28 fevereiro, 2007

POR UM MUNDO MAIS LIMPO


Segundo leio nos jornais — sim, cidadãos, eu ainda leio jornais; afinal, na vida, todo mundo precisa de um pouco de ficção —, o grande passo que a nossa ciência pretende dar neste século, em matéria de energia, é o da fusão nuclear.

Acho louvável que os cientistas estejam à cata de produzir um tipo de energia que não polua o meio ambiente e não ameace a vida na Terra, ao contrário daquela gerada pelos combustíveis fósseis ou, pior, da energia sexual que gerou o George Bush.

No entanto, creio que uma verdadeira revolução no conceito de matriz energética aconteceria caso o ser humano conseguisse extrair energia de uma fonte um pouco mais perigosa do que a nuclear, mas muito mais abundante do que o átomo: a mulher de TPM.

Imaginem os senhores se toda a energia gasta nas discussões sobre se, enfim, existe em algum recanto do universo um vestido que combine com a sandália; se a palavra “amor” é, de fato, carinhosa e não contém nenhum sentido pejorativo; ou, algo ainda mais sensato e coerente, se a secretária banguela, maneta e corcunda do escritório está tendo um caso com o seu marido, fosse canalizada para a produção de um combustível capaz de mover automóveis e impulsionar a indústria.

Sei que os derrotistas e fracassomaníacos de sempre, que tanto têm contribuído para a má avaliação de nosso impoluto Congresso Nacional, dirão que estou com pequices e me acusarão de insanável descoco.

Afirmarão que a idéia não dará certo porque, por exemplo, um carro movido a TPM irá para trás quando a gente quiser que ele vá para frente, perderá o freio nos momentos mais delicados, soltará uma gargalhada sarcástica quando furar o pneu, enfim, atentará irremediavelmente contra a paciência do motorista, mormente nos dias em que ele estiver mais feliz.

Outros insinuarão que a energia inconstante gerada pela TPM provocará, por vezes, sucessivas quedas na voltagem. E, de outras, elevará a tensão a níveis insuportáveis, ocasionando problemas onde não deveriam existir e transformando pequenas falhas contornáveis em grandiosos desastres.

Confio, contudo, em nossos tenazes cientistas e torço para que nossos sábios pesquisadores consigam, talvez se utilizando de uma composto de estrogênio e Ponstan, estabilizar esta promissora, ainda que volúvel, torrente energética.

Quando pouco, creio que os estudos para seu desenvolvimento poderão engendrar produtos colaterais, como um remédio contra a inabalável TPM. Evitando assim, como hoje, que por uma profunda ignorância relativa às evidentes diferenças entre o branco-pérola e o branco-marfim, eu seja obrigado a dormir no sofá novamente.

27 fevereiro, 2007

PELO JEITÃO


Algumas expressões dizem tudo. Outras, são apenas chavões, que se repetem à exaustão, usadas por cronistas inábeis. Caso, por exemplo, da que abre este texto. Recomecemos...

Algumas expressões têm o poder de resumir, em poucas palavras, um conceito que, de outra maneira, só poderia ser dito num período longo, tediosamente separado por vírgulas, fátuo e desnecessário. Não serve como exemplo delas, portanto, a frase anterior. Tentemos mais uma vez...

Algumas expressões têm o dom de revelar sem dizer, tocar sem agir, doer sem sentir, mexer sem dançar, vender sem comprar, pular sem cair, coçar sem... Enfim, muitas expressões não querem dizer nada, a exemplo dessas que acabamos de usar. Façamos uma última tentativa...
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Algumas expressões têm um impressionante poder de síntese. (Ufa! Passou. Vão dizer que não? Ora, “poder de síntese” é bom. Queriam o quê? Versos elizabetanos?) Retomando...
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Algumas expressões, como dissemos, têm um poder de síntese impressionante. Não me refiro, evidentemente, apenas às expressões chulas, de gosto duvidoso, que os senhores costumam usar para se referir a políticos, juízes de futebol, operadores de telemarketing e outros parentes distantes do ser humano, leitores de mente corrompida.

Falo, outrossim (e aí? Vai encarar agora?), de achados lingüísticos que se prestam a qualquer situação, que resolvem qualquer dificuldade, que definem qualquer assunto e ainda passam ao interlocutor a impressão de que o sujeito entende muitíssimo do ponto em pauta. Exemplo clássico? “Pelo jeitão”.

— Muito bem, seu Aristides — diz o circunspecto professor de Biologia. — O senhor poderia me dizer algo sobre a classificação dos sapos?
— Sa-sapos? O sapo é... um anfíbio, professor — responde Aristides, suando bastante.
— Muito bem. De que ordem?
— Anura, professor.
— Perfeito. E a família? A que família ele pertence, seu Aristides?
— À família Bufo... Bufoni... Bufonidae, professor.
— Excelente, excelente. Agora me diga, para eu lavrar o seu 10 de uma vez: como sabemos que o sapo é um anfíbio, da ordem Anura, da família Bufonidae, seu Aristides?
— Ah, professor! Pelo jeitão dele, né?
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Há usos mais simples. Como aquele:
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— Vem cá, Carlão, como é que tu pode falar que a teoria do super-homem de Nietzsche guarda paralelo com a superação do “eu” no Bhagavad Gita? Nunca te vi lendo filosofia, rapá!
— Mas não é óbvio? Pelo jeitão, pô!
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Ou ainda:
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— Afinal de contas, quem te disse que a Ritinha tá dando pro Edu, hein, Alvarenga?
— Ninguém me disse. Eu saquei.
— Ah, é? E como, posso saber?
— Pelo jeitão, pelo jeitão.

Enfim, não tenho dúvidas de que “pelo jeitão” é o mais eficiente operador multiuso do idioma. Agora, obedientes que vocês são, me perguntem de que maneira cheguei a essa conclusão inteligente.

— Diz aí, Marconi, como é que tu chegou a essa conclusão, ahn?

E eu, cordato que também sou, vos respondo, sem problemas: pelo jeitão, claro.

26 fevereiro, 2007

NO CLUBE


— Não, aquilo não é normal.
— Não aponta, Afonso. Olha o vexame.
— Mas aquilo não é normal, minha filha, tô lhe dizendo: não é!
— Afonso, o sujeito tem o órgão sexual, digamos, um pouco desenvolvido, só isso.
— Um pouco desenvolvido? Um pouco desenvolvido é o PIB de Cuba, Ana Sílvia. Aquilo ali é uma aberração. O cara podia ser protagonista de “O Homem Elefante”. Não, não. Não tá certo, vou falar com a gerência.
— Afonso... Ai, meu Jesus! Olha o escândalo, Afonso. Já tem gente olhando.
— É claro que tem gente olhando. O homem fica ali todo esparramado na esteira, se expondo, de sunga. O que é que ele quer? Incentivar a prática do alpinismo?
— Afonso, alguma pessoas têm os genitais maiores, outras menores, que mal há nisso?
— Maiores e menores, eu aceito. O problema é que estamos tratando aqui claramente de um caso de pé de bambu. Que que é isso? Não. Então o sujeito vem se divertir, pegar um pouco de sol na piscina com a família e é obrigado a enfrentar selvagens?
— Selvagens, Afonso?
— E armados, o que é pior. Chama as crianças. Amanda! Ricardinho! Já pra cá! Correndo! Onde é que fica a gerência desse negócio?
— Você não vai fazer isso, Afonso.
— Ah, vou! Vou na gerência. Assim que conseguir enxergar onde é que fica. Coisa difícil, pois o pinto do indivíduo tá empatando um pouco a visão. Ricardinho! Amanda! Venham! Rápido! Cuidado com a Anaconda!
— Psssss! Fala baixo, Afonso. Você quer me matar de vergonha? O que é que o homem tá fazendo de mais contra você, me diga!
— Contra mim, particularmente, nada. O caso dele é mais contra o Leonardo.
— Que Leonardo, Afonso?
— O da Vinci. Ou tu não tá vendo que a deformidade dele representa um acintoso ataque à harmonia e à proporção?
— Meu Deus!
— É uma questão de princípios, mulher. Civilização contra barbárie. Tu já imaginou viver num mundo onde todas as pessoas tivessem protuberâncias assim? Ninguém poderia andar de ônibus, por exemplo. Sem falar no fim das filas de banco. E na dificuldade para caminhar na rua: “Ops! Me desculpe, senhor. Creio que tropecei no seu pinto”. Tenha paciência!
— Você ficou louco, Afonso.
— Estaria extinta toda a lógica organizacional, mulher. Seria a derrocada do capitalismo internacional. Eu vou na gerência. Me solta.
— Você tá assustando as crianças, Afonso. Por tudo o que há de mais sagrado, será que você não poderia resolver isso por outra via?
— E estou resolvendo por outra via. Vou pela Marginal. Ele tá usando o Minhocão.
— Tudo isso por conta de um pênis, Afonso?
— Um, não. A julgar pelo volume na sunga, ele deve ter ali pelo menos uns cinco. Vou na gerência. Me larga.
— Por que isso, Afonso? Por quê?
— Mulher... Pelo futuro da civilização!

23 fevereiro, 2007

NOIVADO


— Maurício, tua camisa tá pelo avesso.
— Eu sei. Vamos?
— Como “vamos”? Você vai sair com a camisa pelo avesso?
— Que é que tem?
— Isso é uma pergunta retórica ou é preciso mesmo responder?
— Você é muito ligada a valores convencionais, querida. Precisa se soltar mais. Subverter a lógica, relaxar.
— Tá, legal. Agora, por favor, veste a camisa direito e aproveita pra fechar o zíper da calça, que tá aberto. Inclusive a gente tá atrasado, o jantar tá marc... Peraí! Você tá sem cueca, Maurício?
— Maria Cristina, eu resolvi me libertar. A verdade é que o nosso comportamento sempre foi ditado pelas regras da sociedade careta e retrógrada, minha filha. E isso tá errado.
— Sei. Aí você decidiu que a melhor forma de se libertar seria mostrar os pentelhos em público no jantar de noivado de nossa filha?
— A Ana Carla vai entender. Ela é uma moça progressista.
— Ela, sem dúvida. O comendador, pai do noivo, é que talvez ache um pouco estranho. Será que você não podia deixar pra se libertar amanhã ou na próxima segunda-feira?
— Isso é uma coisa que não tem hora, Maria Cristina. É um despertar. Vem de dentro.
— Vem. Vem de dentro e tá saindo pela braguilha. Quer fazer o favor de fechar esse zíper, Maurício? E desvira a camisa, já!
— Não posso, querida. Questão de consciência. De princípios.
— Princípio de loucura. Faça-me o favor... Tá tarde. A menina tá lá esperando com a família do noivo. Diz até que tem uma bisavó do moço, coitada. A mulher não deve ver um pentelho desde 1920, Maurício. Por caridade!
— Não. A Índia seria uma colônia britânica até hoje se Gandhi não tivesse dado o primeiro passo.
— O Gandhi usava um khadi, um pano tradicional indiano, Maurício, uma tanga. Tu já viu tanga com zíper? Aliás, o Gandhi era um homem santo, não devia nem ter pinto.
— Tô falando do princípio. O princípio é o mesmo. O da resistência.
— E tu tá resistindo contra quem? A Zorba?
— Contra o mercado, querida. Contra o status quo. Contra as coisas como elas são. E digo mais: tô pensando seriamente em adotar um órfão.
— Um quê?
— Um órfão, um menino carente, pra gente criar, alimentar, ver crescer, não deixar sair de casa quando fizer 25 anos...
— Meu filho... Eu sei, ela é nossa filha única. Tá saindo de casa, vai morar com outra pessoa. Eu entendo, eu também tô nervosa. A gente vai sentir falta dela. Mas é preciso ter controle. É preciso, acima de tudo, usar roupas íntimas. Vá, vá se trocar. A gente tá atrasado.
— Tudo bem, eu vou. Mas saiba que eu vou sob protestos.

(Minutos depois...)

— Pronto. Vamos?
— Que é isso, Maurício? Maurício, você tá vestindo o sári indiano que eu usei no último Carnaval!
— Ué? Não foi você que deu a idéia?

22 fevereiro, 2007

O DRAGÃO


— Vem, Ari, tira o cinto...
— Pronto, pronto.
— Chega mais perto, chega... Abre o zíper...
— Assim?
— Isso, Arizinho, baixa a calça... Agora, a cueca... Isso... iss... Ariovaldo? O que é isso, Ariovaldo?!!
— Meu pinto, ué!
— Não, Ariovaldo, em cima do pinto!
— Fimose?
— Ariovaldo, meu Deus do Céu, o que foi isso que você fez no... nos...
— Depilação artística. Gostou?
— Você cortou os pêlos pubianos em forma de borboleta, Ariovaldo?
— Assim você me ofende. Eu lá sou homem de fazer desenho de borboleta em pêlo pubiano? Sou macho! É um dragão. De asas abertas. (abana os braços como asas) Uaah! Uaah!
— Que é esse “uaah”? O dragão tá de ressaca?
— Não gostou, amor?
— Se eu gostei? Esse dragão tá a cara do Bozo! Qual era exatamente a tua idéia? Fazer uma homenagem ao Sílvio Santos?
— Pô, amor, você não disse que as coisas tavam meio paradas e tal, que era preciso variar? Então eu achei que...
— Que se colocasse uma peruca no pinto as coisas iriam melhorar?
— Pois fique a senhora sabendo que o dragão é um símbolo de fertilidade na China Antiga, tá entendendo? Uaah! Uaah!
— E eu lá tenho cara de semente pra ser fertilizada, Ariovaldo? Eu só queria fazer sexo com alguém que não tivesse suíças...
— Quanta ignorância! Você não tem cultura, mulher. Trata-se de um trabalho artístico.
— Sei. E, pelo visto, o artista era dadaísta, né? Só isso explica que o corpo do dragão seja tão menor que as asas.
— Epa! Insulto, não, hein?
— Santo Cristo... Que foi que te deu na cabeça pra fazer uma coisa dessas? Você tem quase cinqüenta anos, homem! Onde foi que você fez isso, me diz?
— Onde! No salão de beleza, ora essa!
— Foi uma mulher que fez isso em você?
— F-foi. Quer dizer... Uma senhora... Uma velha... Gorda.
— E ela ficou segurando o teu pinto, foi?
— Bom... Só nos primeiros segundos...
— Deu, Ariovaldo! Sai do quarto, sai!
— Você não acompanha os tempos modernos, Maria Regina.
— Sai! Sai daqui, já disse. E leva esse dragão com você.
— Olha que você vai perder, hein?
— Perder? Perder o quê?
— Uaah! Uaah!

21 fevereiro, 2007

TERAPIA DE CASAL


TERAPEUTA: E então, o que os traz aqui?
CÉLIA REGINA: O Aurélio, doutora.
TERAPEUTA: Aurélio? Mas eu pensei que o senhor se chamasse Euclides.
EUCLIDES: E me chamo, doutora. Aurélio, no caso, é o dicionário.
TERAPEUTA: Quê?
CÉLIA REGINA: É o seguinte, doutora, o Euclides, ele fala “nincho de mercado”.
EUCLIDES: Veja a senhora, doutora: dez anos de casado e só porque eu deixei escapar, uma vez na vida, “nincho de mercado”, a casa caiu.
CÉLIA REGINA: “Nincho de mercado”, doutora! “Nincho de mercado” é o fim da picada. Ele diz isso sempre, sempre!
EUCLIDES: Tá, tudo bem. Admitamos que eu tenha dito, uma vez ou outra. Em compensação, você vive falando “sombrancelha” e eu nunca reclamei.
CÉLIA REGINA: Ha! Quem é que fala “sombrancelha” aqui?
EUCLIDES: Você. “Sombrancelha” e “iorgute”. Por que é que você acha que lá em casa agora tem caixas e caixas de iogurte, que eu compro toda semana? É só pra não ouvir você me pedir pra trazer “iorgute” quando eu vou no supermercado.
CÉLIA REGINA: Ah, então é isso, senhor “um plus a mais”?
EUCLIDES: Como é que é?
CÉLIA REGINA: Não se faça de desentendido, Euclides. Ainda ontem você tava falando com o Rogério pelo telefone que “a empresa tal tem um plus a mais e por isso encontrou um novo nincho de mercado”. Urgh, chega a me dar uma coisa! Fico com os pêlos todos arrepiados só de lembrar, doutora!
EUCLIDES: Até os da “sombrancelha”?
CÉLIA REGINA: Olha a ironia, Euclides. Fique sabendo que essa coisa de “sombrancelha” é uma questão de costume, tá? Lá na minha terra todo mundo fala assim.
EUCLIDES: Deve ser porque vocês tomam muito “iorgute”.
CÉLIA REGINA: Não, não. Lá eles, se tomam ior... io... gurte, fazem que nem você: “gospem” fora.
EUCLIDES: Eu imagino que agora você está querendo insinuar que eu falo “guspir”, em vez de “cuspir”?
CÉLIA REGINA: Juro sobre o Houaiss que ele fala, doutora.
EUCLIDES: Essa é boa! Uma pessoa que diz “poblema”, reclamando do meu vocabulário!
CÉLIA REGINA: Nunca disse “poblema” na minha vida. E o seu vocabulário, Euclides, é de “mindingo”
EUCLIDES: Meu São Caldas Aulete! É “mendigo”, “inguinorante”!
CÉLIA REGINA: É “ignorante”, “instrupício”!
TERAPEUTA: Calma, calma, gente. Vocês precisam se acalmar.
CÉLIA REGINA: Desculpe, doutora...
EUCLIDES: É, doutora...
TERAPEUTA: Parem um pouco e meditem. Casamento é compreensão.
CÉLIA REGINA: Quer dizer...
EUCLIDES: Uhm...
TERAPEUTA: Será que vale a pena discutir por conta de algo tão pequeno?
CÉLIA REGINA: Bom...
EUCLIDES: Ahn...
TERAPEUTA: Vejam bem, será que coisas assim são o que verdadeiramente importa, a nível de casamento?
CÉLIA REGINA e EUCLIDES: “A NÍVEL DE”, DOUTORA?!!
CÉLIA REGINA: Vamos embora, Cli!
EUCLIDES: Agora mesmo, Celinha! Dá a mão.

20 fevereiro, 2007

O QUEIXO


— Por que é que cê tá com essa cara aí, olhando pro nada, todo amuado, Adamastor?
— O queixo.
— Ai, meu Deus, machucou o queixo, Totozinho? Vem cá, vem, que eu dou beijinho.
— Não, não, o queixo como conceito.
— Ahn? Que é que cê disse?
— Fico pensando... De onde será que Deus tirou a idéia, hein?
— Ai, ai, ai, lá vem você filosofando na hora do jantar de novo. Ontem, eram especulações em torno da teoria das supercordas aplicada ao caminhar do Clodovil. Semana passada, estabeleceu uma relação entre os nove dedos do Lula e o conflito no Oriente Médio. Agora...
— Não, porque, veja bem, o nariz a gente até entende. É meio feião, cria meleca, mas serve pra respirar ou, no meu caso, pra sustentar os óculos, já que tenho renite alérgica. Mas o queixo, mulher, por que o queixo?
— E eu vou lá saber, Totô! É a mesma coisa do cotovelo... Sei lá! Simplesmente existe.
— Não, senhora. O cotovelo tem um propósito. Sem o cotovelo, por exemplo, os Estados Unidos não teriam invadido o Iraque. Ou tu não viu os marines se arrastando pelo solo, com os fuzis? Aliás, ouso dizer até que, sem o cotovelo, não teria existido Napoleão. Digo mais, a Inglaterra nunca teria sido o Império que foi. Tudo graças ao cotovelo. Sem falar que não daria para escutar o Agnaldo Timóteo sem o dito cujo.
— Tá, tudo bem, Totô, não precisa se exaltar. Que a Gloria Kalil não me ouça, o cotovelo presta pra alguma coisa, devo admitir. Agora, que tal se a gente ligasse a TV pra...
— Você veja que até o calcanhar tem o seu mérito. Está aí o Sócrates que não me deixa mentir.
— Sócrates? Você não tá errando de grego? O calcanhar não era do Aquiles?
— Sócrates, o jogador, mulher. Ou tu não lembra da Copa de 82? Está ali a maior prova de que o calcanhar tem a sua função, cumpre o seu papel, faz parte da economia do organismo. O calcanhar, quando menos, serve para coçar a panturrilha. Mas, e o queixo?
— Ah, Totozinho, deixa o queixo em paz, vamo ligar a televisão pra assistir a novela, vamo. Olha, é hoje que o...
— O queixo nem pra coçar serve! Com ele mal se alcança o peito! A menos que você seja o Frei Damião ou trabalhe no Cirque du Soleil, claro.
— Sei, sei. Agora, bem, venha, passe o...
— Mesmo o dedão do pé, mulher! Mesmo o dedão do pé tem os seus encantos. Quem nunca arrancou a unha do dedão do pé para cheirar aquela nojeirinha verde que fica ali embaixo?
— Adamastor, faz favor! Eu tô comendo!
— As coxas servem pra cruzar as pernas...
— Uf! Passa o controle, Adamastor!
— O umbigo pra juntar farelo de comida...
— Adamastor! O controle!
— O joelho tem o seu propósito sexual...
— Quê? Que história é essa de propósito sexual do joelho?
— Hipoteticamente. Tô falando hipoteticamente.
— Hum! Quer saber? Me passa esse controle remoto de uma vez que eu vou ver minha novela. Chega!
— Tudo bem, tudo bem, não precisa gritar. Mas como é que você quer que eu passe? Tô com as mãos todas sujas de manteiga!
— Sei lá, ora essa!... Empurra com o queixo!
— Com o... (olhos brilhando de alegria) Você é um gênio, querida! Você é um gênio!

19 fevereiro, 2007

A DIFÍCIL ARTE DE AGRADAR AS MULHERES


— Está tudo acabado, Menezes.
— Ahn? Como assim?
— Assim, acabou, chegou, deu. Não quero mais viver com você.
— Você deve estar brincando, Maria Luísa! Posso saber por quê?
— A verdade é que você, Menezes, você...
— Eu não tenho sido bom, compreensivo, amigo, companheiro, carinhoso?
— Tem, tem. E isso é justamente parte do problema.
— Parte do problema? Acho que você ficou louca!
— Não, não, Menezes. Você é muito perfeito, Menezes, assim não tem mulher que agüente.
— Ha! Essa é boa! Você quer acabar comigo porque eu sou muito perfeito?
— Isso e também porque... Menezes, você não faz xixi fora da privada. Você até abaixa a tampa do vaso!
— Ué? E as mulheres não vivem reclamando exatamente disso, que os homens sujam o chão e não levantam a tampa da privada?
— Vivem, Menezes, mas eu não! Eu não, entende? Quando me reúno com a Marcinha e a Pê, elas ficam lá, desancando os maridos, dizendo que eles jogam a roupa pelos cantos de qualquer jeito, que não ajudam no trabalho da casa, que soltam pum na frente delas, e eu não tenho o que dizer, Menezes, não tenho nada pra falar de você. É muita humilhação! Você nem barriga de chope tem! Aliás, você nem bebe nem joga pelada no final de semana. Nunca me deixa esperando quando marca de me levar pra jantar!
— Não fique assim, Lu. Hein? Olha aí, atirei a meia no lustre! Ahn? Que tal? E, se eu me esforçar um pouco, posso soltar pum na sua frente! Espera... Hum! Calma... Tá saindo... Huuum!... Viu? Viu?
— Isso lá é pum, Menezes? Uma bufa sem graça dessa, que nem feder fedeu. Pum é uma coisa potente, ruidosa... Aliás, peido! Você não peida, Menezes. Você no máximo solta flatos.
— Calma, querida. Só preciso de um pouco de treino, eu juro que vou me esforçar.
— Não adianta, Menezes. Você não tem o physique du rôle.
— Epa! Aí não, hein, não insulta. Rôle eu tenho e das grandes, você sabe muito bem disso.
— Vê? Você forrou a cama e lavou os pratos antes de eu chegar!
— Mas, filha, que mal há nisso? Cheguei antes do trabalho, você chega cansada e...
— E ainda mais isso, Menezes: você me chama de “filha”. “Filha” não dá. Você tinha que ter me insultado, uma vez ou outra...
— Feia! Chata! Boba! Viu, viu?
— De vaca, Menezes. Tinha que ter me chamado de vaca. Sabe quando eu tô de TPM e atiro vasos na sua cabeça?
— São os hormônios, amor.
— Não fala isso, Menezes! Deixa de ser compreensivo!
— Não fica assim, querida, vem cá, me dá um abraço...
— Larga, Menezes, deixa de ser pegajoso!
— Ô, Bunjunguinha, chega aqui.
— Pára, Menezes, pára! Será possível que nem uma vez na vida você pode se comportar como um porco? Você tem que ser machista, Menezes! Como é que você nem ao menos se digna a contar piada sobre a suposta inferioridade feminina em mesa de bar? Por que é que você não fala mal da minha família? O meu irmão é um vagabundo, que vive te pedindo dinheiro emprestado, Menezes!
— Coitado, mô, ele tá desempregado! A culpa é da política econômica do governo.
— Menezes, ele é funcionário público desde a época do Collor! E não é isso, Menezes, não é apenas isso... É o conjunto. Se você pelo menos coçasse o saco em público...
— Eu vou me esforçar, filha. Juro. Eu vou me esforçar.
— E não me chama de filha!
— Desculpe, sua vaca, me desculpe.
— Vaca? Você me chamou de vaca?... Boa, Menezes! Continue.
— E... E agora cala a boca que eu quero ver televisão!
— Perfeito, Menezes!
— Já disse pra calar a boca! Tô ligando a TV e não quero ouvir nem mais um pio!
— Isso, Menezes!
— Você ainda tá falando, sua cachorra? Cala a boca, já! Ora, não tá vendo que está atrapalhando a minha novela!
— Novela, Menezes? Novela? Chega, eu vou pra casa da mamãe!

16 fevereiro, 2007

ARTE PÓS-MODERNA


— Bela escultura, não?
— Belíssima. As bolsas agrupadas de forma desordenada, como uma metáfora da solidão e do hedonismo contemporâneos. Uma crítica à sociedade de massas, sem dúvida, com a cor forte da madeira representando o Estado em sua...
— Bolsas? Madeira? Mas, pra onde é que tu tá olhando, afinal?
— Pra escultura, ora essa! Ó lá: a luz artificial de uma sociedade fria e mecanizada incide sobre as individualidades destroçadas pela modernidade tardia, os casacos sem corpos significando a ausência do espírito ante a dura materialidade da...
— Pô, mas tu tá olhando pro cabide!
— Ahn?
— Aquilo ali é um simples cabide, pra colocar as roupas, rapaz! Não faz parte da exposição. A escultura é essa aqui, olha aí.
— Qual? Aquela ali ao lado da geladeira quebrada com um pingüim em cima?
— Não! É a própria geladeira quebrada com o pingüim em cima!
— Ah...
— Não é incrível como o artista consegue passar a sensação de impotência diante de uma realidade que nos... Ei, ei! Que é que tu ta fazendo? Não toca aí, rapaz!
— Ué, não posso pegar um bombom?
— Pô, Benevides, isso daí é uma instalação! Tu comeu um pedaço da instalação, rapá!
— Nhammm... Foi maus! Nham... Como é que eu ia saber?... Nham... nham... Os bombons tavam na cristaleira e...
— Deixa de ser bárbaro, rapaz! Te trouxe aqui pra tu tomar um banho de cultura e tu me apronta uma dessas. Tu não disse que queria impressionar aquela publicitária com quem tu tá saindo? Pois então? Coloca a mão nos bolsos! Isso, mão nos bolsos! Tu precisa conformar teu olhar à beleza, Benevides. Sacar as curvas, o jogo de formas, as nuances, cara, as nuances. Tá ligado?
— Só um minuto. Olha lá o nuanção daquela morena de saia, ali, atrás da pilastra, entre o pára-lama de Fusca e a pirâmide de Comandos em Ação.
— Tu tá de brincadeira comigo, Benevides?
— Pô, cara, o negócio é o seguinte: será que eles não têm um Rafael, um Rembrandt, Frans Hals, Rubens? Qualquer flamengo serve ou, quem sabe, mesmo um Pavel Fedotovzinho...
— Tu és um visigodo, rapaz. Deixa de ser obtuso. Isso daqui é arte pós-moderna, mermão. Esses teus pintores tão ultrapassados, não falam da sensibilidade contempo... puta que o pariu, Benevides! Tu jogou a guimba do cigarro dentro da mão de Krishna, rapaz!
— Mãe de quem?
— Mão! Mão de Krishna, o deus hindu!
— Mas isso daqui não é um cinzeiro?
— Cinzeiro é o cacete, Benevides! Não tá vendo que isso daí é arte, bicho? Tu não saca Duchamp, rapaz? Arte é o que a gente chama de arte, pô!
— Calma, calma! Não vai voltar a acontecer. Vou fazer uma arte, digo, vou fazer uma obra, enfim, vou ali no banheiro e volto já. Te acalma. Güentaí. Juro. Eu vou me comportar. (sai)
— É cada uma. As coisas que a gente tem que aturar. Eu trago esse infeliz aqui pra beber da verdadeira arte e, quando vai ver, o camarada... Ahn? Mas, o que é aquilo? Ai, meu Deus do céu. Vou-me embora, alguém me esconda. Não posso acreditar... Socorro, o Benevides tá fazendo cocô dentro do penico do Duchamp!

15 fevereiro, 2007

JUVENTUDE PERDIDA


— O que você está fazendo, Maria Cecília?!
— Ahn? Hein? Nada, mãe!
— Maria Cecília, Maria Cecília, eu não sou cega, Maria Cecília! O que é isso que você tá escondendo atrás do corpo?
— Nada, não, mãe, eu juro. Nada!
— Não adianta tentar me enganar. Eu vi! Vamos, mostre o que você tá escondendo aí!
— Mas...
— Nem “mas” nem meio “mas”. Mostre!
— Pronto. Tá aqui...
— Eu sabia! Ai, meu Deus! Ai, Jesus! Eu vou morrer!
— Calma, mãe, não é o que a senhora tá pensando...
— Como você pôde fazer isso de novo, Maria Cecília? Nós já não tínhamos conversado, eu, você e seu pai? Nós não já lhe tínhamos mostrado as conseqüências desse seu comportamento? Adalberto! Ô, Adalberto, chega aqui!
— Não é pra tanto, mãe. Que é que eu posso fazer? Eu curto. É o maior barato.
— Não, não, pare de falar, por favor. Assim eu não agüento. Adalberto! Cadê o palerma do seu pai? Isso são esses seus amigos, Maria Cecília, é a má influência. Quantas vezes eu já disse pra você sair, pra ir no pagode? É nesses ambientes que você vai se relacionar melhor, minha filha, arrumar um marido cantor, um ator, quem sabe até um jogador de futebol.
— Eu gosto de música clássica, mãe.
— Ai, não, não quero ouvir. Música clássica! Música clássica vai levar ninguém pra frente, Maria Cecília? Por acaso você já foi a algum show lotado do Mozart ou do Chopin?
— Não freqüento centro espírita, mãe...
— E aquele curso de modelo em que eu te inscrevi com tanto carinho e você abandonou? Você não pensa no seu futuro?
— Penso, mãe.
— Pois é, você pensa muito, esse que é o seu problema. Você já viu alguém que pensa trabalhando na TV, Maria Cecília?
— Eu não quero trabalhar na TV, mãe.
— Malditas más companhias. Adalberto! Vem cá, Adalberto! Passe isso pra cá, Maria Cecília, me dê. Me dê essa droga aqui de uma vez. Eu não queria, mas, desse jeito, a gente vai ter que acabar te internando. Saramago? Então é esse o título?
— Não, esse é o autor.
— Saramago? José Saramago? Peraí, esse daí não foi o que ganhou o Oscar, outro dia?
— O Nobel, mãe.
— Ai, meu Deus! Ai, Jesus! Adalberto! Vem cá, Adalberto! Tá surdo? Tua filha tá lendo livros de novo! Uma menina tão bonita... Maria Cecília, ah, Maria Cecília, você nos mata de desgosto!

14 fevereiro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (3)


As senhas eram repartidas de acordo com o destino de cada um: azuis, Céu, para os virtuosos; brancas, Purgatório, para os pecadores leves; vermelhas, Inferno, para os pecadores pesados; e roxas com bolinhas verdes, Piauí, para políticos e jornalistas.
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Jesus se aproximou e, furando a fila — o que causou certa revolta —, disse ao santo, nervoso:
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— Tudo bem, Pedro?
— Bem? — voltou o ex-pescador, indignado. — O Senhor acha que isso é serviço de gente? Preferia ser crucificado de cabeça pra baixo mais umas nove vezes a ter que ficar aqui distribuindo essas fichinhas pra esse povo mal-educado. E ainda ficam falando de mim por conta daquele galo! Hum! Judas é que se deu bem!
— Pedro, Pedro, estou precisando de um favor teu.
— Se for pra passar parente do Senhor para a frente da fila, nem pensar. O seu Pai não gosta de nepotismo. Outro dia fez um estardalhaço desse mundo, só porque eu deixei um operador de telemarketing entrar no Céu. Sabia lá que era proibido?!
— Não é nada disso, Pedro. Escute...
— E não coloca ninguém pra me ajudar, não! É a besta de carga aqui que tem que fazer tudo sozinho, enquanto os outros ficam por aí, passeando pelas nuvens! Por que é que eu não posso fazer chuva, que nem São João?
— Pedro...
— São Paulo mesmo é um que vive discursando feito um doutor e nunca coloca a mão no pesado. Só porque sabe falar latim!
— Pedro... Escuta, Pedro...
— A culpa é do Senhor, que resolveu me dar a chave do Céu. Se eu soubesse...
— ME ESCUTA, CACETE!
— Pois não, pois não. Que nervosismo! Parece que vai tirar o pai da cruz!
— Pedro, se eu lhe contar uma coisa, você guarda segredo?
— O Senhor sabe: eu sou uma pedra.
— Eu preciso sair do Paraíso, Pedro.
— SAIR?! DO PARAÍSO?!
— Fala baixo, pô!
— O Senhor ficou louco?
— Vou no Brasil e volto já, Ped...
— Aonde? Será que eu ouvi direito?
— Brasil!
— Perdoa, Pai, ele não sabe o que diz.
— Ai, meu Progenitor! Que será que tem de tão especial nisso? O Brasil é um país como qualquer outro!
— O Senhor está mesmo convencido?
— Sim.
— Tudo bem. Venha comigo. Quero lhe mostrar uma coisa.
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Então São Pedro pegou o celular, chamou um anjo-substituto e levou Jesus até uma pequena salinha, nos aposentos de seu humilde castelo.
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Ali, pediu para o Senhor sentar no sofá diante da televisão, com cuidado, para não furar o estofado com os espinhos da coroa. Em seguida, ligou o videocassete e, reclamando porque Deus não tinha providenciado para ele ainda um DVD, apertou o play.
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Na tela da TV de 2.435 polegadas, começaram a passar imagens de um compacto com o pior do Brasil: cenas de violência, miséria, preconceito e de coisas ainda mais terríveis, como o futebol carioca, o carnaval baiano e o ambiente corporativo paulista.
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Em seguida, o Filho do homem foi bombardeado por capítulos inteiros de novelas do SBT, shows de música sertaneja e comentários da Miriam Leitão no Bom Dia Brasil. E a muitas outras coisas tenebrosas assistiu, com direito a trilha sonora do Babado Novo e crônicas do Pedro Bial ao fim.
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Quando acabou de ver tudo aquilo, o Senhor sacou de seu bodoque e São Pedro correu desesperado para a frente da TV:
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— Por favor, Senhor, não faça isso! Ainda não acabei de pagar as parcelas das Casas Bahia!
— Fica tranqüilo, Pedro — falou Jesus, levantando-se do sofá e se dirigindo à saída.
— Ei? Volte aqui! Não desistiu da idéia de ir ao Brasil?
— Sim.
— E o que o Senhor vai fazer com esse bodoque?
— O de sempre, ora: atirar em anjinhos distraídos.
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Assim, a paz voltou a reinar no Céu. E Deus viu aquilo e achou bom. Mas, vingativo, para castigar o país pela insubmissão do Seu filho, aumentou a bancada do PP no Congresso e deu mais trinta anos de vida ao Gugu.
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13 fevereiro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (2)


Jesus encontrou o Espírito Santo se divertindo a passear sobre a face das águas.
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— Já sei, você quer ir ao Brasil — falou o Invisível, assim que ele se aproximou.
— Nossa, como esse pessoal é fofoqueiro: já saíram espalhando por aí! — falou Jesus, caminhando sobre as ondas.
— Você deveria ser condenado ao Inferno, Jesus.
— Eu? Só por que quero ir ao Brasil?
— Não, porque concordou “saíram” com “pessoal”. Isso é que dá ter tanta aula de catecismo e tão poucas de gramática. Além do mais, ninguém me contou. Ou você se esquece que eu estou por toda parte?
— Mais um motivo pra eu me mandar pro Brasil. É impossível ter privacidade aqui nesse lugar!
— E no Brasil você acha que vai ter? Ha! Vejo que você não domina o conceito de câmeras de vigilância nem conhece frases do tipo: “Sorria, você está sendo filmado”.
— Lá pelo menos eles colocam placas de aviso!
— Sim, mas só para evitar processos, o que seria desnecessário aqui. Afinal, como você bem sabe, no Céu não entram advogados.
— Quer saber? Não interessa. Eu tô decidido a ir ao Brasil, Espírito, e vim pedir tua ajuda.
— Olha, Jesus, eu gostaria muito de te ajudar, mas o que você pede está acima de meus poderes. Viver no Brasil não dá! Por que você não escolhe localidades mais aprazíveis, como o Iraque ou o Afeganistão?
— Porque por lá é outro magro barbudo que faz sucesso, Espírito. Veja bem, só quero que você convença meu Pai a me deixar ir...
— Hi! hi! hi! Convencer seu pai? Hu! hu! É tão fácil convencer seu pai de alguma coisa quanto ensinar princípios cristãos ao George Bush, Jesus. Você já devia saber disso. Com um homem que derrotou Satanás não se brinca. O pobre Diabo tá até hoje de cabeça pra baixo no Inferno. Você não leu Dante?
— Não, nunca consegui uma boa tradução em aramaico. Mas, voltando ao meu problema, e se você pelo menos me ajudasse a sair daqui sem ninguém ver?
— Impossível. Ou você acha que chamam seu pai de Onisciente só pra puxar o saco dele?
— Putz! Mas esse lugar é uma prisão!
— Pior. Na prisão é fácil sair, se você for membro do PCC.
— Eu vou falar com Pedro!
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Agastado, Jesus disparou na direção dos portões do Paraíso, onde São Pedro organizava as filas e distribuía senhas, vestido com uma bata do INSS.
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12 fevereiro, 2007

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (1)


Cansado daquela eternidade toda, que não passava nunca e cuja única diversão era dar tiros de bodoque em anjinhos distraídos, o bom Jesus resolveu voltar à Terra.
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Foi comunicar o fato ao Pai, que naquele instante dava um esporro verdadeiramente paradisíaco num santo, para que ele consertasse sua auréola, que estava torta.
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— Esses italianos! — resmungava o Onipotente. — Maldita hora que eu permiti o Vaticano em Roma!
— Pai, quero ir de volta à Terra — disse Jesus, contrito.
— Ahn? Pra Terra? Mas meu filho, com tantos planetas girando ao redor do sol, que fiz com tanto carinho e onde é tão mais fácil respirar!
— Pô, pai, o senhor sabe que eu gosto de uma cruz. Vou lá ver se resolvo uns problemas. Os homens andam sofrendo muito...
— Ver se resolve uns problemas! Esses adolescentes! Se é pra resolver problemas, por que você não se dedica a aparar a cauda de uns cometas, tapar um ou outro buraco negro, colocar outros anéis em Saturno, enfim, coisas mais simples?
— Pô, pai, o Senhor sabe que eu me interesso pelos seres humanos.
— Puf! Às vezes eu acho que não sou seu Pai.
— E eu não entendo o Senhor, Pai! Pô, será que não pensa em fazer nada para minimizar o sofrimento daqueles infelizes?
— Claro que sim. O negócio é que, seu eu eliminar a Terra, digamos, com uma grande explosão, a gravidade desarranjaria o Sistema Solar e ia dar um trabalho danado pra arrumar tudo de novo... Maldita gravidade! Eu devia ter desconfiado quando o Diabo deu a idéia!
— O Senhor não tem coração, Pai.
— Graças a Mim! Estou livre da angina. Meu filho, talvez você não entenda, mas essa sua reação é típica de quem só tem dois mil anos. Confie no seu velho, que é mais vivido. Aquilo ali não tem jeito. Além do mais, aonde você está pretendendo ir dessa vez? Espero que não tenha em mente a Palestina de novo, né? Se você estrilou com uma cruzinha de nada daquela vez, imagina o que não sofreria com fragmentos de bomba!
— Não, Pai. Eu tô pensando mesmo é em ir ao Brasil.
— Co-como? Acho que não entendi direito.
— Brasil, Pai. Aquele país grande na América do...
— Eu sei muito bem onde fica o Brasil! Não foi por acaso que eu coloquei ele ali, vizinho da Argentina. Só não entendo o seguinte: se é para ser assaltado e seqüestrado, por que você não dá uma voltinha pelo Inferno, que é mais seguro?
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Desanimado com a atitude negativa do Pai, Jesus resolveu consultar a mãe, que naquele momento bordava uma bela túnica para o sobrinho João Batista, em mais um esforço para que ele abandonasse as peles de camelo, tão démodé.
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— Jesus, meu filho, por que você está com essa cara de quem comeu fel e não gostou? — perguntou Maria, cheia de graça, ao vê-lo.
— Quero ir ao Brasil e o Pai não deixa, mãe!
— Pro Brasil?! Você andou fumando cânhamo estragado de novo, Jesus?
— Pô, mãe, até a senhora?
— Não, não e não. Meu filho, você anda muito rebelde ultimamente, não conversa mais com a gente, vive pelos cantos. Cadê aquela água que lhe pedi pra transformar em vinho semana passada e até hoje você não fez?
— Eu vou pra Terra, mãe, tô decidido.
— Jesus Cristo, Jesus Cristo, você não ouse desobedecer sua mãe, Jesus Cristo!
— Ah!...
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Revoltado com a reação dos pais, o Filho do homem resolveu conversar com um membro mais compreensivo da família, o Espírito Santo que, afinal de contas, já estava acostumado a altos índices de violência e não iria se assustar com bobagens.
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09 fevereiro, 2007

ATOR DE COMERCIAL


— Aí você olha para a câmera e diz: “Sucinto, não? Serve de aviso a...”
— “Sucinto” com “c” ou com “sc”?
— Hein?
— “Sucinto”, como é que se escreve?
— Sucinto? Sei lá, pô! Acho que é com “sc”. Mas que diferença isso faz? Você tá falando!
— Toda diferença. Repare que um sucinto com “sc” exige uma pausa dramática, um hiato que se prolonga plasticamente entre o “s” e o “c”: suis-cinto! Entende? Propõe, assim, o uso da quarta parede. O sucinto com “c” apenas, por sua vez, provoca um impacto instantâneo, detonando no telespectador um certo desconforto que remete a Artaud e ao...
— Tá, tá, tá bom. Faça como quiser, contanto que você diga: “Sucinto, não? Serve de aviso a todas as...”
— “Aviso” com “s” ou com “z”?
— Ai, meu ovo esquerdo! Aviso! Aviso! Sei lá, deve ser com “s”.
— Será que alguém da técnica sabe?
— Não sei, não sei! Olha, quero apenas que você fale “aviso” e acabou-se. Qual é a grande dificuldade?
— Nenhuma. É apenas uma questão de ajuste de tom. Porque você há de entender que um aviso com “z” é uma coisa imponente, categórica, que nos remete diretamente a Ésquilo. Enquanto que no aviso com “s” há um amaneiramento na sonoridade que...
— Já entendi! Tudo bem. Faça como quiser. Aviso com “s”, com “z”, até com “ç”. Agora, pelo amor de Deus, olhe para a câmera e diga: “Sucinto, não? Serve de aviso a todas as mulheres que não admitem perder...”
— Com “i”?
— O quê?
— O “admitem”. Devo omitir o “i”, deixá-lo mudo, à maneira de um Gil Vicente, ou pronunciá-lo amortecido e adocicado, abrasileirando o som?
— Inacreditável! Será possível que você não pode olhar para aquela câmera e simplesmente dizer: “Sucinto, não? Serve de aviso a todas as mulheres que não admitem perder tempo com nhenhenhém?” Só isso! Uma frase e pronto!
— Posso, posso, claro. Tudo bem. É pra já. Desde que você me diga se “nhenhenhém” contém ou não hífen. Porque, segundo Ziembinski...
— Desisto! Me diz uma coisa: por que é que você não vai à merda, ahn?
— Com crase ou sem?

08 fevereiro, 2007

OFENSA


— É igualzinho, Jurandir! Digo e repito! Eu sei do que tô falando! Já trabalhei em sapataria, rapaz!
— Não acredito!
— Não grita comigo! Tô dizendo. É assim!
— Mentira!
— É!
— Não é!
— Ah, quer saber? Se você não quiser acreditar, vá doar seu ânus e não se fala mais nisso!
— Quê???
— Isso mesmo que você ouviu: ânus, orifício anal, reto! Vá tomar nele!
— Assim você me ofende, cara. Nunca me referi a você com essas palavras.
— Ah, não? Agora mesmo você disse que eu “devia dar um pouco de bunda” pra aprender a não dizer besteira.
— Bunda é diferente. Bunda é uma coisa que até bebê tem.
— E qual a diferença entre “bunda” e “ânus”, “pinto” e “pênis”, pode me dizer?
— Toda! “Pênis”, por exemplo, é muito mais grave. Pênis é um negócio que devia usar óculos e chapéu-coco. “Pênis” é uma coisa respeitável, venerável, de barba.
— Pinto também tem barba, Jurandir!
— Uma barba rala, uma penugem, é quase glabro. Se chegou ao ponto de ter pêlo espesso, aí já virou pênis. Vai me dizer que tu nunca percebeu a diferença entre uma “vagina” e uma “b...”?
— Como é que é, Jurandir?! Tu ficou louco?
— Pra começo de conversa, “vagina” é um negócio asséptico, nem cheiro tem. E outra: mulher com vagina é péssima na cama, pode reparar.
— Tá bom, Jurandir, já entendi o que você quer dizer.
— Pior que vagina só mesmo “vulva”. Mulher que tem vulva eu não chego nem perto. Vai que meu pinto se perde ali dentro? Vulva é um negócio perigoso.
— Chega, Jurandir, já escutei.
— Não, não. Dispenso. E quando a vulva conta com nada menos que “grandes lábios”? Tu já imaginou, rapaz? É praticamente uma centrífuga. Comigo, não!
— Basta, Jurandir! Tá me dando vontade de vomitar!
— Ah, mas tem mais! Essa tu vai adorar! Sabe que eu transei com uma sujeita uma vez que tinha “períneo”?
— Eu vou vomitar, Jurandir!
— Períneo! Dá pra acreditar numa coisa dessas? E eu dizia a ela: minha filha, isso é no máximo a “terra de ninguém”, a “zona do bate-bolas”... E ela, não: pe-rí-ne-o!
— Uargh! Uargh!
— Pior é que... Puta merda, cara! Tu melou todo o meu sapato de cromo alemão!
— Uargh... Já te disse... uargh... que isso não é cromo alemão... é falsificado! Eles fazem assim no Paraguai. É igualzinho, Jurandir! Digo e repito! Eu sei do que tô falando! Já trabalhei em sapataria, rapaz!
— Não acredito!
— É!
— Não é!
— Ah, não, né? Tudo bem. Então vai doar o teu “ânus” e, quando tiver por lá, aproveita pra dar tua bunda também! Tchau!
— Assim você me ofende, cara. Assim você me ofende!

07 fevereiro, 2007

11 DE SETEMBRO DE 2001


— Ih, olha aí Ernesto, olha aí, os terroristas lançaram um ataque em Nova York, meu Pai do céu!
— Que o quê, mulher! Esse filme eu já vi. Não é com o Van Damme?
— Van Damme nada, homem! Olha lá, é tudo real.
— “É Tudo Real”, isso mesmo. É com o Schwarzenegger.
— Homem, Deus eterno, você não tá vendo a televisão? Isso daí foi um “terroriste plóte”, olha ali na tela: “terroriste plóte”!
— Mulher, eu não entendo inglês. E, além do mais, eles mudam os títulos sempre. Se é “terrorist póste”...
— “Plóte”!
— Enfim, “póste”, “pórte”, se o nome é esse, eles vão traduzir por “O Pote Terrorista” ou “Folha de Alface no Parque”, alguma coisa assim...
— Ernesto, Ernesto, será impossível que nem uma vez na vida você ouve o que eu tô dizendo? Isso daí tá acontecendo agora, é ao vivo, Ernesto!
— Ha! ha! Essa é boa! Já vi esse tipo de explosão não sei quantas vezes, mulher. E, pra falar a verdade, essa daí não é nem tão bem-feita assim, viu? Olha lá: aquele foguinho ali é computação gráfica pura! Tu vai ver. Já, já entra o Chuck Norris e resolve essa parada toda com o “quiquebóxi” dele. Vai voar pedaço de terrorista pra tudo que é lado.
— Ai! Ai meu Deus do Céu! Outro avião, Ernesto! Explodiu outro avião!
— Iiiiih, que malfeito! Já não se fazem mais filmes hollywoodianos como antigamente... Tu lembra de “A Ponte do Rio Kwai”? Aquilo sim era filme... Tinha interpretação, ação bem coordenada, roteiro afiado e, principalmente, legenda. Cadê a legenda desse negócio, hein, Marilda? Eu não to entendendo nada! Desliga o sap!
— Isso daí é a CNN, Ernesto! Pssss... Peraí! Eu tô tentando ouvir!
— Tem graça! E desde quando tu entende inglês, hein? Tu não domina nem o verbo “tóbi”, mulher.
— É “to be”, ignorante. E fique sabendo que, no ginásio, eu tive uma excelente professora de inglês, dona Natasha. Até americana ela era.
— Ué, e a América já havia sido descoberta naquele tempo?
— Muito engraçado, ha, ha, tô morrendo de rir... Agora faz silêncio, por favor, que eu quero ouvir a notí... Ai, não! Olha lá! Olha lá, o prédio tá caindo!
— Vê-se logo que o filme não é do Spielberg! Onde já se viu um prédio cair assim, todo inteirão? Que absurdo! Não dá pra assistir isso. Bota aí no Telecine.
— Ai, ai! O outro também! Lá se vão as Torres Gêmeas, Ernesto!
— Sei, sei. Vai cair Nova York toda, será que você não percebe? Mas aí, ligam pro Jackie Chan e ele resolve tudo com três ou quatro gritinhos. Agora, muda de canal que eu já tô entediado.
— É um desastre, Ernesto! A sociedade ocidental está em perigo! É o fim do mundo como nós o conhecemos! Um desastre! Um desastre!
— Sem dúvida. Um desastre. E não sei se é o fim do Ocidente, mas pelo menos da arte cinematográfica produzida nele, ah, isso é! Dá cá o controle...
— Três mil mortes, Ernesto! Três mil! Meu Deus, onde será que o mundo vai parar? Que valores nós vamos legar aos nossos netos?
— Quanto a você, não sei. Mas eu vou fazer questão que eles assistam a filmes iranianos. Isso, me dá aqui o controle. Mas por que é que você está chorando, mulher? Era só um filme, meu Deus! Vem cá, vem. Ih, ó lá, tá passando aquela série que você gosta no Sony. Vamo ver?

06 fevereiro, 2007

MEMÓRIA DE ELEFANTE


Acontece com a regularidade de um escândalo político. Estou eu tranqüilo, numa festa ou num bar, quando ouço aquela voz entusiasmada:

— Marcooooni!

Olho em sua direção, já relativamente pálido, e não reconheço o indivíduo que se aproxima, de braços levantados e sorriso nos lábios. E, o que é pior, não há espaço suficiente para eu me esconder dentro do copo de cerveja.

— Tá lembrado de mim?

A pergunta fica no ar, enquanto faço uma careta, pensando se finjo que estou tendo um derrame agora ou espero mais um pouco.

— Claaaaro, rapá! Como é que eu ia esquecer? E aí, tudo jóia? — minto, abraçando o sujeito, já mais entusiasmado que ele.
— Tudo, tudo beleza — responde o infeliz, emendando: — E aí, tem visto o pessoal?
— Claro, claro. O pessoal... Puxa!

Miro o infinito e balanço a cabeça, saudoso, como se estivesse rememorando dias felizes. Ficaria assim pelos próximos dois séculos, se ele não prosseguisse:

— Bons tempos... O Rogério é que tá bem, né? Tá lembrado dele?
— E eu ia me esquecer do Rogério!
— Pois ele casou, sabia?

No que me diz respeito, o Rogério poderia ter se tornado papa. Não tenho a mínima idéia de quem ele está falando.

— Papa? Digo... Casou?
— Com a Rebeca, lembra?
— A Rebeeeeca! Logo com a Rebeca! Que sorte, hein?
— Sorte? Ela com aqueles problemas todos?
— Que é isso! — digo, e parto inflamado para a defesa da desconhecida: — Só porque a moça é meio zarolha, rapá?
— Zarolha, a Rebeca?
— Desvio. Ela tem um ligeiro desvio no olho.
— Sabe que eu nunca notei?
— Também, tu sempre foi meio desligado, né? — continuo, cheio de ânimo.
— Eu? Não, até que eu...
— Que é isso, rapá, pra cima de mim? E aquele negócio lá com aquela menina?
— A Sandra?
— Ela mesma. Tá pensando que eu esqueci?
— Bom, aquilo ali, você sabe, não tive culpa. Aliás, como é que você sabe dessa história?
— Tenho uma memória de elefante, rapá.
— Nem eu me lembrava mais disso!
— Pra você ver. E não vem com essa de que não teve culpa, não!
— Bom...
— Aquilo não se faz!
— Eu sei, é que...
— E depois vem falar do estrabismo da Rebeca!
— Puxa, foi mal. Eu não sabia que isso te tocava tão de perto.
— Tocou na Rebeca, tocou numa irmã minha, rapá!

A coisa toda não dura mais que cinco minutos. Para encerrar o assunto e o burburinho dos circunstantes que nos olham apreensivos, ele inventa alguma desculpa e se despede, tenso. Mando minhas lembranças ao Rogério e me viro orgulhoso para minha mulher:

— E então, fui bem?

Mas ela não responde porque, tendo escutado a conversa e sendo mais habilidosa que eu, àquela altura já conseguiu se enfiar dentro do copo de cerveja.

05 fevereiro, 2007

REDAÇÃO DE VOLTA DAS FÉRIAS


Sei que vocês, leitores ingratos e de apoucado espírito cristão, torceram para que eu, a esta altura e devido ao mistifório gerado pelos constantes engarrafamentos nas esburacadas vias aéreas nacionais, ainda estivesse preso no compartimento de malas de um avião ou, algo muito pior, de um Fokker-100. Ou então que houvesse sido despachado para a Nicarágua, num sedex a cobrar endereçado a Daniel Ortega.

Mas a verdade é que, frustrando vossos planos infestos, precários como um plano de saúde, estou de volta das férias, disposto a iniciar este ano com o pé esquerdo. Digo com o esquerdo porque o direito eu quebrei semana passada, quando um meio-fio desatento atravessou na minha frente enquanto eu fazia cooper.

Sim, companheiros, eu disse “cooper”. O período de férias nos levou, a mim e ao meu espelho, a uma profunda reflexão. E, devo confessar, se o maldito móvel está acostumado a refletir, essa nova função foi algo dolorosa para mim. Como, de resto, tenho certeza, seria para o Olavo de Carvalho se ele tentasse algum dia.

No entanto, com algum esforço e a ajuda de um personal thinker, cheguei a algumas conclusões. Afinal, ano novo é época de fazer planos e renovar esperanças. Por exemplo, a comovente esperança de meus credores de que ainda vão ver um centavo meu na vida.

Percebi que estou me abeirando da idade de Cristo (e antes que um engraçadinho abra a boca: não, apesar da aparência e do precário condicionamento físico, não estou fazendo 2007 anos). Decidi, portanto, ser hora de retribuir ao meu corpo todas as sacanagens que ele me tem feito ao longo dos últimos 384 meses - tipo me presentear com um nariz claramente formatado para alguém dez centímetros mais alto que eu -, pondo-o para se exercitar.

Escaldado com a experiência de andar de bicicleta no Ibirapuera (ver post "O Falecido Marconi Leal"), resolvi então me dedicar ao cooper que, como todos sabem, é uma atividade em tudo semelhante à dos americanos no Iraque: você sai por aí sem objetivo definido, leva um calor e só volta para casa depois de morto.

Sabia que a nova empreitada seria mais cansativa que comentador de texto clássico. Todavia, possuindo a obstinação de um filósofo cínico e a firmeza de propósitos de Catão, o Censor, segui alacremente para o sacrifício.

E digo que jamais se viu em toda a República alguém tão devotado a uma tarefa desprovida de qualquer sentido quanto eu. Exceção feita aos autores de novelas, claro.

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Àqueles que pretendem aplicar-se a exercício tão desarrazoado, estrambótico e arriscado quanto o cooper, informo que o pior entrave que o sujeito pode encontrar é a consciência do ridículo. Daí por que, talvez, seja esse um esporte indicado para quem não sofre desse mal, como participantes do BBB, por exemplo.

Afinal, como disse aquele grego antes da invenção da fita métrica, o homem é a medida de todas as coisas. Quanto a mim, não sei se de todas as coisas, mas pelo menos de um par de melancias e de algumas jacas creio que sou a medida.

E o fato é que, correndo pelo meio da rua no melhor estilo pato manco e descobrindo estupefato que o ser humano é um animal cercado de banhas trêmulas por todos os lados, não pude evitar a incômoda sensação de que eu era uma avalanche.

Sendo assim, é importante que o praticante abstraia os pensamentos negativos e ocupe a mente em outra atividade. Se estiver em São Paulo, aconselho contar os cocôs de cachorro na calçada.

Porém, caso não consiga de forma alguma desfazer-se da má impressão, tente convencer seu psicanalista a fazer cooper com você. Importante: por mais que ele insista, não o deixe trazer o divã.

Na minha primeira saída, optei por contar os cocôs. Coisa que não me foi muito difícil, posto que, logo de cara, pisei em três. Mas, perseverante, não me deixei abalar e o resultado é que este meu cooper inicial durou exatamente uma hora e cinco minutos: cinco minutos correndo e uma hora lavando o tênis no tanque.

Já na segunda tentativa, mais esperto, resolvi evitar as calçadas e correr rente à guia. Assim, intrépido, disparei desenfreadamente: peito empinado, passo acelerado, postura olímpica. Andei nada menos que 8 quilômetros. E gastei precisos R$ 12 de táxi para voltar a casa.

Por fim, da terceira vez, optei por ser parcimonioso. Venci dois quarteirões num ritmo mais tranqüilo e fiz uma pausa. Tomei um chopinho num boteco e retomei o passo. Logo adiante, mais uma parada para respirar um pouco e novo chopinho.

Seis chopinhos mais à frente, finalmente comecei a perceber o bem-estar e o estado de euforia que, dizem, os atletas sentem ao realizar exercícios físicos. E deixo dito a vocês, leitores sedentários: não tivesse acabado o dinheiro de minha carteira, teria chegado a Curitiba fácil, fácil.

Desde então, tenho praticado o cooper diariamente. Esta semana não porque, como disse, um meio-fio completamente embriagado fraturou o meu pé. Mas, na próxima, estou pensando seriamente em organizar a Primeira Volta Paulista de Cooper Etílico, um esporte que, tenho certeza, ainda vai longe. Sobretudo enquanto ainda restar cerveja.