30 março, 2007

DESMEMORIADOS E DISTRAÍDOS ANÔNIMOS


Talvez a observação seja produto apenas de um maníaco incorrigível como eu mas, como meu psiquiatra recomendou que falasse mais de mim — e tendo sido esse o último pedido que fez pouco antes de se suicidar e me deixar um bilhete em que afirmava ser eu o principal responsável por seu fracasso como clínico —, venho a público expor questão de grande relevância, com a qual pretendo humildemente elevar o nível dos debates nacionais e, mais importante, receber o Prêmio Literário José Saramago pela quebra do recorde internacional de períodos longos.

O problema a que aludo e que, quando menos, me dá de antemão a oportunidade de realizar um sonho de infância ao usar o verbo “aludir”, é este: por que será que, existindo instituições sérias e louváveis como os Alcoólicos Anônimos (AA) e os Cocainômanos Anônimos (CA), não se seguiu o seu exemplo para criar no país os Desmemoriados e Distraídos Anônimos (DDA)?

Quanto a mim, que parei de beber faz tempo, dedicando-me atualmente apenas à ingestão do álcool diluído em farinha, e que só encaro pó em ocasiões especiais, como o dia da faxina, não sentiria falta dos dois primeiros. Mas, sendo portador de uma memória e de uma percepção de ameba morta (sem ofensa aos rizópodes), confesso que me incluiria resignado entre os freqüentadores do último grupo.

Claro que o maior entrave a uma reunião do DDA seria fazer com que os associados se lembrassem da data e do local das assembléias. Nada, contudo, que com um pouco de boa vontade, determinação, desprendimento e, por fim, a implantação de um chip no cérebro e o direcionamento por GPS não pudessem resolver.

Uma vez retirado o empecilho, seria preciso também fazer pequenas adaptações no auditório reservado ao encontro. Como, por exemplo, pregar plaquetas nas paredes com dizeres simples, do tipo: “Aquele negócio preto, com braços, ali, é uma poltrona” ou “O auditório fica ali na frente, ó”, ou ainda “Não faça xixi no companheiro do lado, para isso temos o banheiro”.

É bem verdade que haveria os recalcitrantes, os quais insistiriam em passar todo o tempo de pé, com o olhar perdido, tirando meleca do nariz, introduzindo-a na boca e cantando “Adocica”. Mas, para esses haveria, como nos anfiteatros gregos, um profissional responsável por guiá-los gentilmente até seus lugares e, em casos extremos, impedir que lambessem as poltronas.

Iniciada a reunião, um orador faria a explanação habitual, ressaltando a importância de separar o lixo orgânico e não jogar senão detritos biodegradáveis no solo, e alertaria para os males causados por uma dieta transgênica. Nesse momento, seria cutucado por um colega, que lhe lembraria ser a palestra sobre a falta de memória e atenção, e ele mudaria de assunto.

Consertado o erro, a certa altura do discurso convidaria a subir ao palco aqueles que estivessem dispostos a dar um depoimento sobre a amnésia. Então, animado, um cidadão de nome Oblívio de Souza se levantaria e se encaminharia para a saída, retornando minutos depois com a ajuda do profissional responsável pela contenção dos desatentos, que o levaria para o lugar indicado. Ali, depois de dar duas mordidas no microfone, Oblívio finalmente declararia:

— Hoje faz 112 dias, duas horas, quinze minutos e três segundos, digo, quatro, digo, cinco, digo, seis...

Alguém tossiria para chamar sua atenção. Despertando, Oblívio iria se recompor:

— Enfim, digo com orgulho que hoje faz 112 dias que eu não esqueço o nome da minha mulher!

A platéia ficaria em silêncio absoluto. Mas um dispositivo colocado embaixo das poltronas seria acionado, dando-lhe um choque que a faria lembrar de bater palmas, entusiasticamente. Ao que Oblívio prosseguiria:

— Obrigado, obrigado. Bom, mas, sendo assim, eu trouxe minha mulher aqui para dizer a ela, ao vivo, que... Ué, cadê a minha mulher? Alguém viu minha mulher aí? Ô! Cristina! Digo, Sandra! Quer dizer, Paula! Helenilda, meu bem, cadê você?

A princípio, a situação seria um pouco embaraçosa. Porém, no minuto seguinte, ninguém se lembraria mais da gafe. Depois, outros bravos desmemoriados e distraídos dariam também seu depoimento, o que contribuiria definitivamente para o aumento da cultura geral de seus pares, uma vez que raramente falariam sobre o assunto em pauta.

No final do encontro, todos se abraçariam e, renovados, sentindo retornar aquela vontade de viver há tanto perdida e motivados para perseguir seus projetos pessoais e profissionais, voltariam a seus lugares, onde permaneceriam até a próxima reunião, pois ninguém saberia onde deixou a chave do carro.
.
É, pensando bem, talvez não desse certo.

29 março, 2007

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UMA ATENDENTE DE TELEMARKETING


No princípio era o Gerúndio. E Deus pegou o telefone e disse:

— A gente vai estar fazendo a luz!

Mas a luz não se fez, porque uma atendente O mandou esperar na linha, por favor. E Deus teve que aguardar um bilhão de anos, ouvindo Für Elise. E quando foi atendido, Deus repetiu:

— A gente vai estar fazendo a luz! E isso vai estar sendo uma ordem!

E a voz do outro lado disse:

— Desculpe, Senhor, mas luz não vai estar sendo neste setor. Eu vou estar encaminhando o Senhor para o setor de Fotogênese e Ontogenia.

E Deus deu cascudos em cinco anjinhos, criou o Oriente Médio e inventou a injeção de Benzetacil para descontar a raiva. Então, esperou mais três bilhões, setecentos e noventa e nove milhões, três mil, trezentos e quatorze anos. Ao final dos quais, escutou:

— O Senhor está no setor de Fotogênese e Ontogenia. Para criar a luz, disque 1. Para criar o sistema solar, disque 2. Para criar o homem, disque 3. Para saber a idade da Hebe Camargo, disque 4. Para reclamações quanto à Criação, disque 5 ou aguarde que um dos nossos filósofos metafísicos irá atendê-lo.

E Deus apertou o 1 e esperou mais dois bilhões de anos, tempo este que usou para, como revanche, inventar o doce de melancia, os livros escritos por ex-prostitutas e o sistema partidário brasileiro. Ao final daquele tempo, o Criador foi atendido:

— Pois não, Senhor, com quem eu estou falando?
— Com Deus, minha filha, o Onisciente, o Onipresente, o Onipotente. Mas pode me chamar de Magnânimo.
— E em que eu vou poder estar lhe ajudando, Senhor?
— A luz, minha querida. Eu estou esperando na linha há não sei quantos bilhões de anos. Quero estar criando a luz. Pode ser ou tá difícil?
— Só um milhão de anos, por favor, Senhor.
— Um milh...? Eu...

E Deus ouviu Für Elise por mais seis bilhões de anos, o que definitivamente contribuiu para, no futuro, Beethoven ter sofrido bastante e morrido surdo. E ao final deste período e de dialogar com mais de cem atendentes, finalmente teve seu pedido atendido.

E descontaram o valor da obra dobrado na fatura do Seu cartão de crédito e não deram os brindes promocionais, como as duas luas de Vênus e um anel a mais em Saturno.

E Deus se vingou, criando a mensagem de celular fora da área de cobertura e a taxa por deslocamento.

28 março, 2007

PONTO G


— Isso, Astolofo! Vem! Continua, Astolfo! Ai! Uhm! Ai, Astolfo... Isso! Ai, Astolf... Ai, ai, Ast... Astolfo, o que é que você tá fazendo com essa lanterna aí?
— Procurando.
— Procurando o quê, Astolfo, o meu útero?
— Não, o ponto G. Isso, fica paradinha, agora.
— Eu não posso acreditar! O Astolfo pára no meio da transa pra procurar o ponto G!
— É pro teu próprio bem. Bota a perna um pouco pra lá, assim.
— Astolfo! Sai, Astolfo, sai! Eu... O que é isso?! Uma lente de aumento agora?
— Calma aí. Não vai doer. Onde será que fica esse danado, rapaz?
— A gente transa há trinta anos sem esse maldito ponto G. Pra que procurar isso agora, meu Deus? Tuas esquisitices tão demais, Astolfo! Já não basta semana passada ter mostrado a bunda pra velhinha do 41, no elevador?
— Ela mereceu.
— Mereceu por quê? Só porque ela votou no Serra?
— No Serra e no Maluf. Se fosse só no Serra, eu tinha dado uma banana.
— A velha quase morre, Astolfo!
— Não sei por quê. Se votou no Maluf, não devia se espantar com buracos. Isso, agora vem mais pra cá...
— Não e não! Tá pensando o quê? Que eu sou modelo de aula de anatomia?
— Isso, olha aí, faz de conta que eu sou o Rembrandt.
— Bom, infelizmente, a brocha você já tem...
— Mulher, não brinca. Assim eu perco a concentração.
— Não adianta, Astolfo. Daquela vez que tu testou a eficácia dos dedinhos do pé no massageamento do clitóris, eu aceitei. Mas isso agora é demais.
— Tem paciência. Vem. Chega aqui.
— Não, não e não! Já disse, acabou-se, pernas cruzadas, papo encerrado. E parabéns, porque se não atingiu o ponto G, você pelo menos me fez alcançar o ponto morto.
— Ah, não fica assim, tolinha. Olha que eu te lambo, hein?
— Ui! Qui, qui, qui! Uhm... Ai, Astolfo!
— Assim?
— Delícia, Astolfo!
— E agora?
— Ai, aaai, Astolfo!
— Uhm-hum?
— Não pára! Ai! Vem! Chega! Sobre pra cá! Anda! Ai! Isso! Vem! Ui! Vem, Astolfo, vem logo, vem me... vem me... Astolfo, largue esse binóculo agora ou eu vou pedir separação!

27 março, 2007

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM BAIANO


No princípio era a Bahia. E Caetano disse:

— Faça-se o Pelô!

E Gil argüiu:

— Enfim, sob o prisma transitório da protomatéria nasciva, enfim, tendo em mente as palavras de Arjuna a Krishna e toda a prosódia popular do cancioneiro, enfim, ademais considerando-se as premissas da Escola de Frankfurt e a biosfera como um todo, enfim...

E aquela discussão se arrastou por um bilhão, novecentos e trinta e quatro milhões, noventa mil, duzentos e trinta e sete anos. Um tempo tão dilatado que, nesse período, Caymmi chegou a descer da rede e fazer dois versos.

E enfim o Pelô ficou pronto e Caetano disse:

— O Pelô é lindo, Dona Canô é linda, eu sou muito mais lindo e a mulata não é a tal.

E Caetano criou a fauna e a flora: um leãozinho, uma camaleoa, uma vaca de divinas tetas, o capim rosa-chá e, sob a influência de Gil, um abacateiro. E Caetano achou odara. Mas o diabo não:

— Coisa insossa! O homem vai viver nesse paraíso sem se perturbar? Não! Vamo fazer trios elétricos e inventar a axé music, pô! Todo o mundo tem que sofrer um pouco!

Mas logo o diabo se calou, porque viu ACM e sai correndo com medo. E ACM disse:

— Faça-se o Estado! E as empreiteiras. E os cargos comissionados. E o homem. E que o homem tenha o sobrenome Magalhães e cresça e se reproduza e acumule com meus apadrinhados todas as funções públicas.

E assim foi. Mas, como o primeiro baiano estivesse se sentindo muito só, Caetano achou por bem lhe dar uma companhia. E de sua costela fez um outro homem. E Caetano achou lindo. E Luiz Mott também.

Mas Jorge Amado interveio:

— Ô, meu pai, não dava pra fazer um negocinho mais agradável, não? Algo assim que envolvesse seios e xibiu, por exemplo?

E Caetano aquiesceu, porque Jorge é lindo. E da trança rastafári do baiano fez a baiana. E eles viveram felizes durante muito tempo, até que Bandaeva, a primeira baiana, comeu o caju proibido e os dois foram expulsos da Bahia e mandados num pau-de-arara pro Rio.

E ali eles frutificaram, e Bandaeva teve uma filha, Bebé, prima de Lili, irmã da vizinha do primo de Cacá, cunhada da nora do avô de Juju, amante do irmão da lavadeira do genro de Dodô, primo de...

Mas aí já é outra história, mais extensa, que não caberia num livro tão curto quanto a bíblia.

(Esta crônica vai dedicada a meu amigo e grande entusiasta de ACM,
Franciel. E para meu também amigo Cabamacho, outro fã declarado do clã dos Magalhães.)

26 março, 2007

REPÓRTER DE CAMPO


— Muito bem, Roberto, estamos aqui com Edicleyson, o nome do jogo, que fez três gols nessa partida de hoje, inclusive um de bicicleta. E aí, Edicleyson, tava inspirado, hein? E então, você credita essa vitória ao individualismo de influência protestante, ou seja, à crença nas possibilidades do sujeito em sua luta pela superação dos limites individuais, ou tem uma abordagem mais marxista, partindo do pressuposto de que o meio atuou materialmente para a sua performance?
.
(assoando o nariz) Bom, Carlos, cê sabe que o futebol é uma caixinha de surpresa, né? E o professor pediu que nós caísse mais pra esquerda, mas não tanto que atingisse o extremismo maoísta e nem tão pouco que chegasse ao posicionamento social-democrata, e... De modos que a gente conseguimos encontrar os espaço vazio e... concruímos. E... Não tô acostumado a jogar por ali, e... Mas os fim justifica os meio, como diria Maquiavel no belo “O Príncipe”.
.
— Não deve ter sido fácil pra você encontrar os espaços vazios, não? Muitos acreditam que o vazio nem existe, é apenas uma categoria metafísica...
.
(cuspindo de lado) Com certeza, Carlos. Tive uma certa dificuldade, no princípio, devido que o nosso time é muito influenciado pelo platonismo tardio, né? Mas o professor repassou com nós as teoria crítica do racionalismo, e... E a gente vimos um pouco de Swift, e... Voltaire, e, com um trabaio eficaz, conseguimo anular a tática sofista do adversaro.
.
— Você fez um golaço. Eu tenho 40 anos de futebol e nunca vi uma coisa daquela. Como é que foi isso? Você que sempre teve uma atitude tão conservadora, tá partindo agora prum futebol mais de vanguarda? Você diria que podemos rotular o seu atual momento como de desconstrução, pra usar um termo de Derrida?
.
(coçando o saco) Não, não. Eu não acredito em vanguarda, né, Carlos? E acredito no trabaio séro e bem-feito. Você veje o Machado de Assis, por exemplo, ou mesmo os russo, Dostoievski e tal. Veje que ali não há uma quebra tão significativa na forma quanto no conteúdo. O importante é os três ponto. E é nisso que eu acredito e é isso que o professor pede pra nós fazer dentro de campo, e... E agora é partir pro próximo jogo e buscar os três ponto, e...
.
— Pra encerrar, Edi, o time tava numa espécie de pessimismo schopenhaueriano há apenas duas rodadas, você acredita que agora a tendência é haver uma evolução constante nos próximos jogos?
.
(cheirando o dedo que passou no sovaco) Com certeza. Mas, é como o professor diz: o futuro a Deus pertence, né? E evolução é um termo muito gasto, que cheira a determinismo darwinista, né, Carlos? Bom, a hermenêutica nunca deu título a ninguém, e... E eu acredito no trabaio, acho que o time tá coeso e é aguardar os resultado, colher os fruto do trabaio, e...
.
— Muito obrigado, Edicleyson. Nós conversamos com Edicleyson, o craque da partida entre o XXXIX de Pindamonhangaba e o XXVII de Jaú. Fique agora com o compacto dos melhores momentos da última apresentação do Bolshoi, com comentários do Casagrande. Boa noite.

23 março, 2007

CURSO INTENSIVO PARA A FORMAÇÃO DE POLÍTICOS — MÓDULO III — MATEMÁTICA


— Muito bem, seu Aristides, resolva o seguinte problema. O senhor quer construir uma repartição pública de 80 metros quadrados. Um milheiro de tijolo custa R$100. Por quanto o senhor construirá a repartição, sabendo que em um metro quadrado cabem cem tijolos?
— Por R$ 800, professor.
— Errado. Seu Dagoberto, o senhor sabe a reposta?
— Sei, professor. Por R$ 4 mil.
— Muito bem. Como o senhor chegou a esse número?
— Ora, o milheiro de tijolo custa R$ 100. Segundo as premissas da Primeira Lei de Nicolau, temos que, numa licitação, ele passará a custar R$ 1 mil. Descontados os meus dez por cento, R$ 800. Cada metro quadrado custará, portanto, R$ 80. Oitenta vezes 50 dá 4 mil.
— Muito bem!
— Peraí, professor, mas a obra tem 80 metros quadrados e não 50, pô!
— Oitenta metros quadrados na planta, seu Aristides! Jumento! Vê se presta atenção! Alguém pode explicar a questão ao seu Aristides. Seu Pedro, por favor.
— Segundo o cálculo do Desvio Padrão de Recursos, a verba restante só dará para construir 50 metros, professor.
— Entendeu, seu Aristides? Muito bem, vamo lá. Agora, o senhor me diga: um pedreiro leva um dia para construir uma parede de dois metros. Sabendo que ele começou o trabalho na primeira semana de dezembro, se ele quiser construir uma parede de dez metros, quando ele a terminará?
— Na mesma semana, professor!
— Deixa de ser beócio, pedaço d’asno! Alguém sabe a resposta? Vá em frente, seu Romero.
— Essa é fácil, professor: na quarta semana de dezembro. Uma semana tem dois dias, logo, em três semanas ele terá terminado a obra.
— Não. Está errado. O senhor não está esquecendo alguma coisa?
— Putz! Como eu sou desatento, professor! Desculpe: na primeira semana de março. Esqueci de calcular os meses de recesso!
— Excelente. Seu Aristides, vamos tentar mais uma vez: em determinado país, a velocidade máxima no trânsito é de 80 km/h e a multa por excesso de velocidade é de R$ 100 por cada km/h excedido. Se um sujeito está correndo a 100 km/h, quanto ele gastará pela infração, aproximadamente?
— Bom, se ele excedeu 20 km/h, vai pagar R$ 2 mil, claro.
— Pacóvio! Basbaque! Abobado! Como é difícil ensinar matemática prum quadrúpede! Seu Epaminondas, responda. Faça a gentileza.
— Ora, professor, num país onde a multa é de R$ 100 por quilômetro excedido, aplicando-se o Teorema de Jefferson, sabe-se que a propina pro guarda custará cerca de R$ 10. Logo, o sujeito gastará aproximadamente R$ 200.
— Tá vendo aí, seu Aristides? Basta um pouco de esforço. O senhor é uma vergonha, um inútil. Aprenda enquanto é tempo. Caso contrário, não vai passar de um trabalhador assalariado e honesto na vida. Uf! Hoje ficamos por aqui. Na próxima aula, veremos um pouco de Física, a Segunda Lei de Newton Cardoso, que afirma: toda ação provoca uma frustração e tende a morrer na inércia, em função da força exercida pela imunidade. Até amanhã.

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA GRAMÁTICA NORMATIVA


No princípio era o Verbo. E Deus disse:

— Faça-se a análise sintática!

Então surgiram o sujeito, o predicado nominal, o adjunto adverbial e o zero na média de Português. E Deus fez uma coordenada assindética e achou bom. Mas, como não havia ninguém para usar aquelas maravilhas, Deus criou o aparelho fonador e, em torno dele, o homem. E o homem agradeceu e disse:

— Muitcho obrigado, Incelência!

E Deus não achou nada bom. Irritado, fez o raio com o único intuito de lançar na cabeça do homem, que gritou:

— É relâmpio!

E Deus ficou verdadeiramente puto e, jogando o raio, disse:

— Fala direito, ignorante!

E o homem respondeu:

— Ai, caraio! Bateu bem no meu estombo!

Então Deus deu um grito de pura revolta e inventou o cólera, o escorbuto, as erupções vulcânicas, o apêndice, o Piauí, a unha encravada, o horário eleitoral gratuito e a axé music. E Deus achou pouco e fez o chicote, com o qual deu uma lambada no homem, perguntando:

— Vai falar direito ou não vai, seu jumento?

E o homem coçou a bunda e disse:

— Unxe, unxe, como tá irritadinho! Parece que sofre de sistema nervoso!
.
Então Deus ficou realmente embocetado da vida e inventou o terremoto, a avalanche, os furacões, o câncer, a íngua, o exame de próstata, a dieta à base de saladas e, extrapolando e abusando um pouco de seu poder, a música sertaneja. Então, virando-se para o homem com autoridade, perguntou:

— Satisfeito, ô antamonga?

— Eitcha! Quanta brabeza! Apois num se pode dizer mai nada não, é?
.
Então Deus não agüentou e, depois de contar até um bilhão, novecentos e setenta e sete, incorporou o Dr. Fritz, arrancou uma costela do homem e fez dela uma mulher. E, só para ele aprender, em seguida fez a TPM. E a mulher disse:

— Onde é que você estava até agora? Isso são horas de chegar em casa?

— Mas, mas... muié, se foi você que...

— Não quero saber! E cadê o jantar que você não providenciou ainda? Anda pegar esse javali que eu tô com fome, vamo!

E Deus achou bom e riu de se esbaldar. Mas o homem, não:

— Pô, e pra se diverti? Num vai tê um pouco de séquiço?

E Deus concedeu e inventou os órgãos sexuais. Mas, pra sacanear, inventou também a ejaculação precoce, a impotência e a moda dos anos 80. E Deus achou hilário e disse de Si para Consigo:

— Eu sou um gênio. Fiz uma obra de fato inconceituável! Simplesmente... Inconceituável?...

E Deus ficou em dúvida e foi consultar o Aurélio. E em seguida, revoltado por ter cometido um erro crasso, inventou o Telecurso 2000. E a autoflagelação.

22 março, 2007

MÁS INFLUÊNCIAS


— Onde é que tu tava, Webson Cleiterson?
— Eu... Ah, eu tava brincano no lixão aqui perto, mãe.
— Num minta pra eu, Webson Cleiterson! Fale a verdade pra sua mãe!
— Juro, mãe, eu tava brincano no lixão, eu. Construíno buneco de lixo hospitalá, cumeno resto de mequidone podre, bebeno água de poça de lama...
— Mentira, Webson Cleiterson! Cê tava era metido cum aqueles menino do asfalto de novo! Jogano videogame em bairro nobre! Tomano água mineral importada!
— Tava não, mãe, eu num saí da favela, eu juro!
— Saiu, sim, olha aí: chega mai perto. Isso. Agora sopra. Urgh! Tô sentino daqui esse teu bafo de camarão e lagosta! E nem suado tu tá! Tá cheirano a perfume francês!
— Não, mãe! É colônia!
— Colônia nada! Isso é perfume francês! E esse tênis da Nique?
— É falsificado, mãe...
— Falsificado! Hum! É legítio! Tu já pegou a mania do povo do asfalto de deixá até de comê pro mode comprá coisa da moda... Ai, meu Deuse, quantas vez já te disse pra tu que essa gente do asfalto num presta, Webson Cleiterson! Todo dia aparece nos jornal, menino! Essa gente vive metida em robo, assartando o gunverno! É uma corrupção que num acaba mai!
— Eles é rico, mas é limpinho, mãe. A sinhora tem preconceitcho só porque eles mora no condomínio fechado!
— Webson Cleiterson, meu fio, esse povo é tudo mal-educado, vive poluino as rua com os carrão de luxo deles, jogano lixo pela janela dos automórve, dano propina pra guarda de trânsio, furano fila em cinema de shopscente, falano alto em celulá com câmara de vídeo...
— O Daniel, o Pedro e o Marcão num é assim não, mãe. A sinhora pricisa de vê. Eles até dá esmola pros mindigo...
— Dá, né? E adispois aproveita pra tocá fogo neles... Tu num vê jornal, Webson Cleiterson? Isso é um povo preguiçoso, que num gosta de trabaiá. O pai arruma uma vaga pra eles no emprego públio ou numa empresa e eles faz a vida embolsano propina, menino. Num paga imposto, num assina a carteira dos empregado, manda dinheiro ilício pras Oropa...
— Que é isso, mãe! Tomem tem rico honesto!
— Tem. Craro que tem. Uvi dizê que são três. Dois mora na África, mai os cientista até hoje num conseguiu indentificá... O outro tá num zoológico em Brasília, pro mode a gente vê a espéce rara.
— Que preconceitcho, mãe! Se eles fosse pobre, andasse com as roupa furada e num tivesse todos os dente na boca, a sinhora num falava assim deles.
— Ai, Jesui, por que isso foi acontecê cumigo! Todo dia eu rezo pra ele num sim involvê com marginal... Ah, meu próprio fio!
— Eles num é marg...
— Cala a boca, Webson Cleiterson! Cala a boca e passa já pro quarto! Já! Tu tá de castigo, tá uvino? E quano teu pai chegá vai ficá sabeno dessa históra!... Ai, mardita desigualdade sociá! Tá cada dia mai difíce educá um jóve nesse país!

21 março, 2007

AXÉ MUSIC


Já dizia aquele guardador de cavalos renascentista: “A vida é uma história contada por um tolo. Cheia de som e fúria. Nada significando.” Frase esta que demonstra a grande capacidade que tinha o sujeito de antever o futuro. Afinal, nasceu muito antes do surgimento da axé music.

Quanto a mim, infelizmente não tive a mesma sorte. E digo a vocês, nobres companheiros, que agüentaria de bom grado pragas de menor teor destrutivo, como a Peste Negra, e viveria tranqüilo sem água encanada, luz, telefone e até mesmo sem aquela que é a maior invenção do engenho humano — a ducha de sanitário —, se me fosse dado passar toda a minha vida sem ouvir um refrão com mais de três vogais em seqüência.

No entanto, o bom Jesus não me concedeu o privilégio de ser surdo e, tendo assinado o Tratado de Não-Proliferação, não possuo em casa uma bomba atômica que possa lançar sobre o progressista estado de Gregório de Matos. De modo que só me cabe relaxar e, quem sabe, locar O Homem Elefante para tentar levantar o astral.

Muitas vezes a receita funciona. Outras, contudo, ao escutar o ritmo original das terras aceêmicas, tenho vontade de cortar os pulsos ou de fazer algo ainda mais drástico, como ler as obras completas de Paulo Coelho, por exemplo. Foi o caso, ontem de manhã.

Estava eu a dormir e sonhava ser um craque de futebol. Treinava num grande clube, tinha fama, dinheiro e, melhor, todos os dentes no lugar.

Tudo ia bem, até que, de repente, o técnico distribuiu um abadá numerado como uniforme de treinamento. Em seguida, ensaiou uma jogada em que era preciso requebrar sobre uma garrafa com as mãos na cintura. E, chegando ao meu ouvido, disse:

— Aeê, oôô!

Achei estranho. Sem saber o que falar, ponderei:

— Uiaá, aía?

Ao que ele obtemperou, bravo:

— Aui, uu!

Então, sem mais, fez um sinal esquisito aos meus companheiros de time e estes imediatamente começaram a lançar na minha direção, com violência, uma pilha de CDs de Ivete Sangalo cantando em japonês.

Acordei desesperado, gritando, com uma terrível dor de cabeça. E então percebi o motivo do pesadelo: um corpo sem cérebro havia estacionado um carro em frente ao meu prédio, de onde saía um horrendo grunhido nasalado, que guardava certa semelhança com música.

Com as têmporas latejando e um autocontrole típico do Dalai Lama, corri até a estante, apanhei meu exemplar de A Montanha Mágica e voltei à janela disposto a atirá-lo sobre o estafermo. Mas ele já havia ido embora.

Ele, sim. A música, não. Passei o dia inteiro com aquele zumbido na mente e a obsedante sensação de que o Elevador Lacerda se encontrava a poucos metros de casa.

Não sei se vocês já passaram por isso. Mas creio que Camus já. De outra forma, como entender suas especulações sobre o suicídio?

Seja como for, a verdade é que, ainda agora, o som continua a tocar em algum recanto de minha insuficiente massa cinzenta e reprimo com dificuldade o impulso de sair dançando a Dança da Manivela.

A boa notícia é que já li Brida. E estou quase na metade d’O Diário de um Mago.

20 março, 2007

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM DEPUTADO FEDERAL


No princípio era a Verba. E Deus disse:

— Faça-se a luz!

E não aconteceu absolutamente nada. Então Deus, que não é dos mais pacientes e, por muito menos, ainda iria exterminar os dinossauros, inventar a gripe asiática e dar a idéia da Fanta Uva, disse:

— Faça-se a luz, porra! Eu tô mandando!

E Deus criou o eco, mas a luz não apareceu. E um anjo surgiu das trevas e disse:

— Ué? Pede pra aparecer e acha que ela aparece, é? Tá pensando que é quem? O ACM? Não é assim não, Pai. Vamo dividindo essa Verba que dá pra todo o mundo.

E Deus achou justo e disse:

— Faça-se a licitação para criar a luz!

E dez anjos se apresentaram. Então um deles deu a idéia de aumentar o preço da obra em cem vezes, ganhar a concorrência e dividir o dinheiro entre os demais. E os outros acharam bom.

E o vencedor disse:

— Pronto, Pai. Vou fazer o Sol, um negócio que será um espetáculo: totalmente livre de raios ultravioleta, sem explosões, imóvel e quadrado.

E Deus achou passável e disse:

— Vê se apronta tudo isso até o sexto dia, que no sétimo eu quero ir pra praia e vou sair cedo, porque a Marginal está impraticável.

Então, em sua magnanimidade, pegou o seu exemplar de “Guerra e Paz”, que vinha lendo desde o princípio dos tempos e já estava quase na metade, e se recolheu a um canto do infinito para esperar.

E, no tempo aprazado, voltou para apreciar a obra, de bermudão e Havaianas, e encontrou, em vez do Sol, um grande lampião a gás que orbitava em torno da Terra. E Deus não achou nada bom e gritou:

— Que merda é essa?
— Bom, Pai, com aquela pequena Verba que o Senhor deu, foi o que se pôde arranjar.
— Um foguinho ridículo desses?
— Não solta muito ar pela boca que ele apaga.

E Deus xingou e amaldiçoou e bateu o pé. Mas, como não teve outro jeito, acabou liberando mais Verba.

Nove bilhões, quatrocentos e noventa e oito milhões, novecentos e trinta e quatro mil, duzentos e oito anos se passaram. E Deus já tinha entrado no cheque especial e feito mais de uma centena de empréstimos consignados. Estava com o nome sujo desde Órion até Andrômeda e a obra não ficava pronta.

Então Deus disse:

— Deixa essa porcaria como tá! Chega! Mas tu me paga, anjo safado! Ah, tu me paga!
— Nã-não, Senhor! Por favor! O Senhor vai me mandar pro Inferno?!
— Pior. Vou mandar você e os outros pro Brasil!

E Deus enviou os anjos para a América do Sul. E eles se multiplicaram. E Deus criou a imunidade parlamentar.

19 março, 2007

NUMA ENCRUZILHADA


— Tem um fuminho aí?
— Uaai! Que susto! Que... que-quem é você?
— Prazer, o Curupira.
— Curupi... Curupira?
— Mas pode me chamar de Curu, às suas ordens.
— Não acredito!
— Ah, não? E você acha que eu tenho esses pés pra frente e vivo olhando pra trás por quê? Nostalgia?
— Mas você tá usando tênis da Nike!
— Chuteira.
— Num pé só?
— Sabe como é, a Cuca tá com um lance aí no Paraguai e trouxe pro Saci. Ele tá tentando uma vaga num clube carioca. O esquerdo ele me deu de presente. E aí, vai rolar?
— Rolar? Rolar o quê? Que é que você quer?
— O que é que eu quero! Tu nunca leu Câmara Cascudo? Eu quero fumo, claro.
— Eu tenho Free, serve?
— As coisas que um ser folclórico tem que aturar! Me dá, é o jeito.
— Tó, pode peg... Pô, cê comeu meu maço de cigarro inteiro!
— Uhmm... Free e ainda por cima Light! Que eca. Urrooot! Desculpe.
— Que é que cê tá fazendo aqui, no meio da cidade, uma hora dessas, hein? Você não devia tá na mata?
— Ha! ha! ha! Mata? Onde é que tu tá vivendo, moça? No mundo do faz-de-conta? Tá que nem criança, acreditando em político? Tem mais mata, não, companheira. As que não queimaram, grilaram. Pra você ter uma idéia, a última vez que eu vi a mula-sem-cabeça, ela tava puxando carroça pra um fazendeiro do Acre.
— Como, se ela não vê?
— Por isso, não. Ray Charles era cego, Stevie Wonder é cego e o albino Hermeto não enxerga mesmo muito beeeem! Adoro o Caetano.
— Mas ela não tem cabeça!
— E daí? Só porque é mula e não tem cabeça não pode trabalhar agora? Preconceito seu. Se fosse assim, os autores de livros de auto-ajuda estariam todos desempregados. Tem um fuminho aí?
— De novo?
— Tô com fome. Antes, bastava aparecer, todo mundo se borrava. Era uma fartura de fumo. Hoje em dia, se o sujeito não é um monstro japonês ou boneco de videogame não levam a sério. Eu preciso contratar um agente, mas empresário é um bicho que me mete medo. Maldita pós-modernidade. O Baudrillard é que tava certo.
— Então, você virou mendigo, é isso?
— Mendigo, não. Mais respeito. Excluído. Mitologia é coisa que não dá futuro a ninguém, sabe? Você veja os heróis gregos, por exemplo. Por isso eu tô tentando outras atividades. Até me empreguei uns dias como entregador de pizza...
— E aí?
— Não deu certo. Essa cidade tem muito poste.
— E não conseguiu mais nada?
— Bom, tem um sujeito aí que quer me levar pras Paraolimpíadas. Mas, você sabe, no Brasil, a única pessoa que ganha dinheiro com atividade física é o Alexandre Frota. Tem fumo?
— Pô, já disse que não tenho! Você comeu todo o meu cigarro!
— Não fala assim, moça. Chuif... Eu... eu tô com fome...
— Tudo bem, não precisa chorar. Desculpa. Cê quer mesmo um trabalho?
— Claro que quero!
— Olha, talvez eu tenha algo pra você...
— Mesmo?
— Doze horas diárias, sem carteira assinada. Salário mínimo. Aceita?
— Salário mínimo, doze horas, sem carteira? Tá louca! Vai sacanear outro!
— Ué, cê não gosta tanto de fumo?

16 março, 2007

O FALECIDO MARCONI LEAL


Esportista que sou, resolvi aproveitar o domingão de sol para dar uma volta, ou melhor, meia volta no Ibirapuera. Digo “meia volta” porque, tendo andado cerca de vinte minutos para chegar ao parque e, assim, batendo meu recorde de caminhada, tão-logo vejo seus portões, me preparo para dar meia-volta e retornar para casa com a sensação do dever cumprido.

Ontem, no entanto, minha mulher teve a sagaz idéia de alugarmos bicicletas, de maneira a curtirmos melhor o aprazível clima paulistano, com umidade relativa na casa dos 30% e poluição que deixava o céu com um belo colorido violáceo.
.
Sendo bravo, forte, filho do Norte, aceito o desafio e, ferrenho iconoclasta e positivista de cepa comtiana, logo me sirvo do momento para combater arraigado dogma, segundo o qual quem aprende a andar de bicicleta, nunca esquece.

Fazia aproximadamente quinze anos que não subia no singelo veículo. E, tão-logo o fiz, percebi ter graves motivos para não fazê-lo. Ao contrário de minha mulher que, estrênua, disparou na frente, talvez auxiliada pela vergonha de estar pedalando ao meu lado.
.
Vendo-a se distanciar e olhando ao redor, ansioso, à procura de um cilindro de oxigênio, não demorei a me dar conta do motivo por que se desincumbia tão eficazmente da função: ela não possui saco.

Tenho certeza de que a totalidade dos leitores masculinos que não sofreram emasculação na infância e, num momento de insanidade pouco justificada, resolveram dar uma volta de bicicleta, sabem do que estou falando.

O selim definitivamente não é o local mais indicado para aconchegar os testículos. Instrumento de tortura proibido pela Convenção de Genebra, quem quer que o tenha inventado, ou bem era um sádico incurável ou atuava como castrato em algum coro de igreja.

Sendo assim, posso dizer que não estava me sentindo muito confortável e, com a voz cada vez mais fina, insistia em gritar para a pobre que resolveu me desposar, a fim de deixarmos de lado aquela tolice e, quem sabe, nos engajarmos numa atividade menos perigosa, como o duelo ou o salto mortal sem piscina. Mas ela, que além de saco tampouco parecia possuir tímpanos, não ouvia.

Com quinhentos metros de pedalada, já havia me despedido saudoso do meu ex-futuro primogênito e, posto que agnóstico, mas livre de preconceitos, me apegava a santos, orixás, caboclos e mais quantas deidades do culto pagão e hindu me surgiam à cabeça. Suava, suava abundantemente. E de tal forma tremia e bufava sobre as duas rodas, que mais de um passante se benzeu ao me ver.

Ao fim do primeiro quilômetro, no entanto, já havia me acostumado à situação e dava graças a Deus que, com guerras, furacões e tantas outras calamidades grassando no planeta, Ele tinha escolhido para a minha morte um lugar arborizado e destinado ao lazer.

Contudo, justamente naquele ponto, senti-me ferido nos brios. Eis que um adolescente, numa dessas bicicletas mais arrojadas, aproximou-se pela minha direita, voando sobre a guia e, com um risinho sarcástico, saltou para a pista a minha frente, falou “bipe-bipe” e disparou na velocidade da luz.

Revoltado, resolvi me vingar na primeira pessoa que visse, uma vez que estava sem carro e, portanto, impossibilitado de alcançar o procaz ciclista que me havia ultrapassado. Logo bati os olhos na minha vítima: uma menina de quatro anos que pilotava com denodo sua Cecizinha.

Reunindo minhas últimas energias, redobrei a força nos pedais e corri no encalço da infante, com os olhos injetados. Ela olhou para trás e, não sei se por conta da baba que escorria de minha boca ou dos dentes que arreganhei em agressiva atitude competitiva, pôs-se por sua vez em alta velocidade.

Acontece que, percebi, a disputa não era limpa. A garota, além dos dois pneus, possuía aquelas rodinhas de ferro que dão equilíbrio à bicicleta e podia correr sem maiores preocupações, enquanto eu sofria para me manter na vertical.

Mesmo prejudicado, estava quase me emparelhando com ela. E certamente venceria o racha se, por um descuido, não tivesse entrado na contramão e, por azar, uma ambulância do Samu não viesse na minha direção.

A última coisa que ouvi foi uma frase: “Claftplaftplaft”. Minutos depois, com a acuidade visual do Stevie Wonder e sentindo duas ou três vértebras fora do lugar, procurava meu queixo na grama, quando minha mulher reapareceu:

— E então? Já desistiu?

Abri a boca com a intenção de xingar as últimas quatro gerações da família dela. No entanto, talvez por ter inalado muito oxigênio de uma vez, meu desacostumado corpo entrou em colapso e eu desmaiei.

Agora estou aqui, deitado no sofá, diante do computador. O médico me garantiu que, no máximo em duas semanas, poderei voltar a sentar e, dentro de seis dias, conseguirei fechar as pernas. Mas, sexo mesmo, só quando, olhando para baixo, tornar a enxergar os joelhos.

15 março, 2007

AS FÉRIAS DE DEUS


Como bem dizia aquela personagem de Pirandello, a questão metafísica mais importante não é propriamente saber se a gente acredita em Deus e, sim, saber se Ele acredita na gente. Ao lado, claro, desta outra: por que cargas d’água o Tarso Genro fala juntando os dedinhos daquele jeito ridículo?

Acho que depois de desastres como o do tsunami, de calamidades como a guerra no Oriente Médio, dos ataques do PCC em São Paulo e da invenção da Dolly Light, não há muito que ter dúvidas. Ou bem o Onipotente deixou de acreditar em nós ou apenas nos trocou por espécimes mais propensos a evoluir, como o urso panda e o bicho-preguiça, por exemplo. Ou, ainda, por criaturas que tenham algum grau de afinidade, mesmo que distante, com os seres humanos, caso dos macacos, dos políticos e do Alexandre Frota.

Convenhamos, se alguém tão ajuizado quanto Deus estivesse no comando do planeta ou houvesse algum sentido na existência, o mínimo que teríamos de esperar seria que o Dunga fosse proibido de treinar a seleção brasileira ou, pelo menos, que a vocalista da banda Calypso nascesse muda.

Não é o caso. E se, hoje, grande parte da humanidade passa fome, vive na miséria e tem que assistir ao Tony Ramos todos os dias em Paraíso Tropical, o Todo-Poderoso não parece estar muito preocupado com isso.

Dizem as más línguas que o Onisciente saiu para comprar um maço de Hollywood numa galáxia próxima e nunca mais voltou: atualmente tem uma barraquinha de bebidas em Mongaguá, está amancebado com uma hippie de nome Relva Úmida e se converteu ao budismo. Mas isso deve ser mentira. Deus só fuma Continental sem filtro.

14 março, 2007

UMA ENTREVISTA DE EMPREGO NUM PAÍS MUITO DISTANTE


— Então, seu Josimar, pelo que leio aqui na sua ficha o senhor quer a vaga de Alocador de Artefatos Argilosos e Simétricos em Sítios de Construção, não é isso?
— É pedreiro, né? Sim, senhora, quero, sim. Muitcho.
— Vejo aqui que o senhor não tem curso de Arquitetura nem Engenharia. Mas tem alguma especialização?
— Tenho, sim, senhora. Sou inspecialista em colocar um tijolo em riba do outro e depois passar cimento.
— Mas nada além disso, quer dizer, não tem um diploma em Física, pelo menos?
— Ah, sim, aí a senhora pode ver que eu tenho físico, sim, e muito bom, dona. Ói aqui, tudo isso é muque. E aqui na barriga, ói.
— Já vi, já vi, seu Josimar. Por favor, coloque a camisa, pelo amor de Deus! Er... O que eu quero saber é se o senhor se formou, se fez faculdade...
— Craro que fiz, dona. A Escola de Comunicação da USP fui eu e mais uns colega que alevantou tudinha, parede por parede.
— O senhor não estudou, seu Josimar? É isso. O senhor não tem o terceiro grau, não é?
— Senhora, não. Nunca precisei de óclo, graças a Deus.
— Seu Josimar, eu quero saber se o senhor é formado...
— Craro! Ói cá: mãos perfeita, braços perfeito, tudo em orde. O que não quer dizer muita coisa, a senhora arrepare, porque na minha última obra tinha um sujeito, sem os dois braço, que alevantava os tijolo com o dedão do pé e esse outro dedo aqui, ói... Ansim...
— Seu Josimar, por Nosso Senhor, seu Josimar, tire os pés de cima da mesa!
— Era um genho, como se diz. Até certa feita conseguiu sustentar um tijolo com as perna amarrada. Mas aí num digo à senhora como ele fez pra inquilibrar o tijolo, porque sou uma pessoa recatada...
— Tudo bem, seu Josimar, o senhor não é formado, mas tem um curso por fora, digo, fez algum curso básico sobre colunatas latinas, capitéis gregos, pintura pré-rafaelita? Conhece ao menos o Renascimento?
— Não, mas acredito piamente, senhora. Os padre fica dizendo que num tem isso não, mas eu mermo já vi muita gente com cara de onça e de coruja. Tenho pra mim que é o tal do renascimento. A pessoa era animal em outra encadernação e volta como home. Ou então as mãe deles fez sesco com bicho, o que...
— Seu Josimar! Por favor! Uhm... Veja bem, seu Josimar, eu gostaria muito de lhe dar o emprego, mas o fato é que se o senhor pelo menos tivesse um curso técnico em alguma coisa simples, como a Mecatrônica...
— Bom, eu fui técnico de futebol, né? Dos bom. Inté o time lá do bairro venceu o infantil do XV de Piracicaba. Jogão! Nenê Boca de Brioco fez dois gol naquele dia. Dibrou o...
— Sei, sei. Acaso o senhor não teria adquirido algum conhecimento em áreas como filosofia hegeliana, dialogismo bakhtiniano, partículas subatômicas ou cálculo infinitesimal?
— Bactrim eu tomei uma vez, quando tava gripado. Mas é raro, que eu tenho saúde de ferro.
— Assim vai ser difícil, seu Josimar. O senhor quer o emprego de AAASSC, mas a única coisa que sabe fazer é construir muros. Infelizmente, não podemos lhe dar a vaga.
— Mas, senhora, faça isso não. Será que num tem aí pelo menos uma vaga de office-boy?
— Temos, sim. Mas para ser Organizador de Remessas Privadas e Seqüenciador de Pagamentos o senhor teria que ter se formado em Economia ou, quando menos, ter noções de fluxo de caixa, letter delivery management e efficiency in bus taking. Além de saber de cor os afluentes do Amazonas e conhecer em detalhes a organização social dos antigos maias e astecas.
— E pra serviço geral?
— Não dá. Nossos Recolhedores de Detritos e Reorganizadores de Objetos Esparsos necessitam de formação em química orgânica. Isso sem falar que devem ter na ponta da língua o nome de cada província da Rússia Oriental, com as respectivas capitais, bem como entender perfeitamente o processo que deu origem aos continentes.
— Por favor! Eu me adapto a qualquer serviço. Não tem nadinha aqui pra mim, dona?
— Bom, seu Josimar, as únicas funções que não exigem especialização ou conhecimento de espécie alguma é a dos chefes, dos donos ou dos parentes dos donos. Essas aceitam todo tipo de ignorante. Mas, infelizmente, já estão ocupadas. Aconselho que o senhor curse ao menos duas ou três universidades. Quem sabe não tenta Gerontologia ou Ciências Biomoleculares?
— Tudo bem, dona. Obrigado. (sai)
— Por isso que esse país não vai pra frente. Os empregos tão todos aí, mas o que se pode fazer se esse povo não tem qualificação?

13 março, 2007

NA OFICINA MECÂNICA


— E então, seu Aristides? O que o senhor acha?
— Bom, eu acho que, apesar de tudo, a vida vale a pena. É uma questão apenas de não nos apegarmos ao momento, “deixar o barco seguir”, como diz o vulgo. Já afirmava Heráclito, o Obscuro: “O universo é como um rio que...”
— Perguntava a respeito do automóvel...
— Ah! Bem, o automóvel, se a gente quiser usar uma classificação, digamos, mais aristotélica, trata-se, sem dúvida, de um ser inanimado.
— Como? Acho que o senhor não entendeu. Quero saber qual é exatamente o problema do carro: motor? Carburador? Radiador?
— Sob que ponto de vista?
— O de dentro do capô, por exemplo!
— Veja, de um ponto de vista filosófico, não creio ser acertado afirmarmos que um ser inanimado possui “problemas”, sendo estes uma prerrogativa dos seres humanos.
— Sem dúvida. E o senhor é a prova viva disso, seu Aristides. Inclusive tenho um bom psiquiatra para lhe indicar, caso queira. Agora, por favor, o senhor pode me dizer o que é que faz com que o meu carro não funcione?
— É como lhe dizia, doutor: a impermanência, o devir. Tudo tem o seu ciclo vital, as coisas mudam, se desgastam. Platão sem dúvida o faria crer que há carros perfeitos no mundo inteligível. Mas eu sou cético quanto a esta possibilidade e não estou aqui para enganar o cliente. Por isso, afirmo: tudo tem um fim.
— Concordo. A minha paciência, por exemplo. Onde é que tá o gerente, hein?
— Aí, depende. Alguns dirão que ele está no escritório. Outros, que não. Pois, como tudo está em constante movimento, no instante mesmo em que falamos, ele já não está mais no mesmo ponto. O doutor está familiarizado com a teoria de Zenão de Eléia?
— Não, seu Aristides. Não gosto do Zenon. Aliás, eu odeio o Corinthians. Agora, pelo amor do nosso senhor Jesus Cristo, será que o senhor poderia me informar qual o defeito do meu carro?
— Odeia Coríntios e evoca Jesus? Me desculpe, mas não haveria uma contradição aí, doutor?
— O senhor tá curtindo uma com a minha cara, seu Aristides? Me diga! O senhor acha que eu sou idiota?
— Sob que ponto de vista?
— Do ponto de vista do meu punho esmagando o seu nariz, seu Aristides! Que tal, hein?
— De um ponto de vista violento e insensato, portanto. Bom, há quem justifique a violência. O doutor já leu Nietzsche?
— O que é que há com meu carro?! Fale! Fale!
— Mmhmmhmm...
— Tudo bem, solto a garganta. Vai falar?
— Mmm!...
— Pronto. E então? Que há com meu carro?
(rouco) Sob que ponto de vista?
— Chega! Eu vou na gerência! (sai, furioso)
— Gente incapaz de diálogo! Por isso que às vezes eu penso em trocar de emprego. Quem sabe partir para algo mais manual...

12 março, 2007

A ORDEM UNIVERSAL ACÚSTICA DOS TOCADORES DE VIOLÃO DE BOTECO


Disse aqui certa feita que não acreditava em teorias conspiratórias. Aliás, cheguei mesmo a afirmar ser um homem cético e ter certeza de que essas histórias de conspiração, totalmente inverídicas, não passavam de boatos espalhados pela CIA em orquestração com uma organização clandestina de gnomos manetas que, aliados ao Pé Grande e ao ET de Varginha, tentavam desestabilizar a ONU.

Pois muito bem, companheiros... Hoje venho a público pedir desculpas e revelar a vocês, em primeira mão, haver descoberto a existência em terras nacionais de uma instituição de grande porte, que age à sombra da lei e influi de maneira oculta e decisiva nos destinos pátrios: a Ordem Universal Acústica dos Tocadores de Violão de Boteco.

Custei a crer no fato. Mas tive que me render às evidências. De outra forma, como entender que, a qualquer bar que se vá, em qualquer canto do país, não importa o dia da semana, escutem-se exatamente as mesmas músicas, tocadas precisamente na mesma seqüência e, desconfio, com o mesmo violão?

Rígida e altamente hierarquizada, a tal Ordem exige de seus membros, antes de mais nada, que não saibam tocar um instrumento musical. Contribuindo muito para o ingresso do candidato na mesma o fato de ele ser rouco, gago ou fanho e saber de cor todas as letras dos Engenheiros do Hawaii.

Mas tais pré-requisitos, por si sós, não bastam. A Ordem escolhe os neófitos através de um duro processo seletivo em que estes devem demonstrar, empiricamente, ser possível, com apenas três acordes e utilizando o mesmo ritmo, tocar ao menos 4 músicas do Geraldo Azevedo, 7 do Lulu Santos, 2 do Milton Nascimento, 3 do Raul Seixas e uma do Oswaldo Montenegro. Só uma, afinal o objetivo da Ordem é deixar o público levemente enjoado e, não, matá-lo.

Dentro de um calabouço de castelo medieval, com uma tocha acesa numa mão e um chicote na outra, o examinador encapuzado pergunta, ríspido:

— Açaí?
— Guardiã! — responde o candidato a tocador de violão de boteco, acorrentado a um aparelho de tortura.
— Zum de besouro...
— Um ímã!
— Branca é a tez da...?
— Mmmm...
— Patife! Responda!
— Maçã!... Não, manhã! Manhã!...
— Caldeirão fervente pra ele. Próximo!

Essa e muitas outras provas são de praxe na Ordem, dentre as quais uma em que, trancado em um quarto com cinco violões, um pôster do Renato Russo e uma foto do Juruna, o noviço deve resistir à tentação de cantar Índios.

E mais não digo, por medo de represálias. Informo apenas que o Grão-Mestre da Ordem é capaz de executar Coração de Estudante de trás pra frente, usando apenas uma corda de violão.

(Esta crônica vai dedicada a meu amigo
Milton Ribeiro, o popular Ouvido Absoluto do Arroio Dilúvio, também conhecido como o Mata-Gatos da Avenida João Pessoa. E a minha amiga Regina Ramão, dita a Sinapse Perfeita de São Leopoldo ou, ainda, a Anita Garibaldi do Século XXI .)

09 março, 2007

IMPOSTO, MAS COM JEITINHO


O mundo está permeado de coisas horríveis e desesperadoras, como o terrorismo, a fome, a miséria, a intolerância, o preconceito e o Artur Virgílio. A espécie humana chegou num tal ponto de aperfeiçoamento do mal que até mesmo o diabo está desmoralizado e, desqualificado, não encontra mais trabalho nem como advogado. Enfim, a maldade se tornou um artigo tão banal quanto os da Eliane Cantanhêde.

Quanto a Deus, ou bem andou lendo os existencialistas e perdeu a auto-estima ou simplesmente se deu por vencido e se mudou para uma galáxia distante — ou para Macapá, o que for mais longe —, tendo contribuído muito para a sua decisão, sem dúvida, o recente lançamento do novo CD da Ivete Sangalo.

A coisa está tão braba que, ultimamente, tenho lido Schopenhauer ao som do “Adágio” de Albinoni para me alegrar um pouco. Ou, quando menos, assistido ao Programa do Ratinho, escutando a banda Calypso. Isso sem falar que parei de tomar o Rivotril e, atendendo a recomendação médica, passei a comê-lo com garfo e faca.

No entanto, se engana quem pensa que sou um pessimista — não sou tão otimista assim. Mas há coisas que me deixam verdadeiramente indignado e a miséria humana é a segunda delas. A primeira, evidentemente, é o saldo da minha conta corrente.
.
Quanto a este, no entanto, não há o que fazer. Então me dedico a realizações menos ásperas, como regenerar o ser humano e tornar a sociedade mais justa. O que me leva a crer que a primeira grande epifania de São Francisco foi obtida após a conferência do seu extrato bancário.

E é assim que ouso propor uma idéia para, se não mudar o mundo, pelo menos diminuir parte das mazelas que, juntamente com o funk carioca, assolam o nosso glorioso Brasil. Para tanto, não avento nenhum radicalismo, como a suspensão do pagamento da dívida ou o assassinato do Faustão. Meus tempos de leitor de Bakunin ficaram pra trás e, hoje, como um deputado em CPI, também sou pela ordem.

De modo que proponho unicamente a cobrança de um imposto sobre a corrupção, cuja verba seria revertida aos mais pobres ou para investimentos em educação e saúde. Bem melhor do que taxar armas e equipamentos bélicos, como já se propôs. Afinal, o Bush só tem mais um ano de mandato e a corrupção, como as baratas e o Cid Moreira, sobreviverá ao holocausto atômico.

O plano não daria certo, dirão os céticos de índole suspeita, porque também o dinheiro do imposto seria desviado. Ao que respondo, com sapiência: sim, e poderia ser, sem problema, contanto que se pagasse o imposto relativo ao desvio.

É claro que, depois, poderíamos aperfeiçoar a lei, exigindo a cobrança de, digamos, 450% sobre a distribuição de CDs de axé music e 1.472% sobre a produção audiovisual do SBT.
.
Mas isso ficaria para o futuro.

08 março, 2007

FUTEBOL-ARTE


— Como é que tu faz uma coisa dessa, Gildo?
— O quê?
— Como é que tu me bate o pênalti daquele jeito, rapaz?
— Ué, qual é o problema?
— O problema, Gildo, é que o objetivo do pênalti é marcar um gol, Gildo!
— Sei disso. E não foi o que eu tentei?
— Dando duas cambalhotas e fazendo um pas-de-deux, antes de bater na bola, de costas, com os olhos fechados?
— Não foi bonito?
— Lindo! A bola nem chegou no gol, Gildo! O goleiro pegou o chute com o dedinho do pé esquerdo!
— Tenho culpa se ele adivinhou o lado?
— Ele ficou no centro do gol, Gildo! E outra, por que é que tu passou o jogo inteiro correndo numa perna só, hein?
— Questão de consciência. Era um protesto contra o Halloween e uma homenagem à criação do Dia do Saci.
— Sei, Dia do Saci. Será possível que tu não podia marcar um gol e depois, então, na comemoração, fazer uma homenagem ao Saci, à Cuca, à Dona Benta ou, quem sabe, ao Tio Barnabé, Gildo? Hein?
— E cair no lugar-comum? Isso daí todo o mundo faz. Eu queria inovar, fazer algo criativo.
— Como cair no chão toda vez que tentava dominar a bola?
— Pelo menos eu tentei.
— Na final do campeonato! Será que tu não podia aguardar pra tentar isso num treino?
— Aí eu ia revelar meu segredo. Ia acabar com a novidade, não ia ter graça.
— E desse jeito teve uma graça enorme, né? O centroavante adversário, por exemplo, não cabia em si de tanto rir! Quinze a zero, Gildo! Quinze a zero! Nunca houve uma goleada dessa na história do clássico!
— Olha aí, a gente entrou pra história.
— Pra história eu não sei, mas pra aritmética, sem dúvida. Me explica só uma coisa, Gildo: por que é que, quando o Palito te passou aquela bola na cara do gol, com o goleiro caído, tu, em vez de chutar pra rede, resolveu agarrar a bola com a mão e ficar dando gritos, como se estivesse no teatro? A gente pelo menos tinha feito o gol de honra!
— Gritos, não! Veja como você fala! Aquilo ali é Shakespeare. Tu nunca leu Hamlet? A bola representava o crânio de Yorick.
— No meio do jogo, Gildo? Tu tinha que conversar com a bola no meio do jogo? Tu ficou completamente maluco, rapaz? Tu não sabe que meter a mão na bola é falta? E tu não já tinha amarelo por ter imitado acintosamente o andar do juiz?
— Não imitei o andar do juiz. Aquilo ali é mímica. Eu tenho culpa se o árbitro não admira a arte?
— Acho que o que ele não admira é a vida no campo, Gildo. Porque tu imitou o juiz como se ele fosse uma galinha!
— Licença poética.
— Quero ver tu explicar isso pra torcida. Eles tão aí, quebrando tudo, querendo tua cabeça!
— Sou um incompreendido, Figueira. Todos os artistas de vanguarda são assim. Veja o Van Gogh. Nunca conseguiu vender um quadro.
— A comparação é perfeita. Porque, sem dúvida, tu vai sair daqui hoje sem uma orelha.
— São uns ignorantes. Esse povo não entende de futebol. Se liga a valores pequenos, como vitória, derrota... Uns bárbaros.
— Pois acho bom tu se esconder. Os bárbaros estão na fronteira de Roma. Acabam de arrebentar a porta do vestiário. Corre, Gildo, corre! Foge pela... Que é isso, Gildo?! Os caras tão chegando, vão te pegar! Que é que tu tá fazendo aí, acocorado, dando pulinhos feito um sapo?
— Arte, Figueira. Arte.

07 março, 2007

O DIABO NUMA ENTREVISTA DE EMPREGO


— E então? O que é que o senhor sabe fazer?
— Ah, eu solto fogo pela venta, retalho carne humana, coloco um ou outro sujeito num caldeirão de óleo fervente, enfim, essas coisas básicas. Também produzo CDs de pagode e música sertaneja. E, claro, dou assessoria em Brasília. Mas isso daí tô abandonando, o pessoal lá é muito sacana...
— Uhmm, sei... Só isso?
— Não, não. Eu também vôo, olha aí... Vou de zero a cem em cinco batidas de asa. Se não tiver tráfego aéreo, claro.
— Entendi. E qual é o cargo que o senhor está pretendendo mesmo?
— Bom, eu queria uma coisa assim onde eu pudesse humilhar e explorar, tornar a vida dos funcionários uma desgraça, deixar as pessoas tensas e nervosas, sabe?
— Me desculpe, mas os cargos de chefia já estão todos ocupados.
— Então, quem sabe algo como ficar o dia todo de perna pro ar, sem fazer nada, vendo os outros trabalhar feito burro e, de vez em quando, passar a mão na bunda de uma funcionária?
— Nesse caso, o senhor vai ter que comprar ações da empresa. Me diga uma coisa, qual a sua idade mesmo?
— No calendário judaico ou cristão?
— Cris... Uhm! Mas que cheiro é esse?
— Enxofre, modéstia à parte.
— Urgh!... Olha, normalmente eu não faço isso, mas vou ser bem sincera com o senhor. Esse seu currículo está um tanto ou quanto antiquado, entende? O que é que eu vejo aqui? Correntes, fogo, caldeirões, ácido, tridentes... Esses são métodos ultrapassados. As empresas modernas utilizam outro tipo de tortura, como a hora extra não remunerada ou o amigo secreto no final do ano.
— Mas, moça, eu consigo me transformar no que eu quiser. Olha aqui... Tcha-ran! Virei um pastor evangélico!
— Não vi diferença.
— Agora, veja... bééé... me transformei num bode!
— Já tentou o Se Vira nos Trinta?
— Calma... Eu também faço caretas horrorosas, horripilantes. Vê? Fiquei a cara daquele cantor, o Lenine!
— Ha! O senhor precisa ver é a cara do meu chefe de manhã!... Não vai dar.
— Não diga isso, moça. Eu sei que eu tô meio velhão, mas, e a experiência? Eu tava aqui quando o primeiro raio de luz cruzou o firmamento! Vi os oceanos se formarem! Presenciei o nascimento da Hebe Camargo!
— Me desculpe.
— Moça, minha vida tem sido um inferno, eu tenho centenas de faunos pra sustentar... A senhora não entende! Me dê uma chance, por favor!
— Bom... Deixa ver... O senhor disse que sabe voar?
— Sim, sei. Olha aí...
— Tudo bem, tudo bem, já vi. E é rápido mesmo?
— Mais que um deputado desviando verba do orçamento.
— Então tá. Acho que tenho o cargo ideal para o senhor. Aperte aqui, o senhor está contratado.
— Puxa! Mesmo? Como diretor?
— Não, como boy. Começa na segunda-feira, parabéns! Agora, por favor, vê se toma um banho, sim?

06 março, 2007

MONÓLOGO A TRÊS


EGO: Olha ali, é ela, na parada do ônibus!
ID: Rapaaaz! Cês tão vendo? Fi-fiu! Que tesão! Eu arrancaria as calças dela usando apenas os caninos. Depois arranharia as costas todas com a unha encravada do dedão do pé esquerdo. Apertaria cada um daqueles peitões com os sovacos antes que ela pudesse dizer “papanicolau” e...
SUPERGO: Caluda, selvagem! Se você der um passo eu te arrebento a cara e te amarro num poste, nu e lambuzado de graxa.
ID: Uhhhmm, olha como o rapaz tá “nervosa”! Quer me amarrar no poste, é, lindão? Lambuzado de graxa? Não seria melhor usarmos mel? Ui! Vem, vem meu tesudo, me bate, me chama de Idinho, me sodomiza...
SUPEREGO: Eu vou matar esse cara!
ID: Ai, que voz grossa! Fiquei todo arrepiado!
SUPEREGO: Vem cá, canalha, que eu te esgano!
EGO: Fiquem quietos, vocês dois! Será possível? A moça é aquela ali. Pela descrição, é aquela ali. E agora? Que é que eu faço?
ID: Como “o que é que faz”? Vai lá e, pra não assustar muito, começa massageando o clitóris dela com o cotovelo, por cima da calça.
SUPEREGO: Cala a boca, indecente! Parece que não tem mãe!
ID: Tenho, sim, e das gostosas! Só não comi até hoje por conta dos teus recalques...
SUPEREGO: Agora eu te castro, demônio!
ID: Ih, lá vem ele de novo com essa fixação!
EGO: Pára! Pára! Pô, eu numa aflição dos diabos aqui e vocês dois discutindo! Que cacete!
ID: Cacete? Onde? Onde?
SUPEREGO: A culpa é desse anormal! Sacripanta!
EGO: Chega! Será que dá pra ter um pouco de consideração? É o primeiro encontro. Eu tô nervoso.
ID: Tá nervoso porque não fez o que eu mandei.
EGO: E o que foi que você mandou?
ID: Disse pra tu fazer o cinco a um.
EGO: Ahn?
ID: Sacolejar o careca.
EGO: Quê?
ID: Podar a mandioca.
EGO: Como?
ID: Enforcar o pelado.
EGO: Do que é que cê tá falando, afinal?
SUPEREGO: Masturbar-se. O caso patológico aí queria que você se masturbasse pra passar a tensão. Não escute o que ele diz. Trouxe as rosas, não trouxe?
EGO: Trouxe.
SUPEREGO: E a caixa de bombons?
EGO: Sim.
SUPEREGO: Pois muito bem. Agora você vai até ela, deseja boa-tarde, apresenta-se e pede permissão pra se sentar ao seu lado.
ID: É, aí depois vocês dispensam a dama de companhia, dão um passeio de coche e vão até uma loja de chapéus. Tenha santa paciência! Isso daqui é o século XXI, mermão! Tu acha o quê? Que a tesuda aí acabou de sair de dentro de um livro de José de Alencar? Seguinte, vai lá e diz: “E aí, benzinho? Cheguei. Tá a fim de dar uma?”
EGO: Sem nem me apresentar?!
ID: Tudo bem. Tem que se apresentar, claro. Então tu chega e diz: “Oi, chamego. Tudo bom? Pega na minha e balança”.
SUPEREGO: Cala a boca, sujeito! Você não sabe de nada!
ID: Olha que eu sei de coisas que tu nem imagina!...
SUPEREGO: Sabe nada!
ID: Sei, sim, Jandira.
SUPEREGO: Sabe na... Jandira? Por que é que você tá me chamando de Jandira, seu pulha?
ID: Ah, não lembra, né? Sabe aquele teu priminho de Taubaté, que vinha passar férias contigo? Como ele te chamava, nas brincadeirinhas de vocês dois no banheiro? Hein, hein?
SUPEREGO: Mentira! Isso nunca aconteceu! Calhorda!
ID: Aconteceu, Jandira. E olha que não vou falar nada daquela ereção que tu teve quando sentou no colo do titio Afonso...
EGO: Parem com isso, pelo amor de Deus!
SUPEREGO: É esse imoral, aí! Será que você não pode agir feito uma pessoa racional pelo menos uma vez na vida?
ID: Claro que não. Tu nunca leu Freud, ô engomadinho?
SUPEREGO: Não usa o nome de Freud em vão, hein? Seu reichiano de meia-tigela!
ID: Ai, que “meda”!
SUPEREGO: Eu vou te matar!
EGO: Parem com isso! Vão assustar a moça!
ID: Mata, mas me mata gostoso! Ui! Me pega de jeito, neném!
SUPEREGO: Vem cá, safado!
EGO: Olha aí! Olha lá, seus idiotas! A moça foi embora, tão vendo?! Foi embora!
SUPEREGO: Quem mandou dar ouvidos a esse crápula? Um sujeito que faria sexo com ele mesmo se conseguisse!
ID: Vai dizer que tu nunca tentou?
SUPEREGO: Salafrário! Ignorantão!
EGO: Depois de tanto preparo, lá se foi o meu encontro! E é tudo culpa de vocês! Tudo culpa de vocês dois! E agora, me digam? E agora? Como é que eu fico? Posso saber?
ID: Quem sabe a gente não pega aquele negão ali, que também tá esperando o ônibus?
SUPEREGO: Será possível que você só pensa em sexo, seu cavalo?
ID: Claro que não. Também penso em torturar e maltratar as pessoas.
EGO: Inacreditável! Tudo bem, certo, fiquei sem o encontro. Mas já sei o que vou fazer com vocês. Ah, sei! Vocês me pagam. Vou agora mesmo na minha analista. Agorinha. Vocês vão ver! Venham! Vamos! Andem pro divã!
ID: Ana-nalista?
SUPEREGO: Aquela... junguiana?
ID E SUPEREGO: Não! Isso, não! Por favor! Não!