12 março, 2007

A ORDEM UNIVERSAL ACÚSTICA DOS TOCADORES DE VIOLÃO DE BOTECO


Disse aqui certa feita que não acreditava em teorias conspiratórias. Aliás, cheguei mesmo a afirmar ser um homem cético e ter certeza de que essas histórias de conspiração, totalmente inverídicas, não passavam de boatos espalhados pela CIA em orquestração com uma organização clandestina de gnomos manetas que, aliados ao Pé Grande e ao ET de Varginha, tentavam desestabilizar a ONU.

Pois muito bem, companheiros... Hoje venho a público pedir desculpas e revelar a vocês, em primeira mão, haver descoberto a existência em terras nacionais de uma instituição de grande porte, que age à sombra da lei e influi de maneira oculta e decisiva nos destinos pátrios: a Ordem Universal Acústica dos Tocadores de Violão de Boteco.

Custei a crer no fato. Mas tive que me render às evidências. De outra forma, como entender que, a qualquer bar que se vá, em qualquer canto do país, não importa o dia da semana, escutem-se exatamente as mesmas músicas, tocadas precisamente na mesma seqüência e, desconfio, com o mesmo violão?

Rígida e altamente hierarquizada, a tal Ordem exige de seus membros, antes de mais nada, que não saibam tocar um instrumento musical. Contribuindo muito para o ingresso do candidato na mesma o fato de ele ser rouco, gago ou fanho e saber de cor todas as letras dos Engenheiros do Hawaii.

Mas tais pré-requisitos, por si sós, não bastam. A Ordem escolhe os neófitos através de um duro processo seletivo em que estes devem demonstrar, empiricamente, ser possível, com apenas três acordes e utilizando o mesmo ritmo, tocar ao menos 4 músicas do Geraldo Azevedo, 7 do Lulu Santos, 2 do Milton Nascimento, 3 do Raul Seixas e uma do Oswaldo Montenegro. Só uma, afinal o objetivo da Ordem é deixar o público levemente enjoado e, não, matá-lo.

Dentro de um calabouço de castelo medieval, com uma tocha acesa numa mão e um chicote na outra, o examinador encapuzado pergunta, ríspido:

— Açaí?
— Guardiã! — responde o candidato a tocador de violão de boteco, acorrentado a um aparelho de tortura.
— Zum de besouro...
— Um ímã!
— Branca é a tez da...?
— Mmmm...
— Patife! Responda!
— Maçã!... Não, manhã! Manhã!...
— Caldeirão fervente pra ele. Próximo!

Essa e muitas outras provas são de praxe na Ordem, dentre as quais uma em que, trancado em um quarto com cinco violões, um pôster do Renato Russo e uma foto do Juruna, o noviço deve resistir à tentação de cantar Índios.

E mais não digo, por medo de represálias. Informo apenas que o Grão-Mestre da Ordem é capaz de executar Coração de Estudante de trás pra frente, usando apenas uma corda de violão.

(Esta crônica vai dedicada a meu amigo
Milton Ribeiro, o popular Ouvido Absoluto do Arroio Dilúvio, também conhecido como o Mata-Gatos da Avenida João Pessoa. E a minha amiga Regina Ramão, dita a Sinapse Perfeita de São Leopoldo ou, ainda, a Anita Garibaldi do Século XXI .)

Um comentário:

Felipe Cruz disse...

espetacular... me diverti muito lendo esse texto