02 janeiro, 2007

GREGOR E EU (2)


A barata entrou pela janela rasante como um vôo de reconhecimento da Otan. E, se não estou enganado, creio ter ouvido ela dizer: “Never more! Never more!” Ao que dei um pulo tão grande e com tamanho ímpeto que até a Fátima Bernardes se assustou e quase caiu da bancada do Jornal Nacional. Aliás, um, não: três, longos e seguidos. E é pena que não houvesse câmeras ou testemunhas, pois tenho certeza de que quebrei o recorde sul-americano do salto triplo.

Após adejar solenemente, o ortóptero postou-se no lustre da sala, projetando uma gigantesca sombra na parede. Quanto a mim, que sempre fui fã do expressionismo alemão e até gosto de Ed Wood, mas não estava a fim de ver a cena, fechei os olhos e, profundo estudioso da guerra de guerrilha, enfiei-me bravamente debaixo da mesa.

Então a barata sorriu sarcasticamente e mexeu as anteninhas com desdém. Uma reação típica dos blatídeos. Porque, se tem uma coisa em que estes famigerados bichinhos são bons, é na guerra psicológica.

Não sou adepto de teorias conspiratórias. Aliás, como já cansei de dizer, acho-as ridículas. Não passam de uma grande armação da antiga KGB em conluio com o G-8 que, através de técnicas de comunicação ensinadas por extraterrestres de Alfa Centauro e alguma influência do chupa-cabra, tentam ludibriar o grande público.

No entanto, creio que as baratas, quando menos, passaram por um treinamento em Guantánamo, pois elas obviamente têm conhecimento de técnicas de tortura. E esta, em particular, creio que era versada em Plutarco e entendia de história militar. Aliás, no aspecto geral, lembrava muito um professor da USP. Sem os óculos, evidentemente.

O fato é que a infeliz caminhava altaneira sobre o lustre, abusando de sua superioridade — senão física, ao menos intelectual — para me arrojar ao chão, mais arrasado que a hiena Hardy.

— Covarde! — gritei, devidamente protegido atrás de uma cadeira. E, destemido, provoquei: — Por que você não vai atrás de alguém do seu tamanho?

Ela fingiu não ter ouvido e, irônica, aproveitou para balançar o traseiro para mim, num claro desrespeito a dispositivos da Convenção de Genebra.

— Se minha mulher estivesse aqui você ia ver — respondi à altura.

E a tática surtiu efeito, pois o bicho ficou nervoso com a menção a minha consorte. Quem não ficaria? Sem que esperasse, ela desligou o transponder e, fazendo uma manobra arriscada, embicou na minha direção.

Mas aí já era afronta demais! Com que então, um bichinho daqueles, um reles inseto de tamanho insignificante, vir para cima de mim como se fosse um pterodáctilo? Não, não, isso eu jamais aceitaria.

De modo que, reerguendo minha hombridade e reunindo todas as minhas energias, finalmente fiz o que deveria ter feito desde o princípio: engatinhei desesperadamente até a cozinha, berrando: “Socorro! Socorro!”
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