21 março, 2007

AXÉ MUSIC


Já dizia aquele guardador de cavalos renascentista: “A vida é uma história contada por um tolo. Cheia de som e fúria. Nada significando.” Frase esta que demonstra a grande capacidade que tinha o sujeito de antever o futuro. Afinal, nasceu muito antes do surgimento da axé music.

Quanto a mim, infelizmente não tive a mesma sorte. E digo a vocês, nobres companheiros, que agüentaria de bom grado pragas de menor teor destrutivo, como a Peste Negra, e viveria tranqüilo sem água encanada, luz, telefone e até mesmo sem aquela que é a maior invenção do engenho humano — a ducha de sanitário —, se me fosse dado passar toda a minha vida sem ouvir um refrão com mais de três vogais em seqüência.

No entanto, o bom Jesus não me concedeu o privilégio de ser surdo e, tendo assinado o Tratado de Não-Proliferação, não possuo em casa uma bomba atômica que possa lançar sobre o progressista estado de Gregório de Matos. De modo que só me cabe relaxar e, quem sabe, locar O Homem Elefante para tentar levantar o astral.

Muitas vezes a receita funciona. Outras, contudo, ao escutar o ritmo original das terras aceêmicas, tenho vontade de cortar os pulsos ou de fazer algo ainda mais drástico, como ler as obras completas de Paulo Coelho, por exemplo. Foi o caso, ontem de manhã.

Estava eu a dormir e sonhava ser um craque de futebol. Treinava num grande clube, tinha fama, dinheiro e, melhor, todos os dentes no lugar.

Tudo ia bem, até que, de repente, o técnico distribuiu um abadá numerado como uniforme de treinamento. Em seguida, ensaiou uma jogada em que era preciso requebrar sobre uma garrafa com as mãos na cintura. E, chegando ao meu ouvido, disse:

— Aeê, oôô!

Achei estranho. Sem saber o que falar, ponderei:

— Uiaá, aía?

Ao que ele obtemperou, bravo:

— Aui, uu!

Então, sem mais, fez um sinal esquisito aos meus companheiros de time e estes imediatamente começaram a lançar na minha direção, com violência, uma pilha de CDs de Ivete Sangalo cantando em japonês.

Acordei desesperado, gritando, com uma terrível dor de cabeça. E então percebi o motivo do pesadelo: um corpo sem cérebro havia estacionado um carro em frente ao meu prédio, de onde saía um horrendo grunhido nasalado, que guardava certa semelhança com música.

Com as têmporas latejando e um autocontrole típico do Dalai Lama, corri até a estante, apanhei meu exemplar de A Montanha Mágica e voltei à janela disposto a atirá-lo sobre o estafermo. Mas ele já havia ido embora.

Ele, sim. A música, não. Passei o dia inteiro com aquele zumbido na mente e a obsedante sensação de que o Elevador Lacerda se encontrava a poucos metros de casa.

Não sei se vocês já passaram por isso. Mas creio que Camus já. De outra forma, como entender suas especulações sobre o suicídio?

Seja como for, a verdade é que, ainda agora, o som continua a tocar em algum recanto de minha insuficiente massa cinzenta e reprimo com dificuldade o impulso de sair dançando a Dança da Manivela.

A boa notícia é que já li Brida. E estou quase na metade d’O Diário de um Mago.

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