14 abril, 2007

VEGETARIANISMO


Sempre que me perguntam qual livro mais marcou minha vida, digo que foi a lista telefônica de 1978. Primeiro, porque é um livro em tudo parecido com uma romance russo. Senão pela qualidade, ao menos no número de personagens e na grossura.

E depois, porque ela caiu na minha cabeça de uma altura de quatro metros quando eu tinha três anos, o que sem dúvida me deixou com várias seqüelas, como podem constatar todos aqueles que me lêem. Dentre as quais, gostaria de citar uma leve tendência a me esconder debaixo do sofá quando o telefone toca e certa propensão a gritar “Bingo!”, quando alguém me dá o número do seu celular. Enfim, nada muito grave.

Mas outro livro que me marcou muito ou, quando menos, o meu estômago, foi “Sidarta”. Após lê-lo, bem no início da adolescência — fase da vida em que usamos tanto de racionalidade e bom senso quanto o Departamento de Defesa americano —, resolvi parar de comer carne.

Falei “estômago” porque a dieta do vegetariano, como se sabe, é bastante ampla. Pode-se comer soja, verdura, verdura, soja e, se sentir muita fome e para desenjoar um pouco, é permitido ao indivíduo, às vezes, ingerir um pouco de soja e verdura também.

Só depois que passei a comer soja numa quantidade razoável foi que desvendei o grande mistério da levitação. Afinal de contas, a quantidade de gases que a fermentação do dito grão provoca seria capaz de fazer subir pelos ares até um elefante, quanto mais um faquir. Isso, se o animal conseguisse ficar na posição do lótus, claro.

Sem dúvida esta é a maior razão por que o incenso é tão popular na Índia. De outra forma, seria impossível respirar no país.

Também naquela época entendi perfeitamente o motivo por que os grandes mestres do Oriente têm sempre olhos saltados e tanta leveza no caminhar. É fome. Digo a vocês que a paz interior é um produto direto da falta de alimentação.

E a meditação, em conseqüência, é propiciada pelo constante contato com o mau hálito do esfomeado guru. O que é bastante educativo e producente. Afinal, a certa altura o sujeito pensa: “Ou eu atinjo o nirvana de uma vez ou vou ter que ficar sentindo esse bafo pelo resto da vida”.

Após seis meses me alimentando de maneira mais precária que um personagem de “As Vinhas da Ira”, minha fase vegetariana acabou, um belo dia, quando fui a um churrasco com a turma do colégio.

Ali, enquanto um grupo de amigos se divertia com picanhas, maminhas e congêneres, eu comia um pedaço da samambaia da dona da casa, com um pouco de sal e azeite.

A certa altura, no entanto, ouvi um ruído estranho e, ao mirar a mesa, me dei conta de que uma chuleta me chamava, olhando de soslaio, com um sorriso de deboche. Acintosa, queria discutir comigo a “Poética” de Aristóteles e o “Fédon” de Platão.

— Não me provoca que eu sou pré-socrático — pedi.

Ela não se fez de rogada:

— Você não passa de um cristão!

Atraquei-me com o pedaço de carne mais encarniçado que um deputado sobre verba do orçamento. A luta foi árdua, mas em cerca de trinta segundos de dialética, derrotei a despeitada.

Ela ainda desceu pela minha garganta defendendo a transmigração das almas. Mas, usando da maiêutica, arrematei o diálogo com um triunfante arroto. Em seguida, encarei um fileira de corações e por aí segui: cupim, alcatra, costela etc. Sobretudo etc.

Assim, dei adeus definitivamente ao vegetarianismo. E, a partir daquele dia, redescobri os prazeres da boa mesa, o sabor dos alimentos, a variedade de comidas, a dor de barriga e a intoxicação alimentar.

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