16 fevereiro, 2007

ARTE PÓS-MODERNA


— Bela escultura, não?
— Belíssima. As bolsas agrupadas de forma desordenada, como uma metáfora da solidão e do hedonismo contemporâneos. Uma crítica à sociedade de massas, sem dúvida, com a cor forte da madeira representando o Estado em sua...
— Bolsas? Madeira? Mas, pra onde é que tu tá olhando, afinal?
— Pra escultura, ora essa! Ó lá: a luz artificial de uma sociedade fria e mecanizada incide sobre as individualidades destroçadas pela modernidade tardia, os casacos sem corpos significando a ausência do espírito ante a dura materialidade da...
— Pô, mas tu tá olhando pro cabide!
— Ahn?
— Aquilo ali é um simples cabide, pra colocar as roupas, rapaz! Não faz parte da exposição. A escultura é essa aqui, olha aí.
— Qual? Aquela ali ao lado da geladeira quebrada com um pingüim em cima?
— Não! É a própria geladeira quebrada com o pingüim em cima!
— Ah...
— Não é incrível como o artista consegue passar a sensação de impotência diante de uma realidade que nos... Ei, ei! Que é que tu ta fazendo? Não toca aí, rapaz!
— Ué, não posso pegar um bombom?
— Pô, Benevides, isso daí é uma instalação! Tu comeu um pedaço da instalação, rapá!
— Nhammm... Foi maus! Nham... Como é que eu ia saber?... Nham... nham... Os bombons tavam na cristaleira e...
— Deixa de ser bárbaro, rapaz! Te trouxe aqui pra tu tomar um banho de cultura e tu me apronta uma dessas. Tu não disse que queria impressionar aquela publicitária com quem tu tá saindo? Pois então? Coloca a mão nos bolsos! Isso, mão nos bolsos! Tu precisa conformar teu olhar à beleza, Benevides. Sacar as curvas, o jogo de formas, as nuances, cara, as nuances. Tá ligado?
— Só um minuto. Olha lá o nuanção daquela morena de saia, ali, atrás da pilastra, entre o pára-lama de Fusca e a pirâmide de Comandos em Ação.
— Tu tá de brincadeira comigo, Benevides?
— Pô, cara, o negócio é o seguinte: será que eles não têm um Rafael, um Rembrandt, Frans Hals, Rubens? Qualquer flamengo serve ou, quem sabe, mesmo um Pavel Fedotovzinho...
— Tu és um visigodo, rapaz. Deixa de ser obtuso. Isso daqui é arte pós-moderna, mermão. Esses teus pintores tão ultrapassados, não falam da sensibilidade contempo... puta que o pariu, Benevides! Tu jogou a guimba do cigarro dentro da mão de Krishna, rapaz!
— Mãe de quem?
— Mão! Mão de Krishna, o deus hindu!
— Mas isso daqui não é um cinzeiro?
— Cinzeiro é o cacete, Benevides! Não tá vendo que isso daí é arte, bicho? Tu não saca Duchamp, rapaz? Arte é o que a gente chama de arte, pô!
— Calma, calma! Não vai voltar a acontecer. Vou fazer uma arte, digo, vou fazer uma obra, enfim, vou ali no banheiro e volto já. Te acalma. Güentaí. Juro. Eu vou me comportar. (sai)
— É cada uma. As coisas que a gente tem que aturar. Eu trago esse infeliz aqui pra beber da verdadeira arte e, quando vai ver, o camarada... Ahn? Mas, o que é aquilo? Ai, meu Deus do céu. Vou-me embora, alguém me esconda. Não posso acreditar... Socorro, o Benevides tá fazendo cocô dentro do penico do Duchamp!

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