07 fevereiro, 2007

11 DE SETEMBRO DE 2001


— Ih, olha aí Ernesto, olha aí, os terroristas lançaram um ataque em Nova York, meu Pai do céu!
— Que o quê, mulher! Esse filme eu já vi. Não é com o Van Damme?
— Van Damme nada, homem! Olha lá, é tudo real.
— “É Tudo Real”, isso mesmo. É com o Schwarzenegger.
— Homem, Deus eterno, você não tá vendo a televisão? Isso daí foi um “terroriste plóte”, olha ali na tela: “terroriste plóte”!
— Mulher, eu não entendo inglês. E, além do mais, eles mudam os títulos sempre. Se é “terrorist póste”...
— “Plóte”!
— Enfim, “póste”, “pórte”, se o nome é esse, eles vão traduzir por “O Pote Terrorista” ou “Folha de Alface no Parque”, alguma coisa assim...
— Ernesto, Ernesto, será impossível que nem uma vez na vida você ouve o que eu tô dizendo? Isso daí tá acontecendo agora, é ao vivo, Ernesto!
— Ha! ha! Essa é boa! Já vi esse tipo de explosão não sei quantas vezes, mulher. E, pra falar a verdade, essa daí não é nem tão bem-feita assim, viu? Olha lá: aquele foguinho ali é computação gráfica pura! Tu vai ver. Já, já entra o Chuck Norris e resolve essa parada toda com o “quiquebóxi” dele. Vai voar pedaço de terrorista pra tudo que é lado.
— Ai! Ai meu Deus do Céu! Outro avião, Ernesto! Explodiu outro avião!
— Iiiiih, que malfeito! Já não se fazem mais filmes hollywoodianos como antigamente... Tu lembra de “A Ponte do Rio Kwai”? Aquilo sim era filme... Tinha interpretação, ação bem coordenada, roteiro afiado e, principalmente, legenda. Cadê a legenda desse negócio, hein, Marilda? Eu não to entendendo nada! Desliga o sap!
— Isso daí é a CNN, Ernesto! Pssss... Peraí! Eu tô tentando ouvir!
— Tem graça! E desde quando tu entende inglês, hein? Tu não domina nem o verbo “tóbi”, mulher.
— É “to be”, ignorante. E fique sabendo que, no ginásio, eu tive uma excelente professora de inglês, dona Natasha. Até americana ela era.
— Ué, e a América já havia sido descoberta naquele tempo?
— Muito engraçado, ha, ha, tô morrendo de rir... Agora faz silêncio, por favor, que eu quero ouvir a notí... Ai, não! Olha lá! Olha lá, o prédio tá caindo!
— Vê-se logo que o filme não é do Spielberg! Onde já se viu um prédio cair assim, todo inteirão? Que absurdo! Não dá pra assistir isso. Bota aí no Telecine.
— Ai, ai! O outro também! Lá se vão as Torres Gêmeas, Ernesto!
— Sei, sei. Vai cair Nova York toda, será que você não percebe? Mas aí, ligam pro Jackie Chan e ele resolve tudo com três ou quatro gritinhos. Agora, muda de canal que eu já tô entediado.
— É um desastre, Ernesto! A sociedade ocidental está em perigo! É o fim do mundo como nós o conhecemos! Um desastre! Um desastre!
— Sem dúvida. Um desastre. E não sei se é o fim do Ocidente, mas pelo menos da arte cinematográfica produzida nele, ah, isso é! Dá cá o controle...
— Três mil mortes, Ernesto! Três mil! Meu Deus, onde será que o mundo vai parar? Que valores nós vamos legar aos nossos netos?
— Quanto a você, não sei. Mas eu vou fazer questão que eles assistam a filmes iranianos. Isso, me dá aqui o controle. Mas por que é que você está chorando, mulher? Era só um filme, meu Deus! Vem cá, vem. Ih, ó lá, tá passando aquela série que você gosta no Sony. Vamo ver?

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