30 abril, 2007

COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA (CAPÍTULO 4)



Possuindo uma paciência comparável à de um lama depois de dois baseados e uma serenidade de irritar o senador Suplicy, logo percebi que meu embate com a bicicleta ergométrica se daria na base da inteligência. Ou seja, a máquina tinha tudo para vencer por W.O.

No entanto, sou brasileiro e não desisto nunca antes do assaltante me apontar a arma. Parti, portanto, para a empreitada com a determinação de um parlamentar fugindo do trabalho.

E digo a vocês, companheiros, que se Roma caiu um dia, isso se deve exclusivamente ao fato de que o Império era cercado por muralhas e não, como seria mais razoável, por fileiras de bicicletas ergométricas desmontadas.

Outrossim, não tenho dúvidas de que o exército espartano teria sofrido uma vergonhosa derrota - e hoje, em vez de silogismo, gramática, retórica e outras tolices, estaríamos aprendendo coisas mais úteis a nosso atual estágio civilizatório, como decepar cabeças e esfolar adversários -, caso os medos, em vez de exímios cavaleiros, fossem excelentes montadores de bicicletas.

Porque a verdade, senhores, é que é mais fácil produzir uma fusão atômica ou mesmo fazer algo mais complexo, como convencer um brasileiro a respeitar uma fila, do que conseguir colocar no lugar as peças de uma dessas solertes traquitanas.

Seja como for, comecei o embate de maneira amistosa, condescendente, tratando minha êmula como se fosse um ser inanimado e sem consciência. No entanto, perdi inteiramente a classe após uma hora de tentativas frustradas, ao perceber que a fedífraga máquina queria me transformar no presidente da República.

Eis que em minhas manobras, acabei por perder parte de um dedo da mão enganchado num pedal e, além disso, tive a dicção prejudicada por um pequeno corte na língua, fruto de uma tentativa madura de revidar o golpe de um parafuso com uma mordida.

Desesperado, pronunciei em voz alta várias frases com os verbos “haver” e “fazer” pra ver se acertava a concordância. E, antes que começasse a pensar que nunca tinha enfrentado situação mais difícil “neste país”, passei a uma abordagem mais racional do problema: chutando e esmurrando o material desmontado à minha frente.

- Que é isso, meu Deus! Você enlouqueceu?
- Não atrapalha, mulher, que eu tô ganhando!
- Ganhando o quê, Marconi? Hematomas?
- Tu não entende nada de psicologia, mulher.
- Isso é um objeto, Marconi. Não pensa!
- E daí? O Bush também não. Mas olha como tá o Iraque...

(TERMINA QUARTA-FEIRA)

24 abril, 2007

COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA (CAPÍTULO 3)



Minha penúltima experiência com montagem tinha sido uma tentativa, ainda na infância, de subir num touro mecânico. Depois disso, só houve mais uma: a do médico que me atendeu no hospital, horas depois, e tentou repor meu fêmur no lugar.

Tenho tal coordenação motora que, para mim, montar um Lego sempre se provou uma atividade de nível de dificuldade semelhante ao de convencer uma alemã a raspar o sovaco.

E o Cubo Mágico, segundo meu conceito, é o epítome do que o ser humano conseguiu produzir de mais difícil em termos de exercício mental. Comparável apenas, nesse sentido, à tentativa de entender os motivos que levam alguém a assistir ao Domingão do Faustão.

Aliás, meu conhecimento de utensílios domésticos é tão profundo que, até recentemente, acreditava ser a chave de boca apenas um golpe de autodefesa utilizado pela comunidade gay de São Francisco.

Chave inglesa, por sua vez, pensava tratar-se de um artefato para fechar portas que se abriam para a direita, em vez de para a esquerda. E chave de fenda, evidentemente, um poético eufemismo para pênis.

Não me perguntem, portanto, o que imaginava ser uma arruela.

Mas, como já disse certa feita, jamais precisei desse tipo de conhecimento alienígena e ultra-especializado, pois aqui em casa esse gênero mais leve de serviço, como armar camas, arrastar guarda-roupas e carregar as compras do supermercado é minha mulher quem faz, ficando eu com coisas mais complexas e viris, como trocar a fronha dos travesseiros e limpar o vaso sanitário.

Porém, naquele dia, minha consorte resolveu não se dedicar a trabalho tão especificamente feminino como o da montagem da bicicleta ergométrica. E ainda fez pouco caso de mim:

- Isso daí é tão simples quanto aqueles brinquedinhos de encaixar, quadrado no quadrado, retângulo no retângulo, círculo no círculo etc.
- Falar é fácil. Tu acha que eu repeti o jardim duas vezes por quê?
- Qualquer criança monta isso, Marconi.
- Mulher, eu fui uma criança traumatizada.
- Também, com a mãe que tu tem...

E foi assim, após esse instrutivo diálogo, que eu apanhei os petrechos necessários e me pus edipianamente a tentar decifrar os mecanismos daquela máquina infernal, mais desesperançado que a merencória cachorra Baleia.

(CONTINUA AMANHÃ)

23 abril, 2007

COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA (CAPÍTULO 2)



Ao comprar a bicicleta, pensava que estaria me livrando do principal problema que vinha afetando a minha saúde nas últimas semanas: as reiteradas e infindáveis reclamações da minha mulher.

E, sendo mais inocente que a religiosa de Diderot, imaginava que a dificuldade, no que tangia à bicicleta ergométrica, se resumiria a enfrentar as pedaladas diárias. Eis que tenho tanta aptidão para o esforço físico quanto um concretista para escrever poemas.

Em todo o caso, achava que me desincumbiria da tarefa com relativa facilidade. Afinal, sou brasileiro há 32 anos. E, como todos sabem, a bicicleta ergométrica é igual ao Estado nacional: muito cara, não sai do canto e serve apenas para cansar o usuário. Já estava, portanto, habituado.

No entanto, logo percebi o meu engano e me dei conta de que, se as pessoas chegam a perder calorias no trato com este infernal aparelho - que, a exemplo de um discurso do FHC, não leva a lugar algum -, isso se deve única e exclusivamente ao fato de que ele vem desmontado.

- Ué? E cadê os montadores? – falei, olhando para a caixa fechada que os entregadores, com um sorriso sarcástico e após fitar minha barriga, deixaram na sala.
- Pelo preço que a gente pagou, tu ainda queria que eles montassem? – retrucou minha mulher, algo impaciente.
- Pelo preço que a gente pagou, o mínimo que eu esperava era que eles montassem e pedalassem as primeiras trinta horas. Então, cadê o botão?
- Que botão?
- O que a gente aperta e a bicicleta se automonta.

Sem dizer absolutamente nada, ela pôs uma cara tão simpática quanto a de um samurai com prisão de ventre e me apontou a caixa de ferramentas. Demorei a entender o que estava insinuando, por três razões:

Primeiro, porque, como comprova a ciência, o álcool destrói nossa capacidade de raciocínio. Segundo, porque o manuseio de ferramentas é algo tão simples para mim como a leitura de “Ulysses” em tradução alemã. E terceiro, porque... Bom, terceiro, não me lembro, afinal o álcool também acaba com a memória e a concentração.

(CONTINUA AMANHÃ)

18 abril, 2007

COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA



Todos estão josé-serra de saber que dinheiro aqui em casa é coisa mais rara do que crítica a administração tucana nos jornais. No que dependesse da gente, a onça-pintada da cédula de R$ 50 já estaria extinta há muito ou, quando menos, poderia ser substituída por algum bicho mais raro, como a ararinha-azul ou um advogado honesto.

A carência de arame tem nos deixado em tal estado, por esses dias, que Bergman nos arranca gargalhadas infindáveis. Comparada à nossa, a liquidez do semi-árido nordestino sarapantaria Noé.

Em suma, a situação anda tão segurança-pública que meus credores, ultimamente, têm colocado mais fé na canonização do diabo - que, como todos sabem, pode até ser uma péssima pessoa, mas segue estritamente as leis de mercado - do que em receber algum numerário da minha parte.

No entanto, cerca de um mês atrás, na falta de alguém mais confiável, como um curandeiro ou uma cartomante, consultei um médico e este me informou, algo assustado, que do jeito que a coisa ia, se colesterol fosse esporte, eu pegaria índice para o Pan.

- Você é muito sedentário - arrematou.

Não tenho o hábito de freqüentar consultórios médicos. Quando quero ser enganado, prefiro votar em deputado federal. Achei, portanto, que o doutor fazia um elogio. Afinal, convenhamos, estava orgulhoso da minha posição: o ser humano levou milênios para sair do nomadismo.

Só me dei conta de que se tratava de uma reprimenda quando ele me mostrou os exames, onde se via que as taxas menos altas ganhavam todas da Selic e, no entanto, o risco-Marconi batia recordes históricos de alta.

O que, afinal de contas e do ponto de vista filosófico, teve o seu lado bom, pois me levou a refletir que, ao menos em parte, Comte estava equivocado. Ficou provado que a sociedade não reproduz um organismo humano.

- Viu? Eu disse que cê precisava andar – falou minha mulher, tão-logo deixamos a sala do médico, com uma expressão tão cândida quanto a de Caribde.
- E tu acha que eu vou da sala pra cozinha como? Voando?
- Andar, Marconi, durante meia hora, num passo firme. No mesmo trote.
- Gostei.
- Da idéia? Não acredito!
- Não, dessa maneira mais gentil de tu me chamar de cavalo.
- Não sei o que custa andar meia hora. Cê por acaso já andou pra saber?
- Sei perfeitamente quanto custa. De ônibus, R$ 2,30 e de metrô...
- Chega. Agora é sério. É fazer exercício físico ou morrer. Qual você prefere?

E foi assim, após as amorosas palavras da minha cônjuge e dos pedidos gentis de Cleodonte, apelido carinhoso que dei ao rolo de massa daqui de casa, que resolvi usar nossas últimas economias e comprar uma bicicleta ergométrica. Mas só porque, dividida em várias prestações, ela sairia muito mais barata que uma injeção letal.

(Eu sei, eu sei, eu disse que continuava a crônica hoje, companheiros. Mas o fato é que, ao contrário do que minha conta bancária pode dar a entender, eu trabalho e, ultimamente, o tenho feito como um mouro. Pior, como um soldado americano combatendo os mouros. Com a diferença de que, por sorte, a única coisa minha que tem estourado até agora é o xeque, digo, o cheque especial. Em sendo assim, postarei a continuação do texto na segunda-feira. Prometo. Podem confiar. Cleodonte garante.)

17 abril, 2007

FLÓFI


Não sei qual a relação de vocês com animais de estimação, amáveis leitores. No que diz respeito a mim, medroso, o mais próximo que me permito chegar de seres irracionais é ler as colunas que eles escrevem na Folha de São Paulo.

Não é que não goste de cachorros e gatos. Até como churrasquinho aqui na esquina de casa, às vezes. E, no que tange a animais um pouco maiores, convivo em plena harmonia com o meu cunhado.

Mas, talvez por ter sido criado por minha mãe, para quem o chiuaua é uma violenta criatura da floresta, não tenho assim muita intimidade com mamíferos que não sejam de nossa espécie — exceção feita aos advogados.

Isso, evidentemente, se as ditas criaturas não vierem devidamente assadas e em postas numa bandeja e, de preferência, acompanhadas com batatas. Não passando de intrigas de caluniosos os relatos de que mantive relações bíblicas com cabras e galinhas na adolescência. Juro, a minha lordose não provém disso.

A verdade é que nunca entendi exatamente o objetivo de se manter em casa um ser que anda de um lado a outro, balançando o rabo, soltando guinchos e fazendo cocô dentro de sapatos. Ora, quando quero ver espetáculo parecido, assisto à TV Senado.

No entanto, minha mulher ama os animais — prova maior disso é que estamos casados já há quase um ano. E, como nossa vizinha fosse viajar, ofereceu-se toda serelepe para tomar conta de seu gato e o trouxe aqui para casa. Mas, minha consorte precisou sair há pouco e, nesse caso, adivinhem quem ficou tomando conta do bichano?

Assim que me vi a sós com Flófi (sim, é este o nome do miser... digo, do bichinho), fiz o que todo o mundo faz ao entrar em contato com felinos: calcei luvas, tapei o nariz e apertei sua pata, me mostrando amigável. No entanto, a não ser que o modo usual dos gatos cumprimentarem os humanos seja dar-lhes unhadas no nariz e tentar morder os seus dedos, creio que Flófi não simpatizou muito comigo.

Ainda assim, tendo cursado o Instituto Rio Branco, me propus a fazer amizade. Procurei leite na geladeira para colocar num prato para ele e, não encontrando, pus um pouco de Coca-Cola Light numa vasilha.

Escolha equivocada. Dali a alguns minutos, Flófi passou a emitir flatos na mesma freqüência com que Balzac escrevia livros. E o que é pior, assustado, girava em torno de si, mais perdido que Cabral na calmaria.

Vendo o gato correr de uma parede a outra feito o Coelho Ricochete, fiquei um pouco preocupado. E, numa evidente demonstração de boa vontade, para acalmá-lo, levei-o nos braços para tomar banho.

Ora, não entendo de gatos, portanto não sabia que este era francês — coisa que só percebi quando, às portas do banheiro, deu um salto magistral, escalou o meu rosto, furando meu olho com suas delicadas patinhas e, em pânico, voou por cima da minha cabeça, arrancando-me um chumaço de cabelos.

Gritei, urrei de dor, mais desesperado que Hécuba, e a minha primeira reação foi perseguir o filho da.... digo, o belo felídeo para, no mínimo, arrancar o rabo dele a dentadas, mas ele continuava a lançar violentos puns pelo espaço e eu temi a asfixia.

Então estou aqui, com uma compleição muito parecida com a de Camões, um princípio de calva e, como tenho alergia, uma asma que nem a produção de oxigênio de uma floresta tropical de médio porte seria capaz de aplacar.

Agora, um novo problema surgiu. E, como minha mulher ainda não voltou, gostaria de perguntar a vocês: alguém aí, por acaso, sabe como tirar cocô de dentro de um sapato?

16 abril, 2007

ASSALTO



- Alô? Quem tá falando?
- É o ladrão.
- Desculpe, não queria falar com o dono do banco. Tem algum funcionário aí?
- Não, os funcionário tá tudo como refém.
- Eu entendo. Trabalham quatorze horas por dia, ganham um salário ridículo, vivem levando esporro, mas não pedem demissão porque não encontram outro emprego, né? Vida difícil. Mas será que eu não poderia dar uma palavrinha com um deles?
- Impossível. Eles tá amordaçado.
- Foi o que pensei. Gestão moderna, né? Se fizerem qualquer crítica, vão pro olho da rua. Não haverá, então, algum chefe por aí?
- Claro que, não, meu amigo. Quanta inguinorância! O chefe tá na cadeia, que é um lugar mais seguro pra se comandar um assalto.
- Bom... Sabe o que que é? Eu tenho uma conta...
- Tamo levando tudo, ô bacana. O saldo da tua conta é zero.
- Não, isso eu já sabia. Eu sou professor. O que eu queria mesmo era uma informação sobre juro.
- Companheiro, eu sou um ladrão pé-de-chinelo. Meu negócio é pequeno. Assalto a banco, vez ou outra um seqüestro. Pra saber de juro é melhor tu ligar pra Brasília.
- Sei, sei. O senhor tá na informalidade, né? Também, com o preço que tão cobrando por um voto hoje em dia... Mas, será que não podia fazer um favor pra mim? É que eu atrasei o pagamento do cartão e queria saber quanto vou pagar de taxa.
- Tu tá pensando que eu tô brincando? Isso é um assalto!
- Longe de mim. Que é um assalto, eu sei perfeitamente. Mas queria saber o número preciso. Seis por cento, sete por cento?
- Eu acho que tu não tá entendendo, ô mané. Sou assaltante. Trabalho na base da intimidação e da chantagem, saca?
- Ah, já tava esperando. Vai querer vender um seguro de vida ou um título de capitalização, né?
- Não... Eu... Peraí, bacana, que hoje eu tô bonzinho e vou quebrar o teu galho. (um minuto depois) Alô? O sujeito aqui tá dizendo que é oito por cento ao mês.
- Puxa, que incrível!
- Tu achava que era menos?
- Não, achava que era isso mesmo. Tô impressionado é que, pela primeira vez na vida, consegui obter uma informação de uma empresa prestadora de serviço, pelo telefone, em menos de meia hora e sem ouvir Für Elise.
- Quer saber? Fui com a tua cara. Dei umas bordoadas no gerente e ele falou que vai te dar um desconto. Só vai te cobrar quatro por cento, tá ligado?
- Não acredito! E eu não vou ter que comprar nenhum produto do banco?
- Nadinha. Tá acertado.
- Muito obrigado, meu senhor. Nunca fui tratado dessa...
- Ih, sujou! (tiros, gritos) A polícia!
- Polícia? Que polícia? Alô? Alô?
- (sinal de ocupado)
- Alô?... Droga! Maldito Estado. Sempre intervindo nas relações entre homens de bem!

15 abril, 2007

SENSIBILIDADE


— Isso são horas, Alcides? Então você me sai pra beber e chega uma hora dessas quando... Ai! Ai, meu Deus!
— Que foi? Por que tu tá subindo no sofá?
— Isso daí, Alcides! O que... o que é isso... que... que tu tá carregando numa coleira?
— “Isso”, não. Mais respeito. O nome dele é Astrogildo.
— Um porco, Alcides? Tu chega em casa embriagado, de madrugada, e ainda traz um porco pela coleira?
— Ué? Tu não gosta tanto de animal?
— Gosto de gato, cachorro, hamster e um pouco de você, Alcides. Mas um porco? Eu devo tá sonhando...
— Qual o problema do porco?
— O problema é que ele não tá dentro da feijoada!
— Um bichinho tão dócil... É praticamente um cachorro.
— Sem dúvida. Sobretudo se a gente estivesse em Chernobyl. Tu perdeu completamente o senso do ridículo?
— Tá vendo aí, Astrogildo? A gente tenta agradar e é o que recebe. Tu não vivia dizendo que queria um animalzinho de estimação? Tu não adora bicho?
— Adoro, Alcides. Mas detesto futebol. Que é que eu vou fazer em casa com uma mascote do Palmeiras?
— O Astrogildo não é um porco qualquer, mulher. Ele curte Pink Floyd e abana o rabo quando declamam Baudelaire. Se bem que ele prefere Verlaine. Pela musicalidade. Né, Astrô? Gute, gute, gu!
— Alcides, você vai sair com esse bicho daqui agora! Agora, tá ouvindo? Onde é que tu conseguiu essa... essa coisa?
— Rifa. Sortearam lá na repartição. Queriam fazer churrasco, mas eu não deixei. Me apeguei ao bichinho. Ele não é a cara do Diogo Mainardi? Gute, gute, gu!
— A cara, eu não sei. O espírito, certamente. Ai, não chega perto! Sai com esse bicho daqui! Sai!
— Não, mulher. Rolou um lance, saca? Identificação. O Astrogildo também teve uma infância sofrida. Imagine você que ele perdeu a mãe quando era bebê, atropelada por um caminhão de gás. O pobre até hoje não pode ouvir Für Elise que solta guinchos...
— Tua mãe ainda tá viva, Alcides.
— Eu sei, mas também não posso escutar Beethoven que fico todo sensível. Além do mais, ele foi sodomizado por um rottweiler na adolescência. Por isso é meio assim, melancólico. Olha a carinha dele. Não tem aquele jeitão depressivo dos existencialistas franceses? Gute, gute, gu!
— Tem, tem. Se fosse zarolho, era a cara do Sartre. Agora, me escuta, vou falar devagar pra ser mais didática: TIRA... ESSE... PORCO... DAQUI... AGORA!
— Já te disse que o Astrô não é um porco comum, mulher. É um artista. Quando a gente assobia o Réquiem, ele se faz de morto. Quer ver?
— NÃO!!!
— É um sofredor. É um... É...
— O que é isso, Alcides? Ai, meu Deus do céu, o Alcides tá chorando por causa de um porco!
— Você não entende, mulher. Você é uma insensível!
— Eu... Bom... Eu... Tá, tá, tudo bem! Que é que se vai fazer? Hoje esse porco pode ficar aqui em casa. Mas só hoje, tá ouvindo? E pára de chorar!
— Jura?...
— Pode.
— No nosso quarto?
— No quarto de empregada, Alcides! No quarto de empregada. E vê se tranca bem aquela porta.
— Ah, aí não dá, mulher.
— Não, é? E por quê?
— O Astrô sofre de claustrofobia.

14 abril, 2007

VEGETARIANISMO


Sempre que me perguntam qual livro mais marcou minha vida, digo que foi a lista telefônica de 1978. Primeiro, porque é um livro em tudo parecido com uma romance russo. Senão pela qualidade, ao menos no número de personagens e na grossura.

E depois, porque ela caiu na minha cabeça de uma altura de quatro metros quando eu tinha três anos, o que sem dúvida me deixou com várias seqüelas, como podem constatar todos aqueles que me lêem. Dentre as quais, gostaria de citar uma leve tendência a me esconder debaixo do sofá quando o telefone toca e certa propensão a gritar “Bingo!”, quando alguém me dá o número do seu celular. Enfim, nada muito grave.

Mas outro livro que me marcou muito ou, quando menos, o meu estômago, foi “Sidarta”. Após lê-lo, bem no início da adolescência — fase da vida em que usamos tanto de racionalidade e bom senso quanto o Departamento de Defesa americano —, resolvi parar de comer carne.

Falei “estômago” porque a dieta do vegetariano, como se sabe, é bastante ampla. Pode-se comer soja, verdura, verdura, soja e, se sentir muita fome e para desenjoar um pouco, é permitido ao indivíduo, às vezes, ingerir um pouco de soja e verdura também.

Só depois que passei a comer soja numa quantidade razoável foi que desvendei o grande mistério da levitação. Afinal de contas, a quantidade de gases que a fermentação do dito grão provoca seria capaz de fazer subir pelos ares até um elefante, quanto mais um faquir. Isso, se o animal conseguisse ficar na posição do lótus, claro.

Sem dúvida esta é a maior razão por que o incenso é tão popular na Índia. De outra forma, seria impossível respirar no país.

Também naquela época entendi perfeitamente o motivo por que os grandes mestres do Oriente têm sempre olhos saltados e tanta leveza no caminhar. É fome. Digo a vocês que a paz interior é um produto direto da falta de alimentação.

E a meditação, em conseqüência, é propiciada pelo constante contato com o mau hálito do esfomeado guru. O que é bastante educativo e producente. Afinal, a certa altura o sujeito pensa: “Ou eu atinjo o nirvana de uma vez ou vou ter que ficar sentindo esse bafo pelo resto da vida”.

Após seis meses me alimentando de maneira mais precária que um personagem de “As Vinhas da Ira”, minha fase vegetariana acabou, um belo dia, quando fui a um churrasco com a turma do colégio.

Ali, enquanto um grupo de amigos se divertia com picanhas, maminhas e congêneres, eu comia um pedaço da samambaia da dona da casa, com um pouco de sal e azeite.

A certa altura, no entanto, ouvi um ruído estranho e, ao mirar a mesa, me dei conta de que uma chuleta me chamava, olhando de soslaio, com um sorriso de deboche. Acintosa, queria discutir comigo a “Poética” de Aristóteles e o “Fédon” de Platão.

— Não me provoca que eu sou pré-socrático — pedi.

Ela não se fez de rogada:

— Você não passa de um cristão!

Atraquei-me com o pedaço de carne mais encarniçado que um deputado sobre verba do orçamento. A luta foi árdua, mas em cerca de trinta segundos de dialética, derrotei a despeitada.

Ela ainda desceu pela minha garganta defendendo a transmigração das almas. Mas, usando da maiêutica, arrematei o diálogo com um triunfante arroto. Em seguida, encarei um fileira de corações e por aí segui: cupim, alcatra, costela etc. Sobretudo etc.

Assim, dei adeus definitivamente ao vegetarianismo. E, a partir daquele dia, redescobri os prazeres da boa mesa, o sabor dos alimentos, a variedade de comidas, a dor de barriga e a intoxicação alimentar.

13 abril, 2007

TPM


Eu admito que a guerra é uma calamidade e que a fome e a miséria são aberrações sem tamanho. Tudo bem. Mas acho que a ONU deve começar a considerar seriamente, entre os flagelos que perturbam a humanidade e tiram a paz do mundo, a TPM.

Não sei exatamente qual a relação dos leitores com a supracitada. Falo dos leitores porque, evidentemente, são os mais afetados por ela, sendo as mulheres apenas um meio através do qual o dia estará irremediavelmente perdido.

Quanto a mim, me esforço por ser compreensivo. É certo que a minha sensibilidade fica um tanto ou quanto prejudicada quando estou tentando desviar de vasos e porta-retratos atirados contra mim, mas procuro não perder a serenidade. E, assim, cometo um erro fundamental em se tratando de TPM: busco o diálogo.

Se alguém já tentou argumentar com uma mulher de TPM, pode ter a exata dimensão da tolice que isso representa. Uma mulher de TPM joga por terra toda a dialética hegeliana com um simples esgar e, sorrindo sarcasticamente, desmonta uma por uma as categorias kantianas, além de um ou outro móvel que esteja ao alcance de sua mão.

Ficar calado tampouco funciona. O silêncio é uma aberrante confissão de culpa, ainda que você não tenha a mínima idéia do motivo de sua condenação e, muito menos, do porquê de sua coleção de CDs estar dentro da privada, juntamente com aquele livro de Poe que você estava relendo e os restos digeridos da feijoada de ontem.

Que fazer, então? Talvez o mais sábio seja tratar o problema como uma catástrofe natural de menor porte, como a avalanche, o furacão ou o tsunami. E esperar, calmamente, que as forças de resgate cheguem. Após quatro ou cinco dias.

12 abril, 2007

MENDIGO



- Dá uma consciência social aí, tio.
- Tem não.
- Só uma consciência social, tio.
- Tem não, menino, já le disse.
- Por favor. Eu tô morrendo de avareza.
- Avareza nada! Tu tá chei de piedade, que eu seio.
- É avareza, tio, eu juro.
- Que avareza o quê! Pensa que eu num tô sentino esse bafo de piedade?
- Eu juro, tio, é avareza. Meu pai é juiz, minha mãe trabalha em ministério. Eu cresci em berço de ouro, tio, queimando índio, fazendo racha...
- Tá pensano que me engana? Eu posso de num ter apego material, mas num sou trouxa, moleque. Sei muitcho bem quando vejo arguém da elite responsave. Tu deve até de trabaiá em ONG e contribuir pro Greenpeace...
- Não é, não, tio. Pro senhor é fácil falar, vive aí na esquina, vestindo farrapo, com esse saco imundo nas costas, cheio de piolho, comendo do ruim e do pior. Mas eu nunca tive amor ao próximo. É verdade.
- Meu fio, outro dia mermo eu vi uma reportage na televisão, mostrano menino rico em carro importado, ingualzinho esse que você tá dirigino aí, fazendo se passar por gente insensive, sem compaixão, e era tudo mentira. Todos eles tava se dedicano a aiguma causa pelo bem da humanidade. Acelera, passa marcha. O sinal já abriu.
- Mas no meu caso é verdade, tio. Eu não tenho consciência social nenhuma. Venho de uma família de 400 anos de Brasil. Tem usineiro, banqueiro, barão de indústria paulista... Nunca soube o que era pobreza, tio. Me ajude.
- Num tenho, meu fio, já le falei. Se tivesse, le dava. A última consciência social que eu tinha dei prum deputado que passou aqui dez minuto atrai. Tava usano carro chapa-branca pra serviço particulá e carregava uma mala cheia de dinheiro público desviado. Dava pra ver que tava necessitado. Mas você?
- Olha aqui, tio, minha declaração de IR. Quer ler? Veja, por exemplo, se aí tá declarado esse carro? Não tá. Também não tenho nenhum imóvel listado aqui. E olha que eu tenho apartamento em todas as ruas do Banco Imobiliário.
- Isso é farso, meu fio. A coisa mais fáci do mundo é encontrar documento farso pra comprovar as corrupção de arguém. Por causo disso que esse país num vai pra frente. Todo mundo trabaia com honestidade e pratica filantropia. Agora chega. Vamo. Circulano. Fecha o vrido elétrio e vai embora.
- Mas, mas, tio... Por favor, se eu chegar em casa sem consciência social a minha mãe não vai brigar comigo de novo.
- Passa, moleque. Vê se encontra outro indiota pra tentá enganá. Anda.
- (dando partida) Eu sou egoísta! Eu juro!
- Vai, vai embora. (para si) Eitcha, que esse povo num aprende mermo! Num se pode mais nem viver na misera, em paz, nessa cidade!

11 abril, 2007

A BARATA E A EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE


Para Camus, o único problema verdadeiramente digno de ser averiguado é o do suicídio. Humildemente, ouso discordar do filósofo. Para mim, o único problema realmente grave é o da barata. Mais precisamente, o da barata voadora.

Não sei vocês. Quanto a mim, a simples presença de uma barata voadora no cômodo onde estou, me faz entrar num profundo estado de impotência, o que me leva a repensar os fundamentos da existência e a necessidade de manter-me vivo.

É certo que a barata, em si, não me estimula tanto a capacidade questionadora. Já a barata em mim me transforma num bravo Kant. E, se é voadora então, me desperta não só à reflexão como provoca ridículos gritos de desespero e relativa atividade intestinal, associados a uma inaudita vontade de deslocamento.

O problema da barata voadora, alicerce de toda a evolução humana, é basicamente que ela, além de não temer o homem (o que só comprova sua irracionalidade), desconhecendo suas ínfimas proporções físicas, ainda parte destemidamente para cima de sua vítima, crendo-se no mínimo parte da família dos felídeos e, no máximo, dos pterodáctilos.

Não tenho dúvidas: se o homem deixou a caverna um dia, certamente isso se deve ao aparecimento de um ninho de baratas voadoras. Teve tanto medo que parou de andar de quatro, pondo-se imediatamente ereto (afinal, com todos os membros ocupados seria impossível apanhar a sandália para tentar golpear o inimigo).

Teria trocado de bom grado a posição ereta pela inexistência das baratas, é verdade. Por outro lado, hoje não posso deixar de sentir enorme respeito pelo bicho quando surge inesperadamente, alado, e entra por minha janela.

Ainda que o sinta devidamente escondido debaixo da cama ou mesmo trancado dentro do guarda-roupa.

10 abril, 2007

DECISÃO



- Eu disse “ahn-han”, Albérico, “ahn-han”!
- Pois é, foi justamente o que eu ouvi: “ahn-ran”. Ou seja: “sim, eu quero ficar mais um pouco”.
- Não, Albérico, “ahn-ran” significa “não, me leve pra casa imediatamente”, todo o mundo sabe disso. Eu já não agüentava mais aquele papo sobre futebol e a Matilde falando da irmã dela o tempo inteiro. Que gente mais chata!
- Então, devia ter dito “uhm-hum”. “Uhm-rum” é coisa certa. Se tivesse dito “uhm-rum” eu teria entendido.
- Eu não queria pastilha para a garganta, Albérico. Queria simplesmente desaparecer daquele lugar e entrar nesse carro o mais rápido possível!
- Nesse caso, deveria ter feito: fiiiu!
- Ahn?
- Fiiiu!
- Tá assobiando pra quem, Albérico? Tá me achando gostosa?
- Fiiiu! Assobio um pouco sustenido. Sinal claro de que algo não vai bem.
- Sem dúvida. Sobretudo no que concerne à tua cabeça. Fiiiu... Ha! Essa é boa!
- Obrigado.
- Quê?
- Eu agradeci. Obrigado.
- Albérico, “ha” é um som que expressa ironia!
- Não, “ha” é concordância. “Hum” é ironia. Ai, ai, ai!
- Ui, Meu Deus, que foi?! É a dor nas costas de novo?
- Não, enfado. Dor nas costas é “ai, ai, ai, ai, ai”, seguido, sem pausa. Será que dá pra gente mudar de assunto?
- Uhm-rum.
- Tá vendo? Depois sou eu que não paro de discutir.
- Eu disse “uhm-rum”, Albérico! Eu concordei!
- Ahn-ran.
- Entendeu?
- Uhm-rum.
- Assim não dá, Albérico! Nem eu mais sei o que é que eu tô falando!
- Viu como não é fácil se pôr no meu lugar?
- Chega! Eu não agüento mais discutir. Toda vez que a gente sai agora é a mesma coisa, toda vez! De hoje não passa. A gente precisa colocar aquela decisão em prática.
- A decisão? E nossas individualidades, Marina?
- Paciência. Casamento é abrir mão.
- Mas, será que a gente já tá maduro?
- É um passo e tanto, Albérico, mas é o caminho natural.
- Não sei, será?
- Não dá, Albérico, não dá mais.
- Mas, meu bem...
- Dessa vez, não tem mais saída. Albérico, a gente precisa padronizar as nossas interjeições.

09 abril, 2007

15 DE NOVEMBRO DE 1889


— Aonde o senhor pensa que vai uma hora destas?
— Ai, meus sacos! Vou-me ali fundar a República e volto já, mulher.
— República? Então é este o nome de tua nova amiga?
— Eh! Que amiga qual nada, mulher, a República é um... Ah, deixa lá! Vou derrubar a Coroa. Chegarei tarde.
— E ainda tens coragem de dizer-me que ela é uma coroa, Dedé?! Ai, crime! Ó céus! Como eu sou infeliz!
— Mas tenha santa paciência! Quanto teatro! Ó infeliz, então não sabes que estamos a expulsar o Imperador do país e vamos fazer um novo governo?
— Deodoro, Deodoro, tu não me enrolas mais com estas patranhas, Deodoro! Sei muito bem aonde vais com estes teus amigos, todos fantasiados para o entrudo!
— Fantasiad...? Puh! Aquilo ali é o Exército Nacional, mulher! E está a me esperar. Não te afobes. Verás como...
— Não!
— Larga-me, mulher! Levanta! Solta o meu pé, desgraçada! Os homens estão a me esperar! Deixa-te de cenas!
— Se saíres por aquela porta, Deodoro, nunca mais tornarás a ver-me! Ouve o que te digo!
— Ai, meu São José das Oiças Fechadas, protetor das fêmeas desvairadas! Mulher, escuta cá o que estou a te dizer: a causa da República está a necessitar deste humilde servo.
— Esquece as calças da República e vem cá divertir-te entre minhas saias, Dedé! Vem! Não gostas mais de mim, é isto?
— Estás surda, mulher? Hein? Dize cá: estás surda? Não estás a escutar que falo de uma nova forma de governo? Da res publica? Res publica!
— Aquela vaca!
— Bom Jesus, socorre-me! Será que não pensas em outra coisa na tua vida? Quantas vezes já te disse que não há outra, senão tu?
— Antes não eras assim. Antes me tratavas como a uma princesa! Por que não me tratas mais como a uma princesa, Dedé?
— Queres que te trate como a uma princesa? Então vou enviar-te para o degredo na Europa. Pois é isto que vamos fazer com a família real, assim que soltares a minha perna!
— Agora vives por aí, a brincar de capa e espada com estes teus amigos dissolutos...
— Quantas vezes tenho que te dizer que aquilo lá é o Exército, obstinada?
— Um homem da tua estatura... Às vezes penso em mandar uma carta ao Imperador, queixando-me de ti...
— Manda, mulher. Mas estou a te avisar: vais gastar uma fortuna com selos. Não me ouviste dizer que ele está de partida, hein? Ficaste surda de vez?
— E agora mais esta: uma mulher! Uma tal de Resplúmbea interpõe-se entre nós!
— Repú... Ah, queres saber? Arruma um tigre sobre tua cabeça e vai lançá-lo à praia, ou bem fica-te cá com tuas lamúrias! Preciso ir!
— Não! Volta, Dedé!
— Larga!
— Não! Dedé! Ded... Vai! Vai, sacripanta! Mas fica a saber que estou a fazer feitiçarias contra esta Respúria, ouviste?! Uma preta está a me ajudar! Esta história não tem futuro! Meu santo é forte! Verás como em pouco tempo a Relúbrica entregar-se-á à luxúria e à corrupção! Ficará arruinada e ninguém mais a respeitará! Será mulher de todos e cairá doente, ouviste? Meu santo é forte! Ah, e tem mais: esquece o colchão de penas! Hoje dormirás no canapé!

08 abril, 2007

CRIACIONISMO À BRASILEIRA


A meu ver, a maior prova de que Deus é brasileiro é a humanidade. Cheia de problemas e defeitos insanáveis, ela só pode ter sido fruto de um produto genuinamente nacional: a licitação pública fraudulenta.

Isso, além daquele providencial descanso no sétimo dia, claro. Fosse Deus americano, o domingo não seria jamais dedicado ao ócio e, sim, a algo mais produtivo, como invadir e bombardear um país do Terceiro Mundo, por exemplo.

Quanto ao empreiteiro responsável pelo projeto, era, sem dúvida, um parente do Senhor e deu 10% ao Pai por fora. De resto, deve ter sido o mesmo empreendedor o responsável pelo surgimento da girafa, da coruja, da lesma, do cantor de axé music e de outras criaturas estranhas.

Fico imaginando o dia em que ele finalmente entrou na sala de Deus para mostrar sua obra acabada, carregando Adão pelo braço, o qual já estava relativamente entediado em função da demora na sala de espera.

— Aqui está, Pai, um protótipo verdadeiramente sublime — disse ele, ao se aproximar do Onipotente
— Hum... Deixa eu ver — falou o Onisciente, inspecionando o corpo do primeiro homem. — É... no geral, me parece muito bom. Mas, e esse negócio pontudo aí em cima? — concluiu, ao final de alguns minutos, apertando as narinas de Adão.
— Ai, isso dói, pô! — reclamou nosso ancestral.
— Isto é o nariz, Senhor — explicou o ilustre empresário. — Ou vias aéreas, para os mais íntimos. Importante para a absorção do oxigênio que manterá o homem vivo.
— Sei. Mas e essa meleca esverdeada no interior dele?
— Bem, o senhor sabe, na verdade o projeto original previa que as fossas nasais fossem autolimpantes, com refrigeração interna e fragrância de mirra. Mas, isso encareceria demais a obra.
— Entendo. E aquilo ali?
— Sovaco.
— Uhm! Como fede! — disse o Senhor, fungando nas axilas de Adão.
— Ih! ih! ih! — deixou escapar o genearca, arrepiando-se dos pés à cabeça, pois a longa barba do Senhor fazia cócegas.
— Eu sei, eu sei — explicou o sábio empreiteiro. — Pensamos em vedar com cortiça, mas atrapalharia a articulação dos braços. Outra opção seria o cultivo aí de ervas aromáticas, mas encareceria demais o projeto. De maneira que remanejamos alguns pêlos do púbis e tudo se resolveu a contento.
— Púbis? Que vem a ser isso?
— Ah! Esta região aqui, Pai — apontou o empreiteiro.
Olhando para onde o homem indicava, o Senhor não se conteve e caiu na gargalhada, o que provocou alguns abalos sísmicos em Marte e deslocou em um grau a órbita de Saturno. Adão se sentiu insultado:
— Qual é a graça? — perguntou, irritado.
— Ha! ha! Que coisa ridícula, meu Eu Mesmo! — exclamou o Senhor. — Horrível! E esse toquinho, aí, pra que é que serve?! Hu! hu!
— Toquinho, não, hein! — reagiu Adão. — Olha o respeito! Balança ele que o Senhor vai ver o Toquinho se transformar no Vinícius já, já!
— Erm... Ram... — constrangeu-se o insigne empreendedor. — Desculpe senhor, sei que talvez os órgãos sexuais estejam lhe parecendo algo esquisitos...
— Esquisito? Esquisito é o ornitorrinco, que eu acabei de criar. Isso daí é, no mínimo, patético!
— Foi o que conseguimos arranjar com a verba que o senhor destinou ao serviço.
— He! he! he! — divertia-se o Senhor. — E ainda tem um saquinho balançando ali, olha lá! Hi! hi! E se a gente der um peteleco nele?
— Não! — gritou o empreiteiro, mas era tarde demais.
— Uaahhaaaai! — urrou Adão e caiu se contorcendo no chão, de bunda para cima, o que deixou o Senhor ainda mais intrigado.
— Ué? Ó lá: ele tem um buraquinho ali, rapaz! Pra que será que s...
— Epa! Aí não! — levantou-se Adão rapidamente
— Pai, o reto serve para... — começou a explicar o empresário.
— Já entendi. Quando ele cair, a gente aperta aí e ele levanta. Olha, me desculpe, mas não vai dar. Até fico com essa cópia. Mas o senhor precisa me arranjar algo menos estúpido e feio.
— Feio é a p... — ia dizendo o primogênito, mas o empreiteiro tapou a sua boca rapidamente, falando: — Olha, a gente pode até criar algo melhor, Senhor. Mas...
— Já sei, já sei: vai encarecer demais o projeto. Tubo bem. Contanto que você me traga uma coisa menos repugnante.
— Uhmsmm? Msmsm! Msmsmsmmn!

Com muito custo, o empresário conseguiu arrastar Adão para fora da sala, pois, apressadinho, ele queria matar Deus ali mesmo, no ato — coisa que, como todos sabem, a humanidade só faria no século XIX.

Assim, dias depois, voltou o empreiteiro com uma mulher, espécime infinitamente melhor, perceptivelmente mais inteligente, belíssimo e que se prestava a inúmeras e agradáveis utilidades.
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Mas, como disse o probo empresário, o projeto de fato saiu muito mais caro. Sobretudo depois da invenção do cartão de crédito.

07 abril, 2007

VOAR, VOAR; SUBIR, SUBIR


Vocês, leitores aquinhoados pela sorte e que têm a satisfação de contribuir para a compra de ambulâncias para o nosso sistema público de saúde com o pagamento do IR, certamente fazem suas viagens Brasil afora — e quiçá até para a Europa ou outros lugares no estrangeiro, como o Amapá — a bordo de aviões. Quanto a mim, não tenho esse privilégio: quando preciso viajar, sou obrigado a me deslocar de Fokker 100 mesmo.

Sendo assim, todas as vezes que quero visitar o Recife ou, mais precisamente, todas as vezes que a minha mãe me liga com voz de penitente dizendo que está com um sério problema no útero — o que sem dúvida é grave, posto que ela retirou o órgão em 1988 —, sou obrigado a pegar um dos vôos noturnos de nossas fantásticas companhias aéreas e passar pelo instrutivo treinamento para turista da Disney disponibilizado nas filas de embarque de nossos aeroportos. O qual, não tenho dúvidas, fariam Jó desacreditar do Senhor e abraçar com alegria o ateísmo.

Tudo bem, dirão alguns, mas se é para economizar dinheiro, por que não escolho um meio de transporte mais célere, confortável e seguro, como o pau-de-arara, por exemplo? Ao que eu, depois de consultar o significado de “célere” no dicionário, respondo: porque, sendo adepto de esportes radicais como o rapel, o bungee jump e a leitura de “O Capital” em alemão, gosto de aventuras arriscadas — prova maior disso é que tinha conta no Banco Santos.

Mas, sou de um tempo em que ainda não era proibido respirar em vôos nacionais e que, para cruzar as pernas, não tínhamos que possuir nenhum tipo de experiência como iogue, o que me dá uma sensação esquisita de alheamento e inadaptação todas as vezes que me sento na poltrona de nossas atuais aeronaves.

É bem verdade que nossa aviação melhorou muito nos últimos anos. É com satisfação, por exemplo, que vejo a atual política de cotas, através da qual se permite que animais de estimação, como porcos e galinhas, acompanhem seus donos nos traslados aéreos. Bem como o revolucionário e cartesiano plano de vôo, que estimula o conhecimento de nosso imenso Brasil, fazendo com que o sujeito que queira ir do Sudeste ao Nordeste tenha que necessariamente dar uma passadinha em Goiânia ou prestigiar as belezas naturais de Rio Branco.

Também acho louvável o esforço de nossas empresas para diminuir o índice de obesidade de nossa população, distribuindo como lanche nas aeronaves apenas o estritamente necessário para, senão matar, ao menos alvejar perigosamente a nossa fome, como três caroços de amendoim e um dedo de tubaína light em temperatura ambiente.

Sem falar no cuidado com a estética que leva o comandante a ligar o ar-condicionado no mínimo, fazendo com que transpiremos mais que um freqüentador de sauna em Teresina e, dessa forma, hidratemos nossa pele.

Sei ainda que muito dos dissabores da viagem poderiam ser poupados caso o incompetente governo federal asfaltasse direito o nosso espaço aéreo, evitando as constantes quedas em buracos e algumas fraturas expostas no crânio.

Só não me acostumei ainda com a qualidade das músicas nos vôos. Aceito que o trajeto de São Paulo ao Recife dure breves doze horas, que as aeromoças cocem o saco e nos insultem quando pedimos uma informação e que o uso do banheiro requeira uma iniciação nas artes circenses.

Tudo isso eu mereço, eu sei. Mas, pergunto aos senhores, que têm maior cultura e já viram cédulas de R$ 100: será mesmo necessário que, a cada uma das duas mil novecentas e trinta e duas paradas ao longo do percurso, sejamos obrigados a escutar Rick e Renner?

Eis aí minha modesta contribuição para mais um profundo debate nacional.

06 abril, 2007

UMA CPI NUM FUTURO NÃO MUITO DISTANTE


— Muito bem, senhor prefeito. Leio aqui que o senhor fez uma licitação para compra de merenda escolar na sua cidade.
— Nego e repilo, nobre deputado. Isso é mentira.
— Mentira nada! Está aqui, ó. Tenho papéis que comprovam. O senhor fez uma licitação, de que só participaram empresas regularmente inscritas na Receita e na qual nenhum parente seu estava envolvido. Ainda por cima, quem ganhou foi a firma mais capacitada, que oferecia o melhor preço e o melhor serviço.
— Essa assinatura no edital não é minha. Acredite!
— É, sim! Testes feitos por técnicos já confirmaram. E, o que é pior, o senhor nem ao menos recebeu os dez por cento de comissão de praxe.
— Recebi! Recebi, em dólar, através do meu assessor! Eu mandei o dinheiro pra Suíça! Eu juro!
— Mentira! Tenho aqui seu extrato bancário, senhor prefeito. O único dinheiro que entrou na sua conta nos últimos meses foi o do seu salário, o qual, diga-se de passagem, está muito abaixo da média e jamais foi reajustado nos últimos quatro anos.
— Não, não! Eu recebi propina, nobre deputado, eu juro!
— Não minta, seu calhorda. O único dinheiro que o senhor recebeu foi fruto do seu trabalho como administrador, um trabalho repugnante, que respeitou os limites fiscais, executou integralmente o orçamento e ainda investiu os percentuais obrigatórios em saúde e educação.
— Construí um posto de saúde básico e uma escola bem pequena, deputado, nada de mais...
— Ah, então confessa? E ainda fez isso com recursos próprios, sem endividar o município junto aos órgãos internacionais! Que absurdo. O senhor me enoja. É por conta de gente assim que o país não vai pra frente. A verdade, prefeito, é esta: o senhor não passa de um honesto!
— Não! Não acreditem nisso, por favor! Eu atravesso sinal vermelho, eu digo palavrão, eu tiro meleca do nariz, eu até solto pum em ambientes fechados! Juro, eu juro!
— Chega! Não agüento mais ver esse sujeito íntegro e impoluto na minha frente. Guardas, levem-no!.
(sendo algemado e retirado do recinto) Não façam isso comigo! Eu sou ladrão, desvio dinheiro! Eu garanto! Por favor!
— Hum! Inacreditável, não? Que farsante!

05 abril, 2007

O DOM



- Nem sei por onde começar, Oswaldo. Bom, a verdade é que eu... você... você... nós dois...
- Já temos um passado, meu amor?
- Deixa de gracinha, Oswaldo. O assunto é sério. Eu... eu tô pensando em divórcio. Pronto, disse.
- Ah, não. Não me diga que é aquela história da prima da Ana Tereza de novo! Já expliquei mais de mil vezes que eu não tive relações sexuais com aquela mulher!
- Frase perfeita, Oswaldo. Por sorte, eu não sou do Partido Republicano.
- Mas, meu São Menelau dos Maridos Injustiçados, Renata Kelly! Se a moça até caolha era, coitada.
- E daí? O Camões era caolho e morreu de sífilis.
- Não. Quem morreu de sífilis foi o Oscar Wilde.
- Pois eu quero que o Oscar Wilde vá pro Heine que o parta, Oswaldo. Não é disso que eu estou falando.
- Então é sexo. Você não gosta dos nossos sexos.
- Gosto. Eu sou mulher, você é homem. Adoro os nossos sexos.
- Você entendeu muito bem... É aquele lance de orgasmo múltiplo de novo, né? Maldita hora que eu te presenteei com um livro da Marta Suplicy. Logo eu, que odeio a Argentina! Meu bem, já disse que vou me esforçar. E da última vez você não conseguiu, hein? Não teve um orgasmo múltiplo?
- Sem dúvida. Múltiplo de zero, Oswaldo. Mas também não se trata disso. É mais grave do que sexo.
- Mais grave do que sexo? Você sabe perfeitamente que metafísica eu não discuto.
- O caso, Oswaldo, é que a gente já tá casado há três anos e... Eu, quer dizer, ao longo desse tempo, eu, enfim, descobri...
- Fala logo!
- Oswaldo, você não sabe coçar.
- Como é que é?
- Coçar, Oswaldo. Você não sabe.
- Era o que me faltava! Você quer acabar o casamento porque eu não sei coçar?
- Não sabe.
- Qualquer idiota sabe coçar, Renata Kelly! Dá cá o braço. Olha aí, tô te coçando.
- Viu? É o que eu digo. Você não tem jeito pra coisa.
- Não tá bom?
- Não, não tá.
- E como é que você quer que eu te coce, me diga, ó grande especialista em fricção.
- Isso não se ensina, Oswaldo. É de cada um, é uma habilidade natural, é um dom. Você não tem o dom.
- Que piada!
- Bem... E eu acabei concluindo que...
- Você só pode tá brincando!
- ... acho melhor a gente se separar.
- Não fale isso, meu amor. Eu faço um curso, eu me esforço...
- Não dá.
- Eu tomo banho de urtiga...
- Não adianta, Oswaldo. Já me decidi.
- Mas por quê, Titinha? Por quê?
- Oswaldo... Você não tem o dom.

04 abril, 2007

MAIS UMA GENIAL IDÉIA MINHA COMO CONTRIBUIÇÃO PARA O PROGRESSO DO BRASIL E A EVOLUÇÃO DA HUMANIDADE



Há momentos na vida em que o sujeito percebe que chegou ao fundo do poço. E há outros, muito piores, em que o sujeito não apenas se dá conta de que chegou ao fundo do poço como que o Latino também chegou ao fundo do poço junto com ele e está lá dentro tocando “Festa no Apê”.

Para alguns, como Sartre, a percepção da materialidade da existência é um ponto-chave da chegada ao fundo do poço (do francês “rapprochement du fond du poçô”). E o filósofo apresenta como uma das saídas para o problema a apreciação estética. O que, sem dúvida, é de uma abnegação invejável. Afinal, Sartre era zarolho.

Para outros, o instante que os deixa mais para baixo que os joelhos de Luis XIV é o da constatação da sua própria vileza. É o caso, por exemplo, de Macbeth. Não é o caso, por exemplo, dos congressistas em Brasília.

Quanto a mim, cuja capacidade filosófica jamais me permitiu ir além do “Freud em Quadrinhos” de minha adolescência e a de raciocínio é tão ampla quanto o número de neurônios no cérebro do Zeca Camargo, tenho o insight (do inglês “insight”) de que o fundo do poço está próximo e me pego meditando sobre a decadência humana sempre que preciso colher amostra para exame de fezes.

Trancado no banheiro, inteiramente nu, na clássica posição da galinha corcunda e tendo que acertar o cocô num pote de plástico estrategicamente colocado a poucos centímetros do reto, eu imediatamente excogito que a vida não tem o mínimo sentido e fico mais deprimido que um congresso de poetas românticos.

Diante, ou melhor, acima de um pote de laboratório para exame de fezes, creio que até um deputado do PP é capaz de criar sentimentos humanos e meditar um pouco sobre a nugacidade da existência e a carência de objetivos de nossa raça.

Na verdade, para ser franco, só vejo um único objeto capaz de gerar uma crise existencial de intensidade maior do que a provocada pelo pote de exame de fezes: a pazinha de plástico que acompanha o pote de exame de fezes e que serve para o sujeito que, tendo uma pontaria semelhante à dos pilotos americanos no Iraque, precise recolher para dentro o cocô que, porventura, tenha espirrado pelas bordas do recipiente.

Haverá por acaso atividade que inspire mais piedade e demonstre de maneira mais cabal a precariedade do homem do que colocar, com uma pazinha, cocô para dentro de um receptáculo? Bom, com exceção de ler a coluna da Eliane Cantanhêde, eu não conheço nenhuma.

E é assim que proponho, desde já, uma campanha nacional em favor de uma lei que obrigue todo cidadão que ocupe cargo eletivo a fazer pelo menos dois exames de fezes por semana.

Tenho certeza de que, com esta patriótica iniciativa, estaremos contribuindo para despertar a reflexão e o humanismo de nossos legisladores e dirigentes, assim melhorando as instituições democráticas nacionais.

Afinal de contas, a sociedade tem que fiscalizar o trabalho dos políticos. E o exame de fezes, em suma, é o exame do que eles fazem e vêm fazendo há séculos por todo o Brasil.

03 abril, 2007

PELA IMEDIATA REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO DE IMITADOR DE PAULO FRANCIS


Dentre as deficiências do Estado brasileiro que se perpetuam ao longo dos tempos, creio que a mais grave é o governo não ter ainda, desde a última década, regulamentado a profissão de imitador de Paulo Francis.

É revoltante ver diariamente, em colunas espalhadas de Norte a Sul do país, heróicas e bravas hordas de imitadores de Paulo Francis, sofrendo para procurar citações eruditas no Google, buscando de maneira tocante afetar inteligência e conhecimento, sem que nenhum tipo de apoio governamental lhes seja prestado.

Sei que alguns críticos mais apressados e desprovidos de cultura, provavelmente dinossauros esquerdistas e marxistas empedernidos, insinuarão perfidamente que nossos imitadores de Paulo Francis não têm talento e que se assemelham, no todo, a rebotalhos do grande jornalista, o qual, se fosse vivo, estaria ridicularizando cada um deles, sem piedade ou exceção.

Ao que eu, mais estudado e atento, afirmo que esta suposta falta de habilidade na profissão de imitador de Paulo Francis é bastante compreensível e deriva, justamente, da ausência de regulamentação do cargo.

Ora, fosse a profissão regulamentada, acompanharíamos, sem dúvida, o surgimento de escolas que ensinassem a escrever e falar como o redator de O Pasquim, evitando assim que os pupilos do grande mestre traçassem ou pronunciassem palavras de conteúdo sofrível.

Não tenho dúvidas, por exemplo, de que nossos dinâmicos empresários contribuiriam alegremente para a construção de um Instituto Paulo Francis, dedicado ao ensino do raciocínio, da irreverência, da ironia, da gramática e de uma série de outros atributos necessários ao interessado em seguir carreira.

Enfim, estou certo de que se as leis brasileiras exigissem dos candidatos a devida formação intelectual e um imprescindível diploma, não veríamos aberrações como as com que tão constantemente nos defrontamos em blogs, jornais e revistas Brasil afora.

Deixo portanto, aqui, o meu protesto. E faço um apelo a que imitadores de Paulo Francis de todo o Brasil se unam em torno dessa nobre causa, talvez constituindo um sindicado da categoria, o SindFrancis, fórum adequado para lutar por seus interesses.

Falo apenas como leitor. Mas, pessoa sensível, compreendo ser preciso dar um basta nesta situação.

02 abril, 2007

PERSONAL THINKER


Conversando com um amigo, falei outro dia num "personal thinker" e a verdade é que estou pensando seriamente em patentear a idéia e explorar esse promissor ramo do empreendimento cérebro-desportivo.
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Não no Brasil, evidentemente, onde já alcançamos um nível de desenvolvimento neuronial que dispensa a ocupação com ninharias como o pensamento abstrato e o raciocínio lógico, preferindo aplicar-nos a práticas mais desafiadoras: eliminar participantes de reality shows pelo telefone ou escrever letras de música popular usando apenas três vogais e alguns gemidos, por exemplo.
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Estou visando, isso sim, nações exóticas e de insuficiente capacidade intelectual que, em pleno século XXI, diante de todos os avanços feitos pelo homem nas artes e na indústria, ainda se dedicam a atividades atrasadas e lúridas como a filosofia e a ciência.
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Mas, caso alguém esteja interessado em comercializar minha patente aqui mesmo em terras pátrias, eis como imagino uma aula típica. Usando um abrigo esportivo, tênis e uma faixa na cabeça, o instrutor se aproxima do seu aluno, batendo palmas, enérgico:
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— Olha essa sinapse! Aguça esse senso crítico! Vamo lá: um, dois, um, dois, um, dois... Quanto é que deu?
— Ahn?
— Molenga! Deu nove! De novo: um, dois, um, dois... Como é que se classifica isso?
— Isso o quê?
— Burro! Sistema binário! Vamos lá, não pára! Fazendo um silogismo! Qual o primeiro termo?
— Em “fazendo um silogismo”, o primeiro termo é um verbo, o verbo fazer.
— Animal! O primeiro termo do silogismo! A tese! Vamo! Mexendo os neurônios! Um, dois...
— Tese? Pra ter aula é preciso ser formado?
— Muito bem: “Pra ter aula é preciso ser formado”. Juízo afirmativo. Respira! Expira! Vamo! Agora, a antítese!
— Não sabia que precisava de diploma. Eu não sou formado!
— Perfeito! “Eu não sou formado.” Agora, mais rápido! Vamo! Um, dois... A síntese. Logo...
— Não me apressa.
— Logo...
— Tô tentando!
— Logo...
— Calma, pô!
— “Logo, eu não posso ter aula!”, seu jumento! É essa a resposta! Respira!
— Bom, se o senhor não pode ter aula e eu também não posso, vamo parando por aqui. Me dê meu dinheiro de volta.
— Quadrúpede! Você não pode dizer essa frase!
— Posso, sim. O dinheiro é meu, paguei pela aula e se...
— Cavalo! Não se pode começar frase com o pronome! Inspire! Repita comigo: “Dê-me meu dinheiro de volta”.
— Eu é que peço: dê-me meu dinheiro de volta!
— Muito bem. Mudando de exercício! Pegue os livros! No ritmo!
— Ah, não, os livros de novo?
— Cometeu erro tem que pagar! Vamo, olha a moleza! Respira!
— Mas esses livros...
— Vamo, vamo! Você tá cansado de saber: cometeu erro, tem que levantar vinte romances russos! Rápido! No ritmo! Um, dois, um, dois...
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E é assim que, em pouco tempo e com um mínimo de investimento, trabalhando em prol de exercitar a mente, faríamos o impensável: deixaríamos em excelente forma física grande parte da população nacional.