20 fevereiro, 2007

O QUEIXO


— Por que é que cê tá com essa cara aí, olhando pro nada, todo amuado, Adamastor?
— O queixo.
— Ai, meu Deus, machucou o queixo, Totozinho? Vem cá, vem, que eu dou beijinho.
— Não, não, o queixo como conceito.
— Ahn? Que é que cê disse?
— Fico pensando... De onde será que Deus tirou a idéia, hein?
— Ai, ai, ai, lá vem você filosofando na hora do jantar de novo. Ontem, eram especulações em torno da teoria das supercordas aplicada ao caminhar do Clodovil. Semana passada, estabeleceu uma relação entre os nove dedos do Lula e o conflito no Oriente Médio. Agora...
— Não, porque, veja bem, o nariz a gente até entende. É meio feião, cria meleca, mas serve pra respirar ou, no meu caso, pra sustentar os óculos, já que tenho renite alérgica. Mas o queixo, mulher, por que o queixo?
— E eu vou lá saber, Totô! É a mesma coisa do cotovelo... Sei lá! Simplesmente existe.
— Não, senhora. O cotovelo tem um propósito. Sem o cotovelo, por exemplo, os Estados Unidos não teriam invadido o Iraque. Ou tu não viu os marines se arrastando pelo solo, com os fuzis? Aliás, ouso dizer até que, sem o cotovelo, não teria existido Napoleão. Digo mais, a Inglaterra nunca teria sido o Império que foi. Tudo graças ao cotovelo. Sem falar que não daria para escutar o Agnaldo Timóteo sem o dito cujo.
— Tá, tudo bem, Totô, não precisa se exaltar. Que a Gloria Kalil não me ouça, o cotovelo presta pra alguma coisa, devo admitir. Agora, que tal se a gente ligasse a TV pra...
— Você veja que até o calcanhar tem o seu mérito. Está aí o Sócrates que não me deixa mentir.
— Sócrates? Você não tá errando de grego? O calcanhar não era do Aquiles?
— Sócrates, o jogador, mulher. Ou tu não lembra da Copa de 82? Está ali a maior prova de que o calcanhar tem a sua função, cumpre o seu papel, faz parte da economia do organismo. O calcanhar, quando menos, serve para coçar a panturrilha. Mas, e o queixo?
— Ah, Totozinho, deixa o queixo em paz, vamo ligar a televisão pra assistir a novela, vamo. Olha, é hoje que o...
— O queixo nem pra coçar serve! Com ele mal se alcança o peito! A menos que você seja o Frei Damião ou trabalhe no Cirque du Soleil, claro.
— Sei, sei. Agora, bem, venha, passe o...
— Mesmo o dedão do pé, mulher! Mesmo o dedão do pé tem os seus encantos. Quem nunca arrancou a unha do dedão do pé para cheirar aquela nojeirinha verde que fica ali embaixo?
— Adamastor, faz favor! Eu tô comendo!
— As coxas servem pra cruzar as pernas...
— Uf! Passa o controle, Adamastor!
— O umbigo pra juntar farelo de comida...
— Adamastor! O controle!
— O joelho tem o seu propósito sexual...
— Quê? Que história é essa de propósito sexual do joelho?
— Hipoteticamente. Tô falando hipoteticamente.
— Hum! Quer saber? Me passa esse controle remoto de uma vez que eu vou ver minha novela. Chega!
— Tudo bem, tudo bem, não precisa gritar. Mas como é que você quer que eu passe? Tô com as mãos todas sujas de manteiga!
— Sei lá, ora essa!... Empurra com o queixo!
— Com o... (olhos brilhando de alegria) Você é um gênio, querida! Você é um gênio!

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