bem-feito que ela tenha te dado aquele tapão no rosto!
- Com hipérbole ou no sentido figurado?
- No sentido lato mesmo, Olegário! Achei ótimo. Só assim tu aprende. Como é que pode, Jesus, a pessoa ter nascido tão sem noção?
- Deus me livre. Isso é até pecado, Ana Lena.
- Como?
- Eu disse que é até pecado isso de falar que Jesus nasceu sem noção.
- Jesu... não... Ah, deixa pra lá, Olegário. Vamo embora da festa que é o melhor que a gente faz. Chega de vexame por hoje. Vem. Vamo esticar as pernas.
- Tudo bem.
- Olegário! O que é isso?! Levanta desse chão, Olegário! Não basta o que você já fez? Quer me matar de vergonha fazendo alongamento no meio da sala?!
- Ué, não foi você que di...
- Vem! Agora! Vamo! Em casa a gente discute. E de fininho, por favor, que eu não quero me despedir de ninguém. É incrível. Contando, ninguém acredita. O homem parece que vive no mundo da lua. Podia dar aula disso!... E então, não vai dizer nada?
- Aula da lua... Belo palíndromo!

22 maio, 2007

PELA IMEDIATA LEGALIZAÇÃO DOS ENTREGADORES DE PROPINA


Ao contrário de vocês, leitores pessimistas e de má vontade, sempre utilizei este espaço para reafirmar minha fé inabalável no Brasil, o qual, como objeto da minha crença, só perde para a mula-sem-cabeça e o Paulo Maluf.

(E antes que algum descrente queira insinuar que o citado animal folclórico não existe, convido-o a dirimir suas dúvidas ao ouvir qualquer comentário da Sandra Annenberg no Jornal Hoje.)

Apesar do achincalhe da malta ignava, sempre defendi ser este um país que premia os indivíduos de acordo com seus méritos. Sendo o principal deles, por exemplo, o mérito de ter um amigo influente.

Mais do que isso, deixei claro confiar na capacidade empreendedora de nossos cidadãos e na ética inquebrantável de nossos empresários que, ao contrário do que querem insinuar alguns vadios, sempre praticaram a corrupção dentro da lei e no sentido do bem coletivo. Ou alguém, por acaso, ainda duvida que família é coletivo de parente?

Isso para não falarmos, por óbvia, na correção férrea de nossos homens públicos que, em termos de hombridade, só perdem mesmo para a de Platão que, como todos sabem, era um pouco mais larga e lhe rendeu até o apelido.

Homens públicos estes cuja integridade, ousaria mesmo dizer, está em seus genes e cujo compromisso popular é cultivado desde o berço, uma vez que são, todos eles, também filhos de mulheres públicas.

Pois eis que agora, mais uma vez, nosso povo dá mostras de sua inventividade ao criar a figura imprescindível, em nossa pátria, do entregador de propinas - como acaba de revelar a PF no bojo da Operação Navalha.

Pergunto a vocês, derrotistas: há quantos séculos nossa máquina estatal se vê emperrada, muitas vezes, pela simples falta dos 10% por fora que façam andar a papelada?

E aquela multa de trânsito, levada inadvertidamente, só porque não tínhamos um trocado na carteira? Quantos deputados não acordam no meio da noite, com crise de abstinência, sem um número a que possam ligar para ser socorridos?

Ora, uma vez registrada a profissão, o entregador de propina solucionará todos esses problemas, destravando a burocracia e propiciando finalmente o crescimento econômico de que tanto necessitamos.

E o melhor é que, imagino, na esteira da genial criação, surgirão idéias ainda mais notáveis como, por exemplo, a do tíquete-propina, do passe-propina e do auxílio-propina, que facilitarão enormemente as relações entre as esferas publica e privada em território brasileiro.

Sonho mesmo com o dia em que, após anos de aprimoramento, o Estado estará apto a implantar a bolsa-propina para os excluídos das mamatas governamentais.

E então, sempre progredindo, talvez no futuro cheguemos ao ápice desse processo revolucionário: cunharemos a Propina Nova, única moeda no mundo cuja impressão será ilimitada, pois terá como lastro tão-somente a sem-vergonhice nacional.

21 maio, 2007

VIGIAS (UM DIÁLOGO SWIFTIANO)



- Não acho um trabalho digno. Au. É aviltante. Au-au. Deviam colocar homens pra fazer isso.
- Pra vigiar nossas casas?
- Claro. Au. Por que nós temos que sofrer feito gente, quando podemos usar seres inferiores no serviço?
- Creio que o amigo ficou hidrófobo. Colocar animais como os humanos pra tomar conta de nossas famílias seria cometer cachorricídio. São seres sem o mínimo senso moral, au-au.
- E por acaso é preciso senso moral pra se vigiar uma casa, agora? Au-au-au. Coloca-se uma coleira neles, joga-se lá um pedaço de hambúrguer, um pouco de dinheiro numa vasilha e pronto.
- São seres muito violentos, cidadão. Será que você não vê que eles vivem em guerra o tempo todo?
- Então! Por isso mesmo. Au. Duvido que algum assaltante tentasse entrar em lugar protegido por tipos iguais a ele. Além do mais, só seriam soltos à noite, o resto do tempo nós os manteríamos em jaulas, e pronto.
- Já vi muitos desses bichos fugirem de celas. Não têm o intelecto desenvolvido, mas são engenhosos. Au-au. Quando se trata de esperteza, alguns deles chegam mesmo próximo da do macaco.
- Quanto exagero! Eles são bípedes, senhor Moreira! Bípedes! E não estou dizendo que os quero pra animais de estimação, não. Pra isso temos espécies mais bonitas e inteligentes, como a anta e o jumento. Acho apenas que devemos usar o potencial de cada um em seu todo: papagaios pra imitar, falcões pra voar, seres humanos pra matar, ludibriar, trair... Essas coisas.
- Tudo bem. Digamos que a gente fosse usar humanos pra segurança, certo? Me diga: como seria feito o treinamento dos homens de guarda?
- Nada mais simples. É uma manada que obedece com a maior facilidade. Veja os da raça brasileira, por exemplo. Vivem no pior dos mundos e, no entanto, são mais passivos que uma vaca.
- Peraí, mas além de empregar seres humanos, o senhor ainda por cima quer usar vira-latas?
- Qual o problema? São mais baratos, se reproduzem aos montes e ainda conseguem fazer malabarismos com uma bola, nas horas vagas, pra nos divertir.
- Você se esquece que, como os demais humanos, eles também são muito pouco confiáveis. Se o assaltante tentasse subornar o vigia, facilmente entraria na residência.
- Au. Não tinha pensado nisso.
- Pois é. Isso pra não falar nos horríveis sons que eles emitem. Au-au.
- Sons? Que sons?
- Nunca ouviu quando eles se põem a guinchar? Não sei exatamente o significado, mas parece ter relação com o ato sexual, au. São sons desconexos, algo como: “hojéfestanomeuapê”, “arerêrroquecomvocê”, “meuamorécanibal” e outros.
- Nossa, mas isso é insuportável! Au-au-au.
- Tem mais. Não escutam direito, não sabem babar muito bem e são tão toscos que crêem que foram feitos à semelhança de Deus!
- Não acredito! Deus? Sem pêlos, sem cauda? Com nariz? Ha, ha, ha!
- Exatamente. Au. E o pior é que...
- Não vai me dizer que eles não têm pulga?
- Pior, muito pior.
- Péra lá. Au-au. Você já tá me descrevendo uma fera, terrível em todos os aspectos. O que pode existir de pior nessas criaturas?
- A longevidade. Em alguns casos, podem atingir cerca de 100 anos!

20 maio, 2007

A FALA E A EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE


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Segundo os antropólogos, o homem levou milênios para desenvolver o aparelho fonador, outros tantos séculos para emitir sons distinguíveis, algum tempo mais para elaborar um vocabulário e, finalmente, poucos segundos para dizer frases do tipo “Você vem sempre por aqui, benzinho?” e arruinar uma paquera relativamente bem-encaminhada.

Para os estudiosos, a fala surgiu por uma necessidade de organização das tribos primitivas. Afinal de contas, ficava muito difícil expor em desenhos e gestos conceitos como “maximização da caça do javali” e “vestir a tanga da empresa”. Ou seja, a fala surge ao mesmo tempo que o capitalista. Com a diferença de que ela evoluiu e se civilizou.

No entanto, se os homens demoraram tanto para utilizar a voz de maneira racional, a mulher, por outro lado, dada a sua notória desenvoltura na articulação da língua, aprendeu a se expressar através das palavras alguns milênios antes, a ponto de, quando o primeiro sujeito se insinuou para fora da caverna, dando a entender que ia comprar cigarros, e voltou de madrugada, com a clava rachada, ela ter resmungado:

— Hominídeos! Puf! São todos iguais!

Seja como for, uma questão que sempre me intrigou, além do porquê do paulistano votar tão mal, é a da incerteza quanto à circunstância precisa em que se deu o aparecimento da fala.

Por exemplo, fico imaginando aquele momento inaugural, o instante sublime e irreproduzível, quando o homem finalmente, de plena posse de suas capacidades vocais, conseguiu dizer sua primeira frase completa.

— Uhmmrumsms... — deve ter grunhido um primata, certo dia, para o indivíduo que estava ao seu lado, ao redor da fogueira.
— Ramsmans? — perguntou o outro, sem entender.
— Uhmmrumsms! — insistiu o primeiro.
— Ramsmans? — retrucou mais uma vez o segundo.
— Uhmmrumsms! Uhmmrumsms!
— Ramsmans?
— Uhmmrumsms! Uhmmrumsms! Umrumsms!
— Ramsmans?
— TU TÁ SENTADO EM CIMA DA MINHA MÃO, PÔ!

Já o nascimento do pensamento abstrato, supõe-se, ocorre numa segunda etapa do desenvolvimento da fala, já não estritamente associado à sobrevivência ou, antes, em sentido diametralmente oposto.

— Olha o mamute aí! Joga a lança! Joga a lança! — grita um companheiro de caçada a outro, ao ver aproximar-se a presa.
— Não sei, será? — obtempera este. — Por que sempre essa ascendência do material sobre o transcendental? O mamute, enquanto ser vivo, também constitui uma unidade biológica que...
— Joga logo a lança, rapá! Tá todo o mundo na aldeia morrendo de fome, faz dias que não aparece uma caça... Anda! Rápido!
— Mas o que é a fome diante de uma lógica que transcenda o puramente instintivo? É preciso levar em conta a...
— O bicho tá escapando, cacete! Joga logo essa lança, pelo amor de Deus!
— Deus? Ha! Deus não passa de uma entidade abstrata que se presta a apaziguar nossos temores quanto à impermanência do...
— Fugiu, olha aí! Satisfeito, panacão? O mamute fugiu! E agora? Me diga! E agora, o que a gente vai comer?!
.
E é assim que, segundo algumas fontes, o pensamento abstrato está diretamente ligado ao surgimento da antropofagia.

18 maio, 2007

A VINGANÇA VEM A CAVALO OU, NO CASO, A JUMENTO (FOTO)



Se o Blogger não houvesse me boicotado, dando provas suficientes de que trabalha para o campo inimigo, o título da postagem seria este:

“De como o energúmeno me caluniou mais uma vez e, em função disso, irá pagar com juros meirélicos toda a sua aldravice, doblez, endrômina, fabulagem, enleada e, sobretudo, sua ignorância por não saber o significado de nenhuma das palavras anteriores, quando eu lançar, na próxima semana, uma série de crônicas em que deslindarei sua vida de acrasia, cabritismo, salacidade, sensacionismo, torpidade e, principalmente, dupla ignorância por também desconhecer o sentido desses outros vocábulos”.

Entrem aqui e entendam o porquê, infelizes leitores.

16 maio, 2007

HÁ QUINZE MIL ANOS



- Tem certeza que é por aqui?
- Acho que sim. O caminho deve ser esse. É só seguir essa semita e...
- Uhm... Tá errado.
- Não, não, eu acho que é por aqui mesmo.
- Não, tá errado. Você disse “semita” e o certo é “sêmita”, com acento.
- A gente aqui à beira da morte e você com preciosismo lingüístico. Parece que não evolui!
- Isso não tá certo.
- Já sei, você não gostou do meu tom.
- Não, falava do caminho. Será que a gente pode confiar naquela última placa?
- Não sei. Era na Europa, né? Não se deve levar muito a sério esses lugares primitivos.
- Quanta neve! Brrr. Maldito Darwin! Se dependesse do Criacionismo, agora a gente tava num belo de um Paraíso, sem trabalho, curtindo um solzão, na maior camaradagem com Deus.
- É, mas, em compensação, e a culpa da tradição judaico-cristã?
- Quem liga pra culpa quando pode ver mulheres sem a mínima noção de pecado, vestindo apenas folhas de parreira?
- Isso é discutível.
- Pela minha cauda vestigial! O quê, dessa vez? A noção de pecado, as folhas de parreira ou o caminho que a gente tá seguindo?
- A camaradagem com Deus. Ele nunca foi de ter amigos.
- O pior de tudo é a fome. Será que você não me descola uma raiz aí, não?
- Tô zerado. Já comi até a dos meus molares. Ih, olha aí, caiu mais um dos nossos companheiros. Não agüentou, coitado, morreu de fome e frio. Também, uma caminhada dessas!
- Tive uma idéia! Vamo escrever alguma frase inteligente num papel e amarrar no corpo dele, só de sacanagem, pra quando um arqueólogo no futuro encontrar o sujeito. Que tal: “Saiu da vida pra entrar na pré-história”?
- Seu burro, a gente ainda não conhece a escrita. Sabe o que isso significa?
- Que a gente não sabe escrever, vai acabar virando jornalista. Onde será que a gente tá, hein?
- Acho que a gente tá andando em círculos.
- Em círculo, no caso. Círculo Polar Ártico. Ha, ha, ha! Essa foi boa.
- Foi ótima. Sobretudo se a intenção era estimular o suicídio. Sabe de uma coisa? Depois de andar tanto, eu tenho pra mim que a gente entrou no período histórico errado. Nós não tamos, por acaso, na fuga do Egito?
- Pelo visto não, porque infelizmente eu não tô vendo um único gafanhoto. Com a fome que eu tô, comia até pernilongo.
- Peraí. O que é aquilo? Tô enxergando um... Olha ali! A passagem ! É a passagem! Chegamos!
- É aqui? Pô, mas isso devia se chamar Largo de Bering. Eu não agüento mais. Não vou conseguir atravessar. Eu fico.
- Que é isso! Tem fé, cara.
- Fé, eu tenho. Pena que não tanto quanto Maomé. E aquela montanha do outro lado tá muito longe.
- O povoamento da América depende da gente.
- Brigado. Deixo a tarefa aos mexicanos. (senta-se) Vou ficar.
- Pensa na tua descendência, rapá!
- Pensei nela horas atrás, quando meu saco começou a ficar congelado. Eu desisto.
- Meu irmão, o jazz, a tequila, os incas, a pipoca, nada disso vai existir se a gente não povoar o novo continente! E o biquíni fio dental, hein? Já pensou? Hein?
- (após alguns segundos, levantando-se) Tudo bem. Eu vou. Pela feijoada, pelo tango, pelos maias, por Sandino e pelo fio dental. Sobretudo pelo fio dental.
- Ótimo! Assim que se fala. Vambora. São só alguns... Ei, mas que é isso? Desistiu de vez? Levanta. Por que é que tu tá sentando de novo?
- (suspirando) Me lembrei do forró eletrônico e do Congresso brasileiro, cara.

11 maio, 2007

EM DEFESA DA VIDA



Desde sempre os comunistas ateus tiveram grande inveja de nossa Santa Madre Igreja. Primeiro, porque Deus pode até ser judeu, gordo e barbudo, mas nunca teve os piolhos que infestavam a cabeleira de Marx.

Segundo, porque, nos últimos tempos, após a queda do Muro de Berlim, os padres acabaram de uma vez por todas com a fama de que os vermelhos eram os maiores comedores de criancinhas do mundo.

E, por fim, porque, convenhamos, a cruz é um lugar muito mais divertido para se morrer do que a Sibéria.

Por sorte, os comunistas haviam sumido das plagas nacionais há algum tempo, indo os remanescentes se esconder, todos eles, no único lugar onde ainda conseguiam existir: a cabeça do Olavo de Carvalho.

Mas eis que agora que o nosso santo padre, o razoável, maleável e progressista Bento XVI chega ao Brasil, os velhos stalinistas retornaram à cena para tentar conturbar a produtiva e modernizante viagem de Sua Santidade.

Segundo parece, os bolchevistas nacionais estão em plena atividade, promovendo uma horrenda campanha a favor do aborto. E, ao contrário do que se poderia pensar, não se trata de uma campanha em defesa do Gilberto Kassab.

Porém, a resposta do sumo pontífice veio rápida: Bento XVI está pensando seriamente em excomungar políticos que defendam expediente tão nefasto. Notícia que me deixa bastante feliz.

Primeiro, porque surpreendentemente traz a informação de que o papa pensa. E, segundo, porque vai intimidar os parlamentares latino-americanos, fazendo com que se voltem para causas mais condizentes com as práticas cristãs e, portanto, não passíveis de punição pela Igreja, como o desvio de recursos públicos, o tráfico de influência, o peculato e deixar mulheres morrerem em clínicas clandestinas sem assistência médica adequada.

Foi, como sempre, pensando no amor ao próximo que o papa se pronunciou. Afinal de contas, os assassinos hereges que defendem o aborto não têm a menor idéia do soturno destino dos fetos, após serem retirados das barrigas das mães.

A verdade monstruosa é que os pobres coitados são enviados a laboratórios de ciências de todo o Brasil, onde são cruelmente trancados em vidros de clorofórmio, sem acesso aos direitos mais básicos do brasileiro que se encontra vivo, como assistir à novela das 8, ser assaltado e votar no Clodovil.

Portanto, não nos deixemos levar pela escumalha comunista. Apoiemos o papa nesta e nas suas demais propostas: sexo para procriação e depois do casamento apenas, proibição da venda de camisinhas, abaixo as células-tronco.

E, quem sabe, no futuro, em nome de Cristo, ousaremos ir ainda mais adiante: pelo fim da energia elétrica e pela volta do carro movido a manivela.

09 maio, 2007

FLANELINHA



Senhores, a crônica de hoje, "Flanelinha", está no site do Culturando.com. Passem lá, leiam o texto e aproveitem para conhecer o primeiro site brasileiro totalmente desenvolvido para pessoas como eu, economicamente prejudicadas.

07 maio, 2007

CEM METROS RASOS COM RESSACA


Não entendo como, havendo esportes olímpicos tão instigantes quanto o jogo de peteca, o softbol e a luta greco-romana (que, como se sabe, é aquela em que vence o competidor capaz de derrubar o outro com o maior número de silogismos), ainda não se inventou algo chamado “cem metros rasos com ressaca a caminho do trabalho”.

Os Cem Metros Rasos com Ressaca a Caminho do Trabalho (ou CRT, para os íntimos) exigiriam dos participantes uma determinação e um controle sobre o corpo só encontrados entre súditos da dinastia Zhou, na China Antiga. Diante dele, o pentatlo não passaria de uma brincadeira sem maiores compromissos, como o cuspe à distância e o mandato parlamentar.

É claro que, a exemplo do futebol e da orgia, o CRT precisaria, antes de mais nada, de um local adequado para a sua realização, bem como aparelhos que a ele dessem suporte. Talvez um grande galpão, escuro, ornamentado com motivos que propiciassem o sono: tons azuis, anjos renascentistas, discursos do Marco Maciel.

Ali, seriam enfileiradas camas confortáveis com colchões d’água e servidos aos competidores litros e litros de cachaça, conhaque, cerveja, além de outras bebidas de difícil qualificação, tipo o gim seco e a Nova Schin. Como música de fundo — e não estou, como alguns poderiam pensar, falando de flatos —, também algo que fizesse os atletas pensar em dormir: prelúdios de Chopin, música new age, comentários do Galvão Bueno.

Nesta primeira fase, pontuariam os atletas que resistissem por mais tempo de pé, bebendo a maior quantidade de álcool. Às cinco horas da manhã, no entanto, todos deveriam ir para as camas. Às seis, seriam despertados com um barulho ensurdecedor: talvez mil despertadores potentes, talvez uma análise política do Alexandre Garcia.

Então, seriam obrigados a se dirigir, o mais rápido possível, ao ginásio de esportes, que ficaria ali ao lado — perdendo pontos todo aquele que metesse a cabeça na parede, vomitasse no carpete, bebesse o conteúdo do colchão d’água ou escovasse os dentes com creme de barbear.

Uma vez em suas marcas e dado o tiro de partida, os esportistas disparariam a toda velocidade na direção de um ônibus lotado, que ficaria estacionado na linha de chegada, distante cerca de cem metros. Após o último competidor entrar na condução, esta daria cinqüenta voltas ao redor do estádio, a 80 km por hora. Ao final das quais, todos seriam imediatamente levados a uma pedreira, localizada nas imediações.

Cumprida esta segunda etapa, em que pontuariam os que tivessem alcançado o ginásio primeiro, bem como os que saíssem do ônibus sem fazer nenhuma referência à mãe do motorista, caberia a nossos heróis usar uma picareta para quebrar o maior número de pedras dentro do menor prazo possível, enquanto num telão seriam projetadas longas tomadas das Cataratas do Iguaçu.

Por fim, seria declarado vencedor aquele que fizesse o maior número de pontos na soma das três etapas da competição. Não valendo, evidentemente, para a contagem, pontos na testa ou em qualquer outra parte do corpo.

O vitorioso seria premiado com uma cesta de aspirinas, além de um transplante de fígado e dez litros de glicose. Mas perderia a medalha caso o exame de urina detectasse o uso de Engov.

Enfim, as regras poderiam sofrer algumas pequenas alterações, como a inclusão de um artigo em que se proibisse amarrar pedaços de carne crua sobre a testa para diminuir os efeitos da dor de cabeça ou, ainda, a obrigação de se ingerir croquete de rodoviária como tira-gosto.

Mas, tudo considerado, acho que já permitem uma reivindicação ao Comitê Olímpico Internacional.

04 maio, 2007

HIPERSENSIBILIDADE



- Uh! Esse cheiro... É de você?
- Não, do meu cocô. Por quê?
- Isso... Isso não é normal!
- Ah, não? E você queria que eu eliminasse meus detritos orgânicos como? Através da pele?
- Fazer cocô é normal, Jarbas Filho, o que não é normal é esse cheiro. Tem alguma coisa errada com o teu cocô.
- Tem. Eu já tava inclusive pensando em levá-lo ao psicólogo, coitado. Deve ser fixação na fase anal. Faça-me o favor! Quer deixar eu ler o jornal em paz?
- Não, meu querido, eu acho que você tá levando seu amor ao Oswald de Andrade a sério demais. Porque ou bem você virou antropófago ou não sei o que comeu ontem, mas sem dúvida alguma coisa morta acaba de sair de dentro de você.
- Sei. E, pelo visto, você veio pro enterro, né? Por que não sai do banheiro, hein?
- Porque preciso tomar banho. O que tá me parecendo impossível, pois esqueci minha máscara antigás e, ao que tudo indica, quem construiu nosso banheiro foi a Esfinge. Afinal, caso tivesse nariz, o arquiteto não teria projetado a privada tão perto do chuveiro.
- É, né? Eu só fico triste quando penso no tanto de dinheiro que a gente tem perdido durante todos esses anos. Porque, pelo que você tá dizendo, se a gente tivesse vendido o teu cocô pra Chanel, hoje estaria rico.
- Não, meu querido, o meu cocô pode até feder, mas tá dentro dos padrões normais.
- Segundo o Inmetro, né?
- O senso comum, Jarbas Filho, segundo o senso comum. O meu cocô não cheira bem, evidente. Mas é claramente um produto do organismo humano. Isso que você faz eu não sei de onde vem. É o oitavo passageiro... Só faltava essa: você querer comparar o cheiro do meu cocô com o seu! Eu uso arma convencional, o seu é guerra química!
- Ha! ha! ha! Assim você me mata de rir! Você por acaso tá com medo dos inspetores da ONU? Não seja modesta. Em termos de cheiro de cocô, você já chegou à fissão atômica há muito, meu bem!
- Pra começo de conversa, meu filho, eu tenho prisão de ventre, certo? Só faço cocô, quando muito, de três em três dias.
- É o chamado cocô maturado. É que nem o Congresso. Demora a fazer alguma coisa, mas também, quando faz...
- Já o teu caso tá mais pra Ministério da Defesa, né? Faz merda das grandes todos os dias e põe em risco a vida de milhares de pessoas. Será possível que você vai ficar aí pra sempre, hein? Por acaso tá adiantando o cocô da semana inteira? Eu tô atrasada!
- A culpa é toda sua. Você me desconcentrou. O meu é um cocô sensível, que necessita meditação.
- Que ele é sensível, não resta a menor dúvida. Pode-se senti-lo a léguas. Agora, por favor, sai daí, que eu ainda vou gastar um tempão acendendo fósforos pra acabar com o mau cheiro. Aliás, da próxima vez que for no supermercado, me lembre de comprar uma vela de sete dias, sim? Nossa Senhora do Tietê, como isso fede!
- Pronto, olha aí! Viu, viu? Ficou tímido, travou, mulher! Não sai, não sai mais!
- Ai, não acredito! Será possível que todo dia agora é a mesma coisa?
- Eu avisei. É um cocô criado por vó. Hipersensível.
- Pelo amor de Deus, Jarbas Filho, eu tô atrasada!
- Paciência. Agora é esperar ele recobrar a autoconfiança.
- Vou perder o emprego. Isso não é brincadeira, Jarbas Filho!
- Sinto muito, mulher. Você magoou o bichinho.

03 maio, 2007

FILHOS


— Ando pensando muito sobre eles...
— Eles quem?
— Nossos filhos...
— Ué? Mas se a gente nem tem filhos!
— Mas vai ter. Ou não vai ter? E por acaso o fato de a gente não ter filhos impede que se pense sobre eles? É cada uma...
— Ai, já sei! Tu tá com DPJN de novo, né?
— DPJN?
— Depressão Pós-Jornal Nacional. Todo dia é isso agora. Tu não pode mais ver o Jornal Nacional que fica aí, pensativo, mais imprestável que cinco congressistas.
— E não é pra ficar, mulher? Ou tu não tem acompanhado as notícias? O planeta tá todo de cabeça pra baixo. É furacão, ciclone, tsunami, calor fora de hora, jornais sem erros de português... Tudo errado. Como é que a gente vai colocar um menino no mundo assim?
— Antes de mais nada, Geraldo, não sei se você está inteirado sobre os recentes avanços da ciência, mas pra ter filho é preciso fazer sexo. Coisa que não anda muito freqüente aqui em casa desde que você se pôs a meditar sobre o futuro da humanidade. O que é um contra-senso, porque se todo mundo se pusesse a meditar sobre o futuro da humanidade como você, a humanidade simplesmente não teria futuro. Quando menos, por absoluta falta de esperma.
— Ha, ha. Tô morrendo de rir. Agora imagine mesmo, a minha menininha, lindinha, loirinha, de olhos azuis, uma pequena princesinha vindo à luz num momento como esses. E se ela sofre um seqüestro? E se é estuprada? Pior! Se torce pelo São Paulo ou vira leitora do Reinaldo Azevedo?
— Não sabia que você estava planejando ter um filho de proveta.
— Como assim, proveta? Que proveta?
— Claro, porque pra gente ter uma criança nos moldes que você descreveu ou ela será filha do Hermeto Pascoal com o finado Sivuca ou então vai ser pura obra de intervenção divina. Tu acha que eu gasto cem paus todo mês pra alisar o cabelo só pra ficar parecida com a Fátima Bernardes?
— Tudo bem, mulher. Não interessa o biotipo que a filha vai ter. O que eu quero dizer é que...
— Filho.
— Quê?
— Quero ter um filho, primeiro, e não uma filha. Já te disse.
— Tô exemplificando. Filho, filha, menino, menina... um jumento que seja!
— Aí também não. Por que querer que o filho se pareça só com você?
— Tô perdendo a paciência. Me escuta: você acha que vale a pena pôr uma criança no mundo nas atuais circunstâncias, hein? Mas me diga mesmo. Me cite uma coisa boa, um fato novo, alvissareiro, positivo que tenha acontecido na Terra nesses últimos anos. Não há nada. É o fim dos tempos, o fim da procriação.
— Bom, teve o... a... bem, a Austrália participou da Copa do Mundo pela primeira vez em 2006, lembra?
(levantando-se e a abraçando, efusivo) Obrigado, mulher, obrigado!
— Que foi, criatura?
— Você salvou a nossa descendência.

02 maio, 2007

COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA (CAPÍTULO FINAL)



Minha guerra com a bicicleta ergométrica foi verdadeiramente titânica. E a maior prova disso é que, a exemplo de Urano, também eu quase perdia minha genitália ao ser acertado por um golpe baixo de guidom.

No entanto, porque pessoa brabosa que não se deixa intimidar pela evidente superioridade técnica do adversário, em apenas três horas de dura batalha, tendo perdido somente parte de um dedo e o senso de ridículo, consegui submeter o fementido aparelho.

Assim, levantei-me do solo mais orgulhoso que cinco Zé Dirceus e, trauteando a musiquinha de “Rocky - Um Lutador”, virei-me para minha mulher, de peito estufado e sorriso tão largo quanto o rombo nas contas públicas:

- Perfeito, hein? Que tal? Perfeito, ahn?
- Sim – respondeu ela, impaciente. E completou: - Sobretudo para o curupira.
- Que curupira? Por que curupira?
- O selim tá apontando pro lado contrário, Marconi!
- E daí? Tu também reclama de tudo, mulher!

Era verdade, companheiros. Da maneira como foi montada a desgraçada geringonça, a menos que a pessoa fosse um grande místico e tivesse bem desenvolvida a visão do terceiro olho, seria impossível pedalar mirando à frente.

Senti, portanto, que aquilo era um chamado à fé. Afinal, no que dependesse de mim, seria mais fácil conversar com uma sarça ardente ou duas do que me prontificar a encarar nova lida com as ferramentas.

- Você vai deixar isso assim?
- Ué? E qual é o problema? Nunca ouviu falar em back spinning?
- Back spinning? É “torcicolo” em inglês?
- Quanta ignorância! Isso é moda nas academias agora, mulher. A pessoa pedala de costas.
- Sei. E bate as asas pra se equilibrar, né?
- Você não confia em mim?
- Pergunta retórica não vale.

De fato, o único inconveniente de pedalar com o selim posto do lado contrário é o fato de que, dessa maneira, não há onde se segurar. Mas, um bom atleta não se deixa intimidar por minigâncias de tal monta.

De maneira que, para mostrar a ela toda a minha perícia e minha cirquedusoléica porção acrobática, respirei fundo, rezei ao Bom Jesus dos Agnósticos, assentei-me galhardamente na máquina e encarei de frente o desafio.

E como não sou homem de encarar de frente apenas desafios, a verdade é que, no minuto seguinte, encarei de frente também o chão.

Aqui, abro um parêntese para fazer as exéquias atrasadas do meu bisavô. Porque a verdade é que, se aquele homem de espírito aventureiro não tem vindo da Síria para se casar no Brasil e, modestamente, ao longo das gerações, não tem me passado o glorioso nariz árabe de que sou portador, teria definitivamente esfacelado o rosto no solo.

Contando, contudo, com o anteparo nasotrombal, me vi salvo. E prometo a vocês que me dedicarei a consertar a bicicleta e iniciar-me-ei na prática masoquista de pedalá-la, em breve. Muito em breve. Tão-logo consiga voltar a ler o jornal sem precisar que alguém o segure aberto a dois metros de mim.

01 maio, 2007

BREVE HISTÓRIA DA HUMANIDADE: UMA ABORDAGEM PROCTOLÓGICA


A evolução humana pode ser dividida em dois grandes períodos históricos, a saber: ADS e DDS. Ou seja, Antes da Ducha de Sanitário e Depois da Ducha de Sanitário.

No princípio, nossos ancestrais faziam suas necessidades por toda parte, sem preocupação com o asseio e, muitas vezes, melando outros indivíduos. O que leva a crer que o comportamento dos políticos é atávico e se origina naquele ponto de nossa história.

Um belo dia, no entanto, milênios após o surgimento de nosso primeiro antepassado, um membro daquela comunidade primitiva fazia suas necessidades calmamente atrás de um arbusto, quando viu surgir um mamute. Em sua fuga desabalada pela savana, jogou fora a Playboy, correu na direção de um abismo e acabou caindo sentado sobre uma bananeira.

Morreu empalado, mas seus contemporâneos descobriram um nobre uso para a folha daquela planta. Surgia então o Homo Bundussujus. Além, claro, do Homo Sexual, ramo de nossa espécie que floresceria milênios mais tarde na Grécia Antiga.

É bem verdade que, naquela noite dos tempos, houve certa confusão entre a folha de bananeira e a de urtiga, o que ocasionou o surgimento de um hominídeo chamado Homo Bundacossandus, o qual teve vida curta, uma vez que o gelo em cubos só seria inventado no século XIX.

A folha de bananeira, por outro lado, seria usada durante incontáveis séculos, produzindo os primeiros desmatamentos em grande escala de que se tem notícia, bem como o salutar hábito de lavar as mãos antes das refeições.

As coisas estavam mais ou menos nesse pé (não o de bananeira), quando, no século XVI, o genial Gutenberg inventou a prensa móvel. A partir de então, seria popularizado o jornal e, o que é melhor, o jornal velho, que logo substituiria a folha de bananeira na toalete básica. Surgia assim o Homo Bundassadus.

Contudo, em sua incansável luta para superar obstáculos e, principalmente, combater oxiúros, o homem acabou eliminando a parte supérflua do jornal impresso. Produziu um papel que não continha nada escrito e, mais importante, sem a coluna da Eliane Cantanhêde.

Nascia o Homo Sapiens ou, em bom português, o “homem sapo”, nomenclatura que deriva evidentemente da posição em que a gente fica para se limpar.

O papel higiênico certamente marca uma fase brilhante na escalada evolutiva da humanidade, mas não eliminou o que os especialistas chamam de Grave Problema da
Conferida (ou GCP, do inglês Grave Checking Problem). Ou seja, o tempo que o indivíduo gasta olhando pateticamente para o bolinho de papel que acabou de passar em si para ver se está devidamente limpo — sabendo de antemão, na maioria das vezes, que não está.

Com o desenvolvimento do capitalismo, o GCP tornou-se insustentável. O próprio Marx desenvolveu uma fórmula para calcular a relação mais-valia x metros de papel usado pelo trabalhador, enquanto Keynes defendia a intervenção estatal para regular o preço do produto.

Mais tarde, quando Nixon resolveu lastrear o dólar nas reservas de papel higiênico produzido nos EUA, o capitalismo mundial entrou em crise. E, em 1987, a Bolsa de Nova York caiu vertiginosamente após a subida no preço desse commodity, arrastando as pregas, digo, os pregões de todo o mundo.

No entanto, precisamente naquela década, surgiria a tão sonhada ducha de sanitário. No comércio, diga-se, já que um primeiro projeto havia sido rascunhado na Renascença pelo mestre Leonardo da Vinci, que utilizou como matéria-prima intestino de carneiro no lugar da mangueira.

Testes recentes, inclusive, comprovaram que o aparelho de Leonardo funcionava perfeitamente, apenas o odor é que ficava relativamente pior do que se você não houvesse se limpado.

Seja como for, o fato é que, com a comercialização das duchas de sanitário, o sistema capitalista internacional voltaria a se robustecer, dando início ao processo que hoje se conhece como globalização e propiciando o aparecimento do homem contemporâneo, o Homo Bundalavadus.

É certo que, desde então, alguns setores da indústria entraram em crise, como o de medicamentos para hemorróidas e o de talco para assaduras. Mas nunca, como agora, o ser humano esteve tão apto a enfrentar os desafios do mundo moderno. E, mais especificamente, aqueles decorrentes da ingestão de uma feijoada.