12 abril, 2007

MENDIGO



- Dá uma consciência social aí, tio.
- Tem não.
- Só uma consciência social, tio.
- Tem não, menino, já le disse.
- Por favor. Eu tô morrendo de avareza.
- Avareza nada! Tu tá chei de piedade, que eu seio.
- É avareza, tio, eu juro.
- Que avareza o quê! Pensa que eu num tô sentino esse bafo de piedade?
- Eu juro, tio, é avareza. Meu pai é juiz, minha mãe trabalha em ministério. Eu cresci em berço de ouro, tio, queimando índio, fazendo racha...
- Tá pensano que me engana? Eu posso de num ter apego material, mas num sou trouxa, moleque. Sei muitcho bem quando vejo arguém da elite responsave. Tu deve até de trabaiá em ONG e contribuir pro Greenpeace...
- Não é, não, tio. Pro senhor é fácil falar, vive aí na esquina, vestindo farrapo, com esse saco imundo nas costas, cheio de piolho, comendo do ruim e do pior. Mas eu nunca tive amor ao próximo. É verdade.
- Meu fio, outro dia mermo eu vi uma reportage na televisão, mostrano menino rico em carro importado, ingualzinho esse que você tá dirigino aí, fazendo se passar por gente insensive, sem compaixão, e era tudo mentira. Todos eles tava se dedicano a aiguma causa pelo bem da humanidade. Acelera, passa marcha. O sinal já abriu.
- Mas no meu caso é verdade, tio. Eu não tenho consciência social nenhuma. Venho de uma família de 400 anos de Brasil. Tem usineiro, banqueiro, barão de indústria paulista... Nunca soube o que era pobreza, tio. Me ajude.
- Num tenho, meu fio, já le falei. Se tivesse, le dava. A última consciência social que eu tinha dei prum deputado que passou aqui dez minuto atrai. Tava usano carro chapa-branca pra serviço particulá e carregava uma mala cheia de dinheiro público desviado. Dava pra ver que tava necessitado. Mas você?
- Olha aqui, tio, minha declaração de IR. Quer ler? Veja, por exemplo, se aí tá declarado esse carro? Não tá. Também não tenho nenhum imóvel listado aqui. E olha que eu tenho apartamento em todas as ruas do Banco Imobiliário.
- Isso é farso, meu fio. A coisa mais fáci do mundo é encontrar documento farso pra comprovar as corrupção de arguém. Por causo disso que esse país num vai pra frente. Todo mundo trabaia com honestidade e pratica filantropia. Agora chega. Vamo. Circulano. Fecha o vrido elétrio e vai embora.
- Mas, mas, tio... Por favor, se eu chegar em casa sem consciência social a minha mãe não vai brigar comigo de novo.
- Passa, moleque. Vê se encontra outro indiota pra tentá enganá. Anda.
- (dando partida) Eu sou egoísta! Eu juro!
- Vai, vai embora. (para si) Eitcha, que esse povo num aprende mermo! Num se pode mais nem viver na misera, em paz, nessa cidade!

30 comentários:

Halem Souza (Quelemém) disse...

Pô, Marconi! Não dá pra rir deste texto; você nos passou a perna!

De todo modo, excelente. Obviamente, já o copiei e enviarei para os amigos. Direitos autorais, a gente conversa depois. Inté.

Srta. bia disse...

confesso que ri em algumas partes, principalmente da paciência do mendigo ao lidar com o menino.

Mas um texto muito bom, Marconi. Invertendo a situação para o outro lado me fez até pensar no quanto esses jovens são necessitados e perdidos por aí.

Jorge Sobesta disse...

James, seu malandrão!

Morando no exterior agora, hein?

Ultimamente tenho tido pesadelos horríveis com a tal "inclusão social". Num deles meu subconsciente criou até uma musiquinha com o refrão : "Guerra na favela/ é a ordem que governa".

Tivesse eu sua habilidade com as palavras escreveria um livro a moda de Stefen King, mas como acho que as vírgulas servem para dar um nó nas palvras criando uma frase, vou criar um novo gênero musical, o Axé Horror.

Grande abraço.

Gustavo Chaves disse...

Esse é muito bom, tem genialidade literária aí? eu juro, não tenho nenhuma.

edu disse...

Você quando come lichía fica ainda mais sensacional! Cada soco no estômago...

Ana Maria disse...

os diálogos que você escreve são qualquer nota! a leitura flui sem tropeços. muito bom esse texto!

Alê Quites disse...

Estou conhecendo sua nova casa.
Beijos*

Edimar Suely disse...

Boa noite,

Passei para conhecer seu espaço. Eu vivo "garimpando" espaços com conteúdo e gostei bastante deste. Voltarei sempre.
Desejo uma linda noite e muita paz.

Edimar Suely
edi_suely.blig.ig.com.br

sandra disse...

Finalmente consigo colocar minhas patinhas na sua casa nova, meu anjo! Antes eu não sabia dos teus posts mas conseguia comentar. Agora eu te "sigo" pelo bloglines mas a empresa travou os comentários! Coisa de doido!

Amei o post, a casa e PRECISAMOS marcar outra pizza aqui em casa. Saudades docêis!!

Beijos

Serbão disse...

marconi, o nome do moço do carro era, por acaso, Waltinho Salles???

Costajr disse...

Hum... deixa ver se entendi. O mendigo, o andrajoso senhor, tem consciência social porque é pobre, miserável; o outro, o menino de família quatrocentona, jamais teve, ou terá, afinal, ele é rico.

Fico aqui pensando... o que é ter consciência social? Talvez seja dar a esmola ao mendigo, permitir que ele tenha o direito de morar nas ruas.

Marconi Leal disse...

Não, Costa, não é bem isso. Mas, da próxima vez, prometo que coloco uma nota explicativa no final.

Mônica Montone disse...

Ótima a decisão da mudança... o Blogspot é bem melhor do que o uol, eu adorei quando mudei!

Sucesso por aqui, querido!

beijocas e bom fim de semana

MM

ps: muito bacana o texto :o)

Renan Camussi disse...

Puts! Como sempre vc nos deixa sem palavras Marconi. Já te atualizei nas minhas indicações com o endereço novo.

Prosperidade ao novo blog!


abraço, até mais

DO disse...

FELICIDADES na nova casa,MARCONI

Abração!!

Costajr disse...

"Não é bem isso" Hum... sei, é mais ou menos isso, se não for, bem...
desculpe Marconi se pareço obtuso, mas não acharei ruim se você, de fato, pôr uma nota explicativa no final.

Talvez, caso isso ocorra, você ilumine meu entendimento embotado.

marconi leal disse...

Meu caro amigo Costa, convenhamos... Se eu fizesse milagres, já teria sido canonizado há muito pelo Vaticano.

Costajr disse...

Meu caro Leal.

Isso se você fosse católico, mas ainda há tempo, quem sabe você, espirituoso do jeito que é, não se torne, pelo talento e pelos dotes de taumaturgo, o padroeiro dos cômicos, dos pândegos, dessa gente que torna nossa vida menos besta, embora mais tola.

marconi leal disse...

Ih, Costa, pelo visto vou ter que fazer nota explicativa também para os comentários. Afinal, quanto a deixar tua vida mais tola, é com eu já disse: não sei fazer milagres.

Costajr disse...

Não se subestime meu caro Leal.

Marconi Leal disse...

Ah, Costa, meu velho, essa tua última resposta me decepcionou. Eu já estava preparado pra elogiar a evolução dos teus comentários, dizendo que, nos dois últimos, não havia nenhum erro de concordância ou pontuação. Seja como for, vou tentar te explicar a crônica de uma maneira que você entenda e, assim, encerrar de vez esse construtivo debate, que tantas frases criativas e elaboradas tem suscitado, como "nao se subestime" ou "torna nossa vida menos besta, embora mais tola". De coração, o Paulo Coelho não faria melhor. Bom, mas vamos lá: possuindo uma quantidade razoável de neurônios, o leitor poderá compreender que, no texto, o autor não está dizendo que os ricos não têm consciência social. Se, além de possuir uma quantidade razoável de neurônios, o leitor, ainda por cima, lê jornais ou, ao menos, assiste à televisão, compreenderá, de imediato, que a crônica faz uma alusão ao fato de que, ultimamente, alguns jovens de classe média desajustados (note bem: "alguns", hein? E só os "desjustados", hein?) têm atacado mendigos e sem-teto nas ruas, Brasil afora, especialmente, em Brasília. Sendo assim, o que o texto apresenta é uma situação surreal, onde os papéis são invertidos, para demonstrar que esse garotos que, através de sua atitude, demonstram não ter a menor consideração pelo próximo ou, se quiser, um mínimo de consciência social, são, na realidade, os verdadeiros mendigos. Mendigos morais. Pronto, era isso. Viu? É melhor quando a gente entende de primeira. Explicando assim não fica muito legal, né?

Anita disse...

eita! Consciência social mendigada por um garoto que põe fogo em índio... hum... essa tem que publicar, Marconi, e tem que ser lida nas escolas.

Moacy Cirne disse...

Meu caro, humor/crítica social: um texto (muito bem escrito) para que pensemos na realidade nossa de cada dia. Abração.

DANIEL PEARL disse...

Fato estranho foi à união do jornal O "Estadão" com a "Veja". Ousadia ou necessidade? Outro fato hilariante foram às críticas do ex-presidente e entreguista FHC ao presidente Lula de conversar com os líderes da oposição para aprovar projetos de interesse do país. O que você precisa tomar conhecimento é entrevista bombástica do ex-repórter da TV Globo, Rodrigo Vianna: demitido após se recusar a assinar um abaixo-assinado defendendo a cobertura eleitoral da emissora, confirma que, de fato, existe interferência política no Jornal Nacional. "Será que a Rede Globo fez uma opção parecida com a da Igreja Católica de Ratzinger?" A grande imprensa e seu colunismo político golpista vivem comparando o crescimento econômico do Brasil com o do Haiti por conta da evolução do PIB que este país tem apresentado nos últimos dois anos, pois aquele país tem crescido pouco devido aos problemas político-institucionais e sociais que enfrenta. Acesse o DESABAFO PAÍS. Daniel - http://desabafopais.blogspot.com

Guilherme disse...

De qualquer forma, ajudar nunca faz mal à ninguém.

Flávio disse...

Pior que, às vezes, o non sense reflete a verdade, né? ;) Abração

adelaide amorim disse...

cacilda, marconi, demais da conta. abraço.

marcelo disse...

eita tá dueno na conciença!

abs

sandra camurça disse...

Marconi, esse texto tá muito bom, rapaz! Não ri, obviamente, não era pra rir mesmo. Gosto muito desses textos que se invertem os papéis. Um beijo.

Pirata Z disse...

Marconi, caríssimo, só tenho um senão sobre este primoroso texto: destes, no debate levantado pelo mesmo, milho a bode. Humor, se explicado, acaba. O pior é que o sujeito, pelo nome, deveria fazer um mínimo de jus ao saudoso - e, este sim, genial humorista - Costinha.
Puta abraço, maluco.