11 abril, 2007

A BARATA E A EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE


Para Camus, o único problema verdadeiramente digno de ser averiguado é o do suicídio. Humildemente, ouso discordar do filósofo. Para mim, o único problema realmente grave é o da barata. Mais precisamente, o da barata voadora.

Não sei vocês. Quanto a mim, a simples presença de uma barata voadora no cômodo onde estou, me faz entrar num profundo estado de impotência, o que me leva a repensar os fundamentos da existência e a necessidade de manter-me vivo.

É certo que a barata, em si, não me estimula tanto a capacidade questionadora. Já a barata em mim me transforma num bravo Kant. E, se é voadora então, me desperta não só à reflexão como provoca ridículos gritos de desespero e relativa atividade intestinal, associados a uma inaudita vontade de deslocamento.

O problema da barata voadora, alicerce de toda a evolução humana, é basicamente que ela, além de não temer o homem (o que só comprova sua irracionalidade), desconhecendo suas ínfimas proporções físicas, ainda parte destemidamente para cima de sua vítima, crendo-se no mínimo parte da família dos felídeos e, no máximo, dos pterodáctilos.

Não tenho dúvidas: se o homem deixou a caverna um dia, certamente isso se deve ao aparecimento de um ninho de baratas voadoras. Teve tanto medo que parou de andar de quatro, pondo-se imediatamente ereto (afinal, com todos os membros ocupados seria impossível apanhar a sandália para tentar golpear o inimigo).

Teria trocado de bom grado a posição ereta pela inexistência das baratas, é verdade. Por outro lado, hoje não posso deixar de sentir enorme respeito pelo bicho quando surge inesperadamente, alado, e entra por minha janela.

Ainda que o sinta devidamente escondido debaixo da cama ou mesmo trancado dentro do guarda-roupa.

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