17 abril, 2007

FLÓFI


Não sei qual a relação de vocês com animais de estimação, amáveis leitores. No que diz respeito a mim, medroso, o mais próximo que me permito chegar de seres irracionais é ler as colunas que eles escrevem na Folha de São Paulo.

Não é que não goste de cachorros e gatos. Até como churrasquinho aqui na esquina de casa, às vezes. E, no que tange a animais um pouco maiores, convivo em plena harmonia com o meu cunhado.

Mas, talvez por ter sido criado por minha mãe, para quem o chiuaua é uma violenta criatura da floresta, não tenho assim muita intimidade com mamíferos que não sejam de nossa espécie — exceção feita aos advogados.

Isso, evidentemente, se as ditas criaturas não vierem devidamente assadas e em postas numa bandeja e, de preferência, acompanhadas com batatas. Não passando de intrigas de caluniosos os relatos de que mantive relações bíblicas com cabras e galinhas na adolescência. Juro, a minha lordose não provém disso.

A verdade é que nunca entendi exatamente o objetivo de se manter em casa um ser que anda de um lado a outro, balançando o rabo, soltando guinchos e fazendo cocô dentro de sapatos. Ora, quando quero ver espetáculo parecido, assisto à TV Senado.

No entanto, minha mulher ama os animais — prova maior disso é que estamos casados já há quase um ano. E, como nossa vizinha fosse viajar, ofereceu-se toda serelepe para tomar conta de seu gato e o trouxe aqui para casa. Mas, minha consorte precisou sair há pouco e, nesse caso, adivinhem quem ficou tomando conta do bichano?

Assim que me vi a sós com Flófi (sim, é este o nome do miser... digo, do bichinho), fiz o que todo o mundo faz ao entrar em contato com felinos: calcei luvas, tapei o nariz e apertei sua pata, me mostrando amigável. No entanto, a não ser que o modo usual dos gatos cumprimentarem os humanos seja dar-lhes unhadas no nariz e tentar morder os seus dedos, creio que Flófi não simpatizou muito comigo.

Ainda assim, tendo cursado o Instituto Rio Branco, me propus a fazer amizade. Procurei leite na geladeira para colocar num prato para ele e, não encontrando, pus um pouco de Coca-Cola Light numa vasilha.

Escolha equivocada. Dali a alguns minutos, Flófi passou a emitir flatos na mesma freqüência com que Balzac escrevia livros. E o que é pior, assustado, girava em torno de si, mais perdido que Cabral na calmaria.

Vendo o gato correr de uma parede a outra feito o Coelho Ricochete, fiquei um pouco preocupado. E, numa evidente demonstração de boa vontade, para acalmá-lo, levei-o nos braços para tomar banho.

Ora, não entendo de gatos, portanto não sabia que este era francês — coisa que só percebi quando, às portas do banheiro, deu um salto magistral, escalou o meu rosto, furando meu olho com suas delicadas patinhas e, em pânico, voou por cima da minha cabeça, arrancando-me um chumaço de cabelos.

Gritei, urrei de dor, mais desesperado que Hécuba, e a minha primeira reação foi perseguir o filho da.... digo, o belo felídeo para, no mínimo, arrancar o rabo dele a dentadas, mas ele continuava a lançar violentos puns pelo espaço e eu temi a asfixia.

Então estou aqui, com uma compleição muito parecida com a de Camões, um princípio de calva e, como tenho alergia, uma asma que nem a produção de oxigênio de uma floresta tropical de médio porte seria capaz de aplacar.

Agora, um novo problema surgiu. E, como minha mulher ainda não voltou, gostaria de perguntar a vocês: alguém aí, por acaso, sabe como tirar cocô de dentro de um sapato?

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