08 abril, 2007

CRIACIONISMO À BRASILEIRA


A meu ver, a maior prova de que Deus é brasileiro é a humanidade. Cheia de problemas e defeitos insanáveis, ela só pode ter sido fruto de um produto genuinamente nacional: a licitação pública fraudulenta.

Isso, além daquele providencial descanso no sétimo dia, claro. Fosse Deus americano, o domingo não seria jamais dedicado ao ócio e, sim, a algo mais produtivo, como invadir e bombardear um país do Terceiro Mundo, por exemplo.

Quanto ao empreiteiro responsável pelo projeto, era, sem dúvida, um parente do Senhor e deu 10% ao Pai por fora. De resto, deve ter sido o mesmo empreendedor o responsável pelo surgimento da girafa, da coruja, da lesma, do cantor de axé music e de outras criaturas estranhas.

Fico imaginando o dia em que ele finalmente entrou na sala de Deus para mostrar sua obra acabada, carregando Adão pelo braço, o qual já estava relativamente entediado em função da demora na sala de espera.

— Aqui está, Pai, um protótipo verdadeiramente sublime — disse ele, ao se aproximar do Onipotente
— Hum... Deixa eu ver — falou o Onisciente, inspecionando o corpo do primeiro homem. — É... no geral, me parece muito bom. Mas, e esse negócio pontudo aí em cima? — concluiu, ao final de alguns minutos, apertando as narinas de Adão.
— Ai, isso dói, pô! — reclamou nosso ancestral.
— Isto é o nariz, Senhor — explicou o ilustre empresário. — Ou vias aéreas, para os mais íntimos. Importante para a absorção do oxigênio que manterá o homem vivo.
— Sei. Mas e essa meleca esverdeada no interior dele?
— Bem, o senhor sabe, na verdade o projeto original previa que as fossas nasais fossem autolimpantes, com refrigeração interna e fragrância de mirra. Mas, isso encareceria demais a obra.
— Entendo. E aquilo ali?
— Sovaco.
— Uhm! Como fede! — disse o Senhor, fungando nas axilas de Adão.
— Ih! ih! ih! — deixou escapar o genearca, arrepiando-se dos pés à cabeça, pois a longa barba do Senhor fazia cócegas.
— Eu sei, eu sei — explicou o sábio empreiteiro. — Pensamos em vedar com cortiça, mas atrapalharia a articulação dos braços. Outra opção seria o cultivo aí de ervas aromáticas, mas encareceria demais o projeto. De maneira que remanejamos alguns pêlos do púbis e tudo se resolveu a contento.
— Púbis? Que vem a ser isso?
— Ah! Esta região aqui, Pai — apontou o empreiteiro.
Olhando para onde o homem indicava, o Senhor não se conteve e caiu na gargalhada, o que provocou alguns abalos sísmicos em Marte e deslocou em um grau a órbita de Saturno. Adão se sentiu insultado:
— Qual é a graça? — perguntou, irritado.
— Ha! ha! Que coisa ridícula, meu Eu Mesmo! — exclamou o Senhor. — Horrível! E esse toquinho, aí, pra que é que serve?! Hu! hu!
— Toquinho, não, hein! — reagiu Adão. — Olha o respeito! Balança ele que o Senhor vai ver o Toquinho se transformar no Vinícius já, já!
— Erm... Ram... — constrangeu-se o insigne empreendedor. — Desculpe senhor, sei que talvez os órgãos sexuais estejam lhe parecendo algo esquisitos...
— Esquisito? Esquisito é o ornitorrinco, que eu acabei de criar. Isso daí é, no mínimo, patético!
— Foi o que conseguimos arranjar com a verba que o senhor destinou ao serviço.
— He! he! he! — divertia-se o Senhor. — E ainda tem um saquinho balançando ali, olha lá! Hi! hi! E se a gente der um peteleco nele?
— Não! — gritou o empreiteiro, mas era tarde demais.
— Uaahhaaaai! — urrou Adão e caiu se contorcendo no chão, de bunda para cima, o que deixou o Senhor ainda mais intrigado.
— Ué? Ó lá: ele tem um buraquinho ali, rapaz! Pra que será que s...
— Epa! Aí não! — levantou-se Adão rapidamente
— Pai, o reto serve para... — começou a explicar o empresário.
— Já entendi. Quando ele cair, a gente aperta aí e ele levanta. Olha, me desculpe, mas não vai dar. Até fico com essa cópia. Mas o senhor precisa me arranjar algo menos estúpido e feio.
— Feio é a p... — ia dizendo o primogênito, mas o empreiteiro tapou a sua boca rapidamente, falando: — Olha, a gente pode até criar algo melhor, Senhor. Mas...
— Já sei, já sei: vai encarecer demais o projeto. Tubo bem. Contanto que você me traga uma coisa menos repugnante.
— Uhmsmm? Msmsm! Msmsmsmmn!

Com muito custo, o empresário conseguiu arrastar Adão para fora da sala, pois, apressadinho, ele queria matar Deus ali mesmo, no ato — coisa que, como todos sabem, a humanidade só faria no século XIX.

Assim, dias depois, voltou o empreiteiro com uma mulher, espécime infinitamente melhor, perceptivelmente mais inteligente, belíssimo e que se prestava a inúmeras e agradáveis utilidades.
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Mas, como disse o probo empresário, o projeto de fato saiu muito mais caro. Sobretudo depois da invenção do cartão de crédito.

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