18 abril, 2007

COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA



Todos estão josé-serra de saber que dinheiro aqui em casa é coisa mais rara do que crítica a administração tucana nos jornais. No que dependesse da gente, a onça-pintada da cédula de R$ 50 já estaria extinta há muito ou, quando menos, poderia ser substituída por algum bicho mais raro, como a ararinha-azul ou um advogado honesto.

A carência de arame tem nos deixado em tal estado, por esses dias, que Bergman nos arranca gargalhadas infindáveis. Comparada à nossa, a liquidez do semi-árido nordestino sarapantaria Noé.

Em suma, a situação anda tão segurança-pública que meus credores, ultimamente, têm colocado mais fé na canonização do diabo - que, como todos sabem, pode até ser uma péssima pessoa, mas segue estritamente as leis de mercado - do que em receber algum numerário da minha parte.

No entanto, cerca de um mês atrás, na falta de alguém mais confiável, como um curandeiro ou uma cartomante, consultei um médico e este me informou, algo assustado, que do jeito que a coisa ia, se colesterol fosse esporte, eu pegaria índice para o Pan.

- Você é muito sedentário - arrematou.

Não tenho o hábito de freqüentar consultórios médicos. Quando quero ser enganado, prefiro votar em deputado federal. Achei, portanto, que o doutor fazia um elogio. Afinal, convenhamos, estava orgulhoso da minha posição: o ser humano levou milênios para sair do nomadismo.

Só me dei conta de que se tratava de uma reprimenda quando ele me mostrou os exames, onde se via que as taxas menos altas ganhavam todas da Selic e, no entanto, o risco-Marconi batia recordes históricos de alta.

O que, afinal de contas e do ponto de vista filosófico, teve o seu lado bom, pois me levou a refletir que, ao menos em parte, Comte estava equivocado. Ficou provado que a sociedade não reproduz um organismo humano.

- Viu? Eu disse que cê precisava andar – falou minha mulher, tão-logo deixamos a sala do médico, com uma expressão tão cândida quanto a de Caribde.
- E tu acha que eu vou da sala pra cozinha como? Voando?
- Andar, Marconi, durante meia hora, num passo firme. No mesmo trote.
- Gostei.
- Da idéia? Não acredito!
- Não, dessa maneira mais gentil de tu me chamar de cavalo.
- Não sei o que custa andar meia hora. Cê por acaso já andou pra saber?
- Sei perfeitamente quanto custa. De ônibus, R$ 2,30 e de metrô...
- Chega. Agora é sério. É fazer exercício físico ou morrer. Qual você prefere?

E foi assim, após as amorosas palavras da minha cônjuge e dos pedidos gentis de Cleodonte, apelido carinhoso que dei ao rolo de massa daqui de casa, que resolvi usar nossas últimas economias e comprar uma bicicleta ergométrica. Mas só porque, dividida em várias prestações, ela sairia muito mais barata que uma injeção letal.

(Eu sei, eu sei, eu disse que continuava a crônica hoje, companheiros. Mas o fato é que, ao contrário do que minha conta bancária pode dar a entender, eu trabalho e, ultimamente, o tenho feito como um mouro. Pior, como um soldado americano combatendo os mouros. Com a diferença de que, por sorte, a única coisa minha que tem estourado até agora é o xeque, digo, o cheque especial. Em sendo assim, postarei a continuação do texto na segunda-feira. Prometo. Podem confiar. Cleodonte garante.)

24 comentários:

Jens disse...

Levanta o traseiro da cadeira, Marconi. Bicicleta ergométrica é a saída típica dos preguiçosos para enganar a platéia. Já te vejo pedalando e, ao mesmo tempo, devorando um sanduíche de mortadela, que tanto aprecias (como o Chaves, sendo que no teu caso a comparação mais adequada seria com o Nhonho). Siga o meu exemplo - também compartilhado pelo Chico (meu mais novo amigo de infância, junto com o LFV): 1 hora de caminhada por dia corresponde a corpo esbelto e sensual. Palavra de magro.
Te mexe, animal!

Yvonne disse...

Vou aguardar ansiosa a continuação. Querido, obrigada pelos parabéns. Beijocas carinhosas

marcos pardim disse...

já tive uma dessas aí aqui em casa. mas achei muito cara pra fazer serviço de cabide. passei ela nos cobre e gastei o dinheiro com... com o quê, mesmo? ah, deixa pra lá... marconi, tava lhe devendo essa visita faz tempo. mas dívida comigo é assim mesmo: eu posso até demorar pra pagar, mas pago (rss..) muito legal o teu blog, velho. 1 abraço

Kah disse...

Vamo pedalar então, seu Marconi, ou então o Cleodonte vai descer em cabeças aí...A situação também tá caotica por aqui, preciso comprar uma esteira, por que bicicleta meu joelho não guenta...beijos e desculpe o sumiço.tenha um ótimo restinho de semana!!!

Jorge Ferreira disse...

volto a frequentar tua casa...e a me divertir muito...grande abraco

sidnei disse...

Bommmmm... sendo assim eu creio que vc não vai desperdiçar seu suado dinheirinho transformando sua ergométrica no maior e mais caro cabide que vc tem em casa, né? Porque eu falo com experiência: é o que a maior parte das pessoas faz!!!

sandra camurça disse...

Você até que continua escrevendo direitinho, Seu Mocinho. Valeu pelos comentários lá no refúgio. Agora...RÍDICULO É A...

Contenha-se, sandra, contenha-se!

Beijo Grande, gênio das crônicas.

andrea disse...

acho que a bicicleta ergométrica vira cabide, entao nem comprei. e a esteira, vira o que? nada, menino, nem pra cabide serve. entao nao vou comprar nenhuma das duas, to procurando um reformatório para adultos incorrigíveis, um que fique bem longe de um bom chope... dificil, né?

GUGA ALAYON disse...

Mas diga lá, essa bicicleta é flex?

F. Reoli disse...

Ha ha ha... você é um fugura, Marconi... mas no tocante a parte séria do texto - aquela que fica embutida nas entrelinhas, olhando pra essa barriga aqui, pro maço de cigarros e lembrando as cervejas de ontem - também me fez pensar...glub!!! rs
Abração, volto na sexta

Alê Quites disse...

Eu sou muito bobinha pra falar de política. Deixa eu aqui andando de bicicleta.
Beijos*

Acantha disse...

Ah!!! Marconi.... Sua adorável consorte vai adorar o novo cabide de roupas...

Marco disse...

Ré! Ré! Ré!... Eu poderia aproveitar o seu entusiasmo e entrar nessa onda também. Ando tão paradão que quando mexo um músculo para apertar o controle remoto da TV as juntas rangem.
Execelente texto, Marconi. Seu humor é fundamental!
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

david disse...

Vai por mim: bicicleta ergométrica vira cabide de roupa suja...

edu disse...

Temos que levar tu, Cleodonte e a esposa pra cada do-que-não-come-feijão um dia desses... Nada a ver com exercício, claro, a menos que você queira subir a serra a pé!

Luz disse...

Se o facto de possuir a “Inteligência”, a “Genuinidade”, e outros Dons que terminam em “ência e dade”. CÊ, Marconi, há muito estaria magríssimo, um “esqueleto andante”!!!!

Mas pelos vistos, o seu colesterol está altíssimo, toca a levantar a bunda e ir caminhar, cê tem que ouvir os bons conselhos…

Falo, falo mas eu também deveria andar de bicicleta, nadar, passear, correr, suar, dançar, patinar……
Só meus dedos estão esgalgados de tanto teclar e meu traseiro cresce, cresce, cresce…

Abraço gordíssimo

Mauro Castro disse...

Marconi, já tivemos uma dessas bicicletas aqui em casa. Não sei que fim levou, mas, pelo tempo que habitou nossa garagem, só servia para suporte às teias de aranha.
Há braços!!

Anita disse...

vixe, pensei que tu tinhas ficado na academia de ginástica em definitivo. O que aconteceu?

Edilson Pantoja disse...

Alô, Marconi! Demorei a visitá-lo, mas valeu a pena. Gostei muito do modo inteligente e humorado de tua escrita! Abraço!

ieda thinara disse...

que humor rsrs
aguardo o témino do poster.
valeu
bjs de Estrel@

Lidiane disse...

Tive de rir aqui.
Amanhã volto a caminhar.
Amo.
Parei por contigências, mas me faz um bem danado.

Beijo.

Serbão disse...

risco-marconi... hehehehehe, gostei!

Flávio disse...

Marconi, faça como eu... prefiro andar na sala, assistindo à TV a cabo! :)

Jorge Sobesta disse...

James,seu malandrão!

Não sei como vai acabar essa estória, mas se sua ergométrica virar cabide de roupas você vai se ver com seu espelho novamente, hehe.

Grande abraço e bola pra frente.