24 abril, 2007

COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA (CAPÍTULO 3)



Minha penúltima experiência com montagem tinha sido uma tentativa, ainda na infância, de subir num touro mecânico. Depois disso, só houve mais uma: a do médico que me atendeu no hospital, horas depois, e tentou repor meu fêmur no lugar.

Tenho tal coordenação motora que, para mim, montar um Lego sempre se provou uma atividade de nível de dificuldade semelhante ao de convencer uma alemã a raspar o sovaco.

E o Cubo Mágico, segundo meu conceito, é o epítome do que o ser humano conseguiu produzir de mais difícil em termos de exercício mental. Comparável apenas, nesse sentido, à tentativa de entender os motivos que levam alguém a assistir ao Domingão do Faustão.

Aliás, meu conhecimento de utensílios domésticos é tão profundo que, até recentemente, acreditava ser a chave de boca apenas um golpe de autodefesa utilizado pela comunidade gay de São Francisco.

Chave inglesa, por sua vez, pensava tratar-se de um artefato para fechar portas que se abriam para a direita, em vez de para a esquerda. E chave de fenda, evidentemente, um poético eufemismo para pênis.

Não me perguntem, portanto, o que imaginava ser uma arruela.

Mas, como já disse certa feita, jamais precisei desse tipo de conhecimento alienígena e ultra-especializado, pois aqui em casa esse gênero mais leve de serviço, como armar camas, arrastar guarda-roupas e carregar as compras do supermercado é minha mulher quem faz, ficando eu com coisas mais complexas e viris, como trocar a fronha dos travesseiros e limpar o vaso sanitário.

Porém, naquele dia, minha consorte resolveu não se dedicar a trabalho tão especificamente feminino como o da montagem da bicicleta ergométrica. E ainda fez pouco caso de mim:

- Isso daí é tão simples quanto aqueles brinquedinhos de encaixar, quadrado no quadrado, retângulo no retângulo, círculo no círculo etc.
- Falar é fácil. Tu acha que eu repeti o jardim duas vezes por quê?
- Qualquer criança monta isso, Marconi.
- Mulher, eu fui uma criança traumatizada.
- Também, com a mãe que tu tem...

E foi assim, após esse instrutivo diálogo, que eu apanhei os petrechos necessários e me pus edipianamente a tentar decifrar os mecanismos daquela máquina infernal, mais desesperançado que a merencória cachorra Baleia.

(CONTINUA AMANHÃ)

41 comentários:

edu disse...

Estamos no mesmo barco, Balei... digo, Marconi! Bichinho é que entende desses troços de porcas e pafarusos...

Gustavo Chaves disse...

Olha, não vejo problema algum em repetir o jardim de infancia duas 2 vezes...

Anita disse...

marconi,


edipianamente é palavra? ou é neologismo teu? seja como for, aprendi agora. hahahaha Lego é fácil. O Faustão já é bem duro de encarar.

beijos

Sonia disse...

Olá, Marconi. Quando interrompi o Contando Causos (com otimos resultados, consegui terminar meu livro) disse que continuaria visitando sempre que possível meus amigos blogueiros. Há muiot tempo não passo por aqui, mas ao esbarrar com você lá no Hebdomadário do Wagner vom dar uma passada. Voltarei para ler o desfecho, mas adianto de sde já que minha coordenação motora deve ser pior ainda que a sua. Jamais consegui montar esses joguinhos.

Sonia disse...

O comentáio que acabo de postar diz tudo. Apesar de fazer sempre revisão, minha diselexia sempre leva a melhor e publico oisas de arrepiar.

Márcia(clarinha) disse...

Aff! Nossasenhoradosmontadores!
Meu amigo, depois desse relato trágico acho melhor você deixar isso pra lá e chamar o porteiro do prédio pra montar a dita cuja, eles sempre sabem tudo que não sabemos, né?. Boa sorte na batalha, beijosssssssss

Serbão Lego disse...

Ô Marconi, concordo que o Cubo Mágico era mesmo uma tarefa hercúlea - o máximo que consegui foi montar uma face amarela. depois lascou-se tudo.
mas lego é fácil, vai!!!!

Serbão disse...

...e convencer uma halterofilista búlgara a tirar o bigode, então???

Moacy Cirne disse...

Somente uma boa gaitada para definir o que senti diante de seu texto. Beleza pura! Ou melhor: riso puro. Um abraço.

Marco disse...

As descrições das ferramentas são simplesmente antológicas! Só por elas já valeria um puta post! Você é dez, cara! Tô rindo até agora!
Carpe Diem.

Jens disse...

Mestre Marconi: receba minha total solidariedade no tocante a inabilidade em realizar tarefas domésticas. Quando compartilhava o mesmo teto que minha consorte enfrentava problemas semelhantes - nunca consegui instalar um chuveiro e pregar um prego é uma tarefa extremamente perigosa para mim (que o digam meus pobres dedinhos). Minha senhora sempre desincumbiu-se brilhantemente dessas tarefas. Hoje, só, conto apenas com a bondade de Odaléia, minha vizinha, que obriga seu marido, o faz-tudo Valdirão, a realizar estes pequenos serviços domésticos para mim, gratuitamente. Uma santa mulher, a Odaléia.
PS: criativa a definição da chave de fenda. Vou contar pra Odaléia, mas não pro Valdirão.
Um abraço.

Mani disse...

Ah, a Baleia, como eu amava aquela cachorra magra e melancólica...

Mônica Montone disse...

kkkkkkkkkkkkkkkk

O que você achou que era uma arruela? Fiquei curiosa, rs*

beijocas e boa semana

MM

Saramar disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...
eu chorei de rir com seus conceitos e definições altamente espcializadas sobre as ferramentas...
Você é demais.

beijos

Jean Scharlau disse...

Tchê, um troço com um nome desses não pode ser boa coisa. Devolve antes dos 7 dias e gasta o dinheiro em chope, cujos princípios são muito mais fáceis de entender e úteis à humanidade.

Costajr disse...

Olha eu aqui de novo! Dessa vez para reconhecer seu talento, do qual nunca duvidei, em escrever essas crônicas.

Tudo bem você ter me achincalhado, de certa forma mereci. Mas, para provar que não sou rancoroso sempre leio suas crônicas e a série da bicicleta está ótima!

Temos algumas coisas em comum Marconi, embora você escreva com talento e eu não. Somos de Recife, torcemos pelos Sport, temos uma idade muito próxima, eu 31, você 32, talvez já tenhamos nos esbarrado pelas ruas de Recife.

Apesar de discordar de suas crônicas de cunho político, essas que falam do cotidiano são imperdíveis!

Desculpe os erros.

Marconi Leal disse...

Costa, como se diz em bom português do Brasil: no hard feelings. Grande abraço.

Silvio Vasconcellos disse...

Amigo Marconi!
Hilariantemente trágico como colesterol aos 30. Conheço esse filme...
Quando fiz trinta, passei por dois roubos de carro, um assalto à mão armada, um susto médico dizendo que provavelmente eu tinha um câncer no olho e que o perderia, um divórcio e uma taxa de colesterol que apitava.
Passaram-se 15 anos e...
Continuei fazendo seguro e recebendo carros de volta, meu olho estava bom, ao contrário do médico, casei e separei mais duas vezes, tive uma filha e passei a correr. Não virei atleta mas participo de rústicas de vez em quando.
Quanto a bicicleta ergométrica, acho que há cabides melhores. Experimente passear com pressa. Foi assim que comecei a caminhar e depois a correr. Durante essas corridas aprendi a desenvolver contos. É claro que isso provocou alguns tropeços me ralaram os joelhos, mas o colesterol, meu amigo, está ali na beira da calçada, louco prá me ver parar.

Um abraço,

Sílvio Vasconcellos

adelaide amorim disse...

Eia! Avante, meu bom amigo! Estamos aqui ansiosos pelo desenrolar dessa aventura eletrizante ;)

Carol Montone disse...

ADOREEEEI Marconi
Vc me fez rir em cada parágrafo por afinidade (KKKKK) sem contar a imagem do elefante na bicicleta...impagável
beijos
Carol Montone

sandra camurça disse...

Tudo bem, tudo bem, eu sei, disse que só faria comentários no final da história mas só que... sabe o que é, seu moço? Num sô ciumenta não, viu? Mas diz pro Jens que se ele inventar de brincar de chave de fenda com a vizinha Odaléia, eu vou, eu vou... ficar roendo as unhas dos pés, porque as das mãos já se foram desde já.

Beijos.

Genérica Paraguaia disse...

Passei a perceber que, depois que cheguei à casa dos 20, comecei a ter certas dificuldades, que não possuía quando era mais novinha... tenho um irmão de 14 que me chama de burra por não conseguir decifrar coisas que para ele é muito comum.. hahahahaha
Texto cômico e muito identificador!! Gostei!

sidnei disse...

Ô 'criança traumatizada'... eu vou precisar de dicionário pra saber que diabos é merencória!!!! Assim não dá!!!

Duda Bandit disse...

ual... mais gente de peso passando pelo meu blog... fiquei até emocionado quando vi seu nome lá... dá até ânimo para postar coisas novas. obrigado, cara. ah, eu tenho uma esteira elétrica, computadorizada. Eu ligo e fico vendo ela rodar sozinha, não perdi nenhum quilo ainda, acho que não li o manual direito. me dá a honra de te linkar no Duda? ah, vou linkar assim mesmo. abração.

Pirata Z disse...

Eu, que não troco nem chuveiro, estou me sentindo redimido com esta série.
Persevere, valente.
Baita abraço

joice disse...

Como diria Ferreira Gullar, se dependesse dos poetas não existiria nem a roda.
Já vi que a tua ergométrica (se um dia chegar a efetivamente transformar-se em uma) vai virar cabide, assim como a minha. O problema é aprender a lidar com a sensação de culpa que se sente ao olhar para ela ali paradona o dia todo. Mas não se impressione, com o tempo a gente aprende.

Nilson Barcelli disse...

Eu, que não tenho apetência para trabalhos forçados, perdão, manuais, percebo perfeitamente essa trágica epopeia.
Ao rir-me durante a sua história de 3 capítulos (aguardo o 4º), acabei por me rir também de mim próprio.
A sua descrição é brilhante, como sempre.
Abraço.

Jens disse...

E aí, não vai continuar? A musa inspiradora te abandonou?

sandra camurça disse...

Enfim lincaste a galera, hein?
Gostei da Toca do Energúmeno!
hehehe...

Beijos.

Manoel Carlos disse...

Se você tivesse lido e seguido o manual de montagem, certamente não sobreviveria para escrever esta crônica.

Jens disse...

Toca do Energúmeno. Então tá. Depois não vos queixais, pois vou revelar a história do Ananias.
Tremei, Marconi Leal. Tremei e borrai-vos por antecipação.

Kah disse...

Tô sentindo que essa bicicleta vai dar muita história ainda,hehe...Gostei do eufemismo da chave de fenda, só podia vir do teu humor inteligente.Um beijo e uma linda, sexta-feira,aguardo a continuação!!!

Vera Fróes disse...

Marconi, eu tenho uma ergométrica que já teve muita utilidade agora serve de porta guarda-chuvas...rsss. Sabe que eu não sei quem montou. Certas coisas eu me animo a montar, já quando se trata de eletrônicos dou para as minhas filhas que elas resolvem rapidinho. Se tenho quem faça rápido e "di grátis" porque vou maltratar minha valiosa cabecinha...rssss.
Boa sorte!

Bjos.

Jens disse...

E aí, vai terminar este troço ou não?

DO disse...

O pior é que não é so vc,MARCONI,heheheh
Ninguem merece!!

Abração e um otimo fds!!

Marinho Caetano disse...

Boa sorte na empreitada. Fazia já algum tempo que eu não via esse qualificativo para a patroa. Consorto é mesmo de matar. Bom, mas lá fronteira o pessoal ainda CONTRAI matrimônio. Sempre com no mínimo quatro testemunhas. Um abraço. ou melhor, saudações, já que abraço pode soar coisa daqueles rapazes lá de San Francisco...

Felipe disse...

A definição de chave de fenda é formidável, como se não fosse a fenda a dar a chave...Abraço!

Osc@r Luiz disse...

Só por ser uma indicação do Joel, as credenciais do seu blog já seriam suficientes, mas confesso que superou as minhas expectativas.
Muito bom realmente!
Seu blog além de espirituoso, acrescenta.
Acho que talento não deve ser desperdiçado, então, vou linkar o seu blog nos meus.
Se tiver algumas coisa contra, que se manifeste agora, ou cale-se para todo o sempre!
Um abraço!

abominnavel disse...

Lego é uma verdadeira iniciação à engenharia. Você deveria ter praticado essas diversões saudáveis de criança um pouco mais...

joão áquila disse...

Muito bom seu Marconi!

Leila Silva disse...

Estou atenta à sua saga...
morrendo de rir.
Abraços