15 abril, 2007

SENSIBILIDADE


— Isso são horas, Alcides? Então você me sai pra beber e chega uma hora dessas quando... Ai! Ai, meu Deus!
— Que foi? Por que tu tá subindo no sofá?
— Isso daí, Alcides! O que... o que é isso... que... que tu tá carregando numa coleira?
— “Isso”, não. Mais respeito. O nome dele é Astrogildo.
— Um porco, Alcides? Tu chega em casa embriagado, de madrugada, e ainda traz um porco pela coleira?
— Ué? Tu não gosta tanto de animal?
— Gosto de gato, cachorro, hamster e um pouco de você, Alcides. Mas um porco? Eu devo tá sonhando...
— Qual o problema do porco?
— O problema é que ele não tá dentro da feijoada!
— Um bichinho tão dócil... É praticamente um cachorro.
— Sem dúvida. Sobretudo se a gente estivesse em Chernobyl. Tu perdeu completamente o senso do ridículo?
— Tá vendo aí, Astrogildo? A gente tenta agradar e é o que recebe. Tu não vivia dizendo que queria um animalzinho de estimação? Tu não adora bicho?
— Adoro, Alcides. Mas detesto futebol. Que é que eu vou fazer em casa com uma mascote do Palmeiras?
— O Astrogildo não é um porco qualquer, mulher. Ele curte Pink Floyd e abana o rabo quando declamam Baudelaire. Se bem que ele prefere Verlaine. Pela musicalidade. Né, Astrô? Gute, gute, gu!
— Alcides, você vai sair com esse bicho daqui agora! Agora, tá ouvindo? Onde é que tu conseguiu essa... essa coisa?
— Rifa. Sortearam lá na repartição. Queriam fazer churrasco, mas eu não deixei. Me apeguei ao bichinho. Ele não é a cara do Diogo Mainardi? Gute, gute, gu!
— A cara, eu não sei. O espírito, certamente. Ai, não chega perto! Sai com esse bicho daqui! Sai!
— Não, mulher. Rolou um lance, saca? Identificação. O Astrogildo também teve uma infância sofrida. Imagine você que ele perdeu a mãe quando era bebê, atropelada por um caminhão de gás. O pobre até hoje não pode ouvir Für Elise que solta guinchos...
— Tua mãe ainda tá viva, Alcides.
— Eu sei, mas também não posso escutar Beethoven que fico todo sensível. Além do mais, ele foi sodomizado por um rottweiler na adolescência. Por isso é meio assim, melancólico. Olha a carinha dele. Não tem aquele jeitão depressivo dos existencialistas franceses? Gute, gute, gu!
— Tem, tem. Se fosse zarolho, era a cara do Sartre. Agora, me escuta, vou falar devagar pra ser mais didática: TIRA... ESSE... PORCO... DAQUI... AGORA!
— Já te disse que o Astrô não é um porco comum, mulher. É um artista. Quando a gente assobia o Réquiem, ele se faz de morto. Quer ver?
— NÃO!!!
— É um sofredor. É um... É...
— O que é isso, Alcides? Ai, meu Deus do céu, o Alcides tá chorando por causa de um porco!
— Você não entende, mulher. Você é uma insensível!
— Eu... Bom... Eu... Tá, tá, tudo bem! Que é que se vai fazer? Hoje esse porco pode ficar aqui em casa. Mas só hoje, tá ouvindo? E pára de chorar!
— Jura?...
— Pode.
— No nosso quarto?
— No quarto de empregada, Alcides! No quarto de empregada. E vê se tranca bem aquela porta.
— Ah, aí não dá, mulher.
— Não, é? E por quê?
— O Astrô sofre de claustrofobia.

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