19 fevereiro, 2007

A DIFÍCIL ARTE DE AGRADAR AS MULHERES


— Está tudo acabado, Menezes.
— Ahn? Como assim?
— Assim, acabou, chegou, deu. Não quero mais viver com você.
— Você deve estar brincando, Maria Luísa! Posso saber por quê?
— A verdade é que você, Menezes, você...
— Eu não tenho sido bom, compreensivo, amigo, companheiro, carinhoso?
— Tem, tem. E isso é justamente parte do problema.
— Parte do problema? Acho que você ficou louca!
— Não, não, Menezes. Você é muito perfeito, Menezes, assim não tem mulher que agüente.
— Ha! Essa é boa! Você quer acabar comigo porque eu sou muito perfeito?
— Isso e também porque... Menezes, você não faz xixi fora da privada. Você até abaixa a tampa do vaso!
— Ué? E as mulheres não vivem reclamando exatamente disso, que os homens sujam o chão e não levantam a tampa da privada?
— Vivem, Menezes, mas eu não! Eu não, entende? Quando me reúno com a Marcinha e a Pê, elas ficam lá, desancando os maridos, dizendo que eles jogam a roupa pelos cantos de qualquer jeito, que não ajudam no trabalho da casa, que soltam pum na frente delas, e eu não tenho o que dizer, Menezes, não tenho nada pra falar de você. É muita humilhação! Você nem barriga de chope tem! Aliás, você nem bebe nem joga pelada no final de semana. Nunca me deixa esperando quando marca de me levar pra jantar!
— Não fique assim, Lu. Hein? Olha aí, atirei a meia no lustre! Ahn? Que tal? E, se eu me esforçar um pouco, posso soltar pum na sua frente! Espera... Hum! Calma... Tá saindo... Huuum!... Viu? Viu?
— Isso lá é pum, Menezes? Uma bufa sem graça dessa, que nem feder fedeu. Pum é uma coisa potente, ruidosa... Aliás, peido! Você não peida, Menezes. Você no máximo solta flatos.
— Calma, querida. Só preciso de um pouco de treino, eu juro que vou me esforçar.
— Não adianta, Menezes. Você não tem o physique du rôle.
— Epa! Aí não, hein, não insulta. Rôle eu tenho e das grandes, você sabe muito bem disso.
— Vê? Você forrou a cama e lavou os pratos antes de eu chegar!
— Mas, filha, que mal há nisso? Cheguei antes do trabalho, você chega cansada e...
— E ainda mais isso, Menezes: você me chama de “filha”. “Filha” não dá. Você tinha que ter me insultado, uma vez ou outra...
— Feia! Chata! Boba! Viu, viu?
— De vaca, Menezes. Tinha que ter me chamado de vaca. Sabe quando eu tô de TPM e atiro vasos na sua cabeça?
— São os hormônios, amor.
— Não fala isso, Menezes! Deixa de ser compreensivo!
— Não fica assim, querida, vem cá, me dá um abraço...
— Larga, Menezes, deixa de ser pegajoso!
— Ô, Bunjunguinha, chega aqui.
— Pára, Menezes, pára! Será possível que nem uma vez na vida você pode se comportar como um porco? Você tem que ser machista, Menezes! Como é que você nem ao menos se digna a contar piada sobre a suposta inferioridade feminina em mesa de bar? Por que é que você não fala mal da minha família? O meu irmão é um vagabundo, que vive te pedindo dinheiro emprestado, Menezes!
— Coitado, mô, ele tá desempregado! A culpa é da política econômica do governo.
— Menezes, ele é funcionário público desde a época do Collor! E não é isso, Menezes, não é apenas isso... É o conjunto. Se você pelo menos coçasse o saco em público...
— Eu vou me esforçar, filha. Juro. Eu vou me esforçar.
— E não me chama de filha!
— Desculpe, sua vaca, me desculpe.
— Vaca? Você me chamou de vaca?... Boa, Menezes! Continue.
— E... E agora cala a boca que eu quero ver televisão!
— Perfeito, Menezes!
— Já disse pra calar a boca! Tô ligando a TV e não quero ouvir nem mais um pio!
— Isso, Menezes!
— Você ainda tá falando, sua cachorra? Cala a boca, já! Ora, não tá vendo que está atrapalhando a minha novela!
— Novela, Menezes? Novela? Chega, eu vou pra casa da mamãe!

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