05 fevereiro, 2007

REDAÇÃO DE VOLTA DAS FÉRIAS


Sei que vocês, leitores ingratos e de apoucado espírito cristão, torceram para que eu, a esta altura e devido ao mistifório gerado pelos constantes engarrafamentos nas esburacadas vias aéreas nacionais, ainda estivesse preso no compartimento de malas de um avião ou, algo muito pior, de um Fokker-100. Ou então que houvesse sido despachado para a Nicarágua, num sedex a cobrar endereçado a Daniel Ortega.

Mas a verdade é que, frustrando vossos planos infestos, precários como um plano de saúde, estou de volta das férias, disposto a iniciar este ano com o pé esquerdo. Digo com o esquerdo porque o direito eu quebrei semana passada, quando um meio-fio desatento atravessou na minha frente enquanto eu fazia cooper.

Sim, companheiros, eu disse “cooper”. O período de férias nos levou, a mim e ao meu espelho, a uma profunda reflexão. E, devo confessar, se o maldito móvel está acostumado a refletir, essa nova função foi algo dolorosa para mim. Como, de resto, tenho certeza, seria para o Olavo de Carvalho se ele tentasse algum dia.

No entanto, com algum esforço e a ajuda de um personal thinker, cheguei a algumas conclusões. Afinal, ano novo é época de fazer planos e renovar esperanças. Por exemplo, a comovente esperança de meus credores de que ainda vão ver um centavo meu na vida.

Percebi que estou me abeirando da idade de Cristo (e antes que um engraçadinho abra a boca: não, apesar da aparência e do precário condicionamento físico, não estou fazendo 2007 anos). Decidi, portanto, ser hora de retribuir ao meu corpo todas as sacanagens que ele me tem feito ao longo dos últimos 384 meses - tipo me presentear com um nariz claramente formatado para alguém dez centímetros mais alto que eu -, pondo-o para se exercitar.

Escaldado com a experiência de andar de bicicleta no Ibirapuera (ver post "O Falecido Marconi Leal"), resolvi então me dedicar ao cooper que, como todos sabem, é uma atividade em tudo semelhante à dos americanos no Iraque: você sai por aí sem objetivo definido, leva um calor e só volta para casa depois de morto.

Sabia que a nova empreitada seria mais cansativa que comentador de texto clássico. Todavia, possuindo a obstinação de um filósofo cínico e a firmeza de propósitos de Catão, o Censor, segui alacremente para o sacrifício.

E digo que jamais se viu em toda a República alguém tão devotado a uma tarefa desprovida de qualquer sentido quanto eu. Exceção feita aos autores de novelas, claro.

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Àqueles que pretendem aplicar-se a exercício tão desarrazoado, estrambótico e arriscado quanto o cooper, informo que o pior entrave que o sujeito pode encontrar é a consciência do ridículo. Daí por que, talvez, seja esse um esporte indicado para quem não sofre desse mal, como participantes do BBB, por exemplo.

Afinal, como disse aquele grego antes da invenção da fita métrica, o homem é a medida de todas as coisas. Quanto a mim, não sei se de todas as coisas, mas pelo menos de um par de melancias e de algumas jacas creio que sou a medida.

E o fato é que, correndo pelo meio da rua no melhor estilo pato manco e descobrindo estupefato que o ser humano é um animal cercado de banhas trêmulas por todos os lados, não pude evitar a incômoda sensação de que eu era uma avalanche.

Sendo assim, é importante que o praticante abstraia os pensamentos negativos e ocupe a mente em outra atividade. Se estiver em São Paulo, aconselho contar os cocôs de cachorro na calçada.

Porém, caso não consiga de forma alguma desfazer-se da má impressão, tente convencer seu psicanalista a fazer cooper com você. Importante: por mais que ele insista, não o deixe trazer o divã.

Na minha primeira saída, optei por contar os cocôs. Coisa que não me foi muito difícil, posto que, logo de cara, pisei em três. Mas, perseverante, não me deixei abalar e o resultado é que este meu cooper inicial durou exatamente uma hora e cinco minutos: cinco minutos correndo e uma hora lavando o tênis no tanque.

Já na segunda tentativa, mais esperto, resolvi evitar as calçadas e correr rente à guia. Assim, intrépido, disparei desenfreadamente: peito empinado, passo acelerado, postura olímpica. Andei nada menos que 8 quilômetros. E gastei precisos R$ 12 de táxi para voltar a casa.

Por fim, da terceira vez, optei por ser parcimonioso. Venci dois quarteirões num ritmo mais tranqüilo e fiz uma pausa. Tomei um chopinho num boteco e retomei o passo. Logo adiante, mais uma parada para respirar um pouco e novo chopinho.

Seis chopinhos mais à frente, finalmente comecei a perceber o bem-estar e o estado de euforia que, dizem, os atletas sentem ao realizar exercícios físicos. E deixo dito a vocês, leitores sedentários: não tivesse acabado o dinheiro de minha carteira, teria chegado a Curitiba fácil, fácil.

Desde então, tenho praticado o cooper diariamente. Esta semana não porque, como disse, um meio-fio completamente embriagado fraturou o meu pé. Mas, na próxima, estou pensando seriamente em organizar a Primeira Volta Paulista de Cooper Etílico, um esporte que, tenho certeza, ainda vai longe. Sobretudo enquanto ainda restar cerveja.

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