13 março, 2007

NA OFICINA MECÂNICA


— E então, seu Aristides? O que o senhor acha?
— Bom, eu acho que, apesar de tudo, a vida vale a pena. É uma questão apenas de não nos apegarmos ao momento, “deixar o barco seguir”, como diz o vulgo. Já afirmava Heráclito, o Obscuro: “O universo é como um rio que...”
— Perguntava a respeito do automóvel...
— Ah! Bem, o automóvel, se a gente quiser usar uma classificação, digamos, mais aristotélica, trata-se, sem dúvida, de um ser inanimado.
— Como? Acho que o senhor não entendeu. Quero saber qual é exatamente o problema do carro: motor? Carburador? Radiador?
— Sob que ponto de vista?
— O de dentro do capô, por exemplo!
— Veja, de um ponto de vista filosófico, não creio ser acertado afirmarmos que um ser inanimado possui “problemas”, sendo estes uma prerrogativa dos seres humanos.
— Sem dúvida. E o senhor é a prova viva disso, seu Aristides. Inclusive tenho um bom psiquiatra para lhe indicar, caso queira. Agora, por favor, o senhor pode me dizer o que é que faz com que o meu carro não funcione?
— É como lhe dizia, doutor: a impermanência, o devir. Tudo tem o seu ciclo vital, as coisas mudam, se desgastam. Platão sem dúvida o faria crer que há carros perfeitos no mundo inteligível. Mas eu sou cético quanto a esta possibilidade e não estou aqui para enganar o cliente. Por isso, afirmo: tudo tem um fim.
— Concordo. A minha paciência, por exemplo. Onde é que tá o gerente, hein?
— Aí, depende. Alguns dirão que ele está no escritório. Outros, que não. Pois, como tudo está em constante movimento, no instante mesmo em que falamos, ele já não está mais no mesmo ponto. O doutor está familiarizado com a teoria de Zenão de Eléia?
— Não, seu Aristides. Não gosto do Zenon. Aliás, eu odeio o Corinthians. Agora, pelo amor do nosso senhor Jesus Cristo, será que o senhor poderia me informar qual o defeito do meu carro?
— Odeia Coríntios e evoca Jesus? Me desculpe, mas não haveria uma contradição aí, doutor?
— O senhor tá curtindo uma com a minha cara, seu Aristides? Me diga! O senhor acha que eu sou idiota?
— Sob que ponto de vista?
— Do ponto de vista do meu punho esmagando o seu nariz, seu Aristides! Que tal, hein?
— De um ponto de vista violento e insensato, portanto. Bom, há quem justifique a violência. O doutor já leu Nietzsche?
— O que é que há com meu carro?! Fale! Fale!
— Mmhmmhmm...
— Tudo bem, solto a garganta. Vai falar?
— Mmm!...
— Pronto. E então? Que há com meu carro?
(rouco) Sob que ponto de vista?
— Chega! Eu vou na gerência! (sai, furioso)
— Gente incapaz de diálogo! Por isso que às vezes eu penso em trocar de emprego. Quem sabe partir para algo mais manual...

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