02 abril, 2007

PERSONAL THINKER


Conversando com um amigo, falei outro dia num "personal thinker" e a verdade é que estou pensando seriamente em patentear a idéia e explorar esse promissor ramo do empreendimento cérebro-desportivo.
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Não no Brasil, evidentemente, onde já alcançamos um nível de desenvolvimento neuronial que dispensa a ocupação com ninharias como o pensamento abstrato e o raciocínio lógico, preferindo aplicar-nos a práticas mais desafiadoras: eliminar participantes de reality shows pelo telefone ou escrever letras de música popular usando apenas três vogais e alguns gemidos, por exemplo.
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Estou visando, isso sim, nações exóticas e de insuficiente capacidade intelectual que, em pleno século XXI, diante de todos os avanços feitos pelo homem nas artes e na indústria, ainda se dedicam a atividades atrasadas e lúridas como a filosofia e a ciência.
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Mas, caso alguém esteja interessado em comercializar minha patente aqui mesmo em terras pátrias, eis como imagino uma aula típica. Usando um abrigo esportivo, tênis e uma faixa na cabeça, o instrutor se aproxima do seu aluno, batendo palmas, enérgico:
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— Olha essa sinapse! Aguça esse senso crítico! Vamo lá: um, dois, um, dois, um, dois... Quanto é que deu?
— Ahn?
— Molenga! Deu nove! De novo: um, dois, um, dois... Como é que se classifica isso?
— Isso o quê?
— Burro! Sistema binário! Vamos lá, não pára! Fazendo um silogismo! Qual o primeiro termo?
— Em “fazendo um silogismo”, o primeiro termo é um verbo, o verbo fazer.
— Animal! O primeiro termo do silogismo! A tese! Vamo! Mexendo os neurônios! Um, dois...
— Tese? Pra ter aula é preciso ser formado?
— Muito bem: “Pra ter aula é preciso ser formado”. Juízo afirmativo. Respira! Expira! Vamo! Agora, a antítese!
— Não sabia que precisava de diploma. Eu não sou formado!
— Perfeito! “Eu não sou formado.” Agora, mais rápido! Vamo! Um, dois... A síntese. Logo...
— Não me apressa.
— Logo...
— Tô tentando!
— Logo...
— Calma, pô!
— “Logo, eu não posso ter aula!”, seu jumento! É essa a resposta! Respira!
— Bom, se o senhor não pode ter aula e eu também não posso, vamo parando por aqui. Me dê meu dinheiro de volta.
— Quadrúpede! Você não pode dizer essa frase!
— Posso, sim. O dinheiro é meu, paguei pela aula e se...
— Cavalo! Não se pode começar frase com o pronome! Inspire! Repita comigo: “Dê-me meu dinheiro de volta”.
— Eu é que peço: dê-me meu dinheiro de volta!
— Muito bem. Mudando de exercício! Pegue os livros! No ritmo!
— Ah, não, os livros de novo?
— Cometeu erro tem que pagar! Vamo, olha a moleza! Respira!
— Mas esses livros...
— Vamo, vamo! Você tá cansado de saber: cometeu erro, tem que levantar vinte romances russos! Rápido! No ritmo! Um, dois, um, dois...
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E é assim que, em pouco tempo e com um mínimo de investimento, trabalhando em prol de exercitar a mente, faríamos o impensável: deixaríamos em excelente forma física grande parte da população nacional.

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