27 fevereiro, 2007

PELO JEITÃO


Algumas expressões dizem tudo. Outras, são apenas chavões, que se repetem à exaustão, usadas por cronistas inábeis. Caso, por exemplo, da que abre este texto. Recomecemos...

Algumas expressões têm o poder de resumir, em poucas palavras, um conceito que, de outra maneira, só poderia ser dito num período longo, tediosamente separado por vírgulas, fátuo e desnecessário. Não serve como exemplo delas, portanto, a frase anterior. Tentemos mais uma vez...

Algumas expressões têm o dom de revelar sem dizer, tocar sem agir, doer sem sentir, mexer sem dançar, vender sem comprar, pular sem cair, coçar sem... Enfim, muitas expressões não querem dizer nada, a exemplo dessas que acabamos de usar. Façamos uma última tentativa...
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Algumas expressões têm um impressionante poder de síntese. (Ufa! Passou. Vão dizer que não? Ora, “poder de síntese” é bom. Queriam o quê? Versos elizabetanos?) Retomando...
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Algumas expressões, como dissemos, têm um poder de síntese impressionante. Não me refiro, evidentemente, apenas às expressões chulas, de gosto duvidoso, que os senhores costumam usar para se referir a políticos, juízes de futebol, operadores de telemarketing e outros parentes distantes do ser humano, leitores de mente corrompida.

Falo, outrossim (e aí? Vai encarar agora?), de achados lingüísticos que se prestam a qualquer situação, que resolvem qualquer dificuldade, que definem qualquer assunto e ainda passam ao interlocutor a impressão de que o sujeito entende muitíssimo do ponto em pauta. Exemplo clássico? “Pelo jeitão”.

— Muito bem, seu Aristides — diz o circunspecto professor de Biologia. — O senhor poderia me dizer algo sobre a classificação dos sapos?
— Sa-sapos? O sapo é... um anfíbio, professor — responde Aristides, suando bastante.
— Muito bem. De que ordem?
— Anura, professor.
— Perfeito. E a família? A que família ele pertence, seu Aristides?
— À família Bufo... Bufoni... Bufonidae, professor.
— Excelente, excelente. Agora me diga, para eu lavrar o seu 10 de uma vez: como sabemos que o sapo é um anfíbio, da ordem Anura, da família Bufonidae, seu Aristides?
— Ah, professor! Pelo jeitão dele, né?
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Há usos mais simples. Como aquele:
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— Vem cá, Carlão, como é que tu pode falar que a teoria do super-homem de Nietzsche guarda paralelo com a superação do “eu” no Bhagavad Gita? Nunca te vi lendo filosofia, rapá!
— Mas não é óbvio? Pelo jeitão, pô!
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Ou ainda:
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— Afinal de contas, quem te disse que a Ritinha tá dando pro Edu, hein, Alvarenga?
— Ninguém me disse. Eu saquei.
— Ah, é? E como, posso saber?
— Pelo jeitão, pelo jeitão.

Enfim, não tenho dúvidas de que “pelo jeitão” é o mais eficiente operador multiuso do idioma. Agora, obedientes que vocês são, me perguntem de que maneira cheguei a essa conclusão inteligente.

— Diz aí, Marconi, como é que tu chegou a essa conclusão, ahn?

E eu, cordato que também sou, vos respondo, sem problemas: pelo jeitão, claro.

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