06 fevereiro, 2007

MEMÓRIA DE ELEFANTE


Acontece com a regularidade de um escândalo político. Estou eu tranqüilo, numa festa ou num bar, quando ouço aquela voz entusiasmada:

— Marcooooni!

Olho em sua direção, já relativamente pálido, e não reconheço o indivíduo que se aproxima, de braços levantados e sorriso nos lábios. E, o que é pior, não há espaço suficiente para eu me esconder dentro do copo de cerveja.

— Tá lembrado de mim?

A pergunta fica no ar, enquanto faço uma careta, pensando se finjo que estou tendo um derrame agora ou espero mais um pouco.

— Claaaaro, rapá! Como é que eu ia esquecer? E aí, tudo jóia? — minto, abraçando o sujeito, já mais entusiasmado que ele.
— Tudo, tudo beleza — responde o infeliz, emendando: — E aí, tem visto o pessoal?
— Claro, claro. O pessoal... Puxa!

Miro o infinito e balanço a cabeça, saudoso, como se estivesse rememorando dias felizes. Ficaria assim pelos próximos dois séculos, se ele não prosseguisse:

— Bons tempos... O Rogério é que tá bem, né? Tá lembrado dele?
— E eu ia me esquecer do Rogério!
— Pois ele casou, sabia?

No que me diz respeito, o Rogério poderia ter se tornado papa. Não tenho a mínima idéia de quem ele está falando.

— Papa? Digo... Casou?
— Com a Rebeca, lembra?
— A Rebeeeeca! Logo com a Rebeca! Que sorte, hein?
— Sorte? Ela com aqueles problemas todos?
— Que é isso! — digo, e parto inflamado para a defesa da desconhecida: — Só porque a moça é meio zarolha, rapá?
— Zarolha, a Rebeca?
— Desvio. Ela tem um ligeiro desvio no olho.
— Sabe que eu nunca notei?
— Também, tu sempre foi meio desligado, né? — continuo, cheio de ânimo.
— Eu? Não, até que eu...
— Que é isso, rapá, pra cima de mim? E aquele negócio lá com aquela menina?
— A Sandra?
— Ela mesma. Tá pensando que eu esqueci?
— Bom, aquilo ali, você sabe, não tive culpa. Aliás, como é que você sabe dessa história?
— Tenho uma memória de elefante, rapá.
— Nem eu me lembrava mais disso!
— Pra você ver. E não vem com essa de que não teve culpa, não!
— Bom...
— Aquilo não se faz!
— Eu sei, é que...
— E depois vem falar do estrabismo da Rebeca!
— Puxa, foi mal. Eu não sabia que isso te tocava tão de perto.
— Tocou na Rebeca, tocou numa irmã minha, rapá!

A coisa toda não dura mais que cinco minutos. Para encerrar o assunto e o burburinho dos circunstantes que nos olham apreensivos, ele inventa alguma desculpa e se despede, tenso. Mando minhas lembranças ao Rogério e me viro orgulhoso para minha mulher:

— E então, fui bem?

Mas ela não responde porque, tendo escutado a conversa e sendo mais habilidosa que eu, àquela altura já conseguiu se enfiar dentro do copo de cerveja.

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