08 fevereiro, 2007

OFENSA


— É igualzinho, Jurandir! Digo e repito! Eu sei do que tô falando! Já trabalhei em sapataria, rapaz!
— Não acredito!
— Não grita comigo! Tô dizendo. É assim!
— Mentira!
— É!
— Não é!
— Ah, quer saber? Se você não quiser acreditar, vá doar seu ânus e não se fala mais nisso!
— Quê???
— Isso mesmo que você ouviu: ânus, orifício anal, reto! Vá tomar nele!
— Assim você me ofende, cara. Nunca me referi a você com essas palavras.
— Ah, não? Agora mesmo você disse que eu “devia dar um pouco de bunda” pra aprender a não dizer besteira.
— Bunda é diferente. Bunda é uma coisa que até bebê tem.
— E qual a diferença entre “bunda” e “ânus”, “pinto” e “pênis”, pode me dizer?
— Toda! “Pênis”, por exemplo, é muito mais grave. Pênis é um negócio que devia usar óculos e chapéu-coco. “Pênis” é uma coisa respeitável, venerável, de barba.
— Pinto também tem barba, Jurandir!
— Uma barba rala, uma penugem, é quase glabro. Se chegou ao ponto de ter pêlo espesso, aí já virou pênis. Vai me dizer que tu nunca percebeu a diferença entre uma “vagina” e uma “b...”?
— Como é que é, Jurandir?! Tu ficou louco?
— Pra começo de conversa, “vagina” é um negócio asséptico, nem cheiro tem. E outra: mulher com vagina é péssima na cama, pode reparar.
— Tá bom, Jurandir, já entendi o que você quer dizer.
— Pior que vagina só mesmo “vulva”. Mulher que tem vulva eu não chego nem perto. Vai que meu pinto se perde ali dentro? Vulva é um negócio perigoso.
— Chega, Jurandir, já escutei.
— Não, não. Dispenso. E quando a vulva conta com nada menos que “grandes lábios”? Tu já imaginou, rapaz? É praticamente uma centrífuga. Comigo, não!
— Basta, Jurandir! Tá me dando vontade de vomitar!
— Ah, mas tem mais! Essa tu vai adorar! Sabe que eu transei com uma sujeita uma vez que tinha “períneo”?
— Eu vou vomitar, Jurandir!
— Períneo! Dá pra acreditar numa coisa dessas? E eu dizia a ela: minha filha, isso é no máximo a “terra de ninguém”, a “zona do bate-bolas”... E ela, não: pe-rí-ne-o!
— Uargh! Uargh!
— Pior é que... Puta merda, cara! Tu melou todo o meu sapato de cromo alemão!
— Uargh... Já te disse... uargh... que isso não é cromo alemão... é falsificado! Eles fazem assim no Paraguai. É igualzinho, Jurandir! Digo e repito! Eu sei do que tô falando! Já trabalhei em sapataria, rapaz!
— Não acredito!
— É!
— Não é!
— Ah, não, né? Tudo bem. Então vai doar o teu “ânus” e, quando tiver por lá, aproveita pra dar tua bunda também! Tchau!
— Assim você me ofende, cara. Assim você me ofende!

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