09 fevereiro, 2007

ATOR DE COMERCIAL


— Aí você olha para a câmera e diz: “Sucinto, não? Serve de aviso a...”
— “Sucinto” com “c” ou com “sc”?
— Hein?
— “Sucinto”, como é que se escreve?
— Sucinto? Sei lá, pô! Acho que é com “sc”. Mas que diferença isso faz? Você tá falando!
— Toda diferença. Repare que um sucinto com “sc” exige uma pausa dramática, um hiato que se prolonga plasticamente entre o “s” e o “c”: suis-cinto! Entende? Propõe, assim, o uso da quarta parede. O sucinto com “c” apenas, por sua vez, provoca um impacto instantâneo, detonando no telespectador um certo desconforto que remete a Artaud e ao...
— Tá, tá, tá bom. Faça como quiser, contanto que você diga: “Sucinto, não? Serve de aviso a todas as...”
— “Aviso” com “s” ou com “z”?
— Ai, meu ovo esquerdo! Aviso! Aviso! Sei lá, deve ser com “s”.
— Será que alguém da técnica sabe?
— Não sei, não sei! Olha, quero apenas que você fale “aviso” e acabou-se. Qual é a grande dificuldade?
— Nenhuma. É apenas uma questão de ajuste de tom. Porque você há de entender que um aviso com “z” é uma coisa imponente, categórica, que nos remete diretamente a Ésquilo. Enquanto que no aviso com “s” há um amaneiramento na sonoridade que...
— Já entendi! Tudo bem. Faça como quiser. Aviso com “s”, com “z”, até com “ç”. Agora, pelo amor de Deus, olhe para a câmera e diga: “Sucinto, não? Serve de aviso a todas as mulheres que não admitem perder...”
— Com “i”?
— O quê?
— O “admitem”. Devo omitir o “i”, deixá-lo mudo, à maneira de um Gil Vicente, ou pronunciá-lo amortecido e adocicado, abrasileirando o som?
— Inacreditável! Será possível que você não pode olhar para aquela câmera e simplesmente dizer: “Sucinto, não? Serve de aviso a todas as mulheres que não admitem perder tempo com nhenhenhém?” Só isso! Uma frase e pronto!
— Posso, posso, claro. Tudo bem. É pra já. Desde que você me diga se “nhenhenhém” contém ou não hífen. Porque, segundo Ziembinski...
— Desisto! Me diz uma coisa: por que é que você não vai à merda, ahn?
— Com crase ou sem?

Um comentário:

Eduardo Sabbi disse...

Muito legal teu texto, Marconi. Conseguiste uma dinâmica divertidíssima para a gramática. Parabéns.