19 março, 2007

NUMA ENCRUZILHADA


— Tem um fuminho aí?
— Uaai! Que susto! Que... que-quem é você?
— Prazer, o Curupira.
— Curupi... Curupira?
— Mas pode me chamar de Curu, às suas ordens.
— Não acredito!
— Ah, não? E você acha que eu tenho esses pés pra frente e vivo olhando pra trás por quê? Nostalgia?
— Mas você tá usando tênis da Nike!
— Chuteira.
— Num pé só?
— Sabe como é, a Cuca tá com um lance aí no Paraguai e trouxe pro Saci. Ele tá tentando uma vaga num clube carioca. O esquerdo ele me deu de presente. E aí, vai rolar?
— Rolar? Rolar o quê? Que é que você quer?
— O que é que eu quero! Tu nunca leu Câmara Cascudo? Eu quero fumo, claro.
— Eu tenho Free, serve?
— As coisas que um ser folclórico tem que aturar! Me dá, é o jeito.
— Tó, pode peg... Pô, cê comeu meu maço de cigarro inteiro!
— Uhmm... Free e ainda por cima Light! Que eca. Urrooot! Desculpe.
— Que é que cê tá fazendo aqui, no meio da cidade, uma hora dessas, hein? Você não devia tá na mata?
— Ha! ha! ha! Mata? Onde é que tu tá vivendo, moça? No mundo do faz-de-conta? Tá que nem criança, acreditando em político? Tem mais mata, não, companheira. As que não queimaram, grilaram. Pra você ter uma idéia, a última vez que eu vi a mula-sem-cabeça, ela tava puxando carroça pra um fazendeiro do Acre.
— Como, se ela não vê?
— Por isso, não. Ray Charles era cego, Stevie Wonder é cego e o albino Hermeto não enxerga mesmo muito beeeem! Adoro o Caetano.
— Mas ela não tem cabeça!
— E daí? Só porque é mula e não tem cabeça não pode trabalhar agora? Preconceito seu. Se fosse assim, os autores de livros de auto-ajuda estariam todos desempregados. Tem um fuminho aí?
— De novo?
— Tô com fome. Antes, bastava aparecer, todo mundo se borrava. Era uma fartura de fumo. Hoje em dia, se o sujeito não é um monstro japonês ou boneco de videogame não levam a sério. Eu preciso contratar um agente, mas empresário é um bicho que me mete medo. Maldita pós-modernidade. O Baudrillard é que tava certo.
— Então, você virou mendigo, é isso?
— Mendigo, não. Mais respeito. Excluído. Mitologia é coisa que não dá futuro a ninguém, sabe? Você veja os heróis gregos, por exemplo. Por isso eu tô tentando outras atividades. Até me empreguei uns dias como entregador de pizza...
— E aí?
— Não deu certo. Essa cidade tem muito poste.
— E não conseguiu mais nada?
— Bom, tem um sujeito aí que quer me levar pras Paraolimpíadas. Mas, você sabe, no Brasil, a única pessoa que ganha dinheiro com atividade física é o Alexandre Frota. Tem fumo?
— Pô, já disse que não tenho! Você comeu todo o meu cigarro!
— Não fala assim, moça. Chuif... Eu... eu tô com fome...
— Tudo bem, não precisa chorar. Desculpa. Cê quer mesmo um trabalho?
— Claro que quero!
— Olha, talvez eu tenha algo pra você...
— Mesmo?
— Doze horas diárias, sem carteira assinada. Salário mínimo. Aceita?
— Salário mínimo, doze horas, sem carteira? Tá louca! Vai sacanear outro!
— Ué, cê não gosta tanto de fumo?

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