14 março, 2007

UMA ENTREVISTA DE EMPREGO NUM PAÍS MUITO DISTANTE


— Então, seu Josimar, pelo que leio aqui na sua ficha o senhor quer a vaga de Alocador de Artefatos Argilosos e Simétricos em Sítios de Construção, não é isso?
— É pedreiro, né? Sim, senhora, quero, sim. Muitcho.
— Vejo aqui que o senhor não tem curso de Arquitetura nem Engenharia. Mas tem alguma especialização?
— Tenho, sim, senhora. Sou inspecialista em colocar um tijolo em riba do outro e depois passar cimento.
— Mas nada além disso, quer dizer, não tem um diploma em Física, pelo menos?
— Ah, sim, aí a senhora pode ver que eu tenho físico, sim, e muito bom, dona. Ói aqui, tudo isso é muque. E aqui na barriga, ói.
— Já vi, já vi, seu Josimar. Por favor, coloque a camisa, pelo amor de Deus! Er... O que eu quero saber é se o senhor se formou, se fez faculdade...
— Craro que fiz, dona. A Escola de Comunicação da USP fui eu e mais uns colega que alevantou tudinha, parede por parede.
— O senhor não estudou, seu Josimar? É isso. O senhor não tem o terceiro grau, não é?
— Senhora, não. Nunca precisei de óclo, graças a Deus.
— Seu Josimar, eu quero saber se o senhor é formado...
— Craro! Ói cá: mãos perfeita, braços perfeito, tudo em orde. O que não quer dizer muita coisa, a senhora arrepare, porque na minha última obra tinha um sujeito, sem os dois braço, que alevantava os tijolo com o dedão do pé e esse outro dedo aqui, ói... Ansim...
— Seu Josimar, por Nosso Senhor, seu Josimar, tire os pés de cima da mesa!
— Era um genho, como se diz. Até certa feita conseguiu sustentar um tijolo com as perna amarrada. Mas aí num digo à senhora como ele fez pra inquilibrar o tijolo, porque sou uma pessoa recatada...
— Tudo bem, seu Josimar, o senhor não é formado, mas tem um curso por fora, digo, fez algum curso básico sobre colunatas latinas, capitéis gregos, pintura pré-rafaelita? Conhece ao menos o Renascimento?
— Não, mas acredito piamente, senhora. Os padre fica dizendo que num tem isso não, mas eu mermo já vi muita gente com cara de onça e de coruja. Tenho pra mim que é o tal do renascimento. A pessoa era animal em outra encadernação e volta como home. Ou então as mãe deles fez sesco com bicho, o que...
— Seu Josimar! Por favor! Uhm... Veja bem, seu Josimar, eu gostaria muito de lhe dar o emprego, mas o fato é que se o senhor pelo menos tivesse um curso técnico em alguma coisa simples, como a Mecatrônica...
— Bom, eu fui técnico de futebol, né? Dos bom. Inté o time lá do bairro venceu o infantil do XV de Piracicaba. Jogão! Nenê Boca de Brioco fez dois gol naquele dia. Dibrou o...
— Sei, sei. Acaso o senhor não teria adquirido algum conhecimento em áreas como filosofia hegeliana, dialogismo bakhtiniano, partículas subatômicas ou cálculo infinitesimal?
— Bactrim eu tomei uma vez, quando tava gripado. Mas é raro, que eu tenho saúde de ferro.
— Assim vai ser difícil, seu Josimar. O senhor quer o emprego de AAASSC, mas a única coisa que sabe fazer é construir muros. Infelizmente, não podemos lhe dar a vaga.
— Mas, senhora, faça isso não. Será que num tem aí pelo menos uma vaga de office-boy?
— Temos, sim. Mas para ser Organizador de Remessas Privadas e Seqüenciador de Pagamentos o senhor teria que ter se formado em Economia ou, quando menos, ter noções de fluxo de caixa, letter delivery management e efficiency in bus taking. Além de saber de cor os afluentes do Amazonas e conhecer em detalhes a organização social dos antigos maias e astecas.
— E pra serviço geral?
— Não dá. Nossos Recolhedores de Detritos e Reorganizadores de Objetos Esparsos necessitam de formação em química orgânica. Isso sem falar que devem ter na ponta da língua o nome de cada província da Rússia Oriental, com as respectivas capitais, bem como entender perfeitamente o processo que deu origem aos continentes.
— Por favor! Eu me adapto a qualquer serviço. Não tem nadinha aqui pra mim, dona?
— Bom, seu Josimar, as únicas funções que não exigem especialização ou conhecimento de espécie alguma é a dos chefes, dos donos ou dos parentes dos donos. Essas aceitam todo tipo de ignorante. Mas, infelizmente, já estão ocupadas. Aconselho que o senhor curse ao menos duas ou três universidades. Quem sabe não tenta Gerontologia ou Ciências Biomoleculares?
— Tudo bem, dona. Obrigado. (sai)
— Por isso que esse país não vai pra frente. Os empregos tão todos aí, mas o que se pode fazer se esse povo não tem qualificação?

Um comentário:

Gabriela Freire disse...

Muito bom mesmo!
Parabéns!