12 fevereiro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (1)


Cansado daquela eternidade toda, que não passava nunca e cuja única diversão era dar tiros de bodoque em anjinhos distraídos, o bom Jesus resolveu voltar à Terra.
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Foi comunicar o fato ao Pai, que naquele instante dava um esporro verdadeiramente paradisíaco num santo, para que ele consertasse sua auréola, que estava torta.
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— Esses italianos! — resmungava o Onipotente. — Maldita hora que eu permiti o Vaticano em Roma!
— Pai, quero ir de volta à Terra — disse Jesus, contrito.
— Ahn? Pra Terra? Mas meu filho, com tantos planetas girando ao redor do sol, que fiz com tanto carinho e onde é tão mais fácil respirar!
— Pô, pai, o senhor sabe que eu gosto de uma cruz. Vou lá ver se resolvo uns problemas. Os homens andam sofrendo muito...
— Ver se resolve uns problemas! Esses adolescentes! Se é pra resolver problemas, por que você não se dedica a aparar a cauda de uns cometas, tapar um ou outro buraco negro, colocar outros anéis em Saturno, enfim, coisas mais simples?
— Pô, pai, o Senhor sabe que eu me interesso pelos seres humanos.
— Puf! Às vezes eu acho que não sou seu Pai.
— E eu não entendo o Senhor, Pai! Pô, será que não pensa em fazer nada para minimizar o sofrimento daqueles infelizes?
— Claro que sim. O negócio é que, seu eu eliminar a Terra, digamos, com uma grande explosão, a gravidade desarranjaria o Sistema Solar e ia dar um trabalho danado pra arrumar tudo de novo... Maldita gravidade! Eu devia ter desconfiado quando o Diabo deu a idéia!
— O Senhor não tem coração, Pai.
— Graças a Mim! Estou livre da angina. Meu filho, talvez você não entenda, mas essa sua reação é típica de quem só tem dois mil anos. Confie no seu velho, que é mais vivido. Aquilo ali não tem jeito. Além do mais, aonde você está pretendendo ir dessa vez? Espero que não tenha em mente a Palestina de novo, né? Se você estrilou com uma cruzinha de nada daquela vez, imagina o que não sofreria com fragmentos de bomba!
— Não, Pai. Eu tô pensando mesmo é em ir ao Brasil.
— Co-como? Acho que não entendi direito.
— Brasil, Pai. Aquele país grande na América do...
— Eu sei muito bem onde fica o Brasil! Não foi por acaso que eu coloquei ele ali, vizinho da Argentina. Só não entendo o seguinte: se é para ser assaltado e seqüestrado, por que você não dá uma voltinha pelo Inferno, que é mais seguro?
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Desanimado com a atitude negativa do Pai, Jesus resolveu consultar a mãe, que naquele momento bordava uma bela túnica para o sobrinho João Batista, em mais um esforço para que ele abandonasse as peles de camelo, tão démodé.
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— Jesus, meu filho, por que você está com essa cara de quem comeu fel e não gostou? — perguntou Maria, cheia de graça, ao vê-lo.
— Quero ir ao Brasil e o Pai não deixa, mãe!
— Pro Brasil?! Você andou fumando cânhamo estragado de novo, Jesus?
— Pô, mãe, até a senhora?
— Não, não e não. Meu filho, você anda muito rebelde ultimamente, não conversa mais com a gente, vive pelos cantos. Cadê aquela água que lhe pedi pra transformar em vinho semana passada e até hoje você não fez?
— Eu vou pra Terra, mãe, tô decidido.
— Jesus Cristo, Jesus Cristo, você não ouse desobedecer sua mãe, Jesus Cristo!
— Ah!...
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Revoltado com a reação dos pais, o Filho do homem resolveu conversar com um membro mais compreensivo da família, o Espírito Santo que, afinal de contas, já estava acostumado a altos índices de violência e não iria se assustar com bobagens.
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2 comentários:

Saramar disse...

Marconi, meu amigo, que saudade dos seus escritos.
Estou começando a ler hoje esta saga. Gosto de ler depois que já está pronta (não sei se é este o caso).

beijos, saudades.

Eduardo Sabbi disse...

Excelente! Voltei para ler algo assim tão bem escrito, depois da bem bolada poesia do Cláudio B. Carlos, na edição desta semana no Simplicíssimo: http://www.simplicissimo.com.br/content/view/2239/ , versando sobre o mesmo tema. Muito bom!