22 março, 2007

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— Onde é que tu tava, Webson Cleiterson?
— Eu... Ah, eu tava brincano no lixão aqui perto, mãe.
— Num minta pra eu, Webson Cleiterson! Fale a verdade pra sua mãe!
— Juro, mãe, eu tava brincano no lixão, eu. Construíno buneco de lixo hospitalá, cumeno resto de mequidone podre, bebeno água de poça de lama...
— Mentira, Webson Cleiterson! Cê tava era metido cum aqueles menino do asfalto de novo! Jogano videogame em bairro nobre! Tomano água mineral importada!
— Tava não, mãe, eu num saí da favela, eu juro!
— Saiu, sim, olha aí: chega mai perto. Isso. Agora sopra. Urgh! Tô sentino daqui esse teu bafo de camarão e lagosta! E nem suado tu tá! Tá cheirano a perfume francês!
— Não, mãe! É colônia!
— Colônia nada! Isso é perfume francês! E esse tênis da Nique?
— É falsificado, mãe...
— Falsificado! Hum! É legítio! Tu já pegou a mania do povo do asfalto de deixá até de comê pro mode comprá coisa da moda... Ai, meu Deuse, quantas vez já te disse pra tu que essa gente do asfalto num presta, Webson Cleiterson! Todo dia aparece nos jornal, menino! Essa gente vive metida em robo, assartando o gunverno! É uma corrupção que num acaba mai!
— Eles é rico, mas é limpinho, mãe. A sinhora tem preconceitcho só porque eles mora no condomínio fechado!
— Webson Cleiterson, meu fio, esse povo é tudo mal-educado, vive poluino as rua com os carrão de luxo deles, jogano lixo pela janela dos automórve, dano propina pra guarda de trânsio, furano fila em cinema de shopscente, falano alto em celulá com câmara de vídeo...
— O Daniel, o Pedro e o Marcão num é assim não, mãe. A sinhora pricisa de vê. Eles até dá esmola pros mindigo...
— Dá, né? E adispois aproveita pra tocá fogo neles... Tu num vê jornal, Webson Cleiterson? Isso é um povo preguiçoso, que num gosta de trabaiá. O pai arruma uma vaga pra eles no emprego públio ou numa empresa e eles faz a vida embolsano propina, menino. Num paga imposto, num assina a carteira dos empregado, manda dinheiro ilício pras Oropa...
— Que é isso, mãe! Tomem tem rico honesto!
— Tem. Craro que tem. Uvi dizê que são três. Dois mora na África, mai os cientista até hoje num conseguiu indentificá... O outro tá num zoológico em Brasília, pro mode a gente vê a espéce rara.
— Que preconceitcho, mãe! Se eles fosse pobre, andasse com as roupa furada e num tivesse todos os dente na boca, a sinhora num falava assim deles.
— Ai, Jesui, por que isso foi acontecê cumigo! Todo dia eu rezo pra ele num sim involvê com marginal... Ah, meu próprio fio!
— Eles num é marg...
— Cala a boca, Webson Cleiterson! Cala a boca e passa já pro quarto! Já! Tu tá de castigo, tá uvino? E quano teu pai chegá vai ficá sabeno dessa históra!... Ai, mardita desigualdade sociá! Tá cada dia mai difíce educá um jóve nesse país!

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