09 março, 2007

IMPOSTO, MAS COM JEITINHO


O mundo está permeado de coisas horríveis e desesperadoras, como o terrorismo, a fome, a miséria, a intolerância, o preconceito e o Artur Virgílio. A espécie humana chegou num tal ponto de aperfeiçoamento do mal que até mesmo o diabo está desmoralizado e, desqualificado, não encontra mais trabalho nem como advogado. Enfim, a maldade se tornou um artigo tão banal quanto os da Eliane Cantanhêde.

Quanto a Deus, ou bem andou lendo os existencialistas e perdeu a auto-estima ou simplesmente se deu por vencido e se mudou para uma galáxia distante — ou para Macapá, o que for mais longe —, tendo contribuído muito para a sua decisão, sem dúvida, o recente lançamento do novo CD da Ivete Sangalo.

A coisa está tão braba que, ultimamente, tenho lido Schopenhauer ao som do “Adágio” de Albinoni para me alegrar um pouco. Ou, quando menos, assistido ao Programa do Ratinho, escutando a banda Calypso. Isso sem falar que parei de tomar o Rivotril e, atendendo a recomendação médica, passei a comê-lo com garfo e faca.

No entanto, se engana quem pensa que sou um pessimista — não sou tão otimista assim. Mas há coisas que me deixam verdadeiramente indignado e a miséria humana é a segunda delas. A primeira, evidentemente, é o saldo da minha conta corrente.
.
Quanto a este, no entanto, não há o que fazer. Então me dedico a realizações menos ásperas, como regenerar o ser humano e tornar a sociedade mais justa. O que me leva a crer que a primeira grande epifania de São Francisco foi obtida após a conferência do seu extrato bancário.

E é assim que ouso propor uma idéia para, se não mudar o mundo, pelo menos diminuir parte das mazelas que, juntamente com o funk carioca, assolam o nosso glorioso Brasil. Para tanto, não avento nenhum radicalismo, como a suspensão do pagamento da dívida ou o assassinato do Faustão. Meus tempos de leitor de Bakunin ficaram pra trás e, hoje, como um deputado em CPI, também sou pela ordem.

De modo que proponho unicamente a cobrança de um imposto sobre a corrupção, cuja verba seria revertida aos mais pobres ou para investimentos em educação e saúde. Bem melhor do que taxar armas e equipamentos bélicos, como já se propôs. Afinal, o Bush só tem mais um ano de mandato e a corrupção, como as baratas e o Cid Moreira, sobreviverá ao holocausto atômico.

O plano não daria certo, dirão os céticos de índole suspeita, porque também o dinheiro do imposto seria desviado. Ao que respondo, com sapiência: sim, e poderia ser, sem problema, contanto que se pagasse o imposto relativo ao desvio.

É claro que, depois, poderíamos aperfeiçoar a lei, exigindo a cobrança de, digamos, 450% sobre a distribuição de CDs de axé music e 1.472% sobre a produção audiovisual do SBT.
.
Mas isso ficaria para o futuro.

Nenhum comentário: