07 abril, 2007

VOAR, VOAR; SUBIR, SUBIR


Vocês, leitores aquinhoados pela sorte e que têm a satisfação de contribuir para a compra de ambulâncias para o nosso sistema público de saúde com o pagamento do IR, certamente fazem suas viagens Brasil afora — e quiçá até para a Europa ou outros lugares no estrangeiro, como o Amapá — a bordo de aviões. Quanto a mim, não tenho esse privilégio: quando preciso viajar, sou obrigado a me deslocar de Fokker 100 mesmo.

Sendo assim, todas as vezes que quero visitar o Recife ou, mais precisamente, todas as vezes que a minha mãe me liga com voz de penitente dizendo que está com um sério problema no útero — o que sem dúvida é grave, posto que ela retirou o órgão em 1988 —, sou obrigado a pegar um dos vôos noturnos de nossas fantásticas companhias aéreas e passar pelo instrutivo treinamento para turista da Disney disponibilizado nas filas de embarque de nossos aeroportos. O qual, não tenho dúvidas, fariam Jó desacreditar do Senhor e abraçar com alegria o ateísmo.

Tudo bem, dirão alguns, mas se é para economizar dinheiro, por que não escolho um meio de transporte mais célere, confortável e seguro, como o pau-de-arara, por exemplo? Ao que eu, depois de consultar o significado de “célere” no dicionário, respondo: porque, sendo adepto de esportes radicais como o rapel, o bungee jump e a leitura de “O Capital” em alemão, gosto de aventuras arriscadas — prova maior disso é que tinha conta no Banco Santos.

Mas, sou de um tempo em que ainda não era proibido respirar em vôos nacionais e que, para cruzar as pernas, não tínhamos que possuir nenhum tipo de experiência como iogue, o que me dá uma sensação esquisita de alheamento e inadaptação todas as vezes que me sento na poltrona de nossas atuais aeronaves.

É bem verdade que nossa aviação melhorou muito nos últimos anos. É com satisfação, por exemplo, que vejo a atual política de cotas, através da qual se permite que animais de estimação, como porcos e galinhas, acompanhem seus donos nos traslados aéreos. Bem como o revolucionário e cartesiano plano de vôo, que estimula o conhecimento de nosso imenso Brasil, fazendo com que o sujeito que queira ir do Sudeste ao Nordeste tenha que necessariamente dar uma passadinha em Goiânia ou prestigiar as belezas naturais de Rio Branco.

Também acho louvável o esforço de nossas empresas para diminuir o índice de obesidade de nossa população, distribuindo como lanche nas aeronaves apenas o estritamente necessário para, senão matar, ao menos alvejar perigosamente a nossa fome, como três caroços de amendoim e um dedo de tubaína light em temperatura ambiente.

Sem falar no cuidado com a estética que leva o comandante a ligar o ar-condicionado no mínimo, fazendo com que transpiremos mais que um freqüentador de sauna em Teresina e, dessa forma, hidratemos nossa pele.

Sei ainda que muito dos dissabores da viagem poderiam ser poupados caso o incompetente governo federal asfaltasse direito o nosso espaço aéreo, evitando as constantes quedas em buracos e algumas fraturas expostas no crânio.

Só não me acostumei ainda com a qualidade das músicas nos vôos. Aceito que o trajeto de São Paulo ao Recife dure breves doze horas, que as aeromoças cocem o saco e nos insultem quando pedimos uma informação e que o uso do banheiro requeira uma iniciação nas artes circenses.

Tudo isso eu mereço, eu sei. Mas, pergunto aos senhores, que têm maior cultura e já viram cédulas de R$ 100: será mesmo necessário que, a cada uma das duas mil novecentas e trinta e duas paradas ao longo do percurso, sejamos obrigados a escutar Rick e Renner?

Eis aí minha modesta contribuição para mais um profundo debate nacional.

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