08 março, 2007

FUTEBOL-ARTE


— Como é que tu faz uma coisa dessa, Gildo?
— O quê?
— Como é que tu me bate o pênalti daquele jeito, rapaz?
— Ué, qual é o problema?
— O problema, Gildo, é que o objetivo do pênalti é marcar um gol, Gildo!
— Sei disso. E não foi o que eu tentei?
— Dando duas cambalhotas e fazendo um pas-de-deux, antes de bater na bola, de costas, com os olhos fechados?
— Não foi bonito?
— Lindo! A bola nem chegou no gol, Gildo! O goleiro pegou o chute com o dedinho do pé esquerdo!
— Tenho culpa se ele adivinhou o lado?
— Ele ficou no centro do gol, Gildo! E outra, por que é que tu passou o jogo inteiro correndo numa perna só, hein?
— Questão de consciência. Era um protesto contra o Halloween e uma homenagem à criação do Dia do Saci.
— Sei, Dia do Saci. Será possível que tu não podia marcar um gol e depois, então, na comemoração, fazer uma homenagem ao Saci, à Cuca, à Dona Benta ou, quem sabe, ao Tio Barnabé, Gildo? Hein?
— E cair no lugar-comum? Isso daí todo o mundo faz. Eu queria inovar, fazer algo criativo.
— Como cair no chão toda vez que tentava dominar a bola?
— Pelo menos eu tentei.
— Na final do campeonato! Será que tu não podia aguardar pra tentar isso num treino?
— Aí eu ia revelar meu segredo. Ia acabar com a novidade, não ia ter graça.
— E desse jeito teve uma graça enorme, né? O centroavante adversário, por exemplo, não cabia em si de tanto rir! Quinze a zero, Gildo! Quinze a zero! Nunca houve uma goleada dessa na história do clássico!
— Olha aí, a gente entrou pra história.
— Pra história eu não sei, mas pra aritmética, sem dúvida. Me explica só uma coisa, Gildo: por que é que, quando o Palito te passou aquela bola na cara do gol, com o goleiro caído, tu, em vez de chutar pra rede, resolveu agarrar a bola com a mão e ficar dando gritos, como se estivesse no teatro? A gente pelo menos tinha feito o gol de honra!
— Gritos, não! Veja como você fala! Aquilo ali é Shakespeare. Tu nunca leu Hamlet? A bola representava o crânio de Yorick.
— No meio do jogo, Gildo? Tu tinha que conversar com a bola no meio do jogo? Tu ficou completamente maluco, rapaz? Tu não sabe que meter a mão na bola é falta? E tu não já tinha amarelo por ter imitado acintosamente o andar do juiz?
— Não imitei o andar do juiz. Aquilo ali é mímica. Eu tenho culpa se o árbitro não admira a arte?
— Acho que o que ele não admira é a vida no campo, Gildo. Porque tu imitou o juiz como se ele fosse uma galinha!
— Licença poética.
— Quero ver tu explicar isso pra torcida. Eles tão aí, quebrando tudo, querendo tua cabeça!
— Sou um incompreendido, Figueira. Todos os artistas de vanguarda são assim. Veja o Van Gogh. Nunca conseguiu vender um quadro.
— A comparação é perfeita. Porque, sem dúvida, tu vai sair daqui hoje sem uma orelha.
— São uns ignorantes. Esse povo não entende de futebol. Se liga a valores pequenos, como vitória, derrota... Uns bárbaros.
— Pois acho bom tu se esconder. Os bárbaros estão na fronteira de Roma. Acabam de arrebentar a porta do vestiário. Corre, Gildo, corre! Foge pela... Que é isso, Gildo?! Os caras tão chegando, vão te pegar! Que é que tu tá fazendo aí, acocorado, dando pulinhos feito um sapo?
— Arte, Figueira. Arte.

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