04 janeiro, 2007

GREGOR E EU (4)


O poder é o maior dos afrodisíacos. Mas, como não sou adepto da zoofilia, resolvi usar a vantagem que a vassoura agora me dava, não para fazer amor e sim para perseguir implacavelmente meu inimigo.

A verdade é que estava com ódio e este, como bem se sabe, nada tem de libidinoso. Caso contrário, pode-se presumir, seriam muito mais difundidas no mundo as relações sexuais entre genro e sogra.

Por outro lado — e aqui consulto mais uma vez o Pequeno Dicionário Galvão Bueno de Lugares-Comuns —, sei que a vingança é um prato que se come frio. No entanto, como pratos frios têm sido o menu habitual aqui em casa desde que presenteamos gentilmente um credor com o microondas, decidi inovar e partir para o ataque.

De maneira que, mais encarniçado que Laerte, voltei para a sala a perseguir o infeliz inseto que, covarde e sub-repticiamente, tentava se esgueirar por entre os móveis, para evitar o confronto final, que fatalmente o mandaria para o inferno dos bichos nojentos e asquerosos, para onde vão igualmente depois de mortos os políticos e os apresentadores de programas de auditório.

Sendo assim, hábil que sou, manejando a vassoura da maneira sensata como Heraclés fazia com a clava e usando do bom senso de um Nero, passei a desferir golpes por todos os lados no encalço da triste criatura.

Precavido, até chegar a ela, fui me livrando criteriosamente dos objetos que atravancavam o meu avanço: primeiro destruí um quadro, depois dois porta-retratos, parti o jarro com a samambaia e fulminei uma fileira de bonequinhos de porcelana.

A certa altura, pressentindo que eu adotara a doutrina da Blietzkrieg, o pérfido bicho subiu aflito no dunquerque. Erro este só comparável à escolha de Alckmin para concorrer à presidência pelo PSDB em 2006, pois o blatídeo acabou encurralado entre as privatizações e o Bolsa Família, digo, entre o vaso de plantas e o som.

— Ha! ha! — sorri, maldoso, e assobiei um trecho do Réquiem de Mozart, retribuindo a piadinha que ele tinha feito antes.

Percebendo estar perdida, a barata assumiu então a postura de um louva-deus, pedindo clemência e oferecendo rendição. Mas eu sou como Ulisses, camaradas: além de mentir muito, sou inexorável. Levantei a vassoura acima da cabeça e, após calcular a distância com precisão e mirar certeiro, desferi o golpe fatal.

Acertei em cheio. No som. Fragmentos do aparelho se espalharam por toda parte, enquanto a dissimulada criatura aproveitava para reutilizar o expediente do vôo e desaparecer de minha vista, escapando pela janela às gargalhadas.

Sei que os fracassomaníacos verão no episódio uma derrota. Mas eu não me senti frustrado. Tenho certeza de que aquela barata, de agora em diante, jamais ousará invadir o meu lar novamente. Aprendeu sua lição. Sabe que sua incúria custou caro. Muito caro.

Só o conserto do aparelho de som, por exemplo, foi mais de R$ 200.
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