16 março, 2007

O FALECIDO MARCONI LEAL


Esportista que sou, resolvi aproveitar o domingão de sol para dar uma volta, ou melhor, meia volta no Ibirapuera. Digo “meia volta” porque, tendo andado cerca de vinte minutos para chegar ao parque e, assim, batendo meu recorde de caminhada, tão-logo vejo seus portões, me preparo para dar meia-volta e retornar para casa com a sensação do dever cumprido.

Ontem, no entanto, minha mulher teve a sagaz idéia de alugarmos bicicletas, de maneira a curtirmos melhor o aprazível clima paulistano, com umidade relativa na casa dos 30% e poluição que deixava o céu com um belo colorido violáceo.
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Sendo bravo, forte, filho do Norte, aceito o desafio e, ferrenho iconoclasta e positivista de cepa comtiana, logo me sirvo do momento para combater arraigado dogma, segundo o qual quem aprende a andar de bicicleta, nunca esquece.

Fazia aproximadamente quinze anos que não subia no singelo veículo. E, tão-logo o fiz, percebi ter graves motivos para não fazê-lo. Ao contrário de minha mulher que, estrênua, disparou na frente, talvez auxiliada pela vergonha de estar pedalando ao meu lado.
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Vendo-a se distanciar e olhando ao redor, ansioso, à procura de um cilindro de oxigênio, não demorei a me dar conta do motivo por que se desincumbia tão eficazmente da função: ela não possui saco.

Tenho certeza de que a totalidade dos leitores masculinos que não sofreram emasculação na infância e, num momento de insanidade pouco justificada, resolveram dar uma volta de bicicleta, sabem do que estou falando.

O selim definitivamente não é o local mais indicado para aconchegar os testículos. Instrumento de tortura proibido pela Convenção de Genebra, quem quer que o tenha inventado, ou bem era um sádico incurável ou atuava como castrato em algum coro de igreja.

Sendo assim, posso dizer que não estava me sentindo muito confortável e, com a voz cada vez mais fina, insistia em gritar para a pobre que resolveu me desposar, a fim de deixarmos de lado aquela tolice e, quem sabe, nos engajarmos numa atividade menos perigosa, como o duelo ou o salto mortal sem piscina. Mas ela, que além de saco tampouco parecia possuir tímpanos, não ouvia.

Com quinhentos metros de pedalada, já havia me despedido saudoso do meu ex-futuro primogênito e, posto que agnóstico, mas livre de preconceitos, me apegava a santos, orixás, caboclos e mais quantas deidades do culto pagão e hindu me surgiam à cabeça. Suava, suava abundantemente. E de tal forma tremia e bufava sobre as duas rodas, que mais de um passante se benzeu ao me ver.

Ao fim do primeiro quilômetro, no entanto, já havia me acostumado à situação e dava graças a Deus que, com guerras, furacões e tantas outras calamidades grassando no planeta, Ele tinha escolhido para a minha morte um lugar arborizado e destinado ao lazer.

Contudo, justamente naquele ponto, senti-me ferido nos brios. Eis que um adolescente, numa dessas bicicletas mais arrojadas, aproximou-se pela minha direita, voando sobre a guia e, com um risinho sarcástico, saltou para a pista a minha frente, falou “bipe-bipe” e disparou na velocidade da luz.

Revoltado, resolvi me vingar na primeira pessoa que visse, uma vez que estava sem carro e, portanto, impossibilitado de alcançar o procaz ciclista que me havia ultrapassado. Logo bati os olhos na minha vítima: uma menina de quatro anos que pilotava com denodo sua Cecizinha.

Reunindo minhas últimas energias, redobrei a força nos pedais e corri no encalço da infante, com os olhos injetados. Ela olhou para trás e, não sei se por conta da baba que escorria de minha boca ou dos dentes que arreganhei em agressiva atitude competitiva, pôs-se por sua vez em alta velocidade.

Acontece que, percebi, a disputa não era limpa. A garota, além dos dois pneus, possuía aquelas rodinhas de ferro que dão equilíbrio à bicicleta e podia correr sem maiores preocupações, enquanto eu sofria para me manter na vertical.

Mesmo prejudicado, estava quase me emparelhando com ela. E certamente venceria o racha se, por um descuido, não tivesse entrado na contramão e, por azar, uma ambulância do Samu não viesse na minha direção.

A última coisa que ouvi foi uma frase: “Claftplaftplaft”. Minutos depois, com a acuidade visual do Stevie Wonder e sentindo duas ou três vértebras fora do lugar, procurava meu queixo na grama, quando minha mulher reapareceu:

— E então? Já desistiu?

Abri a boca com a intenção de xingar as últimas quatro gerações da família dela. No entanto, talvez por ter inalado muito oxigênio de uma vez, meu desacostumado corpo entrou em colapso e eu desmaiei.

Agora estou aqui, deitado no sofá, diante do computador. O médico me garantiu que, no máximo em duas semanas, poderei voltar a sentar e, dentro de seis dias, conseguirei fechar as pernas. Mas, sexo mesmo, só quando, olhando para baixo, tornar a enxergar os joelhos.

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