23 fevereiro, 2007

NOIVADO


— Maurício, tua camisa tá pelo avesso.
— Eu sei. Vamos?
— Como “vamos”? Você vai sair com a camisa pelo avesso?
— Que é que tem?
— Isso é uma pergunta retórica ou é preciso mesmo responder?
— Você é muito ligada a valores convencionais, querida. Precisa se soltar mais. Subverter a lógica, relaxar.
— Tá, legal. Agora, por favor, veste a camisa direito e aproveita pra fechar o zíper da calça, que tá aberto. Inclusive a gente tá atrasado, o jantar tá marc... Peraí! Você tá sem cueca, Maurício?
— Maria Cristina, eu resolvi me libertar. A verdade é que o nosso comportamento sempre foi ditado pelas regras da sociedade careta e retrógrada, minha filha. E isso tá errado.
— Sei. Aí você decidiu que a melhor forma de se libertar seria mostrar os pentelhos em público no jantar de noivado de nossa filha?
— A Ana Carla vai entender. Ela é uma moça progressista.
— Ela, sem dúvida. O comendador, pai do noivo, é que talvez ache um pouco estranho. Será que você não podia deixar pra se libertar amanhã ou na próxima segunda-feira?
— Isso é uma coisa que não tem hora, Maria Cristina. É um despertar. Vem de dentro.
— Vem. Vem de dentro e tá saindo pela braguilha. Quer fazer o favor de fechar esse zíper, Maurício? E desvira a camisa, já!
— Não posso, querida. Questão de consciência. De princípios.
— Princípio de loucura. Faça-me o favor... Tá tarde. A menina tá lá esperando com a família do noivo. Diz até que tem uma bisavó do moço, coitada. A mulher não deve ver um pentelho desde 1920, Maurício. Por caridade!
— Não. A Índia seria uma colônia britânica até hoje se Gandhi não tivesse dado o primeiro passo.
— O Gandhi usava um khadi, um pano tradicional indiano, Maurício, uma tanga. Tu já viu tanga com zíper? Aliás, o Gandhi era um homem santo, não devia nem ter pinto.
— Tô falando do princípio. O princípio é o mesmo. O da resistência.
— E tu tá resistindo contra quem? A Zorba?
— Contra o mercado, querida. Contra o status quo. Contra as coisas como elas são. E digo mais: tô pensando seriamente em adotar um órfão.
— Um quê?
— Um órfão, um menino carente, pra gente criar, alimentar, ver crescer, não deixar sair de casa quando fizer 25 anos...
— Meu filho... Eu sei, ela é nossa filha única. Tá saindo de casa, vai morar com outra pessoa. Eu entendo, eu também tô nervosa. A gente vai sentir falta dela. Mas é preciso ter controle. É preciso, acima de tudo, usar roupas íntimas. Vá, vá se trocar. A gente tá atrasado.
— Tudo bem, eu vou. Mas saiba que eu vou sob protestos.

(Minutos depois...)

— Pronto. Vamos?
— Que é isso, Maurício? Maurício, você tá vestindo o sári indiano que eu usei no último Carnaval!
— Ué? Não foi você que deu a idéia?

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