15 fevereiro, 2007

JUVENTUDE PERDIDA


— O que você está fazendo, Maria Cecília?!
— Ahn? Hein? Nada, mãe!
— Maria Cecília, Maria Cecília, eu não sou cega, Maria Cecília! O que é isso que você tá escondendo atrás do corpo?
— Nada, não, mãe, eu juro. Nada!
— Não adianta tentar me enganar. Eu vi! Vamos, mostre o que você tá escondendo aí!
— Mas...
— Nem “mas” nem meio “mas”. Mostre!
— Pronto. Tá aqui...
— Eu sabia! Ai, meu Deus! Ai, Jesus! Eu vou morrer!
— Calma, mãe, não é o que a senhora tá pensando...
— Como você pôde fazer isso de novo, Maria Cecília? Nós já não tínhamos conversado, eu, você e seu pai? Nós não já lhe tínhamos mostrado as conseqüências desse seu comportamento? Adalberto! Ô, Adalberto, chega aqui!
— Não é pra tanto, mãe. Que é que eu posso fazer? Eu curto. É o maior barato.
— Não, não, pare de falar, por favor. Assim eu não agüento. Adalberto! Cadê o palerma do seu pai? Isso são esses seus amigos, Maria Cecília, é a má influência. Quantas vezes eu já disse pra você sair, pra ir no pagode? É nesses ambientes que você vai se relacionar melhor, minha filha, arrumar um marido cantor, um ator, quem sabe até um jogador de futebol.
— Eu gosto de música clássica, mãe.
— Ai, não, não quero ouvir. Música clássica! Música clássica vai levar ninguém pra frente, Maria Cecília? Por acaso você já foi a algum show lotado do Mozart ou do Chopin?
— Não freqüento centro espírita, mãe...
— E aquele curso de modelo em que eu te inscrevi com tanto carinho e você abandonou? Você não pensa no seu futuro?
— Penso, mãe.
— Pois é, você pensa muito, esse que é o seu problema. Você já viu alguém que pensa trabalhando na TV, Maria Cecília?
— Eu não quero trabalhar na TV, mãe.
— Malditas más companhias. Adalberto! Vem cá, Adalberto! Passe isso pra cá, Maria Cecília, me dê. Me dê essa droga aqui de uma vez. Eu não queria, mas, desse jeito, a gente vai ter que acabar te internando. Saramago? Então é esse o título?
— Não, esse é o autor.
— Saramago? José Saramago? Peraí, esse daí não foi o que ganhou o Oscar, outro dia?
— O Nobel, mãe.
— Ai, meu Deus! Ai, Jesus! Adalberto! Vem cá, Adalberto! Tá surdo? Tua filha tá lendo livros de novo! Uma menina tão bonita... Maria Cecília, ah, Maria Cecília, você nos mata de desgosto!

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